quarta-feira, 27 de agosto de 2025

LAIS MARTINS: NAZISMO SEM MODERAÇÃO

Um levantamento inédito revela que, em pleno 2025, há mais de 35 mil brasileiros membros de comunidades abertas de neonazismo no Telegram – e sem qualquer restrição.

A empresa ignora há anos a proliferação e os crimes cometidos dentro da sua plataforma, mas essa omissão pode acabar graças a uma recente decisão do Supremo Tribunal Federal, o STF, sobre o regime de responsabilidade das big techs. É que, a partir de agora, o Telegram deve ser responsabilizado se não agir preventivamente contra os conteúdos criminosos compartilhados por usuários.

O levantamento sobre o grupo de usuários brasileiros em comunidades neonazistas no Telegram faz parte de uma análise mais ampla realizada pelo pesquisador Ergon Cugler, do Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas, a FGV. Cugler mapeou a existência de comunidades abertas neonazistas em toda a América Latina.

O Brasil desponta como líder: um em cada quatro usuários identificados na América Latina é brasileiro – e 64% de todo o conteúdo neonazista mapeado são compartilhados por usuários do Brasil. 

“É muito fácil encontrar comunidades nazistas no Telegram. Basta digitar alguns termos genéricos na busca e aparecem canais e grupos abertos com símbolos, frases e conteúdos declaradamente inspirados no nazismo. Não é preciso convite, nem indicação”, explica Cugler ao Intercept Brasil. 

“A plataforma permite que esses espaços estejam visíveis, acessíveis e organizados, como se não houvesse nada irregular. Isso tira qualquer ideia de que o extremismo vive escondido. Ele está à mostra”, destaca.

A análise mostra que o pico de atividade destas comunidades se deu por volta de 2021, durante a pandemia da covid-19, mas que elas seguem em uso ainda hoje, apesar da redução na disseminação diária de conteúdos. Em 2022, o Intercept mostrou como canais antivacina no Telegram estavam se tornando celeiros de neonazistas

“Essas comunidades não dependem de frequência. Elas se mantêm abertas, disponíveis e estruturadas. Isso mostra que o Telegram abriga não só redes de conversa, mas arquivos permanentes de conteúdo neonazista, prontos para servir a novos ciclos de radicalização”, alerta Cugler. 

Mas o problema é ainda mais perigoso, pois o Telegram também tem funcionado como um funil de radicalização – e com um empurrão do algoritmo. Isso ocorre porque, em abril de 2024, a empresa implementou uma mudança na plataforma que, segundo Cugler, “transforma a radicalização em produto”: os canais recomendados. Na prática, o Telegram passou a recomendar canais cujo conteúdo é semelhante aos canais que um usuário já participa. 

<><> ‘A estrutura do aplicativo transforma a radicalização em produto’.

“As recomendações de canais são baseadas somente no tópico geral de canais que você já segue”, escreveu o Telegram ao fazer o anúncio dos canais recomendados. Logo, se um usuário participa de canais neonazistas ou que tenham algum tipo de conteúdo neonazista, receberá sugestões para entrar em outros com o mesmo teor.

Para usuários que pagam o Telegram Premium, que custa R$ 15,90 por mês, a plataforma desbloqueia ainda mais sugestões de canais. “Isso significa que o Telegram fatura com a exposição de conteúdos neonazistas. A estrutura do aplicativo transforma a radicalização em produto. Ela opera como um motor de recomendação contínua que empurra o usuário para dentro de uma rede”, pontua Cugler.

O Intercept enviou questões para o Telegram, por meio da assessoria de imprensa, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem. Entramos em contato também com o escritório Valeska Lourenção Advogados, que representa a empresa em ações judiciais, mas a firma disse que não tem “poderes, tampouco autorização para responder em nome do cliente”.

Também fizemos questionamentos e encaminhamos uma lista dos grupos identificados no monitoramento para o STF e para a Procuradoria Nacional da União de Defesa da Democracia. Não houve resposta até a publicação da reportagem.

<><> Novo regime é fruto da omissão do Congresso e ainda tem lacunas 

A decisão do STF que pode finalmente punir o Telegram por conteúdos criminosos que circulam na plataforma foi tomada em julho, quando o Supremo decidiu pela inconstitucionalidade parcial do artigo 19 do Marco Civil da Internet, que até então estabelecia que plataformas só poderiam ser responsabilizadas por conteúdos de terceiros quando deixassem de cumprir uma decisão judicial de remoção do conteúdo. 

Os ministros entenderam que esse regime é insuficiente para algumas situações específicas, como condutas e atos antidemocráticos, crimes de terrorismo, incitação à discriminação por raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, sexualidade ou identidade de gênero, entre outros. 

“Em todas essas condutas, passa a ser obrigatório o dever de cuidado das plataformas para não promover ativamente esse tipo de conteúdo” esclarece Yasmin Curzi, professora da FGV-Rio e pesquisadora de pós-doutorado da University of Virginia. 

