quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Lições do Marechal Pétain para o bolsonarismo

“Quando nossos jovens […] entrarem na vida […] lhes diremos […]: que a verdadeira liberdade só pode exercer-se sob a proteção de uma autoridade tutelar, que eles devem respeitar, à qual devem obedecer […]. Em seguida, lhes diremos que a igualdade [deve] circunscrever-se dentro de uma hierarquia, fundada na diversidade de funções e méritos […]. Finalmente, lhes diremos que não pode haver verdadeira fraternidade senão dentro desses grupos naturais que são a família, a cidade, a Pátria.”

Essas palavras foram pronunciadas por uma das figuras mais controversas da história: Philippe Pétain, marechal francês. Foram ditas em setembro de 1940. A França acabava de ser invadida e derrotada pela Alemanha nazista em poucas semanas de campanha militar. O governo republicano havia se desfeito, Paris estava ocupada, e a Assembleia Nacional transferira poderes quase absolutos ao velho herói de Verdun, o general de 84 anos celebrado na Primeira Guerra Mundial como símbolo da resistência. Aclamado como salvador da pátria em colapso, Pétain assumiu em Vichy a chefia de um Estado autoritário, disposto a renegar a herança da Revolução Francesa e a reescrever os fundamentos da vida política sob a sombra da ocupação alemã.

O marechal de Verdun, convertido em chefe de Estado, falava como guardião de uma ordem antiga. A derrota fulminante e o armistício assinado em Compiègne abriram caminho para que fosse investido de poderes quase absolutos. Legitimado pela aura militar e pela promessa de regenerar a nação, proclamou um novo lema — Travail, Famille, Patrie — em substituição à tríade revolucionária. A refundação autoritária se anunciava ali: a herança republicana era varrida para dar lugar a um tripé de obediência, hierarquia e enraizamento patriarcal, apresentados como cura para o trauma da derrota.

Esse lema espalhou-se como tatuagem no corpo da França ocupada. Estava em cartazes de propaganda, nas fachadas das prefeituras, em moedas e nos livros escolares. Era a pedagogia de um regime que queria ser fundador, não apenas administrador de ruínas e de uma vergonhosa derrota. A “família” legitimava a moral conservadora e a perseguição a qualquer desvio; o “trabalho” disciplinava operários e camponeses em nome de uma ordem produtiva alinhada à Alemanha; a “pátria” era invocada para silenciar opositores e naturalizar a obediência. Enquanto a liturgia moldava a vida cotidiana, a repressão política e policial eliminava dissidentes e perseguia judeus, comunistas e resistentes.

A República de Vichy foi um dos casos mais graves de entreguismo e subserviência de um Estado diante de outro. Aceitou a tutela alemã combatendo a própria resistência local, colaborou ativamente na perseguição aos judeus, entregou trabalhadores franceses ao esforço de guerra nazista, dissolveu garantias republicanas em troca de uma sobrevida administrada. Essa submissão não foi apenas militar, mas política e moral: o regime reescreveu a identidade nacional para ajustá-la à ordem hitlerista, reduzindo a França a protetorado ideológico do Reich. Na prática, facilitou à máquina de morte nazista avançar sem amarras.

Essa iconoclastia da República de Vichy contra o legado de 1789 não nasceu naquele momento. Faz parte de um fio reacionário longo, que atravessava monarquistas, católicos entreguistas e nacionalistas sempre prontos a transformar a Revolução em bode expiatório. Hoje, vemos a mesma operação em escala global: a igualdade é apresentada como ameaça à ordem, a liberdade é redefinida como obediência a uma autoridade forte, a fraternidade é encolhida até caber em identidades exclusivas — família, nação, religião. Em períodos de crise, a fórmula retorna: em vez de memória de emancipação, slogans que evocam segurança e pertencimento, embalando projetos autoritários com a retórica da tradição.

As palavras de Pétain se traduzem com clareza na gramática da extrema-direita contemporânea. A “autoridade tutelar” reaparece na exaltação de líderes fortes, no culto ao “mito” ou ao “pai da nação”, e na ideia de que a liberdade só existe sob a tutela de um chefe providencial. A igualdade confinada à hierarquia sobrevive no discurso da meritocracia seletiva, que celebra “vencedores” enquanto naturaliza a precariedade e culpa os pobres pela própria condição. Já a fraternidade reduzida à família, à cidade e à pátria se traduz na defesa de uma moral rígida, na perseguição de minorias, na vigilância sobre corpos e sexualidades, e no uso da bandeira nacional como instrumento de intimidação e exclusão.

No Brasil, essa lógica se manifesta em práticas e símbolos: slogans como “família acima de tudo, Deus acima de todos” — herança do fascismo mussolinista —; a militarização da vida política; a demonização de movimentos sociais e da diversidade; a nostalgia de uma ordem autoritária apresentada como “remédio contra o caos”. Tudo isso compõe a mesma engrenagem ideológica que sustentou Vichy: substituir a promessa universal da democracia por um idioma de medo, disciplina e exclusão, travestido de tradição e patriotismo.

E, no centro desse projeto, está o entreguismo — traço visceral da República de Vichy, que aceitava a submissão ao invasor como destino inevitável e convertia a renúncia à soberania em virtude. Eis a advertência que atravessa o tempo: onde o entreguismo se instala como prática de governo, a soberania nacional é sacrificada, e com ela se dissolve também a democracia.

•        Soberania é... Por Oliveiros Marques

Ironicamente, o que me vem à mente é uma campanha publicitária que se tornou ícone da influência cultural norte-americana mundo afora. Sim, os mais experientes já devem ter percebido pelo título. Refiro-me à ação promocional da Coca-Cola, nos anos 70, em que tampinhas, copos e outros produtos estampavam bonequinhos acompanhados da frase: “Amar é…”

E assim como penso que o amor precisa deva traduzir em gestos concretos, acredito que soberania - conceito que deve ser centro do discurso do governo federal e do seu campo político no período próximo - também precise ser materializado em práticas e símbolos capazes de torná-lo melhor percebido pela imensa maioria da população.

Por exemplo, soberania é gerar empregos, protegendo o País contra o tarifaço imposto pelo governo Trump, apoiado de forma criminosa por representantes da direita brasileira, tendo como porta-voz o filho 03 do inelegível.

Soberania é garantir que o nosso sistema judicial siga independente, livre de interferências de outros Poderes e imune a qualquer ingerência estrangeira.

Soberania é assegurar que a democracia brasileira continue amadurecendo e resistindo às tentativas de golpe contra o Estado Democrático de Direito - como o que foi planejado e colocado em movimento por extremistas bolsonaristas, e que teve em 8 de janeiro de 2023 sua face mais visível, mas não o seu fim, já que muitos de seus crimes seguem tendo continuidade a partir do exterior.

Soberania é regular as big techs, cobrar suas responsabilidades e impedir que a sociedade brasileira seja vítima do “tecnofeudalismo” que essas empresas tentam impor ao mundo. É proteger nossas crianças, defender nossos jovens e resguardar nossos valores democráticos.

Soberania é garantir o desenvolvimento do Brasil com cada vez mais parceiros comerciais, fortalecendo as relações Sul-Sul e com todos os países que apostam no multilateralismo como um jogo de ganha-ganha, e não como a tentativa de imposição de um novo colonialismo.

Soberania é mais comida na mesa, mais empregos, melhor educação, saúde para todos, respeito às diferenças e patrocínio da igualdade, uma sociedade mais segura. É fazer hoje para que tenhamos mundo para as futuras gerações.

Soberania, enfim, é amar o Brasil, amar os brasileiros e brasileiras, acima de qualquer interesse mesquinho.

•        Lula reafirma soberania e diz que Brasil não aceitará ofensas dos EUA

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, declarou nesta terça-feira (26/08) que o Brasil não aceitará “desaforo, ofensas e petulância de ninguém”, referindo-se à guerra tarifária do governo dos Estados Unidos.

A declaração, realizada na segunda reunião ministerial de 2025, foi acompanhada de uma orientação do mandatário brasileiro aos seus ministros: para que defendam a soberania do país em seus discursos públicos.

“É importante que cada ministro, nas falas que fizerem daqui para frente, façam questão de retratar a soberania desse país. Nós aceitamos relações cordiais com o mundo inteiro, mas não aceitamos desaforo e ofensas, petulância de ninguém. Se gostássemos de imperador, o Brasil ainda seria monarquia. Mas queremos esse país democrático e soberano”, acrescentou.

