sábado, 30 de agosto de 2025

Luís Nassif: A Nova Arquitetura Autoritária nos Estados Unidos

Observa-se o crescimento de grupos armados alinhados à pauta da direita radical, com estrutura paramilitar e hierarquia interna.

<><> Peça 1 – A Doutrina de Segurança e a Milicialização do Estado

O processo de milicialização dos Estados Unidos, intensificado a partir do governo Donald Trump, apresenta características bastante nítidas. Um marco importante foi o anúncio da nova doutrina de segurança nacional, intitulada Protegendo o Povo Americano Contra Invasões”, publicada em 20 de janeiro de 2025 no portal oficial da Casa Branca.

Essa doutrina promoveu uma guinada na política de segurança fronteiriça, com forte ênfase na aplicação rigorosa das leis de imigração, na militarização das fronteiras e em operações agressivas de deportação de imigrantes ilegais. O Departamento de Segurança Interna (DHS) passou a receber recursos ampliados e apoio direto das Forças Armadas, que foram mobilizadas para reforçar a vigilância nas fronteiras e estabelecer zonas de defesa nacional com controle militarizado de imigrantes.

Bases militares foram convertidas em centros de detenção, e soldados passaram a atuar dentro das instalações da Polícia de Imigração e Alfândega em mais de 20 estados. Unidades da Guarda Nacional e dos Fuzileiros Navais também foram deslocadas para patrulhar bairros de imigrantes em cidades como Los Angeles.

Paralelamente, houve uma drástica redução na atuação tradicional do FBI, especialmente nas investigações de crimes financeiros, corrupção e delitos de colarinho branco. Um terço do tempo dos agentes passou a ser dedicado ao apoio de operações de imigração e deportação. A nomeação da procuradora-geral Pamela Bondi marcou uma mudança de orientação no Departamento de Justiça, com a dissolução de unidades corporativas e a priorização absoluta do combate aos cartéis de drogas e à imigração ilegal.

<><> Peça 2 – As Milícias de Trump

A militarização da segurança pública doméstica nos Estados Unidos está gerando efeitos comparáveis aos das forças paramilitares criadas por Benito Mussolini após a Primeira Guerra Mundial. Os camisas negras, oficialmente chamados de Milizia Volontaria per la Sicurezza Nazionale (MVSN), eram compostos por ex-combatentes, nacionalistas radicais e desempregados, e logo se tornaram um braço armado do Partido Nacional Fascista.

Nos EUA, além das forças regulares, observa-se o crescimento de grupos armados ideologicamente alinhados à pauta da direita radical, com estrutura paramilitar, hierarquia interna e divisão funcional entre planejamento estratégico, logística e operações táticas. Os grupos mais notórios incluem os Three Percenters, Oath Keepers, Proud Boys e Boogaloo Bois.

Essas milícias operam com base em redes digitais de comunicação e apresentam características marcantes que remetem aos Squadristi de Mussolini:

  • Uso sistemático da violência e da intimidação;
  • Culto ao líder e lealdade pessoal;
  • Organização paramilitar e uniformização;
  • Nacionalismo exacerbado e discurso de “restauração”;
  • Desprezo pelas instituições democráticas.

Apesar do antagonismo declarado às instituições, essas milícias estão fortemente infiltradas em polícias locais, departamentos de xerifes e até em unidades da Guarda Nacional. Donald Trump atua como catalisador político desse movimento, legitimando as milícias por meio de discursos inflamados, nomeações estratégicas e a construção de uma narrativa de ameaça constante à soberania nacional.

<><> Peça 3 – O Enfraquecimento Institucional

O avanço da nova doutrina de segurança e a ascensão das milícias têm provocado um enfraquecimento significativo das instituições tradicionais de segurança e justiça nos Estados Unidos. O FBI, por exemplo, foi deslocado para operações de controle da imigração, em detrimento de suas funções originais de defesa da segurança nacional. Até mesmo as equipes especializadas em contraterrorismo foram redirecionadas para tarefas secundárias, como a classificação de cartéis de drogas como organizações terroristas.

