LAIS
MARTINS: NAZISMO SEM MODERAÇÃO
Um
levantamento inédito revela que, em pleno 2025, há mais de 35 mil
brasileiros membros de comunidades abertas de neonazismo no Telegram – e sem
qualquer restrição.
A
empresa ignora há anos a proliferação e os crimes cometidos dentro da sua
plataforma, mas essa omissão pode acabar graças a uma recente decisão do
Supremo Tribunal Federal, o STF, sobre o regime de responsabilidade das big
techs. É que, a partir de agora, o Telegram deve ser responsabilizado se não
agir preventivamente contra os conteúdos criminosos compartilhados por
usuários.
O
levantamento sobre o grupo de usuários brasileiros em comunidades neonazistas
no Telegram faz parte de uma análise mais ampla realizada pelo pesquisador
Ergon Cugler, do Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e
Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas, a FGV. Cugler mapeou a
existência de comunidades abertas neonazistas em toda a América Latina.
O
Brasil desponta como líder: um em cada quatro usuários identificados na América
Latina é brasileiro – e 64% de todo o conteúdo neonazista mapeado são
compartilhados por usuários do Brasil.
“É
muito fácil encontrar comunidades nazistas no Telegram. Basta digitar alguns
termos genéricos na busca e aparecem canais e grupos abertos com símbolos,
frases e conteúdos declaradamente inspirados no nazismo. Não é preciso convite,
nem indicação”, explica Cugler ao Intercept Brasil.
“A
plataforma permite que esses espaços estejam visíveis, acessíveis e
organizados, como se não houvesse nada irregular. Isso tira qualquer ideia de
que o extremismo vive escondido. Ele está à mostra”, destaca.
A
análise mostra que o pico de atividade destas comunidades se deu por volta de
2021, durante a pandemia da covid-19, mas que elas seguem em uso ainda hoje,
apesar da redução na disseminação diária de conteúdos. Em 2022, o Intercept
mostrou como canais antivacina no Telegram estavam
se tornando celeiros de neonazistas.
“Essas
comunidades não dependem de frequência. Elas se mantêm abertas, disponíveis e
estruturadas. Isso mostra que o Telegram abriga não só redes de conversa, mas
arquivos permanentes de conteúdo neonazista, prontos para servir a novos ciclos
de radicalização”, alerta Cugler.
Mas o
problema é ainda mais perigoso, pois o Telegram também tem funcionado como um
funil de radicalização – e com um empurrão do algoritmo. Isso ocorre porque, em
abril de 2024, a empresa implementou uma mudança na plataforma que, segundo
Cugler, “transforma a radicalização em produto”: os canais recomendados. Na
prática, o Telegram passou a recomendar canais cujo conteúdo é semelhante aos
canais que um usuário já participa.
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‘A estrutura do aplicativo transforma a radicalização em produto’.
“As
recomendações de canais são baseadas somente no tópico geral de canais que você
já segue”, escreveu o Telegram ao fazer o anúncio dos canais
recomendados. Logo, se um usuário participa de canais neonazistas ou que tenham
algum tipo de conteúdo neonazista, receberá sugestões para entrar em outros com
o mesmo teor.
Para
usuários que pagam o Telegram Premium, que custa R$ 15,90 por mês, a plataforma
desbloqueia ainda mais sugestões de canais. “Isso significa que o Telegram
fatura com a exposição de conteúdos neonazistas. A estrutura do aplicativo
transforma a radicalização em produto. Ela opera como um motor de recomendação
contínua que empurra o usuário para dentro de uma rede”, pontua Cugler.
O
Intercept enviou questões para o Telegram, por meio da assessoria de imprensa,
mas não houve resposta até a publicação desta reportagem. Entramos em contato
também com o escritório Valeska Lourenção Advogados, que representa a empresa
em ações judiciais, mas a firma disse que não tem “poderes, tampouco
autorização para responder em nome do cliente”.
