Trump,
Israel e o MAGA dividido: fissuras perigosas
Entre
lealdades incondicionais a Israel, conspirações antissemitas e tensões internas
cada vez mais abertas, o MAGA se vê diante de uma contradição explosiva. O caso
Charlie Kirk, as suspeitas de espionagem e os choques diplomáticos revelam um
movimento em guerra consigo mesmo — e abrem um campo estratégico que pode
impactar até a democracia brasileira.
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A fissura invisível do MAGA
À
primeira vista, o trumpismo parece um bloco compacto, movido por uma retórica
homogênea de “America First” e por uma base eleitoral disciplinada. Mas essa
imagem de unidade esconde uma realidade muito mais complexa e instável. Dentro
do MAGA, convivem correntes que se chocam em valores, interesses e visões de
mundo: de um lado, um eixo profundamente alinhado a Israel, composto por
evangélicos sionistas, operadores políticos e doadores bilionários; do outro,
alas supremacistas, neonazistas e conspiracionistas que veem em Israel e no
lobby judaico um inimigo central, alimentando retóricas antissemitas e teorias
da conspiração.
Essa
fissura foi por muito tempo abafada, seja em nome da vitória eleitoral, seja
pelo pragmatismo da Casa Branca ao buscar coesão no discurso público.
Entretanto, ela se tornou cada vez mais visível com episódios recentes que
abalaram a relação entre Washington e Jerusalém, e também com o crescimento das
hostilidades internas no próprio movimento MAGA. O assassinato de Charlie Kirk,
fundador da Turning Point USA e figura central do trumpismo jovem, expôs essa
divisão como nunca antes: enquanto lideranças israelenses o exaltaram como
aliado leal, milhares de mensagens em redes ligadas ao MAGA apontaram Israel
como culpado, em um surto de antissemitismo digital monitorado por instituições
de combate ao ódio.
O
resultado é que hoje o MAGA não é apenas um movimento dividido em alas; é um
corpo em guerra consigo mesmo. O que antes era apenas ruído subterrâneo
tornou-se uma fissura que ameaça a própria coerência do trumpismo e que pode,
em médio prazo, se transformar em crise insustentável. Entender essas
engrenagens é fundamental não apenas para compreender a política americana, mas
também para avaliar como essa disputa interna pode reconfigurar alianças
globais e abrir janelas estratégicas para países como o Brasil.
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O bloco pró-Israel no coração do governo Trump
A força
do eixo pró-Israel dentro do trumpismo é um dos pilares mais consistentes e
visíveis do movimento. Trata-se de um bloco com três camadas principais: o
lobby institucional organizado, o braço religioso evangélico-sionista e os
operadores políticos que ocupam cargos de alto escalão no governo. A presença
simultânea dessas camadas garante que a pauta israelense não seja apenas uma
diretriz externa, mas um elemento identitário central para a narrativa MAGA.
No
campo institucional, organizações como a AIPAC e o Republican Jewish Coalition
exercem influência direta sobre o Congresso e o Executivo. Elas funcionam como
verdadeiros amplificadores de interesses estratégicos de Israel em Washington,
atuando tanto no financiamento de campanhas quanto na formulação de agendas. A
família Adelson, em especial Miriam Adelson após a morte de Sheldon, continua a
ser um elo fundamental de financiamento e mobilização, garantindo que o Partido
Republicano mantenha a lealdade a Israel como uma cláusula pétrea.
A
segunda camada é composta pelos evangélicos sionistas, organizados em
movimentos como o Christians United for Israel (CUFI), liderado por John Hagee.
Esse setor confere legitimidade religiosa à política externa pró-Israel,
sustentando o discurso de que o apoio incondicional ao Estado judaico é parte
de um destino providencial. Essa dimensão simbólica garante adesão emocional da
base evangélica de Trump, transformando decisões diplomáticas em atos de fé.
Por
fim, no plano político, figuras como Elise Stefanik e Marco Rubio ocupam papéis
centrais. Stefanik, transformada em voz jovem e disciplinada do trumpismo, já
foi celebrada em Israel por discursos enfáticos no Knesset e hoje desponta como
peça-chave de legitimação internacional. Rubio, por sua vez, assumiu a
Secretaria de Estado em 2025, trazendo sua longa trajetória de defesa de
políticas duras contra adversários de Israel e reforçando o alinhamento entre
Washington e Jerusalém.
Essa
tríplice engrenagem — lobby, fé e política — faz do apoio a Israel um dos
elementos mais sólidos do trumpismo institucional. Porém, exatamente por sua
força, esse bloco se torna alvo direto das críticas das alas supremacistas e
conspiracionistas dentro do MAGA, que veem nele a prova de que a soberania
americana estaria capturada por interesses externos.
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O magma do identitarismo — neonazistas, supremacistas e antissemitas
Por
baixo da superfície institucional do trumpismo, existe um magma fervente
composto por setores identitários, supremacistas e neonazistas. Essa base,
embora numericamente menor que a ala evangélica ou pró-Israel, é responsável
por fornecer grande parte da energia militante do MAGA, especialmente nas redes
digitais e nas mobilizações de rua. São grupos que atuam como “tropa de
choque”, sustentando a narrativa de guerra cultural contra imigrantes, minorias
e elites cosmopolitas.