Outro setor gravemente afetado foi o de combate aos crimes cibernéticos e os serviços de inteligência. A redução de recursos e a mudança de foco estratégico comprometeram a capacidade do país de responder a ameaças reais, como ataques digitais, espionagem internacional e terrorismo doméstico.

Esse enfraquecimento institucional, somado à legitimação de forças paramilitares e à militarização da segurança pública, configura um cenário preocupante de erosão democrática e centralização autoritária, com impactos profundos na estrutura do Estado e na vida civil.

¨      O Fator McKinley e o Projeto Grande Porto Rico. Por Marcelo Zero

Em abril deste ano, Pete Hegseth, Secretário da Defesa de Donald Trump. afirmou, em entrevista à FOX, que os EUA precisavam “recuperar o seu quintal”.

Não que o império tenha abandonado inteiramente a nossa região ou tenha renunciado, em algum momento, a realizarem todo tipo de intervenções no “backyard”.

Na realidade, segundo estudo publicado na Harvard Review of Latin America, em pouco menos de cem anos, entre 1898 e 1994, o governo dos EUA interveio com sucesso para mudar governos na América Latina, um total de pelo menos 41 vezes. Isso equivale a uma vez a cada 28 meses durante um século inteiro.

Entretanto, após os ataques de 11 de setembro de 2001, a política de segurança e externa dos EUA ficou muito empenhada no “combate ao terrorismo”, o que levou o Departamento de Estado a concentrar suas ações no Oriente Médio e em outras regiões do mundo. Além disso, no início da década de 1990, o colapso da União Soviética tornou mais flexíveis os rígidos protocolos políticos que haviam sido postos em prática, em nossa região, ao longo de toda a antiga Guerra Fria.

O “backyard”, principalmente no período que se estendeu do início do século até cerca do ano de 2015, ficou um tanto esquecido, merecendo atenção, apenas, no que se referia ao tráfico de drogas e à imigração indocumentada, temas obsessivos e praticamente exclusivos dos EUA, em sua relação com a América Latina.

Esse período coincidiu com profundas mudanças geopolíticas e geoeconômicas, que se verificaram no cenário mundial, particularmente com a extraordinária e fulminante ascensão da China.

Combinou-se assim, em nossa região, um relativo abandono, por parte dos EUA, e uma crescente, forte e múltipla presença da China e de alguns outros países emergentes.

Em 2000, o mercado chinês representava menos de 2% das exportações da América Latina, mas o rápido crescimento da China e a demanda resultante impulsionaram o subsequente boom de commodities na região. Nos oito anos seguintes, o comércio entre a China e a América Latina cresceu a uma taxa anual de 31% (!)

Em 2021, esse comércio ultrapassou US$ 450 bilhões, um valor que atingiu o recorde de US$ 518 bilhões, em 2024.

Alguns economistas preveem que tal comércio deverá ultrapassar facilmente os US$ 800 bilhões, até 2035.

A China é atualmente o principal parceiro comercial da América do Sul e o segundo maior da América Latina como um todo, depois dos Estados Unidos. A China só não é o principal parceiro comercial de toda a América Latina unicamente por causa do imenso comércio bilateral EUA/México, impulsionado pelo USMCA, que ascendeu a US$ 836 bilhões, em bens, em 2024. Somando-se também os serviços, esse fluxo bilateral chegou a US$ 935 bilhões.

Ressalte-se que até 2024, Pequim assinou acordos de livre comércio com Chile, Costa Rica, Equador, Nicarágua e Peru. As negociações comerciais com o Uruguai fracassaram devido à oposição do Mercosul, mas mais de vinte países da América Latina e do Caribe aderiram à Iniciativa Cinturão e Rota (BRI) da China, sendo a Colômbia o mais recente.

Isso tornou imperativo o reavivamento da velha Doutrina Monroe. Não é nenhuma novidade. O Projeto 2025, da Heritage Foundation, já mencionava que a América Latina é uma região que estaria sendo controlada rapidamente pela China, seus investimentos, seu comércio e seu projeto estratégico da Nova Rota da Seda.