Também
fizemos questionamentos e encaminhamos uma lista dos grupos identificados no
monitoramento para o STF e para a Procuradoria Nacional da União de Defesa da
Democracia. Não houve resposta até a publicação da reportagem.
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Novo regime é fruto da omissão do Congresso e ainda tem lacunas
A
decisão do STF que pode finalmente punir o Telegram por conteúdos criminosos
que circulam na plataforma foi tomada em julho, quando o Supremo decidiu pela
inconstitucionalidade parcial do artigo 19 do Marco Civil da Internet, que até
então estabelecia que plataformas só poderiam ser responsabilizadas por
conteúdos de terceiros quando deixassem de cumprir uma decisão judicial de
remoção do conteúdo.
Os
ministros entenderam que esse regime é insuficiente para algumas situações
específicas, como condutas e atos antidemocráticos, crimes de terrorismo,
incitação à discriminação por raça, cor, etnia, religião, procedência nacional,
sexualidade ou identidade de gênero, entre outros.
“Em
todas essas condutas, passa a ser obrigatório o dever de cuidado das
plataformas para não promover ativamente esse tipo de conteúdo” esclarece
Yasmin Curzi, professora da FGV-Rio e pesquisadora de pós-doutorado da
University of Virginia.
“As
plataformas passam a ter um dever ativo de evitar a circulação desse conteúdo
e, se não fizerem, podem vir a ser responsáveis solidariamente, de acordo com a
regra do artigo 21, a partir da notificação, se não agirem em tempo hábil para
remoção”, afirma.
A
decisão do STF foi tomada diante da omissão do Congresso em legislar sobre o
tema. Todo projeto de lei que trata da regulação de plataformas e passou pelas
comissões e grupos de trabalho da Câmara dos Deputados nos últimos anos
fracassou – em boa parte devido a um lobby ferrenho das big techs.
Lobby
esse que teve a participação direta do Telegram. Em maio de 2023, por exemplo,
o Telegram fez um disparo em massa para todos os
usuários brasileiros com uma mensagem em que criticava o projeto de lei 2630, o
chamado PL das Fake News. A plataforma foi obrigada a apagar a mensagem e se retratar
após uma ordem do ministro Alexandre de Moraes.
A
decisão do Supremo sobre o artigo 19 do Marco Civil da Internet, porém, ainda
deixa algumas lacunas que precisam ser preenchidas, avalia Curzi. Um exemplo
disso é que não há distinção entre provedores de aplicação – ou seja, sem
mais detalhamento, o Telegram e a Wikipédia poderiam estar sujeitos às mesmas
regras, mesmo sendo muito diferentes.
Outro
ponto que precisa ser esclarecido é o dever de cuidado, um conceito ainda não
sistematizado na legislação brasileira. Segundo Curzi, as empresas aguardam a
definição dessas lacunas antes de tomar ações para ficar em conformidade com o
novo regime. Além disso, ainda existe a possibilidade das empresas entrarem com
um recurso – embargos de declaração – caso entendam que a tese do STF não ficou
suficientemente clara.
“Mas
não acho que seja esse o caso do Telegram. O Telegram vai continuar desafiando
porque é o que o Telegram faz em qualquer país”, ressalta a pesquisadora.
Em
agosto de 2024, o CEO do Telegram, Pavel Durov, foi detido e acusado na França de
permitir atividades criminosas em seu aplicativo, incluindo a disseminação de
imagens de exploração sexual infantil, tráfico de drogas e fraude.
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‘Não acho que o Telegram vai fazer um ativo monitoramento das conversas’.
Mas o
Brasil é um contexto particularmente sensível para o Telegram. Em abril de
2023, a plataforma foi bloqueada por decisão judicial após se recusar
a colaborar integralmente com a investigação de um ataque a uma escola em
Aracruz, no Espírito Santo. O adolescente que cometeu o ataque, no qual quatro
pessoas morreram, participava de pelo menos dois grupos com perfil neonazista no
Telegram, segundo investigação da Polícia Federal.
