64
anos da Campanha da Legalidade: o povo em luta para defender a democracia
Em 25
de agosto de 1961, tinha início a Campanha da Legalidade, uma das maiores
mobilizações populares da história do Brasil. Liderado por Leonel Brizola, o
movimento se contrapôs à tentativa das Forças Armadas de impedir que João
Goulart assumisse a Presidência da República após a renúncia de Jânio Quadros.
Brizola
transformou o Rio Grande do Sul no epicentro da resistência legalista. Ele
fortificou o palácio do governo, distribuiu armas para os civis, organizou
batalhões populares e criou a “Cadeia da Legalidade” — uma rede formada por
mais de 150 emissoras de rádio que teve importância fundamental para engajar a
população na luta contra a intentona golpista.
A
intensa pressão popular e o risco de uma guerra civil conduziram as partes
envolvidas a uma solução negociada: a adoção do regime parlamentarista, que
possibilitou a posse de Goulart, mas reduziu temporariamente seus poderes.
Udenistas
x Desenvolvimentistas
Após o
término da Segunda Guerra Mundial, o Brasil mergulhou em um período marcado por
forte agitação política e pela disputa entre dois projetos antagônicos.
Enquanto os varguistas, trabalhistas e setores da esquerda nacionalista se
agrupavam em torno do projeto nacional-desenvolvimentista, a UDN e os setores
conservadores reivindicavam o retorno do programa liberal, calcado na primazia
do agronegócio e na subordinação ao capital estrangeiro.
O
retorno de Getúlio Vargas ao governo em 1950 havia inflamado a oposição
udenista, que passou a articular abertamente um golpe de Estado. O suicídio do
mandatário convulsionou o país, gerando uma onda mobilizadora que neutralizou a
ofensiva golpista.
Apresentando-se
como “herdeiro de Getúlio”, Juscelino Kubitschek foi eleito em 1955 defendendo
um audacioso programa de modernização econômica — o “Plano de Metas”. Ele
também foi alvo de diversas investidas golpistas e enfrentou uma tentativa de
impugnação antes mesmo de sua posse.
JK
concluiu seu mandato, mas sofreu com o desgaste do aumento acelerado da
inflação, que chegou a 39,5% em 1959. A alta generalizada dos preços prejudicou
o desempenho de Marechal Lott, o candidato de JK na eleição presidencial de
1960. O conservador Jânio Quadros, por sua vez, conseguiu atrair muitos
eleitores prometendo um combate implacável contra a inflação e a redução do
custo de vida.
Angariando
48,3% dos votos, Jânio venceu a disputa, tornando-se o 22º presidente do
Brasil. Seu vice-presidente, entretanto, seria João Goulart, ex-Ministro do
Trabalho de Vargas e vice-presidente do governo JK, ligado aos trabalhistas e a
setores da esquerda. Isso porque, na época, as eleições não eram disputadas por
chapas vinculadas, existindo votação separada para presidente e para vice.
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A renúncia de Jânio
Empossado
em 1961, Jânio Quadros encontrou muitas dificuldades para governar. Além de não
possuir maioria no congresso, o presidente acabou alienando parte da sua
própria base de apoio. Jânio mantinha uma postura beligerante, frequentemente
atacando os parlamentares com um discurso moralista, o que acabou isolando o
seu governo.
A
política econômica implementada por Jânio também causou insatisfação popular.
As medidas de austeridade, a desvalorização cambial e o corte de subsídios
elevaram os preços, gerando altas de até 100% no pão e nos combustíveis —
contrariando a promessa do controle da inflação. Ao mesmo tempo, a política
externa de Jânio, calcada em princípios pragmáticos, desagradou os setores
conservadores, ao promover a aproximação comercial com as nações do bloco
socialista.
As
críticas dos conservadores a Jânio se avolumaram após 18 de agosto, quando ele
condecorou o guerrilheiro Che Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul. O
presidente se tornou alvo do histriônico Carlos Lacerda, que passou a acusá-lo
de tramar um “golpe de gabinete” para fortalecer o seu governo.