Para Trump, Hegseth e Marco Rubio, que odeia a esquerda latino-americana, isso é inaceitável. Os EUA já estão promovendo uma forte contraofensiva geopolítica na nossa região, a qual incluía a desestabilização de governos soberanos e progressistas, como o de Lula.

Com efeito, em sua luta pela retomada da sua hegemonia unilateral e pela contenção China e de alguns aliados, como Rússia e o Irã, Trump vê como crucial o controle econômico e político da América Latina.

Afinal, a América Latina tem recursos estratégicos expressivos.

As três maiores reservas de lítio do mundo estão na América do Sul (1-Bolívia, 2-Argentina, 3-Chile). O Brasil, por sua vez, tem a segunda maior reserva mundial de terras raras, fundamentais para o desenvolvimento de novos materiais críticos para a energia limpa e o desenvolvimento sustentável, e 98% das reservas internacionais de nióbio, além de muitas reservas de ferro, alumínio, cobalto, manganês e petróleo e gás. Essas últimas poderão ser ampliadas consideravelmente, caso a chamada Margem Equatorial possa ser explorada.

A Venezuela, por sua vez, tem as maiores reservas de petróleo do mundo. Chile e Peru detém 36% das reservas mundiais de cobre.

Não bastasse, a América do Sul tem a maior floresta tropical do mundo, com vastos recursos fitogenéticos e zoogenéticos ainda sequer descobertos. Somente o Brasil, possui cerca de 13% da água doce do mundo e é o segundo maior produtor mundial de alimentos.

Trump abomina a ideia de que esses recursos e essas imensas potencialidades possam ser apropriadas pelo seu grande rival geoestratégico.

Mas tal ambição não se limita à América Latina. Em um artigo de opinião publicado recentemente no Wall Street Journal , intitulado “Uma Política Externa das Américas”, Rubio escreveu: “por muitas razões, a política externa dos EUA há muito tempo se concentra em outras regiões, negligenciando a nossa. Como resultado, deixamos os problemas se agravarem, perdemos oportunidades e negligenciamos parceiros. Isso acaba agora”.

Em entrevista à Fox News, pouco antes de Trump assumir o cargo, o conselheiro de segurança nacional Mike Waltz afirmou que parte da agenda “América em primeiro lugar” do governo será “reintroduzir a América no Hemisfério Ocidental”. Uma abordagem que, segundo ele, poderia ser chamada de “Doutrina Monroe 2.0”.

<><> Mas qual seria a novidade histórica dessa grande ofensiva geopolítica? Dessa Doutrina Monroe 2.0?

Ao anunciar suas ambições territoriais no Canadá, na Groenlândia e no Canal do Panamá, Trump parece ter introduzido um preocupante fator nessa ofensiva.

Podemos chamá-lo de fator McKinley. Explico.

Trump é admirador do presidente William McKinley, que governou os EUA de 1897 a 1901, e liderou os Estados Unidos na Guerra Hispano-Americana, ao final da qual os EUA obrigaram a Espanha a ceder a soberania sobre Porto Rico e outros territórios, assim como tornaram Cuba um protetorado.

Trump valoriza muito esse momento histórico em que os EUA consolidaram, pela força e pelo domínio territorial direto, sua hegemonia regional.

Tanto é assim, que Trump fez questão de voltar a nomear o monte culminante dos EUA, que se chamou por muito tempo Denali (situado no Alaska), para McKinley, seu nome original.

Desse modo, a estratégia de Trump não parece ser apenas a de voltar a ter “influência” no continente americano e na América Latina, e conter a ascensão da China, mas a de ter controle geopolítico absoluto sobre a região, a que custo for.

Aparentemente, há um projeto político bastante radical, ao qual os países da nossa região teriam de se submeter.

Poderíamos chamá-lo, em homenagem a McKinley, de Projeto Grande Puerto Rico.

Porto Rico, como se sabe, é um “estado associado” dos EUA. Anexado em 1898 pelos norte-americanos, após a mencionada guerra contra a Espanha, Porto Rico é um território subordinado, que não faz parte dos Estados Unidos. Seus habitantes, embora tenham a cidadania norte-americana, não podem votar para eleger o presidente, senadores ou deputados. No Congresso, Porto Rico tem apenas um Resident Commissioner, com direito a voz, mas sem direito a voto.

