sábado, 30 de agosto de 2025

Escândalo com irmã de Milei derruba farsa do combate à corrupção na Argentina

O escândalo de corrupção envolvendo supostos pedidos de propina na Agência Nacional de Deficiência (Andis) estourou com os áudios do ex-diretor Diego Spagnuolo, que revelaram o esquema de arrecadação de propinas e retornos entre a Drogaria Suizo Argentina — propriedade da família Kovalivker, ligada aos Menem — e a “presidência” do governo, liderada por Karina Milei e Lule Menem, que receberiam 3% do total de 8% das propinas.

A dinâmica da corrupção voltou com força à pauta do poder. As redes sociais, criativas, começaram a falar da nova “corrupção K”, mas desta vez não em razão do sobrenome de Cristina Kirchner, e sim por Karina, a irmã de Milei. O próprio chefe de gabinete, Guillermo Francos, disse que não colocava a mão no fogo por nenhum de seus colegas, e surpreendeu a rapidez com que alguns comunicadores oficialistas abandonaram quem por meses os beneficiou.

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O atual “audiogate”, a criptofraude $Libra, a venda de candidaturas, o uso das estruturas do Programa de Atenção Médica Integral (PAMI) e da Administração Nacional de Previdência Social (Anses) para estruturar o partido ultradireitista La Libertad Avanza, a distribuição de bilhões em publicidade oficial para mídias e jornalistas amigos e aliados, e até a comercialização de encontros com o presidente Milei são partes de um mesmo enredo.

Diante da suspeita de Karina e “Lule” Menem de que o vazamento dos áudios de Spagnuolo foi obra de seu inimigo interno Santiago Caputo, este teria tentado convencê-los do contrário, pressionando veículos da mídia e jornalistas que recebem publicidade oficial a minimizar o escândalo. Alguns canais e portais só noticiaram o caso quando o governo demitiu Spagnuolo, com medo de perder verbas publicitárias federais.

Spagnuolo considerava um “desrespeito” com Karina receber tão pouco — o que equivaleria entre 500 mil e 800 mil dólares mensais, apenas por esse “acordo”. A operação envolve inúmeros particulares e funcionários, que dividem o dinheiro acordado há mais de um ano e meio, desde que o mileísmo chegou ao poder.

Segundo o próprio Spagnuolo, a tabela ilegal de porcentagens começou em 5%, mas há um ano subiu para 8%. Na conversa, ele diz que cada intermediário envolvido na propina — a “segunda e terceira linha” — se comporta como “rato” e embolsa “20 ou 30 mil dólares por mês”. Já uma outra camada de envolvidos, superior aos que classifica como “ratos”, “levaria meio pedaço (meio milhão de dólares) por mês”.

Questionado sobre quem integra essa cúpula, ele responde sem hesitar: “Lule Menem e Karina Milei”. E ainda ressalta que isso é apenas “um pedacinho da confusão que fazem”. Afirma que alguns funcionários têm “voracidade genética”. Segundo ele, seria o pessoal da Drogaria Suizo Argentina quem entregaria o dinheiro ilegal diretamente à “Presidência”. Como se já não estivesse claro o suficiente, em um áudio posterior ele detalha qual seria a porcentagem correspondente à Secretaria-Geral da Presidência.

A imprensa internacional acompanha de perto a crise que atinge o governo de Javier Milei, relacionando-a a um possível escândalo de corrupção que se soma às derrotas no Congresso e à fragilidade econômica. A Bloomberg destacou: “Milei soma um escândalo de corrupção à sua crescente lista de problemas”. Já a ABC News, um dos veículos mais importantes dos EUA, ampliou sua versão dos acontecimentos e incluiu o entorno do presidente na manchete: “Argentina investiga suposto esquema de propinas envolvendo o círculo íntimo do presidente Milei”.

<><> Irmãos Milei em silêncio

Áudios. Spagnuolo. Propinas. Três palavras que mantêm em suspense não só o governo libertário de Javier Milei, mas todo o universo político, já que a oposição tenta transformar o escândalo em tema de campanha. Enquanto isso, já se passaram dias sem que o presidente ou sua irmã Karina tenham falado publicamente sobre o caso de corrupção revelado nos áudios do ex-funcionário. 

