quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Vinícius Borges Gomes:“ Deus, Pátria, Família” - Brasil que se vê no espelho tende ao fascismo?

Uma pesquisa encomendada pela TV Globo ao Instituto Quaest revelou que a maioria dos brasileiros concorda que a família é uma das coisas mais importantes da vida. O mesmo vale para a percepção da centralidade de “Deus”, independentemente da religião. O orgulho de ser brasileiro também é alto (64%), muito embora a percepção sobre a própria nação esbarre em visões mais conservadoras. Deus, Pátria e Família – o mantra da extrema-direita brasileira nos últimos anos – é, portanto, um retrato daquilo que permeia o imaginário do brasileiro comum.

Os resultados, ainda que enviesados por afirmações mostradas aos entrevistados a partir de um recorte intencional que sempre será limitado, revelam que alguns valores que atravessam o pensamento majoritário dos brasileiros compõem um tecido ideológico bastante repetido e apropriado por determinados grupos nos últimos anos. Jair Bolsonaro (PL) reciclou o lema “Deus, Pátria, Família” do Integralismo brasileiro da década de 1930. O movimento, conhecido como fascismo brasileiro, utilizava a expressão como bandeira de reconhecimento e construção identitária.

A afirmação “Deus está no comando da sua vida” tem a concordância de 96% dos respondentes do questionário da Quaest. O mesmo número corresponde à afirmação “Você tem fé em Deus e, por isso, acredita que tudo vai dar certo”. Importante destacar que, em dados recentes do IBGE, o número de pessoas “sem religião” chegou a 9,3% da população. O censo não especifica o número de ateus, englobando-os junto de agnósticos e pessoas em transição religiosa. É possível perceber, no entanto, que há uma concordância quase unânime sobre a importância simbólica de Deus, ainda que isso esteja para além da pertença religiosa ou possa ser compreendido de forma multifacetada.

Enquanto Deus ocupa lugar de centralidade na memória dos brasileiros, a família aparece como ponto de confiança, segurança e base social. Ela só perde para “saúde e bem-estar” (28%) quando a pergunta é “O que é mais importante para você?”, alcançando 27%. Contudo, 96% concordam com a frase “Família é a coisa mais importante da vida”. Outros 91% concordam que “Um dos principais objetivos na vida deve ser dar orgulho aos pais” e 89% que “As decisões que você toma são pensadas, antes de tudo, na sua família”.

Embora o Brasil seja marcado por uma série de pensamentos conservadores, os dados mostram que 90% dos entrevistados concordam que “O que define se é família ou não é o amor, não importa qual seja o modelo familiar”. Embora o estudo não pergunte diretamente qual a opinião dos respondentes, como qual seria a visão deles diante de famílias homoafetivas – sempre alvo de líderes e políticos conservadores –, é possível inferir que a diversidade da composição dos lares brasileiros (21% deles com pais ausentes) reforça a prevalência da realidade diante da idealização manca.

Quando instados a responder quais as vantagens de morar no Brasil, os entrevistados elegeram “paz/sem guerras/tranquilidade” como principais dádivas nacionais (15%). Salta aos olhos, contudo, que 26% tenham preferido não responder ou não sabiam o que dizer, ainda que a pergunta fosse aberta. Outros 5% disseram não ver nenhuma vantagem. O patriotismo, neste caso, não se expressa num conhecimento imediato de valores que tragam orgulho em ser brasileiro. No dia a dia, ele é verbalizado de forma até estridente. Mas de que patriotismo se fala nos palanques e púlpitos?

A mesma pergunta vale para “Deus” e “Família”, os outros componentes da tríade reciclada e vitaminada da extrema-direita brasileira. O Deus dos brasileiros pode transitar desde o modelo misericordioso e acolhedor de movimentos humanistas cristãos até o punitivista de conservadores fundamentados no Antigo Testamento. Pode ser um Deus de prática cultural enraizada, presente no cotidiano simples dos afetos, ou simbolizar uma fidelidade religiosa devotiva e dedicada. A família pode representar um porto firme em uma sociedade cansada e ameaçada pela insegurança, ou pode ser uma visão ideológica da mesma como alicerce da ordem social, negando qualquer outra possibilidade coletivista mais ampla que contraponha a lógica econômica atomizada do capital.