No mês
seguinte, a plataforma ficou de novo na berlinda depois de um ultimato do
ministro Alexandre de Moraes para que indicasse um representante legal no país
– ou teria o serviço suspenso novamente. Na época, o Telegram era investigado
pelo disparo em massa contra o PL das Fake News – e a plataforma cumpriu a
ordem de Moraes.
Apesar
disso, Curzi, da FGV, é cética quanto à disposição do Telegram de cumprir com o
novo regime de responsabilidade de provedores. “Eu não acho que o Telegram vai
fazer um ativo monitoramento das conversas, mas aí também não sei o que eles
podem dizer em sua defesa. A gente sabe que o Telegram também não tem uma
criptografia de ponta-a-ponta como é o WhatsApp”, explica.
Na
prática, isso significa que a empresa não pode alegar que não tem capacidade
técnica de fazer esse monitoramento ativo – um pretexto que está previsto pelo
Supremo na tese do novo regime.
¨ Centenas de
ex-espiões israelenses podem acessar seus dados. Por Murtaza Hussain
No
final de julho, a empresa Palo Alto Networks (PANW), gigante de
cibersegurança dos EUA, anunciou que havia adquirido a empresa israelense de
gestão de identidade e segurança da informação CyberArk, por um impressionante
valor de 25 bilhões de dólares em dinheiro e ações. Além de possivelmente
injetar bilhões de dólares na economia israelense, a aquisição da CyberArk pela
Palo Allto Networks fortalece ainda mais a relação entre o Vale do Silício e o
aparato de inteligência de segurança de Israel.
A Palo
Alto é uma das maiores empresas de cibersegurança do mundo, e fornece proteção
de infraestrutura, firewalls e serviços de segurança em nuvem para dezenas de
milhares de empresas internacionalmente. Udi Mokady, fundador e presidente
executivo da CyberArk, é egresso da Unidade 8200, a divisão de elite de
inteligência de sinais da Direção de Inteligência Militar de Israel. Da mesma
forma, os quatro fundadores da Wiz, a empresa israelense de computação em nuvem
recentemente adquirida pelo Google por 32 bilhões de dólares (175 bilhões de
reais). E também o fundador e diretor de tecnologia da Palo Alto, Nir Zuk.
A
expansão da Palo Alto se deu por meio de uma série de aquisições de grande
repercussão ao longo da última década, às vezes pagando bilhões de
dólares por startups com o objetivo de ampliar sua oferta de cibersegurança.
Quase metade dessas aquisições envolveu empresas com origem na inteligência
israelense, despertando receios sobre o acesso ao enorme volume de dados do
mundo inteiro que a empresa é responsável por proteger. A Palo Alto Networks
não respondeu ao pedido de comentários do Drop Site News.
Algumas
dessas empresas adquiridas –– LightCyber, Dig Security, Talon Cybersecurity,
Secdo, e Bridgecrew –– foram fundadas e dirigidas por veteranos da Unidade 8200
publicamente identificados. Outras grandes aquisições incluem Cyvera,
Twistlock, e Puresec, cujos fundadores também vieram das “unidades
cibernéticas, de inteligência e de comando” das Forças de Defesa de Israel.
“Essas
aquisições são uma forma de tirar as pessoas da Unidade 8200 em Israel, e
colocá-las em cargos influentes na indústria tecnológica dos EUA”, diz Paul
Biggar, fundador das startups de tecnologia CircleCI e Darklang, e líder do
grupo ativista Tech for Palestine. “Essas empresas lidam com dados dos clientes
dos seus clientes. Se você é um banco, e está usando a Palo Alto Networks, os
dados sobre os seus clientes e as suas transações estão passando por servidores
controlados por espiões, ou ex-espiões.”
