Lições
do Marechal Pétain para o bolsonarismo
“Quando
nossos jovens […] entrarem na vida […] lhes diremos […]: que a verdadeira
liberdade só pode exercer-se sob a proteção de uma autoridade tutelar, que eles
devem respeitar, à qual devem obedecer […]. Em seguida, lhes diremos que a
igualdade [deve] circunscrever-se dentro de uma hierarquia, fundada na
diversidade de funções e méritos […]. Finalmente, lhes diremos que não pode
haver verdadeira fraternidade senão dentro desses grupos naturais que são a
família, a cidade, a Pátria.”
Essas
palavras foram pronunciadas por uma das figuras mais controversas da história:
Philippe Pétain, marechal francês. Foram ditas em setembro de 1940. A França
acabava de ser invadida e derrotada pela Alemanha nazista em poucas semanas de
campanha militar. O governo republicano havia se desfeito, Paris estava
ocupada, e a Assembleia Nacional transferira poderes quase absolutos ao velho
herói de Verdun, o general de 84 anos celebrado na Primeira Guerra Mundial como
símbolo da resistência. Aclamado como salvador da pátria em colapso, Pétain
assumiu em Vichy a chefia de um Estado autoritário, disposto a renegar a
herança da Revolução Francesa e a reescrever os fundamentos da vida política
sob a sombra da ocupação alemã.
O
marechal de Verdun, convertido em chefe de Estado, falava como guardião de uma
ordem antiga. A derrota fulminante e o armistício assinado em Compiègne abriram
caminho para que fosse investido de poderes quase absolutos. Legitimado pela
aura militar e pela promessa de regenerar a nação, proclamou um novo lema —
Travail, Famille, Patrie — em substituição à tríade revolucionária. A
refundação autoritária se anunciava ali: a herança republicana era varrida para
dar lugar a um tripé de obediência, hierarquia e enraizamento patriarcal,
apresentados como cura para o trauma da derrota.
Esse
lema espalhou-se como tatuagem no corpo da França ocupada. Estava em cartazes
de propaganda, nas fachadas das prefeituras, em moedas e nos livros escolares.
Era a pedagogia de um regime que queria ser fundador, não apenas administrador
de ruínas e de uma vergonhosa derrota. A “família” legitimava a moral
conservadora e a perseguição a qualquer desvio; o “trabalho” disciplinava
operários e camponeses em nome de uma ordem produtiva alinhada à Alemanha; a
“pátria” era invocada para silenciar opositores e naturalizar a obediência.
Enquanto a liturgia moldava a vida cotidiana, a repressão política e policial
eliminava dissidentes e perseguia judeus, comunistas e resistentes.
A
República de Vichy foi um dos casos mais graves de entreguismo e subserviência
de um Estado diante de outro. Aceitou a tutela alemã combatendo a própria
resistência local, colaborou ativamente na perseguição aos judeus, entregou
trabalhadores franceses ao esforço de guerra nazista, dissolveu garantias
republicanas em troca de uma sobrevida administrada. Essa submissão não foi
apenas militar, mas política e moral: o regime reescreveu a identidade nacional
para ajustá-la à ordem hitlerista, reduzindo a França a protetorado ideológico
do Reich. Na prática, facilitou à máquina de morte nazista avançar sem amarras.
Essa
iconoclastia da República de Vichy contra o legado de 1789 não nasceu naquele
momento. Faz parte de um fio reacionário longo, que atravessava monarquistas,
católicos entreguistas e nacionalistas sempre prontos a transformar a Revolução
em bode expiatório. Hoje, vemos a mesma operação em escala global: a igualdade
é apresentada como ameaça à ordem, a liberdade é redefinida como obediência a
uma autoridade forte, a fraternidade é encolhida até caber em identidades
exclusivas — família, nação, religião. Em períodos de crise, a fórmula retorna:
em vez de memória de emancipação, slogans que evocam segurança e pertencimento,
embalando projetos autoritários com a retórica da tradição.
As
palavras de Pétain se traduzem com clareza na gramática da extrema-direita
contemporânea. A “autoridade tutelar” reaparece na exaltação de líderes fortes,
no culto ao “mito” ou ao “pai da nação”, e na ideia de que a liberdade só
existe sob a tutela de um chefe providencial. A igualdade confinada à
hierarquia sobrevive no discurso da meritocracia seletiva, que celebra
“vencedores” enquanto naturaliza a precariedade e culpa os pobres pela própria
condição. Já a fraternidade reduzida à família, à cidade e à pátria se traduz
na defesa de uma moral rígida, na perseguição de minorias, na vigilância sobre
corpos e sexualidades, e no uso da bandeira nacional como instrumento de
intimidação e exclusão.
