A
reforma da defesa dos EUA pela Palantir
Quando
um documento oficial da defesa norte-americana afirma, sem metáforas, que
“guerreiros lutam com armas e com git”, sabemos que não se trata apenas de
jargão técnico, mas de uma mudança civilizacional. O texto The Defense
Reformation, assinado pelo diretor de tecnologia da Palantir, Shyam Sankar,
não é um relatório burocrático: é um manifesto. É a tentativa de redefinir a
guerra, a defesa e a segurança a partir do software, de suas linhas de produção
invisíveis e de sua maleabilidade algorítmica. O que está em jogo não é apenas
a modernização de arsenais ou a digitalização da burocracia militar. Trata-se
de uma verdadeira reindustrialização bélica, onde fábricas não são mais
siderúrgicas, estaleiros ou linhas de montagem de tanques, mas pipelines de
código, infraestruturas em nuvem e plataformas privadas. A noção de “software
industrial base”, central no documento, explicita essa virada: o software não é
suporte, é a arma. Ele é apresentado como o sistema mais importante e mais
maleável, capaz de definir a cadência de todo o ciclo de guerra. Essa concepção
de guerra como software é o coração da nova estratégia estadunidense. O inimigo
não é apenas enfrentado em campos de batalha físicos, mas em loops de decisão
acelerados, em linhas de comando traduzidas em código e em atualizações
contínuas que definem a velocidade do conflito. A guerra, nessa visão, passa a
ser administrada como um projeto de software ágil — com sprints, backlog,
integração contínua e releases em produção. Ao transformar pipelines digitais
em fábricas de destruição, o projeto da Palantir e de Peter Thiel propõe algo
ainda mais radical: a terceirização da soberania. O que antes era monopólio do
Estado — definir, planejar e executar guerra — é agora apresentado como função
a ser disputada entre plataformas privadas, capital de risco e um seleto grupo
de fundadores carismáticos. A promessa é a eficiência; o risco é a captura
completa da defesa e da democracia por oligopólios digitais que se legitimam
como salvadores diante de uma “emergência não declarada”. Este artigo se propõe
a desmontar esse evangelho sombrio. Não apenas descrevendo suas teses —
pregadas como novas 95 teses na porta do Pentágono —, mas examinando suas
consequências estratégicas: a normalização da guerra como fluxo contínuo, a
erosão dos controles democráticos, a privatização da segurança global e a
colonização da política pela lógica industrial do software. Em tempos em que a
guerra híbrida já opera no campo informacional e cultural, a Reforma da Defesa proposta
pela Palantir revela o próximo passo: a guerra como serviço, oferecida na
nuvem, atualizada em tempo real e invisível ao escrutínio público.
<><>
O contexto histórico – do “Último Jantar” ao monopsonismo digital
Para
entender o manifesto da Palantir é preciso voltar a 1993, ano em que o então
secretário de Defesa dos Estados Unidos reuniu, no Pentágono, 51 grandes
contratistas militares para o célebre “Last Supper”. A mensagem era clara: não
havia mais espaço para todos no banquete da Guerra Fria. O fim da União
Soviética e a promessa do “dividendo da paz” justificaram cortes brutais nos
orçamentos, e as empresas foram empurradas para um processo voraz de fusões e
aquisições. De 51, restaram 5 gigantes. Esse encontro simbolizou o início do
monopsonismo da defesa — uma estrutura em que o Estado é praticamente o único
comprador, impondo regras, burocracia e contratos de custo reembolsado
(cost-plus). O resultado imediato foi a morte da diversidade industrial que havia
sustentado a vitória na Segunda Guerra Mundial e na Guerra Fria. Nos anos 1940
e 1950, Ford fabricava satélites, Chrysler produzia carros e mísseis, General
Mills, cereais e artilharia. O ecossistema civil e o militar se alimentavam
mutuamente, num ciclo virtuoso de inovação. O “Último Jantar” destruiu essa
simbiose e consolidou um oligopólio acomodado, avesso ao risco e dependente da
proteção governamental.
O
documento The Defense Reformation insiste que esse foi o verdadeiro pecado
original da base industrial americana: o Grande Cisma entre inovação civil e
defesa. O corte de oxigênio à experimentação abriu espaço para a estagnação.