“As plataformas passam a ter um dever ativo de evitar a circulação desse conteúdo e, se não fizerem, podem vir a ser responsáveis solidariamente, de acordo com a regra do artigo 21, a partir da notificação, se não agirem em tempo hábil para remoção”, afirma. 

A decisão do STF foi tomada diante da omissão do Congresso em legislar sobre o tema. Todo projeto de lei que trata da regulação de plataformas e passou pelas comissões e grupos de trabalho da Câmara dos Deputados nos últimos anos fracassou – em boa parte devido a um lobby ferrenho das big techs.

Lobby esse que teve a participação direta do Telegram. Em maio de 2023, por exemplo, o Telegram fez um disparo em massa para todos os usuários brasileiros com uma mensagem em que criticava o projeto de lei 2630, o chamado PL das Fake News. A plataforma  foi obrigada a apagar a mensagem e se retratar após uma ordem do ministro Alexandre de Moraes. 

A decisão do Supremo sobre o artigo 19 do Marco Civil da Internet, porém, ainda deixa algumas lacunas que precisam ser preenchidas, avalia Curzi. Um exemplo disso é que  não há distinção entre provedores de aplicação – ou seja, sem mais detalhamento, o Telegram e a Wikipédia poderiam estar sujeitos às mesmas regras, mesmo sendo muito diferentes. 

Outro ponto que precisa ser esclarecido é o dever de cuidado, um conceito ainda não sistematizado na legislação brasileira. Segundo Curzi, as empresas aguardam a definição dessas lacunas antes de tomar ações para ficar em conformidade com o novo regime. Além disso, ainda existe a possibilidade das empresas entrarem com um recurso – embargos de declaração – caso entendam que a tese do STF não ficou suficientemente clara. 

“Mas não acho que seja esse o caso do Telegram. O Telegram vai continuar desafiando porque é o que o Telegram faz em qualquer país”, ressalta a pesquisadora.

Em agosto de 2024, o CEO do Telegram, Pavel Durov, foi detido e acusado na França de permitir atividades criminosas em seu aplicativo, incluindo a disseminação de imagens de exploração sexual infantil, tráfico de drogas e fraude. 

<><> ‘Não acho que o Telegram vai fazer um ativo monitoramento das conversas’.

Mas o Brasil é um contexto particularmente sensível para o Telegram. Em abril de 2023, a plataforma foi bloqueada por decisão judicial após se recusar a colaborar integralmente com a investigação de um ataque a uma escola em Aracruz, no Espírito Santo. O adolescente que cometeu o ataque, no qual quatro pessoas morreram, participava de pelo menos dois grupos com perfil neonazista no Telegram, segundo investigação da Polícia Federal. 

No mês seguinte, a plataforma ficou de novo na berlinda depois de um ultimato do ministro Alexandre de Moraes para que indicasse um representante legal no país – ou teria o serviço suspenso novamente. Na época, o Telegram era investigado pelo disparo em massa contra o PL das Fake News – e a plataforma cumpriu a ordem de Moraes. 

Apesar disso, Curzi, da FGV, é cética quanto à disposição do Telegram de cumprir com o novo regime de responsabilidade de provedores. “Eu não acho que o Telegram vai fazer um ativo monitoramento das conversas, mas aí também não sei o que eles podem dizer em sua defesa. A gente sabe que o Telegram também não tem uma criptografia de ponta-a-ponta como é o WhatsApp”, explica.

Na prática, isso significa que a empresa não pode alegar que não tem capacidade técnica de fazer esse monitoramento ativo – um pretexto que está previsto pelo Supremo na tese do novo regime.

¨      Centenas de ex-espiões israelenses podem acessar seus dados. Por Murtaza Hussain

No final de julho, a empresa Palo Alto Networks (PANW), gigante de cibersegurança dos EUA, anunciou que havia adquirido a empresa israelense de gestão de identidade e segurança da informação CyberArk, por um impressionante valor de 25 bilhões de dólares em dinheiro e ações. Além de possivelmente injetar bilhões de dólares na economia israelense, a aquisição da CyberArk pela Palo Allto Networks fortalece ainda mais a relação entre o Vale do Silício e o aparato de inteligência de segurança de Israel.

A Palo Alto é uma das maiores empresas de cibersegurança do mundo, e fornece proteção de infraestrutura, firewalls e serviços de segurança em nuvem para dezenas de milhares de empresas internacionalmente. Udi Mokady, fundador e presidente executivo da CyberArk, é egresso da Unidade 8200, a divisão de elite de inteligência de sinais da Direção de Inteligência Militar de Israel. Da mesma forma, os quatro fundadores da Wiz, a empresa israelense de computação em nuvem recentemente adquirida pelo Google por 32 bilhões de dólares (175 bilhões de reais). E também o fundador e diretor de tecnologia da Palo Alto, Nir Zuk.

A expansão da Palo Alto se deu por meio de uma série de aquisições de grande repercussão ao longo da última década, às vezes pagando bilhões  de dólares por startups com o objetivo de ampliar sua oferta de cibersegurança. Quase metade dessas aquisições envolveu empresas com origem na inteligência israelense, despertando receios sobre o acesso ao enorme volume de dados do mundo inteiro que a empresa é responsável por proteger. A Palo Alto Networks não respondeu ao pedido de comentários do Drop Site News.

