"Brasil
não é tão dependente dos EUA," afirma embaixador
Para o
vice-presidente do Conselho Curador do Centro Brasileiro de Relações
Internacionais (Cebri), embaixador José Alfredo Graça Lima, passou o tempo em
que o Brasil era muito dependente dos Estados Unidos em termos de comércio
exterior. Mas, apesar de o diplomata considerar que essa relação é mais
desfavorável para os norte-americanos do que para os brasileiros, ele afirma
que é difícil achar bons substitutos, no curto e no médio prazos, para vender
os produtos exportados aos EUA — como café e pescados. Graça Lima defende que a
abertura de novos mercados, porém cuidadosamente para que não sejam
fechados por pressão dos norte-americanos.
O
embaixador avalia, ainda, que a movimentação do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva para reunir apoio de países do Brics e da União Europeia contra as
tarifas de Donald Trump tem poucas chance de resultados concretos. Isso
porque, conforme adverte, cada nação tem interesses particulares e está
negociando diretamente com os EUA, não em bloco. Mas, apesar de todas as
dificuldades, Graça Lima sustenta que a Organização Mundial do Comércio
"ainda está viva" — ainda que haja um crescente desrespeito à
legislação internacional e o desmonte do órgão de apelação da OMC.
Leia a
entrevista:
·
Como o senhor avalia a posição brasileira no
tarifaço imposto pelo governo Trump ao Brasil?
O
Brasil foi o país que sofreu a mais alta tarifação. Só foi igualado, talvez,
pela Índia, por causa do comércio de combustível com a Rússia. Mas é mesmo
surpreendente que produtos como o café, que são necessários para o dia a dia do
norte-americano, passem a pagar uma taxa de 50%, sem que isso possa ser
justificado pelos Estados Unidos. Eles alegam ou vão alegar em um foro
multilateral que é questão de segurança nacional. Essa é a situação que nós
estamos agora.
·
Esse cenário deve se manter por muito tempo?
As
sanções foram muito importantes — e vão continuar. Aqueles itens que vão pagar
só uma uma tarifa de 10%, isso não chega a prejudicar. Encarece para os
norte-americanos, não para o exportador. Então, a situação é volátil e diversa,
de acordo com o setor do qual você está falando. Os excetuados são
beneficiados, mas os que vão pagar esses 50% são efetivamente prejudicados.
·
Uma das opções que o Brasil adotou é recorrer à OMC. O
que pode sair dessa iniciativa?
Já foi
interposta uma ação na OMC. Os norte-americanos vão cumprir os procedimentos.
Eles são obrigados a aceitar a consulta, deliberar em um painel e vão alegar
segurança nacional. Acontece que esse eventual e evidente ganho de causa para o
Brasil não vai, necessariamente, resultar em uma suspensão da medida, porque
falta à organização agora um órgão de apelação, que é o tribunal de
última instância, que os norte-americanos trataram de desativar, bloqueando o
processo de indicação.
·
Os EUA também iniciaram investigações sobre outros
mecanismos brasileiros, como o Pix. Isso também pode prejudicar as exportações?
O que é
mais preocupante no momento, na verdade, são as investigações sobre a Seção 301
da Lei de Comércio. Vai ter audiências públicas em 3 de setembro e dessa
investigação — em que os Estados Unidos substituem a OMC como inquisidor e
também como juiz — podem resultar em restrições ao comércio com o Brasil.
·
Há um desmonte das regras internacionais do comércio?
As
regras estão lá, continuam existindo e a OMC está viva. Acontece que as regras
estão sendo desrespeitadas. Elas estavam sendo respeitadas, as disputas estavam
sendo julgadas e as decisões cumpridas até o órgão de apelação ser desativado.
De qualquer maneira, mesmo assim, mais de 80% do comércio é realizado, agora,
sob o princípio da nação favorecida. De modo que as exceções estão na forma
dessas tarifas mais altas, que são violatórias dos compromissos
norte-americanos. O que está faltando é, justamente, o chamado "poder de
atuação", por parte da OMC, para fazer cumprir a regra.
·
Os Estados Unidos pararam de indicar juízes ao órgão de
apelação ainda em 2016, no governo de Barack Obama. Isso facilitou a política
agressiva de Trump?
Isso
representa não um incentivo, mas uma certa abertura para ações unilaterais, não
há dúvida. Não é que tenha sido uma estratégia, do meu ponto de vista, quando
na época ainda do Obama o processo de indicação de árbitros começou a ser
bloqueado. Eles não antecipavam que isso fosse se tornar, com Trump, um
procedimento padrão — que chegasse a um ponto em que o órgão fosse
desativado. O próprio [ex-presidente] Joe Biden, evidentemente,
também não colaborou muito no fortalecimento do sistema. Deixou rolar.