É certo, contudo, que os significantes elaborados pelos discursos da extrema-direita têm, em alguma medida, grande penetração no imaginário popular. Como criticar o uso instrumentalizado de “Deus” sem correr o risco de parecer intolerante? Como explicar que a ideia patriarcal de “família” pode parecer excludente sem ferir o afeto que a grande maioria sente por aquele que talvez seja um dos últimos refúgios de um mundo fragmentado? Como relacionar a ideia de “Pátria” a um nacionalismo vazio sem incorrer em uma quase enfadonha tarefa de explicar a complexidade de um país como o Brasil?

O caminho curto da tríade basilar, fundamentada em petrificada memória discursiva, é mais simples e de forte apelo. Não significa, contudo, reduzir o povo brasileiro ao arquitetado projeto integralista que segue mais vivo que nunca, embora com outro nome. É certo que o Brasil que se vê no espelho enxerga nuances estranhas, imagens embaçadas e tristes realidades. Recrudesce um sentimento fascistoide que se esmera em integrar outras formulações lexicais perigosas. Uma delas ganhou forma a partir de seu vocalizador mais famoso: “Deus acima de tudo, Brasil acima de todos”.

Lema eleitoral de Bolsonaro, o advérbio “acima”, contido na frase com marcada intensidade hierárquica, pressupõe que há um modelo de Deus e de Pátria que se sobrepõe. É totalitário. Ignora qualquer horizontalidade. A frase traça um paralelo entre o discurso fascista histórico e a utilização de discursos religiosos contemporâneos, que compartilham uma estrutura autoritária e dogmática, impondo uma ordem unilateral.

Desconstruir esses apelos é tarefa árdua para qualquer grupo, liderança ou cidadão que se enquadre em uma veia democrática. É tarefa urgente, inclusive, dos líderes religiosos que entendem Deus sob outro ponto de vista. O que parece unir os brasileiros, como sugere a pesquisa, esconde recortes que fazem o país muito mais diverso do que se pensa. Há uma disputa de sentido em jogo. Por enquanto, a extrema-direita conquista-a de forma mais sagaz e entranhada. No front de sua linha de ataque estão palavras sacralizadas e unânimes no imaginário brasileiro – incluindo aqueles que discordam do discurso autoritário.

Dizer que o Brasil é fascista seria exagero. Não é nenhuma insanidade dizer, entretanto, que há um forte sentimento fascistoide presente em boa parte da sociedade. Entender as duas afirmações é fundamental para abrir frentes de diálogo e compreender a complexidade de um país que, potencializado pela algoritmização, passou a abraçar paixões de ideários vazios em detrimento da realidade tácita.

O Brasil que se vê no espelho enxerga muitos brasis. Poucos conhecem todas as suas nuanças.

¨      “Deus, Pátria, Família!” Esse slogan é uma blasfêmia, diz  monge italiano Enzo Bianchi

Estamos em uma hora em que falha o pensar, o refletir e até a linguagem se ressente disso. Não só se empobrece como se torna grosseira, bárbara e recorre a slogans. Por outro lado, todos nós sabemos: quando falta o pensamento, sobem os tons e as palavras ressoam para provocar emoções, e isso vale para todo lugar, até os comícios de rua. Sendo idoso não esqueço as palavras desbotadas nos muros que ficaram da época fascista: "Acreditar, Obedecer, Lutar!", "Autoridade, Ordem, Justiça!", "Deus, Pátria, Família!".

Parece-me significativo que tenham voltado a ressoar hoje: "Deus, Pátria, Família" é um slogan que me perturba. Porque essas três palavras colocadas uma após a outra, feitas bandeira e estandarte entre pessoas que se julgam fortes, para mim ressoam não apenas sinistras, mas até blasfemas. Palavras de um tempo e de uma cultura que eu não gostaria de viver.

Como cristão, estou convencido de que a palavra "Deus" é um termo eminente, mas insuficiente, por trás do qual se escondem emoções que são projeções humanas. A maior parte das imagens que forjamos de Deus são perversas. Como cristão, estou convencido de que só Jesus falou e mostrou quem é Deus. O Deus de Jesus não gosta de ser proclamado, nem invocado contra alguém, mas gosta de ser pensado como "Deus conosco". Não precisa de nós para defendê-lo ou impô-lo à sociedade em que vivemos. É ofendido se for instrumentalizado como elemento identitário, se for arrastado para a arena política.

Quanto à Pátria, felizmente a minha geração não mais serviu à ideologia nacionalista, um ídolo em nome do qual, nas guerras, tantas vidas humanas eram sacrificadas.