Algumas dessas empresas adquiridas –– LightCyber, Dig Security, Talon Cybersecurity, Secdo, e Bridgecrew –– foram fundadas e dirigidas por veteranos da Unidade 8200 publicamente identificados. Outras grandes aquisições incluem Cyvera, Twistlock, e Puresec, cujos fundadores também vieram das “unidades cibernéticas, de inteligência e de comando” das Forças de Defesa de Israel.

“Essas aquisições são uma forma de tirar as pessoas da Unidade 8200 em Israel, e colocá-las em cargos influentes na indústria tecnológica dos EUA”, diz Paul Biggar, fundador das startups de tecnologia CircleCI e Darklang, e líder do grupo ativista Tech for Palestine. “Essas empresas lidam com dados dos clientes dos seus clientes. Se você é um banco, e está usando a Palo Alto Networks, os dados sobre os seus clientes e as suas transações estão passando por servidores controlados por espiões, ou ex-espiões.”

Em junho de 2025, mais de 1.400 veteranos da inteligência israelense estavam trabalhando no setor de tecnologia dos EUA –– e 900 deles vinham todos da Unidade 8200. Esses números são provenientes de um banco de dados de pessoas que se identificam publicamente, em seus perfis do LinkedIn, como, ao mesmo tempo, ex-oficiais de inteligência israelenses e empregados de tecnologia nos EUA.

O banco de dados foi reunido por um pesquisador independente, que permanecerá anônimo por questões de segurança pessoal, e apelidou o banco de dados de rede de influência “Missão Águia”. As 1.400 pessoas se autoidentificam como veteranos ou integrantes da reserva ativa da Unidade 8200, da inteligência militar israelense, e da Direção de Defesa Cibernética das Forças de Defesa de Israel, e trabalham em cargos de engenharia e segurança, em nível intermediário e sêrnior, em grandes empresas de tecnologia dos EUA com escritórios em Israel, nos EUA, e na Europa. O Drop Site fez uma verificação cruzada de vários registros do banco de dados, para avaliar a precisão.

“Isso não significa que toda pessoa que já serviu na Unidade 8200 seja um espião israelense tentando enviar dados sigilosos de volta para Tel Aviv”, destacou o pesquisador. “Mas cria uma vulnerabilidade grave. Nenhum outro país tem esse tipo de acesso ao setor tecnológico dos EUA. Ficamos obcecados com o envolvimento chinês na indústria tecnológica e nos preocupamos com espionagem empresaria, mas a infiltração israelense raramente é mencionada.”

A gigante mundial de tecnologia Microsot é um dos mais importantes empregadores de egressos da Unidade 8200. A empresa emprega aproximadamente 250 veteranos da unidade, ao lado de outras grandes multinacionais, como Nvidia, Meta, Google, Intel e Apple, muitas das quais empregam dezenas de indivíduos provenientes da unidade. Recentemente, foi revelado que a Microsoft teve estreita colaboraçã com os líderes da Unidade 8200 sobre a criação de serviços de nuvem destinados a armazenar milhões de comunicações privadas de palestinos que vivem sob ocupação milita na Cisjordânia e em Gaza. A Microsoft não quis comentar.

O acordo de aquisição da CyberArk atraiu críticas de alguns analistas de investimento –– e as ações da Palo Alto Network caíram logo em seguida –– mas os laços de inteligência não foram sequer mencionados em declarações públicas sobre a aquisição.

<><> ‘Valores Semelhantes, Culturas Fortes’

A Unidade 8200 é uma parte essencial do aparato militar israelense, inclusive no atual genocídio na Faixa de Gaza. Além de realizar vigilância eletrônica das comunicações, a unidade tem se envolvido na criação de programas gerados por IA para seleção de alvos em Gaza. Ela informa os alvos a operadores humanos para criar o que um ex-oficial de inteligência israelense chamou de “fábrica de assassinato em massa”, algumas vezes aprovando a matança de centenas de civis para atingir um único indivíduo, que supostamente seria comandante do Hamas.

Além da colaboração com as gigantes da tecnologia para ajudar a executar o genocídio em Gaza, a Unidade 8200 vem desenvolvendo tecnologias de vigilância para monitorar e controlar a população da Cisjordânia, incluindo, mais recentemente, a criação de grandes modelos de linguagem (LLMs) treinados em milhões de conversas de palestinos que vivem sob ocupação israelense no território.

Em seu comunicado de imprensa anunciando a aquisição, a Palo Alto destacou a expectativa de que CyberArk desempenhe um papel no desenvolvimento de sua própria cibersegurança movida a IA e de plataformas de gestão de identidade, e afirmou que a aquisição deve “unir duas líderes da área de segurança com valores semelhantes, culturas fortes, e equipes talentosas”.

 

Fonte: The Intercept

 

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