Sociedade
Anônima do Futebol
Uma
velha máxima que envolve o futebol desde sempre é a de que ele não deve se
misturar com política. Entendo que no limite – pelo fato de historicamente
regimes ditatoriais terem utilizado do futebol como estratégia de propaganda –
que o futebol deveria resistir a ficar refém das ideologias políticas.
Por
outro lado, o futebol, como qualquer outra atividade humana, também é parte dos
elementos que estruturam uma sociedade e, por este motivo, vai dialogar com
outras áreas como a cultura, a economia e a política. Mas em sendo, para os
brasileiros, a coisa mais importante dentre as menos importantes, o futebol
pode até conseguir estabelecer-se – aqui eu me aproximo do sociólogo Pierre
Bourdieu e seu conceito de campo – como um “campo autônomo” com regras e
lógicas próprias.
Contudo,
nos últimos anos, um tema tem penetrado o “campo futebol” e nos levado a
refletir sobre sua complexidade e impacto na forma de como novas gerações de
torcedores vão estabelecer relações com seu clube do coração. Me refiro às
chamadas SAFs ou Sociedade Anônima do Futebol.
Para
leitores menos ambientados com o mundo do futebol a SAF é um modelo jurídico e
administrativo criada por lei em 2021 que buscou facilitar a transição dos
clubes brasileiros, todos associações civis sem fins lucrativos, em empresas. A
premissa é a de atender a uma lógica de mercado que pressupõe que ao
transformar-se em empresa o clube incorpora em sua gestão a profissionalização
– em oposição ao “amadorismo” das associações – e aquilo que atende pelo
pomposo nome de “governança moderna”.
Na
Europa elas estão consolidadas. Só na Inglaterra os investidores estrangeiros
controlam 16 dos 20 clubes que jogam a Premier League. Um efeito colateral
deste surto de SAFs são as chamadas redes multiclubes em que um mesmo
proprietário controla vários clubes. Os riscos de conflito de interesse são
totais o que pode atingir a lisura das competições. Além disso, clubes com
certa tradição estão se transformando em simples produtores e intermediários de
jogadores. O futebol se tornou uma grande oportunidade de negócio e lucro do
capitalismo corporativo.
No caso
do Brasil, mais do que a “governança moderna”, os clubes foram buscar a SAF
porque estavam completamente endividados e prestes a entrarem em falência. A
SAF seria muito mais um banco de financiamento e investimento do que
efetivamente um bom modelo de gestão profissional.
Ainda é
muito cedo para avaliarmos se do ponto administrativo os modelos de SAFs
aplicados no Brasil atenderam à premissa inicial de modernização e
profissionalização da gestão do clube de forma consistente e perene.
Entretanto, não é o lado burocrático das SAFs que eu quero refletir aqui, mas,
duas coisas que entendo como subjacentes à ideia de SAF e com impacto direto na
organicidade da relação entre torcedor e clube do coração, a saber: a
transformação do torcedor em consumidor e a representatividade ética do
investidor.
Talvez,
ao final deste artigo, aqueles que se mostrarem contrários aos meus argumentos,
irão me considerar um ingênuo ou vão me qualificar negativamente como o “último
romântico do futebol”.
Comecemos
pela questão do “torcedor como consumidor”. Ao funcionarem historicamente como
associações civis sem fins lucrativos nossos clubes de futebol, mesmo tendo
longa tradição de governança personalista, não perderam, com isso, a
possibilidade de buscarem, através de reformas estatutárias, a ampliação da
participação coletiva e democrática dos associados na gestão dos clubes.
Entre
os clubes brasileiros que já tinham avançado em muito nesse aspecto, um deles
foi o Esporte Clube Bahia que antes de virar SAF seus associados se orgulhavam
da ativa e democrática participação do “torcedor de arquibancada” na escolha
dos dirigentes do clube. Hoje, essa atividade foi bastante desidratada e após a
SAF o sócio torcedor tricolor vota somente no presidente da associação Esporte
Clube Bahia com nenhuma ingerência nos rumos do futebol do “tricolor de aço”.