·
O que levou a essa paralisação da OMC?
Isso
tudo foi por causa da concorrência chinesa, desde 2001, com a entrada da China
na OMC, passando por 2016 e pela pandemia. Havia razões mais geopolíticas do
que comerciais para você começar a introduzir turbulência no comércio exterior.
·
O Brasil precisa depender menos das
exportações para os Estados Unidos?
O
Brasil não é tão dependente dos EUA quanto era no passado. Na verdade, nos
últimos anos, se você olhar, os EUA se tornaram, do ponto de vista da balança
comercial, mais dependentes do Brasil. No entanto, temos uma oferta exportável
para os EUA que dificilmente vai poder ser, pelo menos no curto e no médio
prazos, redirecionada para outros mercados. E isso é problema. São
os casos do café e do pescado. Felizmente o suco de laranja ficou de fora
disso. Mas tem muita integração em termos da cadeia de valor com os
distribuidores, com os engarrafadores nos EUA. Isso cria uma uma relação de
interdependência que é muito saudável, muito favorável ao comércio.
·
O que o Brasil pode fazer, no cenário internacional, para
diminuir o impacto dessa taxação?
Você,
evidentemente, tem sempre procurar outros mercados, desde que esses mercados
também não se não se fechem para o Brasil. Você pode imaginar que, se houver
aceitação por parte da China para importar mais soja dos EUA, o Brasil pode vir
a ter sua demanda por soja reduzida. Não chega a ser um dano irreparável nem
nada, mas sempre faz parte das nossas contas, em termos de balança. Isso tudo
tem que ser observado e monitorado para ver de que forma você pode recuperar
espaço, sobretudo por conta desses setores mais
sensíveis à sobretaxa.
·
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva organiza uma
Cúpula Virtual do Brics e faz ligações para líderes europeus para tratar do
tarifaço. Esse movimento pode aliviar o tarifaço, ao aumentar a pressão contra
os EUA?
Francamente,
não acredito nessa possibilidade. Em primeiro lugar, porque cada país tem um
contrato específico na OMC, um conjunto de compromissos específicos. Na OMC,
cada país ou grupo de países, no caso da União Europeia, assume compromissos
formais. Por exemplo, de não aplicar tarifa superior àquela que foi
consolidada. A menos que você constitua uma área de livre comércio, ou uma
união aduaneira, você não responde como bloco a nenhuma infração que possa ser
cometida. Esses países do Brics não têm livre comércio nem formam união
aduaneira. Cada país tem interesses muito específicos em matéria de comércio
exterior, até com disputas eventuais. É o caso entre Brasil e Índia, por causa
do açúcar.
·
Esse movimento é necessário, então?
É claro
que, diante dessa situação tão inusitada, o discurso é importante. É importante
você manifestar desagrado, como o Brasil está fazendo na resposta à Seção
301, e acionando a OMC. Isso faz parte do processo. Mas, em termos reais,
efetivos, eu não vejo que resultados concretos possam surgir dessas reuniões ou
dessas manifestações.
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Quem é o diplomata
O
embaixador José Alfredo Graça Lima atuou como responsável pelas
negociações do Brasil e do Mercosul, sherpa do Brics, e serviu em quatro
painéis da Organização Mundial do Comércio (três como presidente) e como
árbitro do Mecanismo Provisório de Apelação do órgão entre 2020 e 2025. Além
disso, é autor do estudo Novos Tempos para o Comércio Internacional —
Rumos para o Brasil, publicado pelo Cebri e pela Fundação Konrad Adenauer.
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Haddad: Trump ataca o Brasil para reabilitar a
extrema-direita
O ministro da Fazenda, Fernando
Haddad,
afirmou, ontem, que o tarifaço de 50% às exportações brasileiras para os
Estados Unidos tem o objetivo de "reabilitar a extrema-direita no
Brasil". Conforme salientou, a prova de que o governo do presidente Donald Trump pretende fazer
com que os radicais tenham condições de voltar ao poder é o relatório da
Polícia Federal (PF), divulgado na quarta-feira, no qual o ex-presidente Jair
Bolsonaro e o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) são responsabilizados por uma
ação conjunta visando dificultar as negociações para a suspensão das
sanções.
“Vimos
aí, pelas mensagens trocadas, que o único objetivo é livrar a cara dos
golpistas e não tem nenhuma outra finalidade, essa hostilidade, que não seja
reabilitar a extrema-direita no Brasil. O Brasil não pode servir de quintal de
ninguém. Nós sabemos disso. Temos tamanho, densidade, importância para manter e
garantir nossa soberania”, frisou, na participação por vídeo que fez
no encontro do PT para debater a conjuntura política nacional e
internacional, em Brasília.
