O
'Bolsa Família' do Japão que ampara idosos brasileiros e é criticado por
opositores
Quando
Yoshio, um paulista de 80 anos e filho de imigrantes japoneses, precisou deixar
o trabalho em uma fábrica no Japão por causa da idade, acreditou que viveria
seus últimos anos com tranquilidade. Chegara ao país aos 44 anos e trabalhou
por mais de três décadas, até os 75.
Mas
tudo mudou depois de um acidente de trânsito.
"Andava
de bicicleta quando fui atropelado por um carro. O motorista fugiu. Tive que
arcar com tudo", conta.
Em
apenas seis meses, todas as economias de uma vida desapareceram com os custos
hospitalares.
Sem
familiares por perto e sem acesso à aposentadoria — já que nunca havia
contribuído para o sistema de Seguro Social japonês, que inclui seguro de saúde
e pensão —, viu-se completamente desamparado.
"Só
pensava: o que vai ser da minha vida depois do hospital?"
Foi
então que recorreu ao Seikatsu Hogo, um programa de assistência social do
governo japonês destinado a pessoas em situação de vulnerabilidade — como
idosos sem renda, pessoas com deficiência ou doenças graves.
Um
benefício semelhante ao Bolsa Família, no Brasil.
"Me
senti envergonhado, mas não tive escolha."
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Preconceito e desinformação
O Japão
envelhece rapidamente e depende cada vez mais de trabalhadores estrangeiros
para manter sua economia funcionando. Mesmo assim, a concessão de assistência
social a não japoneses continua sendo alvo de xenofobia e desinformação.
Muitos
beneficiários estrangeiros evitam entrevistas, com medo de represálias e
ataques nas redes sociais — onde circulam acusações infundadas de que
"estrangeiros estão abusando do sistema".
A
hostilidade aumentou especialmente durante as eleições para a Câmara Alta do
Parlamento, em julho. Diversos candidatos alegaram, de forma falsa, que 33% dos
beneficiários do Seikatsu Hogo seriam estrangeiros. A informação viralizou em
plataformas como o X (antigo Twitter), alimentando discursos de ódio.
Mas os
números oficiais desmentem essa narrativa: segundo o Ministério da Saúde,
Trabalho e Bem-Estar do Japão, em 2023 havia cerca de 1,65 milhão de domicílios
recebendo o benefício — apenas 2,9% (ou 45.973 famílias) eram de estrangeiros.
Alguns
grupos apresentam taxas de dependência mais elevadas por razões históricas e
sociais. É o caso dos zainichi, descendentes de coreanos que migraram ao Japão
antes da Segunda Guerra Mundial e permaneceram no país.
Muitos
envelheceram sem rede de apoio ou acesso à aposentadoria.
Apesar
de sua contribuição à sociedade, esses grupos seguem sendo responsabilizados
pelos custos crescentes da assistência social, em um país onde mais de 30% da
população já tem mais de 65 anos.
"É
essencial discutir as questões sociais do Japão com base em dados confiáveis —
não em fake news", afirma o professor Edson Urano, do programa de
pós-graduação em Políticas Públicas Internacionais da Universidade de Tsukuba.
"A
disseminação de informações distorcidas apenas alimenta a xenofobia,
transformando os estrangeiros em bodes expiatórios de décadas de estagnação
social e econômica."
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O novo rosto da exclusão
Nos
últimos anos, o número de estrangeiros vivendo no Japão ultrapassou 3 milhões,
impulsionado por políticas migratórias que atraem mão de obra para setores como
construção civil, enfermagem e agricultura.
Os
brasileiros, que começaram a chegar em massa nos anos 1990, hoje representam
cerca de 5,6% da população estrangeira no país. Muitos se aproximam da
aposentadoria, mas grande parte nunca contribuiu para o sistema previdenciário
local — o que os deixa fora da rede oficial de proteção social.