O que
leva um torcedor tão apaixonado como o do Bahia a abrir mão de atuar de forma
direta e democrática nos rumos de seu clube de coração terceirizando essa
conquista a um grupo financeiro dos Emirados Árabes Unidos? A resposta a esta
pergunta tem certa complexidade pelo fato de dialogar com a subjetividade da
paixão de torcer para um clube de futebol. Aqui entra meu lado do chamado
“último dos românticos”.
A
paixão de um torcedor por seu clube de coração não deveria ser guiada somente
pela funcionalidade objetiva dos títulos. Ganhar títulos é legal, mas não é
tudo. O que rege a relação torcedor/time é a paixão unilateral e a fidelidade a
uma identidade construída ao longo da história e se tem algo que o torcedor do
Bahia pode se orgulhar é o de ter construído uma bela história.
Seu
último título nacional em 1988, com um time formado em boa parte por sua base,
deveria ser utilizado pelo torcedor como o grande cartão de visita ou o quadro
destacado na parede de eternas glórias. O Bahia é grande suficiente para não
precisar viver em função da grandeza alheia. Não será a SAF – como pensam
alguns torcedores – a responsável por colocar o Bahia entre os grandes do
Brasil ou furar a bolha do sudeste. O Bahia é grande só por existir e quem
determina isso é tão somente a paixão de seu torcedor.
Torcer
para um time é antes de tudo expressar uma paixão que estrutura nossa
identidade. Quando Zico foi vendido pelo Flamengo, escreveu genialmente o poeta
baiano Moraes Moreira: “e agora como é que eu me vingo de todas as derrotas da
vida se a cada gol do Flamengo eu me sentia um vencedor”. No fundo, é disso que
se trata, é se tornar um vencedor a cada gol ou a cada vitória diante de um
adversário economicamente mais poderoso. É valorizar a trajetória do clube e o
que ele representa enquanto parte de sua própria história de vida como pessoa.
O
Bahia, assim como o Santa Cruz de Recife, a Portuguesa de São Paulo o Remo do
Pará e o Botafogo carioca são gigantes do futebol mundial. O mundo do futebol
tem a dimensão que lhe é dada pelo tamanho da paixão de cada torcedor por seu
clube. Não são as estatísticas frias que vão definir a posição de meu time do
coração no contexto mundial, dane-se a objetividade, escreveu alguém muito
espiritualizado.
Os
ingleses têm uma expressão muito interessante para identificar pejorativamente
torcedores que torcem para os clubes multicampeões e midiáticos, como Liverpool
e Manchester City, em detrimento dos clubes locais. Eles os chamam de “Glory
Hunting” ou caçadores de glórias.
A
cultura das SAFs pode estar ajudando a apagar, nas futuras gerações de
torcedores, lindas histórias de clubes fortemente identificados com uma
comunidade ou um bairro, substituindo-as por interesses econômicos de
milionários estrangeiros ou corporações asiáticas. Eu sei, eu sou o “último dos
românticos”.
Ainda
bem que para o bem do velho e bom futebol, existem exemplos de resistências. O
futebol alemão é um deles. Uma das mais importantes Ligas do mundo, a de maior
média de público entre as principais da Europa, a Bundesliga tem em seu
regulamento uma cláusula conhecida como a “regra 50 + 1”. Mesmo admitindo a
existência de SAFs, esta regra assegura ao clube associativo o controle
majoritário nas decisões finais. Portanto, essa regra praticamente impede o
modelo de SAF que está sendo aplicado aqui no Brasil em que a gestão do clube
de futebol passa a ser exclusividade do proprietário da Sociedade Anônima.
Dessa
mesma Alemanha fui buscar fundamento para minha tese da “paixão acima de tudo”.
O FC St. Pauli time que hoje disputa a primeira divisão, mas que já esteve às
vias de fechar as portas, se reergueu às custas de sua comunidade. Situado em
Hamburgo, cidade fortemente vinculada com a história do movimento operário
alemão, o FC St. Pauli se reinventou enquanto clube e foi da falência à
primeira divisão sem vender sua identidade.
Entre
os princípios norteadores registrado no estatuto do clube está: “O St. Pauli FC
transmite um estilo de vida e é um símbolo de autenticidade esportiva. Isto
permite que as pessoas se identifiquem com o clube, independentemente de
qualquer sucesso que ele possa alcançar em campo. As características marcantes
dessa oportunidade de identificação devem ser nutridas e protegidas”.
