Vinícius
Borges Gomes:“ Deus, Pátria, Família” - Brasil que se vê no espelho tende ao
fascismo?
Uma
pesquisa encomendada pela TV Globo ao Instituto Quaest revelou que a maioria
dos brasileiros concorda que a família é uma das coisas mais importantes da
vida. O mesmo vale para a percepção da centralidade de “Deus”,
independentemente da religião. O orgulho de ser brasileiro também é alto (64%),
muito embora a percepção sobre a própria nação esbarre em visões mais
conservadoras. Deus, Pátria e Família – o mantra da extrema-direita brasileira
nos últimos anos – é, portanto, um retrato daquilo que permeia o imaginário do
brasileiro comum.
Os
resultados, ainda que enviesados por afirmações mostradas aos entrevistados a
partir de um recorte intencional que sempre será limitado, revelam que alguns
valores que atravessam o pensamento majoritário dos brasileiros compõem um
tecido ideológico bastante repetido e apropriado por determinados grupos nos
últimos anos. Jair Bolsonaro (PL) reciclou o lema “Deus, Pátria, Família” do
Integralismo brasileiro da década de 1930. O movimento, conhecido como fascismo
brasileiro, utilizava a expressão como bandeira de reconhecimento e construção
identitária.
A
afirmação “Deus está no comando da sua vida” tem a concordância de 96% dos
respondentes do questionário da Quaest. O mesmo número corresponde à afirmação
“Você tem fé em Deus e, por isso, acredita que tudo vai dar certo”. Importante
destacar que, em dados recentes do IBGE, o número de pessoas “sem religião”
chegou a 9,3% da população. O censo não especifica o número de ateus,
englobando-os junto de agnósticos e pessoas em transição religiosa. É possível
perceber, no entanto, que há uma concordância quase unânime sobre a importância
simbólica de Deus, ainda que isso esteja para além da pertença religiosa ou
possa ser compreendido de forma multifacetada.
Enquanto
Deus ocupa lugar de centralidade na memória dos brasileiros, a família aparece
como ponto de confiança, segurança e base social. Ela só perde para “saúde e
bem-estar” (28%) quando a pergunta é “O que é mais importante para você?”,
alcançando 27%. Contudo, 96% concordam com a frase “Família é a coisa mais
importante da vida”. Outros 91% concordam que “Um dos principais objetivos na
vida deve ser dar orgulho aos pais” e 89% que “As decisões que você toma são
pensadas, antes de tudo, na sua família”.
Embora
o Brasil seja marcado por uma série de pensamentos conservadores, os dados
mostram que 90% dos entrevistados concordam que “O que define se é família ou
não é o amor, não importa qual seja o modelo familiar”. Embora o estudo não
pergunte diretamente qual a opinião dos respondentes, como qual seria a visão
deles diante de famílias homoafetivas – sempre alvo de líderes e políticos
conservadores –, é possível inferir que a diversidade da composição dos lares
brasileiros (21% deles com pais ausentes) reforça a prevalência da realidade
diante da idealização manca.
Quando
instados a responder quais as vantagens de morar no Brasil, os entrevistados
elegeram “paz/sem guerras/tranquilidade” como principais dádivas nacionais
(15%). Salta aos olhos, contudo, que 26% tenham preferido não responder ou não
sabiam o que dizer, ainda que a pergunta fosse aberta. Outros 5% disseram não
ver nenhuma vantagem. O patriotismo, neste caso, não se expressa num
conhecimento imediato de valores que tragam orgulho em ser brasileiro. No dia a
dia, ele é verbalizado de forma até estridente. Mas de que patriotismo se fala
nos palanques e púlpitos?
A mesma
pergunta vale para “Deus” e “Família”, os outros componentes da tríade
reciclada e vitaminada da extrema-direita brasileira. O Deus dos brasileiros
pode transitar desde o modelo misericordioso e acolhedor de movimentos
humanistas cristãos até o punitivista de conservadores fundamentados no Antigo
Testamento. Pode ser um Deus de prática cultural enraizada, presente no
cotidiano simples dos afetos, ou simbolizar uma fidelidade religiosa devotiva e
dedicada. A família pode representar um porto firme em uma sociedade cansada e
ameaçada pela insegurança, ou pode ser uma visão ideológica da mesma como
alicerce da ordem social, negando qualquer outra possibilidade coletivista mais
ampla que contraponha a lógica econômica atomizada do capital.
É
certo, contudo, que os significantes elaborados pelos discursos da
extrema-direita têm, em alguma medida, grande penetração no imaginário popular.