Hoje, trabalhar com o monopsonista estatal é tão pouco atraente que até
empresas como a Ball Corporation, que fabricava satélites, preferiram vender
sua divisão aeroespacial para se dedicar a latas de alumínio. A crítica soa
convincente, mas esconde um deslocamento ainda mais radical. Ao denunciar a
asfixia causada pelo monopsonismo estatal, a Palantir não propõe retomar a
vitalidade do antigo ecossistema público-privado. Propõe substituí-lo por um
oligopólio digital, em que plataformas privadas — ágeis, capitalizadas por
fundos de risco e lideradas por fundadores carismáticos — assumem o papel de
linha de frente da defesa. O que antes era indústria de aço e titânio torna-se
fábrica de software, sustentada por pipelines invisíveis e pela maleabilidade
algorítmica. É aqui que começa a mutação decisiva: a guerra deixa de ser uma
função de arsenais e depósitos e passa a depender da velocidade de commits,
deploys e ciclos de integração contínua. O que o “Último Jantar” de 1993
iniciou com a concentração industrial, a Reforma da Defesa da Palantir conclui
com a digitalização bélica: a conversão da guerra em serviço de software.
<><>
A heresia do Pentágono – burocracia, lentidão e a promessa da velocidade
Se a
denúncia inicial de Shyam Sankar mira o “Último Jantar” e o monopsonismo
estatal, o segundo alvo é a própria cultura burocrática do Departamento de
Defesa. O documento descreve o Pentágono como um “comunismo malfeito”, um
sistema de planejamento centralizado que herdou o pior dos dois mundos: sem a
disciplina de uma economia planificada, sem a agilidade de um mercado
competitivo. Essa burocracia, segundo o manifesto, funciona como uma religião
secular. Seus dogmas são processos, regulamentos e comitês. Seus sacerdotes são
gestores que confundem controle com eficiência. E o altar em que se sacrifica é
o tempo: tempo gasto em planilhas, orçamentos e autorizações, enquanto
adversários — leia-se China — experimentam, erram, iteram e avançam. A máquina
de guerra americana tornou-se lenta demais para um mundo em sprint permanente.
A
proposta da Palantir é clara: destruir essa ortodoxia e substituí-la por um
ethos de velocidade. Em vez de ciclos orçamentários que levam dois anos,
fala-se em “DevSecOps para orçamentos” — ou seja, tratar a contabilidade
militar como um pipeline ágil, capaz de realocar recursos em semanas. Em vez de
validar requisitos durante anos, aceitar o improviso, a sobreposição de
projetos, a experimentação descentralizada. “O único requisito é vencer”, diz o
documento, numa inversão radical que transforma a improvisação em doutrina. Mas
aqui está o ponto cego: ao condenar a lentidão burocrática, a Reforma da Defesa
também demoniza os mecanismos de accountability democrática. O que para Sankar
é um “gargalo” a ser eliminado, para uma democracia é um freio necessário: um
Parlamento que debate, uma sociedade que questiona, auditores que controlam. A
lógica de “acelerar o ciclo orçamentário” pode soar eficiente, mas significa
reduzir a política a uma questão de deploy. Essa crítica revela a essência do
projeto. Não se trata apenas de modernizar processos. Trata-se de normalizar a
guerra como fluxo contínuo, livre de pausas, sem tempo para deliberação
pública. A promessa é vencer a China na corrida da velocidade. O risco é
sacrificar a democracia no altar da agilidade.
<><>
As 18 Teses da Reforma – um Lutero da guerra digital
Shyam
Sankar não esconde a ambição: como Lutero pregou suas 95 teses na porta da
catedral de Wittenberg, ele prega 18 teses na porta do Pentágono. A metáfora é
deliberada. O objetivo é provocar uma ruptura doutrinária, uma “reforma” capaz
de derrubar os sacerdotes da burocracia e instaurar um novo evangelho da
guerra. Essas teses não são propostas técnicas isoladas. São peças de uma
ideologia coerente, que redefine a guerra como fluxo contínuo, produtivista e
privatizado. Entre as 18, algumas funcionam como nervos centrais que expõem o
verdadeiro projeto:
>>
1. O monopsonismo é a doença.
A
crítica ao monopólio estatal é repetida como mantra. O argumento é sedutor:
quando só existe um comprador (o Estado), a competição morre e a inovação se
estagna. Mas a solução proposta não é democratizar o sistema, e sim abrir
espaço para múltiplos fornecedores privados disputando contratos de forma ágil.
Em vez de monopsonismo público, o risco é o oligopólio digital das plataformas.