Mesmo classificando a política econômica do governo dos Estados Unidos, presidido por Donald Trump, como “descabidas”, Lula disse que o Brasil segue à disposição para negociar as questões comerciais.

“Estamos dispostos a sentar na mesa em igualdade de condições. O que não estamos dispostos é sermos tratados como se fôssemos subalternos. Isso nós não aceitamos de ninguém. É importante saber que o nosso compromisso é com o povo brasileiro”, disse Lula.

<><> Impacto do tarifaço no comércio brasileiro

Durante a reunião ministerial, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, que está à frente das negociações sobre o tarifaço, também apresentou números atualizados sobre o impacto das medidas norte-americanas no comércio brasileiro.

Segundo ele, 35,6% de todas as exportações do Brasil para os EUA estão sob uma tarifa de 50%. Isso significa que para que os produtos brasileiros cheguem ao mercado norte-americano, os importadores do país precisarão pagar 50% a mais, aumento que é repassado no valor final ao consumidor.

Além disso, Alckmin explicou que 23,2% das exportações ao país norte-americano são taxados de acordo com a Seção 232 da Lei de Expansão Comercial norte-americana, que é aplicada a todos os países, com exceção do Reino Unido. Para aço, alumínio e cobre, por exemplo, a tarifa é de 50%; automóveis e autopeças são taxados em 25%.

O restante dos 41,3% de produtos exportados aos EUA tem uma tarifa de 10%.

“O presidente Lula tem orientado diálogo permanente e soberania. O Brasil não abre mão da sua soberania, do Estado de Direito, e da separação dos poderes, que é a peça basilar da democracia e, ao mesmo tempo, negociação e diálogo para a gente corrigir essa absoluta distorção da política regulatória”, acrescentou.

Ainda nesta terça-feira, Alckmin e outros ministros embarcam para uma viagem ao México, para tratar do potencial de ampliação do comércio entre os dois países. Segundo ele, há possibilidades nas áreas agrícola, de biocombustível, aviação, energia e industrial.

<><> Lula defende cassação de Eduardo Bolsonaro

O tarifaço imposto ao Brasil faz parte da nova política da Casa Branca, inaugurada pelo presidente Donald Trump, de elevar as tarifas contra parceiros comerciais na tentativa de reverter a relativa perda de competitividade da economia dos Estados Unidos para a China nas últimas décadas. No dia 2 de abril, Trump impôs barreiras alfandegárias a países de acordo com o tamanho do déficit que os Estados Unidos têm com cada nação. Como os EUA têm superávit com o Brasil, na ocasião, foi imposta a taxa mais baixa, de 10%.

Porém, em 6 de agosto, Trump aplicou uma tarifa adicional de 40% contra o Brasil em retaliação a decisões que, segundo ele, prejudicariam as big techs norte-americanas e em resposta ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, acusado de liderar uma tentativa de golpe de Estado após perder as eleições de 2022.

Lula não deixou a articulação da família Bolsonaro com o governo Trump nos EUA fora das pautas da reunião ministerial, e defendeu que o Congresso Nacional comece a discutir a cassação do deputado federal e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

Eduardo pediu licença de 122 dias do mandato parlamentar em março e foi morar nos Estados Unidos, sob a alegação de perseguição política. Desde então, tem atuado junto às autoridades norte-americanas para a aplicação de sanções ao Brasil.

Para Lula, o comportamento do deputado é, “possivelmente, uma das maiores traições que uma pátria sofre de filhos seus”.

“Não existe nada que possa ser mais grave do que um filho custeado pela família, um cidadão que já deveria ter sido expulso da Câmara dos Deputados, insuflando com mentiras e com hipocrisias, um outro Estado contra o Estado nacional do Brasil”, disse o mandatário.

O presidente brasileiro disse ainda que a situação exige “a uma frente de batalha no campo da política” e não apenas “no campo do governo” para que o Brasil “seja respeitado”.

Na última semana, o ex-presidente Jair Bolsonaro e Eduardo foram indiciados pela Polícia Federal pelos crimes de coação no curso do processo e tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito.

A decisão foi tomada após a PF concluir as investigações sobre a atuação de Eduardo junto ao governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para promover medidas de retaliação contra o governo brasileiro e ministros do Supremo.

 

Fonte: Opera Mundi/Brasil 247/Agencia Brasil

 

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