Em
junho de 2025, mais de 1.400 veteranos da inteligência israelense estavam
trabalhando no setor de tecnologia dos EUA –– e 900 deles vinham todos da
Unidade 8200. Esses números são provenientes de um banco de dados de pessoas
que se identificam publicamente, em seus perfis do LinkedIn, como, ao mesmo
tempo, ex-oficiais de inteligência israelenses e empregados de tecnologia nos
EUA.
O banco
de dados foi reunido por um pesquisador independente, que permanecerá anônimo
por questões de segurança pessoal, e apelidou o banco de dados de rede de
influência “Missão Águia”. As 1.400 pessoas se autoidentificam como veteranos
ou integrantes da reserva ativa da Unidade 8200, da inteligência militar
israelense, e da Direção de Defesa Cibernética das Forças de Defesa de Israel,
e trabalham em cargos de engenharia e segurança, em nível intermediário e
sêrnior, em grandes empresas de tecnologia dos EUA com escritórios em Israel,
nos EUA, e na Europa. O Drop Site fez uma verificação cruzada de vários
registros do banco de dados, para avaliar a precisão.
“Isso
não significa que toda pessoa que já serviu na Unidade 8200 seja um espião
israelense tentando enviar dados sigilosos de volta para Tel Aviv”, destacou o
pesquisador. “Mas cria uma vulnerabilidade grave. Nenhum outro país tem esse
tipo de acesso ao setor tecnológico dos EUA. Ficamos obcecados com o
envolvimento chinês na indústria tecnológica e nos preocupamos com espionagem
empresaria, mas a infiltração israelense raramente é mencionada.”
A
gigante mundial de tecnologia Microsot é um dos mais importantes empregadores
de egressos da Unidade 8200. A empresa emprega aproximadamente 250 veteranos da
unidade, ao lado de outras grandes multinacionais, como Nvidia, Meta, Google,
Intel e Apple, muitas das quais empregam dezenas de indivíduos provenientes da
unidade. Recentemente, foi revelado que a Microsoft teve estreita colaboraçã
com os líderes da Unidade 8200 sobre a criação de serviços de nuvem destinados
a armazenar milhões de comunicações privadas de palestinos que vivem sob
ocupação milita na Cisjordânia e em Gaza. A Microsoft não quis comentar.
O
acordo de aquisição da CyberArk atraiu críticas de alguns analistas de
investimento –– e as ações da Palo Alto Network caíram logo em seguida –– mas
os laços de inteligência não foram sequer mencionados em declarações públicas
sobre a aquisição.
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‘Valores Semelhantes, Culturas Fortes’
A
Unidade 8200 é uma parte essencial do aparato militar israelense, inclusive no
atual genocídio na Faixa de Gaza. Além de realizar vigilância eletrônica das
comunicações, a unidade tem se envolvido na criação de programas gerados por IA
para seleção de alvos em Gaza. Ela informa os alvos a operadores humanos para
criar o que um ex-oficial de inteligência israelense chamou de “fábrica de
assassinato em massa”, algumas vezes aprovando a matança de centenas de civis
para atingir um único indivíduo, que supostamente seria comandante do Hamas.
Além da
colaboração com as gigantes da tecnologia para ajudar a executar o genocídio em
Gaza, a Unidade 8200 vem desenvolvendo tecnologias de vigilância para monitorar
e controlar a população da Cisjordânia, incluindo, mais recentemente, a criação
de grandes modelos de linguagem (LLMs) treinados em milhões de conversas de
palestinos que vivem sob ocupação israelense no território.
Em seu
comunicado de imprensa anunciando a aquisição, a Palo Alto destacou a
expectativa de que CyberArk desempenhe um papel no desenvolvimento de sua
própria cibersegurança movida a IA e de plataformas de gestão de identidade, e
afirmou que a aquisição deve “unir duas líderes da área de segurança com
valores semelhantes, culturas fortes, e equipes talentosas”.
Fonte:
The Intercept

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