Uma
semana depois, em 25 de agosto de 1961, Jânio Quadros surpreendeu todo o país
ao assinar sua renúncia, alegando estar sob pressão de “forças terríveis”. A
renúncia era uma manobra política. Jânio sabia que os setores conservadores não
aceitariam que João Goulart assumisse a presidência. Ele esperava ser
reconduzido ao governo com poderes ampliados, o que lhe permitiria neutralizar
a oposição do Congresso.
O plano
de Jânio, entretanto, fracassou. Sua renúncia foi prontamente aceita. Não houve
pressão popular pelo seu retorno à presidência e mesmo os deputados
conservadores não se engajaram em sua defesa. Havia, de fato, muita resistência
a Goulart entre os militares, mas eles não achavam que dependiam de Jânio para
barrar a ascensão do líder trabalhista.
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A crise sucessória
João
Goulart não estava no Brasil quando a crise eclodiu. Ele havia partido para a
China no fim de julho, à frente de uma missão comercial. A tarefa lhe fora
entregue por Jânio, que já pretendia se aproveitar da ausência do vice para pôr
seu plano em prática.
Ranieri
Mazzilli, o presidente da Câmara dos Deputados, assumiu o governo
interinamente, mas o poder efetivo ficou nas mãos de uma junta militar formada
pelos ministros da Guerra (Odylio Denys), da Marinha (Sílvio Heck) e da
Aeronáutica (Gabriel Grün Moss).
A
possibilidade de um presidente ligado à esquerda e ao movimento sindical
assumir a presidência causava enorme preocupação à cúpula das Forças Armadas.
Os militares vetaram a posse de Goulart, argumentando riscos à segurança
nacional devido às supostas “ligações comunistas” do vice-presidente — um
argumento que foi fortalecido pelo fato de Goulart estar um país socialista
quando a renúncia ocorreu.
Um
manifesto redigido por Golbery do Couto e Silva reafirmou a posição dos
militares, acusando Goulart de promover “agitações sucessivas e frequentes nos
meios sindicais”. As Forças Armadas propuseram a convocação de novas eleições
em 60 dias e pressionaram o Congresso a declarar o impedimento de Goulart.
O
Parlamento rejeitou a proposta, mas a crise continuou a se agravar. Goulart
iniciou seu retorno ao Brasil, mas o fez de forma lenta, estabelecendo várias
escalas, visando gerar tempo hábil para as negociações.
Muitos
militares se opuseram ao movimento golpista, incluindo o Marechal Lott. Ele
tentou reunir os oficiais legalistas no Rio de Janeiro e deu fortes declarações
públicas defendendo a ordem constitucional. Lott foi preso no dia 27 de agosto.
Outros oficiais como Jefferson Cardim Osório, William Stockler e Francisco
Teixeira também foram detidos.
Quase
todos os governadores se alinharam aos golpistas, com exceção de Chagas
Rodrigues, do Piauí, Mauro Borges, de Goiás, e Leonel Brizola, do Rio Grande do
Sul. Miguel Arraes, o prefeito de Recife, e Prestes Maia, prefeito de São
Paulo, também se posicionaram a favor da posse de Goulart.
A
maioria esmagadora da população rejeitou a ofensiva dos militares. Uma pesquisa
de opinião produzida na época pelo Ibope revelou que 91% dos entrevistados eram
favoráveis à posse de Goulart.
Manifestações
em favor do líder trabalhista eclodiram por todo o país, mobilizando estudantes
e operários. A UNE e a Frente Parlamentar Nacionalista organizaram uma série de
atos e diversos sindicatos convocaram greves.
A
repressão foi brutal. Na Cinelândia, palco de uma onda de protestos que se
prolongaram por dias, a polícia chegou a abrir fogo contra os manifestantes.
Vários sindicatos foram invadidos e depredados e milhares de pessoas foram
presas.
A
Campanha da Legalidade
Leonel
Brizola, governador do Rio Grande do Sul e cunhado de João Goulart, emergiu
como figura central da resistência. Filiado ao PTB, Brizola já era uma das
maiores lideranças da esquerda nacionalista, tendo se destacado pelas políticas
avançadas que implementou em seu governo e pela postura firme nos embates com
as empresas internacionais.