Como criticar o uso instrumentalizado de “Deus” sem correr o risco de parecer
intolerante? Como explicar que a ideia patriarcal de “família” pode parecer
excludente sem ferir o afeto que a grande maioria sente por aquele que talvez
seja um dos últimos refúgios de um mundo fragmentado? Como relacionar a ideia
de “Pátria” a um nacionalismo vazio sem incorrer em uma quase enfadonha tarefa
de explicar a complexidade de um país como o Brasil?
O
caminho curto da tríade basilar, fundamentada em petrificada memória
discursiva, é mais simples e de forte apelo. Não significa, contudo, reduzir o
povo brasileiro ao arquitetado projeto integralista que segue mais vivo que
nunca, embora com outro nome. É certo que o Brasil que se vê no espelho enxerga
nuances estranhas, imagens embaçadas e tristes realidades. Recrudesce um
sentimento fascistoide que se esmera em integrar outras formulações lexicais
perigosas. Uma delas ganhou forma a partir de seu vocalizador mais famoso:
“Deus acima de tudo, Brasil acima de todos”.
Lema
eleitoral de Bolsonaro, o advérbio “acima”, contido na frase com marcada
intensidade hierárquica, pressupõe que há um modelo de Deus e de Pátria que se
sobrepõe. É totalitário. Ignora qualquer horizontalidade. A frase traça um
paralelo entre o discurso fascista histórico e a utilização de discursos
religiosos contemporâneos, que compartilham uma estrutura autoritária e
dogmática, impondo uma ordem unilateral.
Desconstruir
esses apelos é tarefa árdua para qualquer grupo, liderança ou cidadão que se
enquadre em uma veia democrática. É tarefa urgente, inclusive, dos líderes
religiosos que entendem Deus sob outro ponto de vista. O que parece unir os
brasileiros, como sugere a pesquisa, esconde recortes que fazem o país muito
mais diverso do que se pensa. Há uma disputa de sentido em jogo. Por enquanto,
a extrema-direita conquista-a de forma mais sagaz e entranhada. No front de sua
linha de ataque estão palavras sacralizadas e unânimes no imaginário brasileiro
– incluindo aqueles que discordam do discurso autoritário.
Dizer
que o Brasil é fascista seria exagero. Não é nenhuma insanidade dizer,
entretanto, que há um forte sentimento fascistoide presente em boa parte da
sociedade. Entender as duas afirmações é fundamental para abrir frentes de
diálogo e compreender a complexidade de um país que, potencializado pela
algoritmização, passou a abraçar paixões de ideários vazios em detrimento da
realidade tácita.
O
Brasil que se vê no espelho enxerga muitos brasis. Poucos conhecem todas as
suas nuanças.
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“Deus, Pátria, Família!” Esse slogan é uma blasfêmia, diz
monge italiano Enzo Bianchi
Estamos
em uma hora em que falha o pensar, o refletir e até a linguagem se ressente
disso. Não só se empobrece como se torna grosseira, bárbara e recorre a
slogans. Por outro lado, todos nós sabemos: quando falta o pensamento, sobem os
tons e as palavras ressoam para provocar emoções, e isso vale para todo lugar,
até os comícios de rua. Sendo idoso não esqueço as palavras desbotadas nos
muros que ficaram da época fascista: "Acreditar, Obedecer,
Lutar!",
"Autoridade, Ordem, Justiça!", "Deus, Pátria,
Família!".
Parece-me
significativo que tenham voltado a ressoar hoje: "Deus, Pátria,
Família"
é um slogan que me perturba. Porque essas três palavras colocadas uma após a
outra, feitas bandeira e estandarte entre pessoas que se julgam fortes, para
mim ressoam não apenas sinistras, mas até blasfemas. Palavras de um tempo e de
uma cultura que eu não gostaria de viver.
Como
cristão, estou convencido de que a palavra "Deus" é um termo
eminente, mas insuficiente, por trás do qual se escondem emoções que são
projeções humanas. A maior parte das imagens que forjamos de Deus são
perversas. Como cristão, estou convencido de que só Jesus falou e mostrou quem
é Deus. O Deus de Jesus não gosta de ser proclamado, nem invocado contra
alguém, mas gosta de ser pensado como "Deus conosco". Não precisa de
nós para defendê-lo ou impô-lo à sociedade em que vivemos. É ofendido se for
instrumentalizado como elemento identitário, se for arrastado para a arena
política.
Quanto
à Pátria, felizmente a minha geração não mais serviu à ideologia
nacionalista,
um ídolo em nome do qual, nas guerras, tantas vidas humanas eram sacrificadas.