O
leitor pode até seguir me definindo como ingênuo e romântico, mas,
definitivamente, tem que reconhecer que eu não estou sozinho. Sem querer fazer
juízo de valor e compreendendo de que existe uma disputa de poder entre o atual
governo argentino e sua associação de futebol, não tenho como deixar de
registrar o posicionamento de vários clubes e torcedores do país vizinho em
contraposição ao projeto das SAFs.
Isso
não é somente questão política é, também, uma forma diferente de exercer a
paixão por seu clube do coração. Na Argentina os times são fortemente
vinculados às suas comunidades. A relação entre time e torcedor é orgânica e a
“frieza” administrativa imposta pela SAF tende a impactar negativamente nessa
relação. Não sei até quando os clubes argentinos vão resistir, mas acredito que
o processo não será tão sabujamente “entreguista” como o que está sendo aqui no
Brasil.
Por
fim, passo agora para a questão da representatividade ética do investidor, a
outra ponta do compasso das SAFs. Aqui introduzo o debate sobre a relação entre
futebol e política. Em nome dos títulos e das glórias eternas, vale tudo? Ao
transformar-se em SAF a história do clube é reescrita e naturalmente incorpora,
independente da vontade de seu torcedor, sua história à do investidor.
Ainda
que exista casos de exceção em que um torcedor seja o comprador do clube – caso
do Cruzeiro de Belo Horizonte – no geral a tendência é que o comprador seja
sempre um grande investidor ou grupo estrangeiro. Alguém para quem a história
do clube tem a mesma importância de uma propaganda de margarina. O clube é
somente mais um ativo em meio às centenas de outros investimentos.
Portanto,
ao ser comprado, o clube negocia parte de sua identidade. No mínimo, associa
sua imagem a um terceiro completamente desconectado de sua história. Portanto,
se isso tem alguma importância para o torcedor, ele deve estar ciente de que
junto com o investimento vem o bônus e o ônus da vida pregressa do comprador.
Usarei
como referência a experiência de três casos concretos: o Chelsea F. C. o
Botafogo e o Bahia. Sobre o primeiro, viu sua imagem ser vinculada a um sujeito
com a vida pregressa de Roman Arkadyevich Abramovich, bilionário russo que foi
acusado e admitiu publicamente de ter pago bilhões de dólares a agentes
públicos russos em troca de privilégios financeiros e comerciais.
O
Chelsea é um dos diversos clubes londrinos que como muitos de seus congêneres
na América do Sul viveu momentos de crises e glórias. Em 1982 o inglês Kenneth
Bates comprou o clube que estava afundado em dívidas. Por mais que tivesse
alcançado alguns sucessos dentro e fora de campo o Chelsea de Ken Bates não se
sustentou no longo prazo e as dívidas continuaram fragilizando o clube. A
solução foi a venda para o russo Roman Abramovich.
Sob
Roman Abramovich vieram títulos e glórias, mas o inconveniente de ter a imagem
relacionada a figura tão controversa. Em 2022, diante de sanções do governo
britânico, Abramovich foi forçado a vender o clube. O Chelsea segue com uma
torcida apaixonada, mas está longe da manter sua identidade intocável.
Quanto
ao Botafogo, trata-se de um dos mais tradicionais times do futebol mundial, eu
diria que um dos mais icônicos, pois foi a casa de Garrincha e Nilton Santos,
dois gênios absolutos deste esporte. Poucos clubes no mundo têm com o futebol a
relação orgânica que o Botafogo construiu. Só isso – tal qual fizeram os
torcedores do St. Paul alemão – já seria suficiente para que o torcedor
botafoguense estabelecesse com seu time uma relação que não precisasse estar
refém de estatísticas e títulos, mas que focassem no orgulho eterno de torcer
para o glorioso time de Garrincha. Pausa para ser novamente “acusado” de
ingênuo e romântico.
Esse
clube, com esta história tão edificante, hoje é propriedade de um americano que
até bem pouco tempo chamava o esporte que o Botafogo é gigante de soccer. Uma
reportagem bastante profunda e documentada escrita pelo jornalista Lúcio de
Castro e intitulada “Os segredos de Textor: o lado B do milionário americano
que comprou o Botafogo” foi publicada no portal ICL e a ela remeto o leitor
mais curioso.