Haddad
também elogiou o vice-presidente Geraldo Alckmin — que acumula o comando
do Ministério do Desenvolvimento, Comércio, Indústria e Serviços (Mdic) — nas
negociações com os norte-americanos. "É assim que tem que ser. Sem
bravata, mas fazendo valer a dignidade e a sobriedade da nossa gente",
enfatizou o ministro, referindo-se ao estilo comedido de Alckmin.
Depois
da participação no evento do PT, Haddad concedeu entrevista à TV GGN na qual
salientou que os EUA atravessam um momento singular, com
possibilidade de Trump impor retrocessos ambientais, democráticos,
políticos e geopolíticos — citou como exemplo o recente cancelamento de US$ 19
bilhões em investimentos em transição energética pelo governo norte-americano.
O ministro também relembrou o histórico de ingerência dos EUA na América do
Sul, incluindo a participação em ditaduras na região ao longo do século 20,
ressaltando que essas ações reforçam a complexidade das relações internacionais
no contexto atual.
Por sua
vez, Alckmin crê na superação da crise comercial entre Brasil e EUA. “Vai
passar. Na década de 1980, era 24% a nossa exportação para os EUA, praticamente
um quarto das exportações brasileiras. Hoje, é 12%. E o que está afetado é
3,3%. Isso é o que está afetado no tarifaço", disse, também no encontro do
PT. E acrescentou: "Não vamos desistir de baixar essa alíquota e tirar
mais produtos".
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Novos horizontes
Alckmin
também comentou as movimentações do governo federal para explorar novos
mercados. Ele citou como exemplos a assinatura do acordo Mercosul-União
Europeia, que pode ocorrer até o fim do ano, além de outras tratativas, como o
acordo do Mercosul com o EFTA (bloco formado por Islândia, Liechtenstein,
Noruega e Suíça), Singapura e Emirados Árabes Unidos.
Para o
vice-presidente, as medidas do governo incluídas no Plano Brasil Soberano —
como linhas de crédito e suspensão de tributos incidentes sobre insumos
importados — terão força suficiente para reduzir os impactos sobre os
exportadores brasileiros impactados pelo tarifaço. Alckmin ainda considera que
a reclamação aberta pelo governo brasileiro na Organização Mundial do Comércio
(OMC) contra as tarifas norte-americanas surtirá efeito.
Em
adição às tratativas levadas adiante por Alckmin e Haddad, o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva também tem feito esforços junto ao Brics para que os
países do bloco se unam num movimento de pressão contra os EUA a fim de
derrubar o tarifaço. O Brasil também tenta uma aproximação ainda maior com a
Índia, também punida com uma taxação de 50% nas exportações para os
norte-americanos por comprar petróleo russo.
No
encontro do PT, além do debate sobre a taxação imposta pelo governo Trump, o
presidente do partido, Edinho Silva, anunciou que o partido vai às ruas no
Sete de Setembro para reforçar o discurso em favor da soberania. Trata-se,
também, de uma reação às manifestações que estão sendo programadas pelos
bolsonaristas em favor do ex-presidente e contra o ministro Alexandre de
Moraes, do Supremo Tribunal Federal. À frente da convocação da extrema-direita,
está o pastor Silas Malafaia — detido na quarta-feira passada pela PF ao
desembarcar, no Rio de Janeiro, vindo de Lisboa.
"O
Brasil está sendo penalizado injustamente. As tarifas sempre foram utilizadas
para equilibrar relações comerciais, mas estão sendo usadas pelo governo Trump
de forma autoritária, sem nenhum fundamento e com viés político. Um viés
político que tem por objetivo impedir a apuração de crimes graves. Primeiro,
uma tentativa de golpe. Se o povo brasileiro banalizar o que aconteceu em 8 de
janeiro de 2023, nós vamos abrir precedente histórico gravíssimo. Toda vez que
alguém perder eleição vai se sentir no direito de organizar um golpe para que o
resultado da eleição não seja cumprido. Isso é grave," advertiu.
Exatamente
por causa dessa preocupação é que, segundo Edinho, as principais ações
do PT para os próximos meses e, sobretudo às eleições de
2026, girarão em torno da defesa da democracia e da reeleição de
Lula. “As eleições de 2026 formam o eixo central. A nossa prioridade é
batalhar pela reeleição de Lula”, enfatizou.
Fonte:
Correio Braziliense

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