>>
2. Fim dos contratos cost-plus.
Segundo
Sankar, esse modelo “torna a nação mais lenta, mais burra e mais pobre”. O
contraste é feito com o caso SpaceX, que reduziu custos em até 85% ao operar
fora dessa lógica. A crítica ao desperdício é justa. Mas o remédio é
problemático: ao deslocar o financiamento para o capital de risco, transfere-se
a soberania da defesa para consórcios de investidores privados.
>>
3. “DevSecOps para orçamentos”.
Aqui a
metáfora do software se torna perigosa. Tratar o orçamento público como
pipeline ágil significa dissolver controles políticos em nome da velocidade. Se
no mundo do software “deploy” é liberar código, no mundo da defesa “deploy” é
movimentar bilhões de dólares sem debate. O que se apresenta como inovação é,
na prática, erosão da accountability democrática.
>>
4. “A pessoa é o programa”.
A
valorização de talentos excepcionais — engenheiros 10x ou líderes carismáticos
— soa como homenagem à genialidade. Mas esconde um culto perigoso ao indivíduo
salvador. Rickover, Groves, Musk, Luckey: nomes invocados como exemplos de quem
desafia burocracias e “vence”. O problema é que, no altar dessa ideologia, a
governança coletiva se torna irrelevante, substituída pela fé no gênio
fundador.
>>
5. O único requisito é vencer.
A
lógica dos requisitos formais é atacada como burocracia inútil. A proposta é
aceitar redundâncias, sobreposições, “wasteful overlaps” em nome da vitória. A
improvisação, que pode ser virtude em um campo de batalha, é convertida em
doutrina de Estado. O risco é óbvio: normalizar a exceção, abolir o
planejamento de longo prazo, viver em estado permanente de sprint militar.
>>
6. Produtividade como letalidade.
Talvez
a tese mais brutal: a guerra não se vence com estoque, mas com capacidade de
produção infinita. O que vale não é a munição no depósito, mas a linha de
montagem capaz de repor, reparar e atualizar sem pausa. Isso vale para drones,
sensores, foguetes — mas também para software. O pipeline é a nova fábrica da
morte.
>>
7. Guns and git.
O
manifesto culmina nesta formulação simbólica: guerreiros devem lutar com armas
e com git. O combatente precisa aprender a programar, não para criar
plataformas industriais, mas para manipular o “software industrial base”. A
metáfora é reveladora: a guerra se torna indissociável do ciclo de commits,
merges e releases. O soldado é transformado em devops da destruição.
O
conjunto dessas teses forma um evangelho sombrio. Elas prometem agilidade,
inovação e vitória. Mas, vistas em conjunto, revelam algo mais profundo: a
legitimação da guerra como processo industrial de software, permanentemente
atualizado, privatizado e acelerado até o ponto de dissolver o controle
democrático.
É por
isso que a analogia com Lutero não é mero exagero retórico. Se em Wittenberg o
alvo foi a Igreja Católica, no Pentágono o alvo é a burocracia estatal. E,
assim como a Reforma religiosa abriu caminho para guerras, perseguições e
reordenações profundas de poder, a Reforma da Defesa prepara uma nova ordem
geopolítica onde o pipeline é altar, o commit é sacramento e o software é a
espada.
<><>
Software industrial base – a linha de montagem invisível
Entre
todas as teses do manifesto da Palantir, uma expressão merece atenção especial:
software industrial base. O termo não é metáfora solta. É a formulação
conceitual de que o software deve ser tratado como infraestrutura industrial
bélica, tão vital quanto siderúrgicas, estaleiros ou fábricas de munição foram
no século XX.
Quem já
desenvolveu software em grande escala sabe que há algo de fabril nesse
processo. Um backlog equivale a uma ordem de produção. Sprints funcionam como
lotes seriados. Pipelines de integração e entrega contínua (CI/CD) são esteiras
automatizadas. Testes unitários e revisões de código cumprem a função de
controle de qualidade. Monitoramento e observabilidade são como metrologia
industrial, garantindo padrões e detectando falhas. Até os chamados S-BOMs
(Software Bill of Materials) se assemelham a listas de insumos de uma cadeia de
suprimentos.