O
governador gaúcho mobilizou seus aliados e articulou a criação de uma frente
para exigir o cumprimento da Constituição. Ele obteve apoio de vários oficiais
legalistas, incluindo os generais Peri Constant Bevilacqua e Oromar Osório, e
iniciou a transformação do governo gaúcho em uma verdadeira trincheira contra o
movimento golpista. Nascia assim a Campanha da Legalidade.
Na
madrugada do dia 27 de agosto, Brizola requisitou as rádios Farroupilha e
Guaíba e fez um discurso anunciando que o Rio Grande do Sul não permitiria
ataques à democracia: “Não assistiremos passivamente a quaisquer atentados
contra as liberdades públicas e a ordem constitucional. Reagiremos como estiver
ao nosso alcance”, afirmou.
Brizola
enviou a Brigada Militar para ocupar pontos estratégicos de Porto Alegre e
armou os funcionários do Palácio Piratini, a sede do governo gaúcho. A
população respondeu à convocatória. Manifestações em apoio a Brizola e Goulart
tomaram as ruas de Porto Alegre e um cordão de voluntários cercou o palácio do
governo.
O
Comando Sindical de Porto Alegre organizou uma marcha com mais de 5.000
manifestantes. Sindicatos de várias categorias ajudaram a formar batalhões
populares e foram iniciados os preparativos para uma greve geral.
Para
coordenar as ações da população civil, o governo gaúcho criou o Comitê Central
do Movimento de Resistência Democrática, que contou com a adesão de mais de
45.000 pessoas. Os comitês legalistas se espalharam pelo estado. A população
contribuiu oferecendo armas, carros e tudo mais que pudesse ser útil ao
movimento.
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A Cadeia da Legalidade
Alarmada
pela intensa mobilização no Rio Grande do Sul, a junta militar forçou a
interrupção das transmissões nas rádios Itaí, Farroupilha e Difusora. Brizola
reagiu ordenando a ocupação da Rádio Guaíba. Ele transferiu os estúdios para o
Palácio Piratini e colocou 200 soldados da Brigada Militar para defender os
transmissores.
O
governador também requisitou o uso de estações espalhadas pelo interior do
estado, que foram integradas para formar a “Cadeia da Legalidade” — uma rede de
mais de 150 emissoras de rádio, alcançando diversas regiões do território
nacional. A estratégia foi essencial para denunciar as ofensivas da junta
militar e coordenar a luta contra o golpe.
Brizola
não parou na comunicação: ele requisitou toda a produção da Taurus e distribuiu
armas e munições para os civis. Fortificou o Palácio Piratini com trincheiras,
sacos de areia e arame farpado. Posicionou metralhadoras nas torres das igrejas
e nos altos dos edifícios. Enviou tropas para que ocupassem a Companhia
Telefônica e colocou o transporte aéreo da Varig sob controle do estado. O Rio
Grande do Sul estava preparado para travar uma guerra em nome da legalidade.
A
mobilização se espalhou para outros estados. Em Goiás, Mauro Borges integrou a
Rádio Brasil Central à Cadeia da Legalidade, mobilizou 5.000 voluntários no
“Batalhão Tiradentes” e requisitou armas e munições para preparar uma
insurreição. Um plano para estabelecer Goiânia como sede de um governo paralelo
foi criado.
No
Paraná, a Assembleia Legislativa declarou apoio à causa legalista. Iberê de
Mattos, o prefeito de Curitiba, permitiu o uso da Rádio Guairacá e criou um
Comitê de Arregimentação Democrática para formar milícias populares. Grandes
manifestações seguiram ocorrendo em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife.
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Os militares se rebelam
Brizola
ganhou um apoio inesperado e de enorme importância no dia 28 de agosto. O
general José Machado Lopes, comandante do III Exército, rompeu com a junta
militar e se uniu à causa legalista. O oficial ficara indignado ao ouvir dos
superiores em Brasília a ordem para bombardear o Palácio Piratini. “Cumpro
somente ordens que estão dentro da Constituição vigente”, retrucou.
A
decisão de Machado Lopes não apenas impediu o início de uma guerra civil, mas
também acentuou a cisão entre golpistas e legalistas dentro das Forças Armadas.