Mas em
relação à SAF do Botafogo, mais do que as relações escusas de seu proprietário
e com impacto direto na imagem do clube centenário, nos interessa também usá-la
para relativizar a ideia de SAF como exemplo de boa governança. Segundo
informações presentes em vários órgãos de imprensa esportiva a SAF do Botafogo
está em litígio contra a Eagle Football Holdings e para nossa “surpresa” ambas
pertencem à mesma pessoa, o senhor John Textor. Temos um escandaloso caso de
conflito de interesses.
No
momento o Botafogo vive um profundo risco de colapsar financeiramente se Textor
não conseguir captar alguns milhões de euros através da Eagle Cayman, empresa
que o próprio Textor abriu nas Ilhas Cayman para administrar as finanças do
Glorioso. Nunca é demais lembrar que as Ilhas Cayman são um daqueles paraísos
fiscais que não obstante ofereça vantagens referentes a impostos, também se
caracteriza pelo sigilo e privacidade bancária. O balancete deste primeiro
semestre de 2025 mostra o Botafogo com quase R$ 1 bilhão em dívidas. Contudo,
dane-se questões éticas e morais, para o torcedor o que realmente importa são
os títulos.
Tomo,
como último exemplo, o caso do também glorioso Esporte Clube Bahia. Time de
raça e tradição, o Bahia é um gigante do futebol brasileiro independentemente
do número de títulos e estatísticas. Nos últimos anos o Bahia veio se
estruturando, ampliando a participação democrática da torcida nas decisões do
clube e posicionando sua marca de forma moderna e inclusiva. Com uma torcida de
milhões de apaixonados o Bahia tinha tudo para ser um exemplo concreto de um
clube com potencialidades ainda por serem exploradas. Mas eles – direção e
torcida – resolveram abdicar da luta em nome das glórias fáceis e do orgulho
volátil “oferecido” pelas SAFs.
Hoje,
temos um clube enriquecido, com possibilidades de títulos, mas esvaziado de
identidade. Como toda SAF, o Bahia não é mais do Bahia e de sua torcida.
Certamente que para a maioria de seus torcedores, tomados pelo imediatismo do
espírito “Glory hunting”, o que importa é vencer. Mas se somente o que importa
é vencer, certamente o torcedor do Bahia não vai me criticar pelo que vou
escrever nas próximas linhas. Para eles, será uma abordagem completamente
irrelevante que só serve a “intelectualoides” defensores de uma visão de
futebol romântica e devidamente superada.
O Bahia
pertence hoje ao City Football Group Limited uma holding com sede no Reino
Unido e que exerce o controle de vários clubes de futebol pelo mundo. O maior
acionista do City Group é o Abu Dhabi United Group cujo proprietário é o sheik
Mansour bin Zayed Al Nahyan. O sheik Mansour, como é mais conhecido, além de
ser um bilionário excêntrico colecionador de carros e iates é vice-presidente
dos Emirados Árabes Unidos (EAU), ou seja, o torcedor do Bahia pode se orgulhar
que o clube dele pode até jogar no Brasil, mas tem sua base no outro lado do
mundo.
Uma
rápida pesquisa sobre os Emirados Árabes Unidos e direitos humanos vamos
encontrar um país que não admite dissidentes e que criminaliza expressamente a
liberdade de expressão. Que trata trabalhadores imigrantes em condições
análogas à escravidão. Que enxerga as mulheres como cidadã de segunda categoria
e cujo código penal criminaliza diretamente atos relacionados a orientação
sexual e identidade de gênero. É a essa cultura, que em nome de um “bem” maior,
o Bahia decidiu colar sua imagem. Essa é a hora que o torcedor diz
estrategicamente “vamos separa futebol de política”.
Mas
quem é o sheik Mansour? Será que ele dança Axé, já se banhou na praia do Porto
ou conhece o último sucesso de Ivete? Dificilmente.
Como
nem só de fazer “filantropia” com o clube alheio vive o homem, vamos encontrar
o dito sheik nos bastidores de um dos mais cruéis e sanguinários conflitos da
atualidade. Em 15 de abril de 2013 o Sudão entrou em guerra civil. A principal
liderança sudanesa é o bilionário general Mohamed Hamdan Dagalo, líder das
Forças de Suporte Rápido (FSR) e mais conhecido como Hemeti. A base da riqueza
de Hemeti é justamente Dubai um dos emirados controlados pela família do
proprietário do Bahia. Pouco antes do início da guerra uma pequena reunião de
amigos aconteceu entre o general Hameti, Mohammed bin Zayed (presidente dos
Emirados Árabes Unidos) e o sheik Mansour.