No
Brasil, essa lógica se manifesta em práticas e símbolos: slogans como “família
acima de tudo, Deus acima de todos” — herança do fascismo mussolinista —; a
militarização da vida política; a demonização de movimentos sociais e da
diversidade; a nostalgia de uma ordem autoritária apresentada como “remédio
contra o caos”. Tudo isso compõe a mesma engrenagem ideológica que sustentou
Vichy: substituir a promessa universal da democracia por um idioma de medo,
disciplina e exclusão, travestido de tradição e patriotismo.
E, no
centro desse projeto, está o entreguismo — traço visceral da República de
Vichy, que aceitava a submissão ao invasor como destino inevitável e convertia
a renúncia à soberania em virtude. Eis a advertência que atravessa o tempo:
onde o entreguismo se instala como prática de governo, a soberania nacional é
sacrificada, e com ela se dissolve também a democracia.
• Soberania é... Por Oliveiros Marques
Ironicamente,
o que me vem à mente é uma campanha publicitária que se tornou ícone da
influência cultural norte-americana mundo afora. Sim, os mais experientes já
devem ter percebido pelo título. Refiro-me à ação promocional da Coca-Cola, nos
anos 70, em que tampinhas, copos e outros produtos estampavam bonequinhos
acompanhados da frase: “Amar é…”
E assim
como penso que o amor precisa deva traduzir em gestos concretos, acredito que
soberania - conceito que deve ser centro do discurso do governo federal e do
seu campo político no período próximo - também precise ser materializado em
práticas e símbolos capazes de torná-lo melhor percebido pela imensa maioria da
população.
Por
exemplo, soberania é gerar empregos, protegendo o País contra o tarifaço
imposto pelo governo Trump, apoiado de forma criminosa por representantes da
direita brasileira, tendo como porta-voz o filho 03 do inelegível.
Soberania
é garantir que o nosso sistema judicial siga independente, livre de
interferências de outros Poderes e imune a qualquer ingerência estrangeira.
Soberania
é assegurar que a democracia brasileira continue amadurecendo e resistindo às
tentativas de golpe contra o Estado Democrático de Direito - como o que foi
planejado e colocado em movimento por extremistas bolsonaristas, e que teve em
8 de janeiro de 2023 sua face mais visível, mas não o seu fim, já que muitos de
seus crimes seguem tendo continuidade a partir do exterior.
Soberania
é regular as big techs, cobrar suas responsabilidades e impedir que a sociedade
brasileira seja vítima do “tecnofeudalismo” que essas empresas tentam impor ao
mundo. É proteger nossas crianças, defender nossos jovens e resguardar nossos
valores democráticos.
Soberania
é garantir o desenvolvimento do Brasil com cada vez mais parceiros comerciais,
fortalecendo as relações Sul-Sul e com todos os países que apostam no
multilateralismo como um jogo de ganha-ganha, e não como a tentativa de
imposição de um novo colonialismo.
Soberania
é mais comida na mesa, mais empregos, melhor educação, saúde para todos,
respeito às diferenças e patrocínio da igualdade, uma sociedade mais segura. É
fazer hoje para que tenhamos mundo para as futuras gerações.
Soberania,
enfim, é amar o Brasil, amar os brasileiros e brasileiras, acima de qualquer
interesse mesquinho.
• Lula reafirma soberania e diz que Brasil
não aceitará ofensas dos EUA
O
presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, declarou nesta terça-feira
(26/08) que o Brasil não aceitará “desaforo, ofensas e petulância de ninguém”,
referindo-se à guerra tarifária do governo dos Estados Unidos.
A
declaração, realizada na segunda reunião ministerial de 2025, foi acompanhada
de uma orientação do mandatário brasileiro aos seus ministros: para que
defendam a soberania do país em seus discursos públicos.
“É
importante que cada ministro, nas falas que fizerem daqui para frente, façam
questão de retratar a soberania desse país. Nós aceitamos relações cordiais com
o mundo inteiro, mas não aceitamos desaforo e ofensas, petulância de ninguém.
Se gostássemos de imperador, o Brasil ainda seria monarquia. Mas queremos esse
país democrático e soberano”, acrescentou.