E não se trata de qualquer funcionário: Spagnuolo é amigo pessoal e até advogado de Milei, assíduo frequentador da residência de Olivos. É o chamado “fogo amigo” — impossível de atribuir aos “malditos kukas” (kirchneristas).

Por isso, cresce a expectativa para que Milei ou sua irmã digam algo simples como “é mentira” ou mesmo “está sendo investigado”. Por enquanto, silêncio total, com exceção dos tradicionais esforços para “apagar incêndios” de Guillermo Francos ou Lilia Lemoine. Enquanto os irmãos permanecem calados, o porta-voz presidencial Manuel Adorni recorreu a uma frase filosófica: “O tempo é o único juiz que sempre revela a verdade” — que poderia se referir ao caso Spagnuolo, embora o caráter vago da declaração sirva para qualquer situação.

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A “batalha cultural”, que Milei deflagrou nas redes sociais como um dos pilares de seu governo, enfrenta reações severas e irônicas com os áudios do ex-diretor da Andis sobre a suposta corrupção na compra de medicamentos. O nome de Karina Milei, irmã do presidente e Secretária-Geral da Presidência, segue como o assunto argentino mais comentado na rede X (antigo Twitter), no meio de uma acirrada disputa de narrativas entre apoiadores tentando defender a ela e a Milei, e opositores atacando-os com rótulos curtos e devastadores como “corruptos” e “propineiros”.

<><> Áudios apontam conivência de Milei

Tudo começou com uma gravação em que Spagnuolo denuncia: “De certa forma, o que Lule (Menem) está fazendo é roubar… Ele (Milei) não está envolvido, mas é tudo gente dele. Eu falei com o presidente. Disse: ‘Javi, está acontecendo isso, isso e isso. Você sabe que sua irmã está roubando. Não pode se fazer de bobo comigo’”.

Depois, ele explica como funcionaria a fraude: “Tem medicamentos com desconto, então a drogaria consegue mais barato e tem mais lucro. E tem remédios sem desconto, com menos rentabilidade”.

“E o que faz ‘a Suizo’? Ficam com todos os que têm desconto. A Karina deve receber 3%. Se é 5% [de propina], 1% vai para a operação, 1% é meu e você, Karina, fica com 3%. Devem fazer assim. Se der algum problema e não me protegerem, eu já avisei o presidente… A primeira a ser presa vai ser a Karina”, dizia Spagnuolo.

Diante disso, ganha novo sentido a resposta da ex-chanceler Diana Mondino, há duas semanas, ao ser perguntada sobre a ligação de Milei com a criptofraude $Libra: “Existem duas possibilidades. Ou ele é estúpido, ou é corrupto.”

Gabriel Solano, deputado do Partido Operário e figura do Frente de Izquierda, apresentou denúncia criminal contra Javier Milei, Karina Milei, Eduardo “Lule” Menem, Diego Spagnuolo e Jonathan Kovalivker por suspeita de corrupção em um esquema de propinas em troca de contratos públicos. “São um governo de estelionatários e corruptos. Está claríssimo onde foi parar o dinheiro da deficiência”, denunciou Solano em sua conta no X.

¨       As difíceis semanas Milei na Argentina

A cena foi de caos e marcou o ápice de duas semanas críticas para o presidente argentinoJavier Milei.

Na quarta-feira (27/8), Milei precisou ser retirado às pressas durante um ato de campanha na província de Buenos Aires.

Manifestantes cercaram sua comitiva e, entre gritos e insultos, atiraram pedras e outros objetos contra um veículo da sua caravana eleitoral.

O ataque obrigou o presidente a suspender o comício e aumentou as tensões frente às eleições provinciais, no próximo dia 7 de setembro, e do pleito legislativo de meio de mandato, em 26 de outubro.

Para Milei, as eleições são fundamentais. O presidente precisa aumentar o número de legisladores aliados no Congresso argentino e saber se detém capital político para buscar a reeleição, daqui a dois anos.

Tudo indicava que seu partido, A Liberdade Avança, chegaria como favorito para as eleições de meio de mandato, graças ao controle da inflação e ao dólar que não trazia maiores desagrados. Mas o panorama mudou.

Em reportagem publicada na segunda-feira (25/8), o jornal argentino La Nación destacou que a primeira quinzena de agosto foi a pior do mandato de Milei, em termos da confiança do público no seu governo.

O jornal informou que, segundo a Universidade Torcuato di Tella, em Buenos Aires, o Índice de Confiança no Governo caiu, em um mês, de 2,45 para 2,12 pontos, o que representa uma queda de 13,6%.

A avaliação foi realizada antes de 20 de agosto, quando ocorreu a publicação de áudios que relacionam a secretária e irmã do presidente, Karina Milei, a um escândalo referente a uma suposta rede de subornos na Agência Nacional de Incapacidade (Andis, na sigla em espanhol).

Os mercados reagiram negativamente ao ocorrido, segundo a agência de notícias AFP. Houve aumento do índice de risco país, que avalia o custo do endividamento do governo em moeda estrangeira.

Aqui apresentamos um resumo do que ocorreu na Argentina nas últimas duas semanas.

<><> Os áudios vazados

Os áudios vazados foram gravados secretamente no ano passado. Neles, uma voz atribuída ao ex-diretor da Andis, Diego Spagnuolo, afirma que Karina Milei receberia suborno sobre o pagamento de remédios a pessoas com incapacidade.

Depois do vazamento, Spagnuolo foi destituído e o advogado Gregorio Dalbón, representante legal da ex-presidente argentina Cristina Fernández de Kirchner (2007-2015), apresentou uma denúncia à Justiça argentina.

"Karina leva 3%", diz o ex-funcionário do governo em uma das gravações, segundo a agência AFP.

Spagnuolo também representou legalmente Milei e era presença assídua na residência presidencial. Ele também garante ter informado o presidente sobre o esquema de corrupção.

A irmã do presidente ainda não se manifestou sobre o escândalo, embora o caso tenha dominado as manchetes e as discussões nas redes sociais na Argentina.

Por outro lado, o presidente negou os fatos pouco antes do ato de campanha do qual foi evacuado às pressas.

"Tudo o que ele diz é mentira", declarou ele. "Vamos levá-lo à Justiça e demonstrar que ele mentiu."

Na última sexta-feira (22/8), o juiz federal Sebastián Casanello emitiu 16 mandados de busca relativos ao caso. Na ocasião, foram confiscados os telefones de Spagnuolo e de diretores da empresa farmacêutica Suizo Argentina, mencionada nas gravações vazadas.

<><> Golpes legislativos e aumento do risco país

O caso envolvendo Karina Milei veio a público depois que, em 21 de agosto, a Câmara Baixa do Congresso argentino derrubou o veto presidencial a uma lei que declara situação de emergência no atendimento a pessoas com incapacidade e aloca mais fundos ao setor.

Paralelamente, o Senado argentinou rejeitou uma série de decretos presidenciais, que pretendiam reduzir o orçamento estatal, e aprovou o aumento dos valores destinados à saúde e às universidades públicas.

O analista político argentino Andrés Malamud resumiu, na sua conta no X (antigo Twitter), o histórico legislativo do governo nos últimos meses.

"Desde que assumiu, o governo enfrentou 34 votações legislativas", segundo ele.

"Foram 17 até março de 2025 e ganhou 15. Houve 17 desde abril de 2025 e perdeu 16. A composição do Congresso não se alterou, o dano foi totalmente autoinfligido."

As derrotas parlamentares, somadas à queda da confiança pública, fizeram com que o risco país voltasse a subir para 829 pontos básicos, um nível que não era observado desde o mês de abril.

Analistas indicam que este nível de risco dificulta para o governo conseguir dinheiro nos mercados internacionais para pagar a dívida que vence no ano que vem. Tudo isso representa um desafio para o programa de cortes comandado por Milei desde sua posse, em dezembro de 2023.

Por outro lado, duas pesquisas realizadas pelas empresas de comunicação La Sastrería e Trespuntozero, publicadas na quinta-feira (28/8) também pelo jornal La Nación, mostram uma deterioração inédita da avaliação do governo Milei no país.

A imagem do seu governo caiu oito pontos nas últimas seis semanas. Milei caiu para o terceiro lugar no ranking de avaliação de dirigentes políticos, atrás do governador da província da Buenos Aires, Axel Kicillof, e da ex-presidente Cristina Kirchner — seus dois principais opositores.

Uma das pesquisas analisou a percepção do público sobre o caso dos supostos subornos.

62,5% dos entrevistados acreditam que os áudios refletem episódios graves de corrupção no governo, enquanto 32,8% consideram que se trata de uma operação política, que é a posição defendida pelo governo argentino.

Por isso, o partido A Liberdade Avança mantém expectativas moderadas sobre seu desempenho nas eleições de domingo, 7 de setembro. E também promove o discurso de que a oposição realizaria "todo tipo de fraude" na votação.

¨       Eleições legislativas argentinas são teste para Milei, que amarga alta na desaprovação

O que parecia mera burocracia para a consolidação do poder de Javier Milei na Argentina ganha, agora, ares de obstáculo que pode enfraquecer seu governo extremista de direita. Em 7 de setembro, eleitores da província de Buenos Aires escolhem seus representantes no legislativo local e, em 26 de outubro, vão ser eleitos os deputados e senadores nacionais.

Milei enfrenta os maiores índices de desaprovação desde o início de seu mandato, em dezembro de 2023. Os números mostram tendência de queda. Pesquisa AtlasIntel publicada nesta quinta-feira (28) indica que mais da metade dos argentinos (51%) desaprova seu governo. Em julho, a desaprovação era de 47,8%.

Os números preocupam a Casa Rosada. Milei tem minoria no Congresso e vem sofrendo derrotas seguidas em suas tentativas de aprovar projetos de lei que aprofundem seu desmonte do Estado. Para não depender de coligações com outros partidos para governar, sua administração contava com um aumento significativo de legisladores aliados, confiando no controle da inflação para isso.

Entretanto, além da impopularidade de suas medidas de austeridade, que deixaram a maioria da população abaixo da linha da pobreza, o governo do extremista foi atingido em cheio por um escândalo de corrupção envolvendo sua irmã, Karina Milei, que ocupa o cargo de Secretária da Presidência. Como termômetro da crise, os dois foram alvo de pedradas e vaias nesta quarta-feira (27) em um ato de campanha com seus candidatos ao legislativo na periferia de Buenos Aires. Milei saiu fisicamente ileso, mas as cicatrizes podem ser profundas.

“Qualquer escândalo de corrupção é uma coisa muito complicada. Ainda mais em se tratando de um presidente que sempre se apresentou contra a casta corrupta, com discurso muito forte contra isso quando se elegeu, e criou uma imagem que, mesmo tendo alguns defeitos, jamais teria esse, que é considerado tão grave”, disse a professora Miriam Gomes Saraiva, do departamento de Relações Internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

“Ao desmontar essa imagem, ele deve perder eleitores, especialmente aqueles que não têm lealdade absoluta, não pertencem à bolha dele”, afirmou Saraiva ao Brasil de Fato.

<><> Escândalo

O episódio veio à tona com a divulgação de áudios que implicam Karina em supostas cobranças de suborno na compra de medicamentos para pessoas com deficiência. A irmã é considerada o braço direito do presidente.

Calcula-se que ela embolsava cerca de US$ 15 mil (R$ 82 mil) por mês com o esquema. Karina ainda não se pronunciou publicamente sobre o escândalo, que derrubou a bolsa de Buenos Aires, gerou pressão sobre o câmbio da moeda local, o peso, e aumentou o risco-país.

O caso ocorre após o Congresso anular um veto de Milei a uma lei que declara a Emergência em Deficiência e destina mais fundos para o setor, o que representa um golpe político para o presidente.

Na Argentina, os legisladores – Câmara e Senado – são renovados a cada dois anos, o que significa que um presidente pode perder ou ganhar base de apoio. Para a professora Miriam Saraiva, as eleições de 7 de setembro na capital argentina serão uma “antessala das eleições nacionais”.

“Se Milei tiver muitos votos em setembro, deve ter também em outubro, mesmo porque Buenos Aires, por ter quantidade muito grande de eleitores, normalmente dá a tônica do que vai ocorrer nacionalmente.”

“A administração de Milei deve ficar com uma base maior no Congresso do que tem hoje. Mas para mim, hoje, parece difícil que ele consiga eleger a quantidade necessária de parlamentares para aprovar todos os seus projetos”, avalia a analista.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global/BBC News Mundo

 

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