quarta-feira, 27 de agosto de 2025

O Futebol de Verdade e o Capitalismo à Brasileira

O futebol chegou ao Brasil como privilégio de elites, ritual britânico, esporte disciplinado. Mas não demorou a ser sequestrado pelo povo, que o reinventou como festa. Na rua, no terrão, no asfalto quente, nasceu uma linguagem de improviso, ginga e ousadia, que transformava a falta em invenção. O futebol era, então, a metáfora mais fiel de um país que, mesmo à margem, criava beleza a partir do nada.

Foi nesse espaço que cresci. Era o meu lugar, territorializado enquanto eu crescia, entre as ruas 32 e 34, onde o gol eram chinelas velhas ou pedaços de tijolo quebrado. Onde a bola podia ser de meia embolada ou garrafa pet, e o juiz era o tempo, ou a mãe na janela, impondo a ordem do jantar sobre o sonho de eternidade. Jogávamos até o sol se pôr, até a pele do dedão se entregar ao asfalto. O tanque da casa era pronto-socorro, e a mão da mãe, firme e doce, amarrava o retalho que escondia a dor em estampas de melissas, azaléias e margaridas. E então voltávamos ao jogo. Porque o futebol era isso: a capacidade de transformar a ferida em flor, a dor em festa, a ausência em pertencimento.

Esse futebol popular fez do Brasil um competidor à altura do mundo. Enquanto a Europa mantinha sua disciplina, nós oferecíamos a invenção. Enquanto eles cultivavam a força, nós devolvíamos com o drible. Era possível rivalizar porque havia rua, havia festa, havia improviso.

Mas o espetáculo mudou de lugar.

O capital transformou o futebol europeu em indústria: organização, inovação, técnica. A Inglaterra, ironicamente, recuperou a dianteira. O capital, lá, gerou estrutura. Aqui, como em tantas outras áreas, virou arremedo. Dirigentes atrasados, clubes endividados, corrupção como regra.

Veja a recente onda das Sociedades Anônimas do Futebol, as SAFs. No caso do Atlético Mineiro, a manobra foi exemplar: seus futuros donos, que já eram os principais credores e patrocinadores, basicamente trocaram a dívida pelo controle do clube. O poder não foi construído, foi transferido. Em outros casos, como o do Vasco da Gama com a 777 Partners, a promessa de gestão moderna se desfez em disputas judiciais, mostrando que a simples importação de um modelo de negócio não resolve a crise, apenas a reembala.

O que poderia ser um motor de aprimoramento foi tragado pela lógica de elites que não sabem construir, apenas consumir. É uma lógica que se manifesta na promiscuidade entre patrocinador e gestão, como na relação entre a Crefisa e o Palmeiras. Ali, a figura da presidente do clube se confundiu com a da dona da principal patrocinadora, borrando as fronteiras entre fomento e controle, e concentrando um poder que sufoca a pluralidade que um dia definiu o futebol. O futebol, que era potência popular, tornou-se caricatura de um espetáculo global do qual participamos apenas como fornecedores de matéria-prima.

E essa matéria-prima tem nome: juventude. Hoje, os meninos são capturados cada vez mais cedo. Não são mais descobertos, são selecionados. A venda de Endrick ao Real Madrid aos 16 anos ou a de Estêvão ao Chelsea antes mesmo de completar 18, não são exceções, são o plano de negócios. Meninos que mal pisaram nos gramados profissionais já são transacionados como commodities de luxo, promessas de um espetáculo que não verão de perto.

Não existe mais a rua como escola, nem o improviso como rito. Em seu lugar, surgem os avaliadores de desempenho, os personal trainers, os exercícios planejados para transformar infância em vitrine. A chuteira já não é marca de resistência no asfalto, mas tecnologia adulta enfiada em pés infantis, promessa de contrato antes mesmo de se sonhar um gol no terrão. O futebol deixou de ser sonho para se tornar trampolim. E quando o trampolim chega cedo demais, o sonho perde o gosto.

É nesse ponto que o futebol brasileiro se revela alegoria perfeita do nosso capitalismo: periférico, extrativista, colonial. Não produzimos espetáculo, apenas exportamos talentos crus, como exportamos minério, carne, soja. Não investimos na estrutura que nos faria disputar de igual para igual. Vivemos de vender precocemente o que temos de mais vivo. E, ao fazer isso, empobrecemos não apenas o jogo, mas o sonho coletivo que ele carregava.

Talvez por isso minha reaproximação com o futebol tenha vindo não pela saudade, mas pelos meus filhos. Eles jogam, e eu os vejo cercados de recursos que nunca tive: chuteiras importadas, bolas oficiais, treinadores atentos a cada movimento, comparações instantâneas com outros meninos em tabelas e métricas. Tento, a muito custo, equilibrar incentivo e contenção, sonho e realidade, sem deixar que o jogo se reduza a vitrine. O desafio é enorme: controlar o consumo, evitar comparações, segurar a ansiedade que o mercado injeta cedo demais. Mostrá-los que o futebol é mais que um trampolim, é templo vivo, espaço de aprendizado, disciplina, convivência, amizade. Tento lembrá-los de que ali, mesmo quando tudo parece espetáculo, ainda se pode aprender a cair e levantar, a dividir espaço, a enxergar o outro.

Não se trata, portanto, de perguntar quem venceu o jogo. A questão que ecoa, e que talvez doa mais, é: quem ainda sonha? Porque o futebol de verdade, aquele que transformava dor em margarida, ausência em invenção, nada em cena, já não existe. E talvez o que se revela nessa ausência não seja apenas a perda de um jogo, mas o retrato de um país que desaprendeu a sonhar coletivamente.

O futebol acabou quando deixou de ser festa. O que sobra agora é vitrine. E vitrine não sonha.

 

Fonte: Arley Haley Faria, no Correio da Cidadania

 

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