Dessa forma, Porto Rico não é nem um Estado soberano nem um Estado dos EUA. Porto Rico fica num limbo de soberaniaÉ, na verdade, uma colônia dos EUA. Tal status é reconhecido até pela ONU. Com efeito, o Comitê Especial das Nações Unidas sobre a Descolonização declarou que os EUA deveriam “permitir que o povo de Porto Rico tome decisões de maneira soberana e enfrente seus urgentes problemas econômicos e sociais, incluindo o desemprego, a marginalização, a insolvência e a pobreza”.

Pois bem, momentos históricos aparte, Trump parece firmemente empenhado, especialmente no continente americano, a abolir, de alguma forma ou de outra, a soberania dos países do nosso hemisfério. A finalidade parece a de nos tornar neocolônias do império hobbesiano sonhado por ele.

Quando ele fala em tornar o Canadá o 51º estado americano, ele fala sério, por mais absurdo que seja. Quando ele fala em anexar a Groenlândia, ele fala e faz sério, como está se revelando agora.

Quando ele envia uma forte esquadra do Comando Sul contra a Venezuela, alegando que o Maduro é um dos maiores narcotraficantes do mundo, é algo que tem de ser levado a sério.

Quando ele emitiu a ordem executiva sigilosa autorizando o Pentágono a intervir militarmente em países que tenham carteis de drogas, equiparados a grupos terroristas, é algo a ser levado muito a sério.

E quando ele decreta 50 % de tarifas contra o Brasil e tenta impor mudanças jurídicas e políticas internas ao nosso país, que violam nossa Constituição e nossa soberania, é óbvio que são agressões que têm de ser levadas a sério.

Pois bem, a radical geopolítica estadunidense para nosso continente e nossa região, chamada de Doutrina Monroe 2.0, dividiu as forças políticas internas brasileiras em dois grandes campos.

Em primeiro lugar, há as forças aglutinadas no governo Lula, que tentam proteger a soberania, a democracia, as instituições, a economia e o povo brasileiro.

De outro, há todo um grupo de traidores da pátria, de malcheirosos vira-latas, que intentam derrubar o projeto de um Grande Brasil, impulsionado por Lula, para colocar no lugar o projeto trumpista de um Grande Porto Rico. Projeto com duvidosa estética de camisa da CBF e de desavergonhados rituais de continências à bandeira dos EUA. Tudo estimulado por Bolsonaro e sua familícia, os gênios da raça.

É nesse segundo grupo onde o “fator McKinley” se encontra com o fator “Silvério dos Reis”, em um perfeito casamento sadomasoquista.

Fazem parte desse segundo grupo todos esses pré-candidatos à presidência, principalmente governadores, que ganharam notoriedade com o bolsonarismo geopoliticamente submisso aos EUA, e que, agora, fingem que não apoiaram as agressões inomináveis feitas por Trump contra o Brasil e o seu povo.

Esse pessoal está doido para desestabilizar o governo Lula, corroer nossa soberania e nossa democracia e se ajoelhar aos pés do novo Imperador. Nossos vira-latas sonham em ganhar coleiras do império. Abanariam os rabos em frenesi entreguista.

De bom grado, cederiam nosso território, nossas riquezas e nossa dignidade para obter migalhas tarifárias de Trump, que lamberiam do chão infecto onde habitam. McKinley não precisaria disparar uma única bala sequer.

McKinley, para justificar as suas guerras imperialistas, dizia: a bandeira americana não foi plantada em solo estrangeiro para adquirir mais território, mas pelo bem da humanidade. Sim, ele disse isso, em sincero rompante idealista.

Trump nem disfarça. Não há escusas ou justificativas. Há somente a desavergonhada ambição geopolítica e geoeconômica e o cinismo celerado de um moderno Calígula.

Aos seus pés, porém, babam os traidores, os covardes e os vira-latas. Gravem seus nomes.

Felizmente, o povo brasileiro, digno, os despreza. E o povo não esquece.

 

Fonte: Jornal GGN/Brasil 247

 

Nenhum comentário: