O
Futebol de Verdade e o Capitalismo à Brasileira
O
futebol chegou ao Brasil como privilégio de elites, ritual britânico, esporte
disciplinado. Mas não demorou a ser sequestrado pelo povo, que o reinventou
como festa. Na rua, no terrão, no asfalto quente, nasceu uma linguagem de
improviso, ginga e ousadia, que transformava a falta em invenção. O futebol
era, então, a metáfora mais fiel de um país que, mesmo à margem, criava beleza
a partir do nada.
Foi
nesse espaço que cresci. Era o meu lugar, territorializado enquanto eu crescia,
entre as ruas 32 e 34, onde o gol eram chinelas velhas ou pedaços de tijolo
quebrado. Onde a bola podia ser de meia embolada ou garrafa pet, e o juiz era o
tempo, ou a mãe na janela, impondo a ordem do jantar sobre o sonho de
eternidade. Jogávamos até o sol se pôr, até a pele do dedão se entregar ao
asfalto. O tanque da casa era pronto-socorro, e a mão da mãe, firme e doce,
amarrava o retalho que escondia a dor em estampas de melissas, azaléias e
margaridas. E então voltávamos ao jogo. Porque o futebol era isso: a capacidade
de transformar a ferida em flor, a dor em festa, a ausência em pertencimento.
Esse
futebol popular fez do Brasil um competidor à altura do mundo. Enquanto a
Europa mantinha sua disciplina, nós oferecíamos a invenção. Enquanto eles
cultivavam a força, nós devolvíamos com o drible. Era possível rivalizar porque
havia rua, havia festa, havia improviso.
Mas o
espetáculo mudou de lugar.
O
capital transformou o futebol europeu em indústria: organização, inovação,
técnica. A Inglaterra, ironicamente, recuperou a dianteira. O capital, lá,
gerou estrutura. Aqui, como em tantas outras áreas, virou arremedo. Dirigentes
atrasados, clubes endividados, corrupção como regra.
Veja a
recente onda das Sociedades Anônimas do Futebol, as SAFs. No caso do Atlético
Mineiro, a manobra foi exemplar: seus futuros donos, que já eram os principais
credores e patrocinadores, basicamente trocaram a dívida pelo controle do
clube. O poder não foi construído, foi transferido. Em outros casos, como o do
Vasco da Gama com a 777 Partners, a promessa de gestão moderna se desfez em
disputas judiciais, mostrando que a simples importação de um modelo de negócio
não resolve a crise, apenas a reembala.
O que
poderia ser um motor de aprimoramento foi tragado pela lógica de elites que não
sabem construir, apenas consumir. É uma lógica que se manifesta na
promiscuidade entre patrocinador e gestão, como na relação entre a Crefisa e o
Palmeiras. Ali, a figura da presidente do clube se confundiu com a da dona da
principal patrocinadora, borrando as fronteiras entre fomento e controle, e
concentrando um poder que sufoca a pluralidade que um dia definiu o futebol. O
futebol, que era potência popular, tornou-se caricatura de um espetáculo global
do qual participamos apenas como fornecedores de matéria-prima.
E essa
matéria-prima tem nome: juventude. Hoje, os meninos são capturados cada vez
mais cedo. Não são mais descobertos, são selecionados. A venda de Endrick ao
Real Madrid aos 16 anos ou a de Estêvão ao Chelsea antes mesmo de completar 18,
não são exceções, são o plano de negócios. Meninos que mal pisaram nos gramados
profissionais já são transacionados como commodities de luxo, promessas de um
espetáculo que não verão de perto.
Não
existe mais a rua como escola, nem o improviso como rito. Em seu lugar, surgem
os avaliadores de desempenho, os personal trainers, os exercícios planejados
para transformar infância em vitrine. A chuteira já não é marca de resistência
no asfalto, mas tecnologia adulta enfiada em pés infantis, promessa de contrato
antes mesmo de se sonhar um gol no terrão. O futebol deixou de ser sonho para
se tornar trampolim. E quando o trampolim chega cedo demais, o sonho perde o
gosto.
É nesse
ponto que o futebol brasileiro se revela alegoria perfeita do nosso
capitalismo: periférico, extrativista, colonial. Não produzimos espetáculo,
apenas exportamos talentos crus, como exportamos minério, carne, soja. Não
investimos na estrutura que nos faria disputar de igual para igual. Vivemos de
vender precocemente o que temos de mais vivo. E, ao fazer isso, empobrecemos
não apenas o jogo, mas o sonho coletivo que ele carregava.
Talvez
por isso minha reaproximação com o futebol tenha vindo não pela saudade, mas
pelos meus filhos. Eles jogam, e eu os vejo cercados de recursos que nunca
tive: chuteiras importadas, bolas oficiais, treinadores atentos a cada
movimento, comparações instantâneas com outros meninos em tabelas e métricas.
Tento, a muito custo, equilibrar incentivo e contenção, sonho e realidade, sem
deixar que o jogo se reduza a vitrine. O desafio é enorme: controlar o consumo,
evitar comparações, segurar a ansiedade que o mercado injeta cedo demais.
Mostrá-los que o futebol é mais que um trampolim, é templo vivo, espaço de
aprendizado, disciplina, convivência, amizade. Tento lembrá-los de que ali,
mesmo quando tudo parece espetáculo, ainda se pode aprender a cair e levantar,
a dividir espaço, a enxergar o outro.
Não se
trata, portanto, de perguntar quem venceu o jogo. A questão que ecoa, e que
talvez doa mais, é: quem ainda sonha? Porque o futebol de verdade, aquele que
transformava dor em margarida, ausência em invenção, nada em cena, já não
existe. E talvez o que se revela nessa ausência não seja apenas a perda de um
jogo, mas o retrato de um país que desaprendeu a sonhar coletivamente.
O
futebol acabou quando deixou de ser festa. O que sobra agora é vitrine. E
vitrine não sonha.
Fonte:
Arley Haley Faria, no Correio da Cidadania

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