Amamos
a nossa terra, mas também aquelas dos outros, convencidos de que "cada
terra para o cristão é estrangeira e toda terra estrangeira para o cristão é
pátria", como lemos na Epístola a Diogneto, texto de um cristão do
século II, quando os cristãos podiam viver como minorias em diálogo e em paz na
maré pagã do Império Romano. Não, para nós hoje não é mais nobre morrer
pela pátria.
Quanto
à "Família", aquela que podia ser invocada não existe mais, foi
estilhaçada com o paternalismo, a submissão das
mulheres, a impossibilidade de os jovens tomarem a palavra.
Nascemos
numa família e somos acolhidos por ela, e isso é uma grande graça. Mas quando
temos que construir uma vida buscamos o amor fora da família. Significa que
também a família é insuficiente: não devemos torná-la um mito ou um ídolo.
É
preciso ser vigilante contra o familismo que forja uma ideologia não
a serviço do amor humano, mas dos controladores da ordem moral. Ficamos
escandalizados se esses slogans são gritados hoje na Rússia pelo
poder religioso e por aquele político, mas depois permitimos que sejam
propostos como um programa na nossa cansada e velha, mas ainda válida, democracia. O ídolo é sempre um
falso antropológico, fonte de alienação. “Deus, Pátria, Família!”: três
palavras que se gritadas são uma blasfêmia e deveriam representar para todos o
espectro de uma prisão.
• Como “Deus, Pátria e Família” entrou na
política do Brasil
Manifesto
divulgado 90 anos atrás pelo autor Plínio Salgado lançou o integralismo.
Movimento de extrema-direita é antecessor de discursos ultraconservadores da
atual política nacional.
Eram
princípios conservadores, de inspiração cristã e fortemente influenciados pelo
fascismo italiano e pelo integralismo português, os formulados pelo escritor e
jornalista Plínio Salgado (1895-1975). Ele chamou seu arrazoado de Teoria do
Estado Integral, e em 7 de outubro de 1932 lançou o Manifesto de Outubro. Ali
nascia a Ação Integralista Brasileira (AIB), a versão nacional da
extrema-direita que ganhava corpo na Europa.
Dividido
em dez partes, o manifesto trazia já em seu primeiro item a importância da
valorização de Deus, da Pátria e da Família – os três termos com inicial
maiúscula. Salgado tinha a companhia de outros intelectuais na elaboração dessa
doutrina, entre eles o escritor e advogado Gustavo Barroso (1888-1959) e o
advogado, filósofo e professor Miguel Reale (1910-2006).
Com
seus símbolos ultranacionalistas, os trajes verdes e o discurso de oposição ao
comunismo, o movimento cresceu. Estimativas publicadas pela imprensa dão conta
de que, em 1936, eram quase 1 milhão os adeptos e simpatizantes. "Os
integralistas alçaram cargos políticos, com vários prefeitos e vereadores
integralistas pelo país", enfatiza o historiador Leandro Pereira
Gonçalves, professor na Universidade Federal de Juiz de Fora e autor de O
fascismo em camisas verdes: do integralismo ao neointegralismo.
Manifestações
públicas eram organizadas e havia um interesse claro de Salgado em cada vez
mais influenciar os rumos da nação. "Fazia parte do cotidiano do
brasileiro. É considerado o primeiro movimento de massa da história do Brasil,
a primeira grande organização política do século 20", sublinha Gonçalves.
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Trajetória de Plínio Salgado
Salgado
se apresentou como pré-candidato à presidência para as eleições de 1938 – mas a
disputa não ocorreu porque Vargas deu o autogolpe que criaria o Estado Novo – e
chegou a pleitear o posto de ministro da Educação no governo Getúlio Vargas
(1882-1954).
Como
não conseguiu seus objetivos e ainda viu Vargas decretar a proibição dos
partidos políticos, deixando a AIB na clandestinidade, Salgado e outros
integralistas organizaram um levante. Em 11 de maio de 1938, atacaram o Palácio
da Guanabara, cerca de 1.500 foram presos. Salgado exilou-se em Portugal.
"Oficialmente,
o ataque representa o fim do integralismo, que já havia sido encerrado com o
decreto do Estado Novo, quando passou para a ilegalidade", diz Gonçalves.
Mas é claro que a ideologia não desapareceu.
"Milhares
de seguidores e simpatizantes permaneceram ativos e ocuparam cargos
fundamentais no Estado", ressalta o historiador Francisco Carlos Teixeira
da Silva, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coautor do
livro Passageiros da tempestade: fascistas e negacionistas no tempo presente.
"Nas Forças Armadas, a Marinha, seu oficialato era dominantemente
integralista. Muitos integralistas, com seu ideário, permaneceram ativos na
magistratura, nas academias militares e na política".