No
campo militar, essa tradução é ainda mais direta. Se na Segunda Guerra Mundial
a vitória dependia da capacidade de transformar fábricas de automóveis em
linhas de montagem de tanques e aviões, hoje a vitória depende da velocidade de
transformar repositórios de código em drones, sensores, sistemas de comando e
ataques cibernéticos. Não importa o estoque: importa o ciclo produtivo. A
lógica industrial migra das fundições para os servidores. Essa concepção
carrega uma consequência brutal. Se o software é a fábrica, então a guerra é um
processo de atualização contínua, como um sistema operacional em “modo
release”. O campo de batalha não se mede mais em batalhões, mas em commits; não
em depósitos de munição, mas em pipelines que nunca param. É uma fábrica invisível
da guerra, sempre ativa, invisível ao público e potencialmente inesgotável. Do
ponto de vista democrático, o risco é devastador. A sociedade vê fábricas,
portos e estaleiros como símbolos de esforço bélico — imagens concretas de
mobilização nacional. Já os pipelines de software são invisíveis, operam em
nuvem, escondidos por firewalls e NDA’s. Essa invisibilidade torna a guerra
menos palpável, menos debatida, menos sujeita a resistência social. É a guerra
como serviço, rodando em clusters, abstraída do olhar público. Eis a
genialidade perversa da noção de software industrial base: transformar o
imaterial em indústria, o código em arsenal, a maleabilidade em cadência de
morte. Uma arma sem cheiro de pólvora, sem barulho de metal, mas com a mesma
lógica fordista — agora aplicada ao ciclo infinito de commits, merges e
deploys.
<><>
O império das plataformas e a privatização da soberania
Se a
software industrial base é a fábrica invisível da guerra, quem controla essa
fábrica controla também o destino da soberania. E é aqui que o documento da
Palantir revela seu verdadeiro projeto: transformar big techs de defesa em
novos Estados paralelos, com poder de decisão sobre a segurança nacional e, por
consequência, sobre a geopolítica global. A crítica ao monopsonismo estatal não
é inocente. O que se condena como “lentidão” e “ineficiência” do governo serve
para justificar a transferência de funções centrais da defesa para plataformas
privadas — Palantir à frente, seguida por empresas moldadas no mesmo ethos:
ágeis, capitalizadas por fundos de risco e comandadas por fundadores
idolatrados como visionários. A defesa deixa de ser monopólio do Estado e passa
a ser oligopólio das plataformas.
Peter
Thiel, cofundador da Palantir, sempre defendeu que as democracias liberais são
lentas demais para vencer disputas existenciais. Seu projeto é criar empresas
que funcionem como máquinas de exceção permanente, capazes de agir fora do
tempo político. O documento assinado por Sankar é a tradução institucional
desse credo: não se trata apenas de prestar serviços ao Pentágono, mas de
reformular a própria concepção de guerra e soberania, colocando o capital
privado no centro da estratégia nacional. Essa lógica carrega um paradoxo. Ao
mesmo tempo em que denuncia monopólios, a Reforma da Defesa concentra ainda
mais poder em poucas mãos. O monopsonismo do Estado é substituído pelo
oligopólio digital das plataformas, que, por serem globais, não respondem
apenas a Washington, mas a mercados financeiros, conselhos de administração e
interesses de investidores transnacionais. A soberania, que deveria ser
indivisível, passa a ser terceirizada em regime de lock-in. O risco é ainda
maior quando lembramos que essas plataformas não são neutras. Elas operam sob
contratos opacos, algoritmos proprietários e infraestruturas cuja lógica de
funcionamento escapa ao escrutínio público. O documento promete que “a lei
garante” e que contratos podem proteger o Estado de eventual sabotagem ou
desligamento. Mas basta olhar para o histórico da indústria de tecnologia para
perceber a fragilidade dessa promessa: quem detém a infraestrutura dita as
condições. Na prática, a Reforma da Defesa projeta um futuro em que a guerra é
oferecida como serviço — warfare as a service. Plataformas em nuvem passam a
ser a retaguarda logística, pipelines de software substituem arsenais, e
capital de risco financia as inovações que antes eram responsabilidade
soberana. O soldado se torna usuário, o Estado se torna cliente, e a democracia
se torna dependente de contratos privados para decidir quando, como e contra
quem lutar. O império das plataformas não é apenas uma metáfora. É a
materialização daquilo que já ocorre no espaço civil, agora estendido ao campo bélico:
vigilância como serviço, segurança como serviço, guerra como serviço. A
soberania, transformada em subscription plan.