Amamos a nossa terra, mas também aquelas dos outros, convencidos de que "cada terra para o cristão é estrangeira e toda terra estrangeira para o cristão é pátria", como lemos na Epístola a Diogneto, texto de um cristão do século II, quando os cristãos podiam viver como minorias em diálogo e em paz na maré pagã do Império Romano. Não, para nós hoje não é mais nobre morrer pela pátria.

Quanto à "Família", aquela que podia ser invocada não existe mais, foi estilhaçada com o paternalismo, a submissão das mulheres, a impossibilidade de os jovens tomarem a palavra.

Nascemos numa família e somos acolhidos por ela, e isso é uma grande graça. Mas quando temos que construir uma vida buscamos o amor fora da família. Significa que também a família é insuficiente: não devemos torná-la um mito ou um ídolo.

É preciso ser vigilante contra o familismo que forja uma ideologia não a serviço do amor humano, mas dos controladores da ordem moral. Ficamos escandalizados se esses slogans são gritados hoje na Rússia pelo poder religioso e por aquele político, mas depois permitimos que sejam propostos como um programa na nossa cansada e velha, mas ainda válida, democracia. O ídolo é sempre um falso antropológico, fonte de alienação. “Deus, Pátria, Família!”: três palavras que se gritadas são uma blasfêmia e deveriam representar para todos o espectro de uma prisão.

•        Como “Deus, Pátria e Família” entrou na política do Brasil

Manifesto divulgado 90 anos atrás pelo autor Plínio Salgado lançou o integralismo. Movimento de extrema-direita é antecessor de discursos ultraconservadores da atual política nacional.

Eram princípios conservadores, de inspiração cristã e fortemente influenciados pelo fascismo italiano e pelo integralismo português, os formulados pelo escritor e jornalista Plínio Salgado (1895-1975). Ele chamou seu arrazoado de Teoria do Estado Integral, e em 7 de outubro de 1932 lançou o Manifesto de Outubro. Ali nascia a Ação Integralista Brasileira (AIB), a versão nacional da extrema-direita que ganhava corpo na Europa.

Dividido em dez partes, o manifesto trazia já em seu primeiro item a importância da valorização de Deus, da Pátria e da Família – os três termos com inicial maiúscula. Salgado tinha a companhia de outros intelectuais na elaboração dessa doutrina, entre eles o escritor e advogado Gustavo Barroso (1888-1959) e o advogado, filósofo e professor Miguel Reale (1910-2006).

Com seus símbolos ultranacionalistas, os trajes verdes e o discurso de oposição ao comunismo, o movimento cresceu. Estimativas publicadas pela imprensa dão conta de que, em 1936, eram quase 1 milhão os adeptos e simpatizantes. "Os integralistas alçaram cargos políticos, com vários prefeitos e vereadores integralistas pelo país", enfatiza o historiador Leandro Pereira Gonçalves, professor na Universidade Federal de Juiz de Fora e autor de O fascismo em camisas verdes: do integralismo ao neointegralismo.

Manifestações públicas eram organizadas e havia um interesse claro de Salgado em cada vez mais influenciar os rumos da nação. "Fazia parte do cotidiano do brasileiro. É considerado o primeiro movimento de massa da história do Brasil, a primeira grande organização política do século 20", sublinha Gonçalves.

<><> Trajetória de Plínio Salgado

Salgado se apresentou como pré-candidato à presidência para as eleições de 1938 – mas a disputa não ocorreu porque Vargas deu o autogolpe que criaria o Estado Novo – e chegou a pleitear o posto de ministro da Educação no governo Getúlio Vargas (1882-1954).

Como não conseguiu seus objetivos e ainda viu Vargas decretar a proibição dos partidos políticos, deixando a AIB na clandestinidade, Salgado e outros integralistas organizaram um levante. Em 11 de maio de 1938, atacaram o Palácio da Guanabara, cerca de 1.500 foram presos. Salgado exilou-se em Portugal.

"Oficialmente, o ataque representa o fim do integralismo, que já havia sido encerrado com o decreto do Estado Novo, quando passou para a ilegalidade", diz Gonçalves. Mas é claro que a ideologia não desapareceu.

"Milhares de seguidores e simpatizantes permaneceram ativos e ocuparam cargos fundamentais no Estado", ressalta o historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coautor do livro Passageiros da tempestade: fascistas e negacionistas no tempo presente. "Nas Forças Armadas, a Marinha, seu oficialato era dominantemente integralista. Muitos integralistas, com seu ideário, permaneceram ativos na magistratura, nas academias militares e na política".