Possivelmente
não se reuniram para falar de futebol. O Sudão é um território de grande
interesse político e financeiro da família real dos Emirados Árabes Unidos.
Alguns dos projetos estruturais do governo como portos ao longo da costa do Mar
Vermelho e importação de gado estão vinculados ao Sudão. Quanto à questão
política, quando em 2019 os sudaneses foram às ruas e derrubaram o governo
tirânico de Omar al-Bashir intencionavam instaurar um regime democrático.
Em
fevereiro de 2024 o jornalista Oscar Rickett escreveu um artigo intitulado
“Como os Emirados Árabes Unidos mantiveram a guerra no Sudão em fúria” e fez o
seguinte registro: “Abdullahi Halakhe, defensor sénior da África Oriental e
Austral na Refugees International, disse ao Middle East Eye: “Os Emirados
Árabes Unidos trabalharam mais do que qualquer outro país para sufocar o
surgimento da democracia na região.” E completou “Eles financiaram regimes na
Tunísia, Argélia, Egito, Líbia e estão agora a apoiar a RSF no Sudão. A
diplomacia do talão de cheques funciona para eles”.
Recentemente,
Declan Walsh, correspondente na África do The New York Times escreveu se
referindo ao conflito no Sudão: “Organizações de caridade controladas pelo
xeque Mansour montaram um hospital, alegando tratar civis. Mas esse esforço
humanitário também serviu de fachada para a iniciativa secreta dos Emirados de
contrabandear drones e outras armas poderosas para o grupo do general Hamdan.”
Quanto
ao general Hamdan ou Hameti são fartas as informações e evidencias de que ele
tenha praticado massacres, estupros e genocídios. Uma das justificativas do
presidente Putin para invadir a Ucrânia é a alegação de que os ucranianos
estavam praticando um “genocídio” contra os russos do Donbas. O Ocidente
questiona a veracidade deste fato.
Por
outro lado, na guerra do Sudão, a RSF, comandada pelo aliado do sheik Mansour,
vem aproveitando a guerra para cometer uma eliminação étnica com o povo
massalit da região de El Geneina onde moram uma população mista de cerca de
540.000 pessoas. Aparentemente poucos têm chorado pelos massalit.
A
guerra do Sudão é um típico exemplo da permanência do ego eurocêntrico e da
insensibilidade ocidental com povos e países da periferia do capitalismo. Nos
últimos dias, o que a imprensa tem mais noticiado é a mobilização do ocidente
(Europa e EUA) de acabarem com a guerra na Ucrânia. O “mundo” se solidariza (e
com razão) com a morte de milhares de ucranianos. Mas o quanto esse mesmo
“mundo” tem feito para acabar com o massacre que está sofrendo desde 2023 os
sudaneses? O Sudão é hoje o país de maior número de refugiados na África.
Relatórios da ONU mostram que o Sudão vive a maior crise de fome atualmente no
mundo.
Mas o
que tem a ver os torcedores do Bahia com essa crise no Sudão? Absolutamente
nada. O que tem a ver as SAFs e o futebol com as guerras alheias? Absolutamente
nada. Futebol não deve se misturar com política, certamente dirá o consciente e
feliz torcedor (ou será consumidor?) do Bahia, do Botafogo, entre outros.
Definitivamente
a mentalidade corporativa do vencer a qualquer custo chegou ao mundo do
futebol. Cada vez mais vamos nos tornar consumidores de títulos e menos
torcedores de times. A paixão passada de pai para filho tende a ser substituída
pelo algoritimo da SAF mais eficiente. Dificilmente teremos outra fiel torcida,
como a do Corinthians, que cresceu em tempos de crise.
A crise
já não mais fortalece fidelidades clubisticas, somente as glórias do dinheiro
fácil vindo do Abu Dhabi United Group ou do Qatar Sports Investiments.
Realmente eu admito, sou o “último dos românticos”.
Fonte:
Por Eduardo Borges, em A Terra é Redonda

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