Mesmo
classificando a política econômica do governo dos Estados Unidos, presidido por
Donald Trump, como “descabidas”, Lula disse que o Brasil segue à disposição
para negociar as questões comerciais.
“Estamos
dispostos a sentar na mesa em igualdade de condições. O que não estamos
dispostos é sermos tratados como se fôssemos subalternos. Isso nós não
aceitamos de ninguém. É importante saber que o nosso compromisso é com o povo
brasileiro”, disse Lula.
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Impacto do tarifaço no comércio brasileiro
Durante
a reunião ministerial, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento,
Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, que está à frente das
negociações sobre o tarifaço, também apresentou números atualizados sobre o
impacto das medidas norte-americanas no comércio brasileiro.
Segundo
ele, 35,6% de todas as exportações do Brasil para os EUA estão sob uma tarifa
de 50%. Isso significa que para que os produtos brasileiros cheguem ao mercado
norte-americano, os importadores do país precisarão pagar 50% a mais, aumento
que é repassado no valor final ao consumidor.
Além
disso, Alckmin explicou que 23,2% das exportações ao país norte-americano são
taxados de acordo com a Seção 232 da Lei de Expansão Comercial norte-americana,
que é aplicada a todos os países, com exceção do Reino Unido. Para aço,
alumínio e cobre, por exemplo, a tarifa é de 50%; automóveis e autopeças são
taxados em 25%.
O
restante dos 41,3% de produtos exportados aos EUA tem uma tarifa de 10%.
“O
presidente Lula tem orientado diálogo permanente e soberania. O Brasil não abre
mão da sua soberania, do Estado de Direito, e da separação dos poderes, que é a
peça basilar da democracia e, ao mesmo tempo, negociação e diálogo para a gente
corrigir essa absoluta distorção da política regulatória”, acrescentou.
Ainda
nesta terça-feira, Alckmin e outros ministros embarcam para uma viagem ao
México, para tratar do potencial de ampliação do comércio entre os dois países.
Segundo ele, há possibilidades nas áreas agrícola, de biocombustível, aviação,
energia e industrial.
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Lula defende cassação de Eduardo Bolsonaro
O
tarifaço imposto ao Brasil faz parte da nova política da Casa Branca,
inaugurada pelo presidente Donald Trump, de elevar as tarifas contra parceiros
comerciais na tentativa de reverter a relativa perda de competitividade da
economia dos Estados Unidos para a China nas últimas décadas. No dia 2 de
abril, Trump impôs barreiras alfandegárias a países de acordo com o tamanho do
déficit que os Estados Unidos têm com cada nação. Como os EUA têm superávit com
o Brasil, na ocasião, foi imposta a taxa mais baixa, de 10%.
Porém,
em 6 de agosto, Trump aplicou uma tarifa adicional de 40% contra o Brasil em
retaliação a decisões que, segundo ele, prejudicariam as big techs
norte-americanas e em resposta ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro,
acusado de liderar uma tentativa de golpe de Estado após perder as eleições de
2022.
Lula
não deixou a articulação da família Bolsonaro com o governo Trump nos EUA fora
das pautas da reunião ministerial, e defendeu que o Congresso Nacional comece a
discutir a cassação do deputado federal e filho do ex-presidente Jair
Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
Eduardo
pediu licença de 122 dias do mandato parlamentar em março e foi morar nos
Estados Unidos, sob a alegação de perseguição política. Desde então, tem atuado
junto às autoridades norte-americanas para a aplicação de sanções ao Brasil.
Para
Lula, o comportamento do deputado é, “possivelmente, uma das maiores traições
que uma pátria sofre de filhos seus”.
“Não
existe nada que possa ser mais grave do que um filho custeado pela família, um
cidadão que já deveria ter sido expulso da Câmara dos Deputados, insuflando com
mentiras e com hipocrisias, um outro Estado contra o Estado nacional do
Brasil”, disse o mandatário.
O
presidente brasileiro disse ainda que a situação exige “a uma frente de batalha
no campo da política” e não apenas “no campo do governo” para que o Brasil
“seja respeitado”.
Na
última semana, o ex-presidente Jair Bolsonaro e Eduardo foram indiciados pela
Polícia Federal pelos crimes de coação no curso do processo e tentativa de
abolição do Estado Democrático de Direito.
A
decisão foi tomada após a PF concluir as investigações sobre a atuação de
Eduardo junto ao governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para
promover medidas de retaliação contra o governo brasileiro e ministros do
Supremo.
Fonte:
Opera Mundi/Brasil 247/Agencia Brasil

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