Em Portugal, Salgado aprofundou sua doutrina, num intercâmbio com a intelectualidade católica conservadora. Quando, em 1945, partidos tornaram a ser permitidos no Brasil, o integralismo voltou, mas com outra roupagem.

"No pós-Segunda Guerra, um partido fascista não teria sucesso no Brasil. Então eles formam o PRP [Partido de Representação Popular], com formação fascista, com grupos fascistas, mas sem dizer que era fascista. Foi um fascismo legalizado, mas no discurso se dizia democracia cristã", relata Gonçalves. Pela legenda, Salgado candidatou-se à presidência em 1955. Depois acabaria eleito deputado federal.

O idealizador do integralismo foi um dos oradores da famosa Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em 1964, e apoiador do golpe militar que instauraria a ditadura naquele mesmo ano.

"Na ditadura, o destino político dos integralistas foi a Arena [partido da Aliança Renovadora Nacional]. Com a morte de Salgado [em 1975], há o fim do integralismo, já que os adeptos ficam sem o chefe, a referência", explica Gonçalves.

<><> Neointegralismo e Bolsonaro

Segundo o historiador, os anos 1980 assistem ao início de um movimento que pode ser qualificado de neointegralismo, quando os simpatizantes das ideias se relacionam com skinheads neonazistas nas grandes cidades brasileiras. "Na década de 1990, eles voltam a participar de partidos políticos existentes, como o Prona [Partido da Reedificação da Ordem Nacional], de Enéas Carneiro, e também o PRTB [Partido Renovador Trabalhista Brasileiro], de Levy Fidelix. Eles tentam, sem sucesso, fundar um partido político próprio", contextualiza Leandro Pereira Gonçalves.

Nessa época, grupos integralistas passam a utilizar a ainda incipiente internet para divulgar suas ideias e congregar os simpatizantes. No início do século 21, com o advento das redes sociais, eles também ingressam nessas plataformas.

De acordo com o pesquisador, em 2022 há três grupos integralistas relevantes em atividade: a Frente Integralista Brasileira (FIB), o Movimento Integralista e Linearista Brasileiro (Milb) e a Associação Cívica e Cultural Arcy Lopes Estrella (Accale).

"Nas eleições deste ano, o legado integralista está presente no PTB [Partido Trabalhista Brasileiro]. Padre Kelmon, que foi candidato do partido, participou de reuniões integralistas e possui relações [com o movimento]", destaca Gonçalves.

Em texto publicado em seu site em setembro, a FIB recomendou nominalmente o voto nos candidatos "que demonstram compromisso de lutar por Deus, pela Pátria, pela Família" e citou nominalmente a pastora e ex-ministra Damares Alves, eleita senadora pelo Distrito Federal, entre outros nomes.

<><> Da farda verde à camisa da Seleção

Gonçalves lembra que essa ética integralista é enfatizada de forma recorrente nos discursos do presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro. "'Deus, Pátria e Família' é o slogan fascista mais repetido ao longo deste governo. Foi naturalizado dentro da política. O integralismo representa a extrema-direita mais ideologicamente consistente da história do Brasil".

Para o historiador e sociólogo Wesley Espinosa Santana, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, é possível fazer uma analogia com o uso do uniforme da seleção brasileira em manifestações políticas de direita hoje com a farda verde dos integralistas de Plínio Salgado.

"Temos uma situação muito parecida: o Bolsonaro dizendo que é o dono do verde-amarelo, que quem é adepto dele é Brasil e quem é contra não é Brasil. Isso é integralismo puro, psicológico e simbólico. O discurso é: 'Ou você está ao meu lado ou é contra a pátria'. O fascio italiano e a AIB previam isso, em meio à tríade Deus, pátria, família."

 Na visão de Teixeira da Silva, "o fascismo à brasileira é um amálgama complexo de fatores culturais de longa duração". "A extrema-direita e o bolso-fascismo brasileiro hoje possuem várias fontes doutrinárias", comenta, citando o integralismo, suas inspirações portuguesa e italiana, e o nazismo alemão. "Mas possui também bases puramente nacionais, como o racismo antinegros e pardos".

Santana vê, nas pautas de Bolsonaro, o legado do integralismo, expresso no conservadorismo, do militarismo, da defesa das armas e do que ele chama de "cristianismo enviesado". Além, é claro, do ultranacionalismo.

 

Fonte: IHU/DW Brasil

 

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