Em
Portugal, Salgado aprofundou sua doutrina, num intercâmbio com a
intelectualidade católica conservadora. Quando, em 1945, partidos tornaram a
ser permitidos no Brasil, o integralismo voltou, mas com outra roupagem.
"No
pós-Segunda Guerra, um partido fascista não teria sucesso no Brasil. Então eles
formam o PRP [Partido de Representação Popular], com formação fascista, com
grupos fascistas, mas sem dizer que era fascista. Foi um fascismo legalizado,
mas no discurso se dizia democracia cristã", relata Gonçalves. Pela
legenda, Salgado candidatou-se à presidência em 1955. Depois acabaria eleito
deputado federal.
O
idealizador do integralismo foi um dos oradores da famosa Marcha da Família com
Deus pela Liberdade, em 1964, e apoiador do golpe militar que instauraria a
ditadura naquele mesmo ano.
"Na
ditadura, o destino político dos integralistas foi a Arena [partido da Aliança
Renovadora Nacional]. Com a morte de Salgado [em 1975], há o fim do
integralismo, já que os adeptos ficam sem o chefe, a referência", explica
Gonçalves.
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Neointegralismo e Bolsonaro
Segundo
o historiador, os anos 1980 assistem ao início de um movimento que pode ser
qualificado de neointegralismo, quando os simpatizantes das ideias se
relacionam com skinheads neonazistas nas grandes cidades brasileiras. "Na
década de 1990, eles voltam a participar de partidos políticos existentes, como
o Prona [Partido da Reedificação da Ordem Nacional], de Enéas Carneiro, e
também o PRTB [Partido Renovador Trabalhista Brasileiro], de Levy Fidelix. Eles
tentam, sem sucesso, fundar um partido político próprio", contextualiza
Leandro Pereira Gonçalves.
Nessa
época, grupos integralistas passam a utilizar a ainda incipiente internet para
divulgar suas ideias e congregar os simpatizantes. No início do século 21, com
o advento das redes sociais, eles também ingressam nessas plataformas.
De
acordo com o pesquisador, em 2022 há três grupos integralistas relevantes em
atividade: a Frente Integralista Brasileira (FIB), o Movimento Integralista e
Linearista Brasileiro (Milb) e a Associação Cívica e Cultural Arcy Lopes
Estrella (Accale).
"Nas
eleições deste ano, o legado integralista está presente no PTB [Partido
Trabalhista Brasileiro]. Padre Kelmon, que foi candidato do partido, participou
de reuniões integralistas e possui relações [com o movimento]", destaca
Gonçalves.
Em
texto publicado em seu site em setembro, a FIB recomendou nominalmente o voto
nos candidatos "que demonstram compromisso de lutar por Deus, pela Pátria,
pela Família" e citou nominalmente a pastora e ex-ministra Damares Alves,
eleita senadora pelo Distrito Federal, entre outros nomes.
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Da farda verde à camisa da Seleção
Gonçalves
lembra que essa ética integralista é enfatizada de forma recorrente nos
discursos do presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro. "'Deus,
Pátria e Família' é o slogan fascista mais repetido ao longo deste governo. Foi
naturalizado dentro da política. O integralismo representa a extrema-direita
mais ideologicamente consistente da história do Brasil".
Para o
historiador e sociólogo Wesley Espinosa Santana, professor na Universidade
Presbiteriana Mackenzie, é possível fazer uma analogia com o uso do uniforme da
seleção brasileira em manifestações políticas de direita hoje com a farda verde
dos integralistas de Plínio Salgado.
"Temos
uma situação muito parecida: o Bolsonaro dizendo que é o dono do verde-amarelo,
que quem é adepto dele é Brasil e quem é contra não é Brasil. Isso é
integralismo puro, psicológico e simbólico. O discurso é: 'Ou você está ao meu
lado ou é contra a pátria'. O fascio italiano e a AIB previam isso, em meio à
tríade Deus, pátria, família."
Na visão de Teixeira da Silva, "o
fascismo à brasileira é um amálgama complexo de fatores culturais de longa
duração". "A extrema-direita e o bolso-fascismo brasileiro hoje
possuem várias fontes doutrinárias", comenta, citando o integralismo, suas
inspirações portuguesa e italiana, e o nazismo alemão. "Mas possui também
bases puramente nacionais, como o racismo antinegros e pardos".
Santana
vê, nas pautas de Bolsonaro, o legado do integralismo, expresso no
conservadorismo, do militarismo, da defesa das armas e do que ele chama de
"cristianismo enviesado". Além, é claro, do ultranacionalismo.
Fonte:
IHU/DW Brasil

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