O
acordo previdenciário entre Brasil e Japão, em vigor desde 2010, permite a soma
do tempo de contribuição nos dois países. Mas muitos trabalhadores brasileiros
não ingressaram em nenhum dos sistemas, por falta de informação ou orientação.
Outros
grupos, como os peruanos, aguardam há anos por um acordo semelhante. Mas mesmo
que esse acordo venha, já será tarde demais para casos como o de Antonio, de 78
anos.
"Trabalhei
quase 30 anos em fábricas e nunca soube dos meus direitos trabalhistas",
conta.
Ao
completar 70, teve que parar.
"Não
devo nada a ninguém. Sempre paguei todos os impostos. Só não sabia do Seguro
Social", lamenta.
Ele e a
esposa, uma colombiana de 69 anos, conseguiram abrigo no segundo andar de um
prédio cedido por uma igreja em Ota, província de Gunma.
Após
várias entrevistas, conseguiram se mudar para um imóvel público e receber o
Seikatsu Hogo, que gira em torno de 100 mil ienes por mês (equivalente a pouco
mais de dois salários mínimos no Brasil). Mas o valor não acompanha a inflação.
"Cortamos
tudo o que podemos. Por sorte, ainda temos a comunidade que nos ajuda",
diz a esposa.
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A rede de apoio
Uma
dessas redes é a NPO Smile Arigato, uma organização que desde 2022 atua como
banco de alimentos, atendendo sobretudo estrangeiros na região metropolitana de
Tóquio.
Todos
os sábados, voluntários distribuem alimentos e produtos de higiene para idosos
e mães solteiras em situação de vulnerabilidade. São cerca de 450 famílias
atendidas por mês, 70% delas brasileiras.
"Todos
são pré-cadastrados. Verificamos se podem receber ajuda, já que alguns
municípios proíbem apoio extra ou descontam o valor de quem já recebe o
Seikatsu Hogo", explica Akimi Inatomi, voluntária da organização.
"Trabalhamos
em fábricas durante a semana, e aos sábados estamos aqui, fazendo o que
dá", diz a brasileira, enquanto carrega caixas de alimentos no depósito da
organização, em Oizumi, província de Gunma.
O
conteúdo varia conforme as doações, e é geralmente de produtos secos e às vezes
alguns congelados.
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Um dilema nacional
Para
muitos estrangeiros, o paradoxo é evidente: o Japão os recebe como força de
trabalho, mas reluta em integrá-los como parte da sociedade.
"Quando
eu trabalhava 12 horas por dia, ninguém reclamava. Agora que estou velho, dizem
que estou explorando o país", desabafa Antonio.
O
governador de Shizuoka, Yasutomo Suzuki, defende uma mudança de postura.
"Precisamos
reconhecer os estrangeiros não apenas como força de trabalho, mas como membros
das comunidades locais."
Na
Assembleia Nacional de Governadores, em julho, Suzuki propôs que o governo
central assuma a responsabilidade por políticas de inclusão. Antes de ser
governador, ele foi prefeito de Hamamatsu, cidade com a maior população
brasileira do Japão, onde implementou políticas para reduzir a evasão escolar
entre filhos de imigrantes.
Mesmo
assim, a proposta enfrentou resistência. Em poucos dias, o governo de Shizuoka
recebeu cerca de 200 e-mails e ligações contra a ideia. Entre os argumentos
mais repetidos: "É um absurdo usar impostos para apoiar estrangeiros"
e "isso é injusto com os japoneses".
Enquanto
o debate se acirra, histórias como a de Yoshio, Antonio e sua esposa seguem
invisíveis. A casa que sonhavam construir para envelhecer com dignidade ficou
pelo caminho. Os sonhos que os trouxeram ao Japão há três décadas viraram
lembranças.
Hoje,
vivem discretamente, com a ajuda da comunidade e da assistência social. Pedem
apenas para não serem esquecidos.
*Os
nomes dos entrevistados foram alterados a pedido dos mesmos.
Fonte:
BBC News Brasil

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