<><>
Democracia sob ataque – accountability como “gargalo”
No
manifesto da Palantir, a burocracia democrática não é apresentada como
salvaguarda institucional, mas como um obstáculo à vitória. Sankar a descreve
como atraso, peso morto, “planejamento central comunista malfeito”. O que, para
qualquer sociedade plural, é um freio deliberado contra abusos de poder, no
documento aparece como um “gargalo” a ser eliminado. A lógica é simples e
brutal: se a guerra é um processo industrial de software, não há tempo para
longos ciclos de deliberação política. O Congresso, os tribunais, os auditores
— todos passam a ser ruído. A solução proposta? Converter o orçamento militar
em pipeline ágil, um “DevSecOps para orçamentos”, capaz de redirecionar bilhões
em semanas. No lugar de debate e transparência, iterações rápidas e decisões
opacas. Essa aceleração pode parecer sedutora diante da retórica da ameaça
chinesa. Mas o custo é altíssimo. Uma democracia depende de tempos lentos:
comissões, audiências, investigações, votos. O “atraso” é parte da proteção
contra decisões unilaterais que podem custar vidas e desestabilizar o mundo.
Eliminar esses tempos é eliminar o espaço da política. O perigo maior é a
normalização da guerra permanente. Se a lógica é que tudo deve ser tratado como
sprint, backlog e release, então a guerra se torna fluxo contínuo, sem pausas
para avaliação ou para negociações de paz. O conflito deixa de ser exceção e se
instala como estado de normalidade. Em vez de se perguntar “se” e “quando” ir à
guerra, o sistema passa a perguntar apenas “como acelerar o próximo commit
letal”. A Reforma da Defesa, nesse ponto, não apenas ameaça a soberania
democrática. Ela ameaça a própria noção de paz como horizonte político. Ao
converter accountability em gargalo, transforma a deliberação em inimiga da
eficiência. E ao fazer isso, planta as sementes de uma sociedade em sprint
militar contínuo, sem freios, sem respiro, sem controle.
<><>
O zeitgeist da guerra híbrida – informação, controle e subjetividade
O
documento da Palantir não fala apenas de tanques, drones ou satélites. Ele fala
de software como arma, e isso o insere diretamente no campo da guerra híbrida e
psicológica. Se a software industrial base é a nova fábrica bélica, seu produto
não se limita a mísseis digitais: produz também controle informacional,
vigilância contínua e modulação cognitiva. No coração dessa lógica está a
maleabilidade. Sankar escreve que a força do software é poder ser dobrado à
vontade do combatente. Mas, se o código pode ser dobrado, também pode ser usado
para dobrar mentes, percepções e sociedades inteiras. Essa é a verdadeira
interseção entre a Reforma da Defesa e o nosso zeitgeist: o mesmo pipeline que
gera drones pode gerar campanhas algorítmicas de desinformação; o mesmo devops
que acelera a logística bélica pode ser usado para manipular o fluxo da opinião
pública em tempo real.
A
guerra híbrida é, essencialmente, guerra pela subjetividade. E aqui a Palantir
já se apresenta não apenas como fornecedora de sistemas militares, mas como
metaintermediária da informação. O soldado que aprende a programar é também o
cidadão que se torna objeto de vigilância. O campo de batalha é simultaneamente
a trincheira digital e o feed das redes sociais. A guerra não está “lá fora”:
ela atravessa telas, plataformas, bancos de dados e comportamentos cotidianos. É
por isso que a Reforma da Defesa não pode ser lida isolada do presente que
vivemos. Ela dialoga diretamente com a era da exceção permanente, em que a
política se converte em sprint, em que a democracia é tratada como gargalo e em
que a subjetividade é administrada como pipeline. O zeitgeist é o da guerra
contínua, invisível, onde a distinção entre segurança nacional e vigilância
civil se dissolve. Esse é o ponto onde o manifesto de Sankar se conecta à
guerra cultural: a maleabilidade do software como arma é também a maleabilidade
do discurso, da narrativa, da crença. Se a cadência do conflito é definida pela
cadência dos commits, a cadência da política é definida pela cadência dos
feeds. O software é fábrica bélica e também usina de subjetividades.
<><>
Contradições e fissuras do manifesto
O texto
de Shyam Sankar se apresenta como tratado de reforma, mas sua própria lógica
está atravessada por contradições que revelam mais sobre o projeto do que seus
slogans.
>>
Do monopsonismo ao oligopólio.