Militares favoráveis à Campanha da Legalidade seguiram o exemplo de Machado
Lopes, passando a recusar o cumprimento de ordens que não estivessem ancoradas
em princípios legais ou democráticos.
Foram
inúmeros os casos de insubordinação. Em São Paulo, os comandantes de grupos de
canhões antiaéreos se recusaram a tomar parte da “Divisão Cruzeiro”, a
expedição encarregada de reprimir os legalistas no Rio Grande do Sul. Os
soldados do 2º Batalhão de Caçadores em Santos se negaram a avançar rumo a
Registro. Em Itu, vários oficiais foram presos por questionarem as ordens da
junta militar.
Em
Minas Gerais, o 11º Regimento de Infantaria se recusou a acatar as ordens. No
Rio de Janeiro, diversas unidades se rebelaram, incluindo os paraquedistas e
subunidades do 1º Regimento de Obuses, o 1º Esquadrão de Reconhecimento
Mecanizado e o 3º Batalhão de Carros de Combate.
Na Base
Aérea de Canoas, os sargentos gaúchos executaram uma operação de sabotagem,
frustrando os planos de bombardeio aéreo contra Porto Alegre. Durante a
madrugada, eles esvaziaram os pneus dos caças, desarmaram as aeronaves e
alertaram Brizola e Machado Lopes. No dia 29, a base foi tomada pelas tropas
legalistas.
Rebeliões
também ocorreram na Marinha. No Recife, o comandante do “Bracuí” desafiou as
ordens do Terceiro Distrito Naval. No contratorpedeiro “Ajuricaba”, os
marinheiros se rebelaram, prendendo seus oficiais e assumindo o comando da
embarcação.
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A solução negociada
Com as
Forças Armadas divididas, o Congresso pressionado e o país à beira da guerra
civil, as autoridades civis e militares foram levadas a buscar uma resolução
negociada para o impasse: a adoção do regime parlamentarista.
A
proposta foi desenvolvida pelo deputado Tancredo Neves e apoiada pela maioria
dos líderes conservadores. Ela determinava que Goulart poderia assumir a
presidência, mas teria seus poderes limitados, transferindo grande parte das
atribuições executivas ao primeiro-ministro e ao gabinete parlamentar.
Embora
muito contrariado, Goulart foi convencido a aceitar o acordo. O presidente
desembarcou em Porto Alegre no dia 1º de setembro de 1961. No dia seguinte, o
Congresso Nacional aprovou a Emenda Constitucional Nº 4, instaurando o regime
parlamentarista no Brasil. Tancredo Neves assumiu o cargo de primeiro-ministro.
Brizola
se opôs veementemente ao acordo, alegando que o Congresso estava agindo sob
coação dos militares. Ele ainda tentou convencer Goulart a apoiar uma ofensiva
do III Exército contra os golpistas, mas o presidente preferiu um recuo tático
diante da possibilidade de guerra civil. O acordo frustrou boa parte da
esquerda, que considerou a imposição do parlamentarismo como um “golpe branco”.
Goulart
só conseguiu retornar a Brasília para tomar posse no dia 5 de setembro. Ele
teve que esperar que as tropas do Exército ocupassem as bases aéreas para
impedir a concretização da “Operação Mosquito” — um plano elaborado por
oficiais da Aeronáutica que pretendiam abater o avião do presidente.
A
adoção do parlamentarismo criou um arranjo político instável, engessando e
enfraquecendo o governo de João Goulart e impedindo a concretização de seus
projetos. Essa limitação, entretanto, seria revertida em 1963, quando um
plebiscito restaurou o regime presidencialista e devolveu plenos poderes ao
chefe do executivo.
Além de
garantir a posse de Goulart, a Campanha da Legalidade projetou a figura de
Leonel Brizola como um verdadeiro herói nacional. O movimento tornou-se um
marco de grande importância para a luta popular, não apenas por ter sido uma
das maiores mobilizações da classe trabalhadora no século 20, mas, sobretudo,
por ser um exemplo de como a ação organizada das massas pode derrotar o
golpismo, o autoritarismo e o arbítrio dos setores reacionários.
Fonte:
Por Estevam Silva, em Opera Mundi

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