O
manifesto denuncia o monopólio comprador do Estado como a raiz da estagnação.
Mas a solução é deslocar o poder para um punhado de plataformas privadas,
amparadas por fundos de risco e lideradas por fundadores carismáticos. Sai o
monopsonismo estatal, entra o oligopólio digital. A promessa de competição se
dissolve na concentração.
>>
Do culto à eficiência ao culto ao fundador.
O texto
acusa a burocracia de sufocar talentos e propõe libertar os “engenheiros 10x”.
Mas, em vez de democratizar o processo, aposta em um novo elitismo: a ideia de
que Rickover, Musk ou Luckey são insubstituíveis e que apenas indivíduos
excepcionais podem romper a inércia. A burocracia vira dogma, mas o gênio
fundador vira profeta. O resultado é uma nova dependência, não menos
autoritária.
>>
Da guerra como fábrica à guerra como serviço.
Sankar
celebra a produtividade como letalidade, afirmando que não importa o estoque,
mas a linha de produção contínua. Só que essa lógica, aplicada ao software,
significa a transformação da guerra em serviço, em pipeline permanente,
invisível e terceirizado. O que se apresenta como “eficiência industrial” é, na
prática, a normalização da guerra infinita.
>>
Da soberania estatal à soberania privatizada.
Ao
defender que contratos são suficientes para garantir o “rule of law”, o
manifesto subestima a assimetria estrutural entre Estado e plataforma. Quem
controla a infraestrutura de software e nuvem detém poder de chantagem, mesmo
que travestido em cláusulas contratuais. A defesa nacional vira questão de SLA,
e a soberania passa a ser negociada no balcão das big techs.
>>
Do discurso da inovação à reprodução da dependência.
Por
trás da retórica de ruptura, há também continuidade: a dependência de capital
privado e de ecossistemas fechados. A Reforma se vende como alternativa ao
fracasso do modelo atual, mas mantém o vício central: subordinar a defesa a
interesses corporativos e a uma lógica produtivista sem freios.
Essas
fissuras expõem o núcleo do projeto. O que o documento promete como salvação —
competição, inovação, velocidade — é também o que pode condenar a democracia à
irrelevância, transformando-a em cliente de um oligopólio militarizado de
software.
<><>
Conclusão – O evangelho sombrio da Palantir
The
Defense Reformation não é um relatório técnico, é um evangelho. Pregado com a
solenidade de um Lutero digital, o documento da Palantir não apenas critica a
lentidão do Pentágono: ele anuncia uma nova ordem. Uma ordem em que a guerra se
confunde com software, em que pipelines de código substituem fábricas, em que
orçamentos públicos viram sprints de DevSecOps e em que fundadores carismáticos
são tratados como profetas da salvação nacional. Essa nova doutrina promete
eficiência, inovação e vitória, mas entrega algo mais sombrio: a normalização
da guerra como fluxo contínuo, invisível ao escrutínio público. O soldado se
transforma em programador, a soberania em contrato privado, a democracia em
gargalo a ser eliminado. A lógica da exceção permanente, que já corrói a
política no plano cultural e informacional, agora ganha forma doutrinária no
campo bélico: a guerra como serviço, atualizada em tempo real, terceirizada às
big techs e oferecida como produto inevitável de mercado. O risco não é apenas
estratégico — é civilizacional. Se a cadência do conflito passa a ser a
cadência dos commits, a democracia perde seu tempo próprio, seu direito ao
atraso, à deliberação, à pausa. No lugar da política, instala-se o sprint. No
lugar da soberania, instala-se a dependência de plataformas. No lugar da paz,
instala-se uma guerra industrializada, invisível, contínua. É por isso que o
manifesto da Palantir deve ser lido como um aviso de colonização. Colonização
da defesa pelo software, da soberania pelo capital de risco, da democracia pelo
produtivismo algorítmico. O evangelho sombrio de Sankar não se contenta em
reformar o Pentágono: ele reconfigura o próprio imaginário da guerra. E aqui
está a advertência final: quem controla o pipeline controla o futuro. Se
aceitarmos que a guerra é apenas mais um serviço, um warfare as a service
operado em nuvens privadas, então teremos abdicado de algo maior que a
segurança — teremos renunciado à própria política.
Fonte:
Por Reynaldo Aragon e Marcos Antenor, no Jornal GGN

Nenhum comentário:
Postar um comentário