Entre
os atores mais visíveis, destaca-se Nick Fuentes, líder dos chamados Groypers,
que se consolidou como referência de uma juventude nacionalista branca,
abertamente antissemita e hostil a qualquer aproximação com Israel. Eventos
como a conferência AFPAC atraíram figuras institucionais, incluindo
parlamentares republicanos como Paul Gosar e Marjorie Taylor Greene, que mesmo
sob críticas públicas aceitaram o risco de compartilhar espaço com extremistas
para não perder apoio em setores da base. Esse movimento mostra como as
fronteiras entre institucionalidade e radicalismo estão cada vez mais borradas.
No
campo das ruas e milícias, grupos como Proud Boys, Oath Keepers, Patriot Front
e Atomwaffen Division operam como braços paramilitares e simbólicos do
trumpismo. O 6 de janeiro de 2021 revelou o potencial destrutivo dessas
organizações, que carregam símbolos neonazistas, invocam slogans racistas e têm
entre seus líderes pessoas condenadas por conspiração contra a ordem
constitucional. Paradoxalmente, esses grupos também incluem latinos, como
Enrique Tarrio, o ex-líder dos Proud Boys, mostrando que a identidade
supremacista se molda mais pela ideologia de exclusão do que pela coerência
étnica.
Esse
magma identitário também alimenta teorias conspiratórias, como a “grande
substituição”, que acusa elites judaicas e democratas de promover imigração em
massa para destruir a identidade branca americana. Essa retórica, amplificada
por influenciadores midiáticos como Tucker Carlson, cria um ambiente onde o
antissemitismo se mistura com o nacionalismo isolacionista, produzindo uma
visão de mundo em que Israel deixa de ser aliado e passa a ser percebido como
parte de uma conspiração global. É essa narrativa subterrânea que hoje desafia
o bloco pró-Israel dentro do MAGA e ameaça implodir a coesão do trumpismo.
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Conflitos históricos entre EUA e Israel sob Trump
Apesar
da retórica de aliança incondicional e da imagem pública de afinidade quase
absoluta entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu, a relação entre Washington e
Jerusalém foi atravessada por uma série de conflitos discretos, mas
reveladores. Esses atritos, muitas vezes abafados em comunicados diplomáticos,
mostram que o vínculo EUA–Israel no trumpismo não é tão sólido quanto parece, e
que interesses estratégicos divergentes podem corroer essa parceria.
Um dos
primeiros momentos de tensão ocorreu em 2018 e 2019, quando Trump decidiu
anunciar a retirada de tropas americanas da Síria. A medida, apresentada como
um gesto de coerência com a agenda “America First” e de redução de custos
externos, foi recebida em Israel com alarme. O temor era de que o vácuo deixado
pelos EUA fortalecesse o Irã e a Turquia, colocando em risco a segurança do
Estado israelense. Esse episódio expôs uma fratura clássica: o isolacionismo
trumpista em choque com a necessidade israelense de manter o aparato militar
americano ativo na região.
Outro
atrito se deu com a venda de caças F-35 para os Emirados Árabes Unidos, no
contexto dos Acordos de Abraão. Israel inicialmente se opôs, alegando que a
operação ameaçava sua superioridade militar qualitativa. Trump insistiu, como
forma de consolidar a normalização árabe-israelense e garantir contratos
bilionários para a indústria de defesa americana. O impasse foi contornado com
compensações e garantias técnicas aos israelenses, mas o episódio evidenciou
que a lógica comercial e diplomática da Casa Branca nem sempre se alinha às
prioridades de segurança de Jerusalém.
O
terreno da espionagem e da tecnologia também revelou rachaduras. Em 2019,
surgiram acusações de que equipamentos de interceptação telefônica israelenses
haviam sido encontrados em Washington, próximos à Casa Branca. Embora Netanyahu
tenha negado categoricamente, a desconfiança circulou em setores do aparato de
segurança americano, reforçando suspeitas antigas sobre a autonomia de Israel
em operações de inteligência. Dois anos depois, em 2021, o escândalo do spyware
Pegasus, desenvolvido pela NSO, mostrou que diplomatas americanos haviam sido
monitorados com ferramentas israelenses. O caso aprofundou a percepção de
vulnerabilidade e adicionou um componente de tensão institucional à relação
bilateral.
Mais
recentemente, em 2025, o ataque israelense em Doha contra dirigentes do Hamas,
realizado sem coordenação prévia com Washington, desencadeou protestos do Qatar
e expôs fissuras na política externa de Trump. O presidente classificou a
operação como “contraproducente” e exigiu moderação, em contraste com a
narrativa de apoio incondicional. Esse episódio simboliza a atual fase da
relação: uma aliança estratégica inegável, mas corroída por desconfiança mútua,
agendas conflitantes e custos políticos cada vez mais altos.
Esses
conflitos históricos demonstram que o elo EUA–Israel dentro do trumpismo nunca
foi monolítico. Ele é, na verdade, resultado de barganhas, compensações e
equilíbrios instáveis, que hoje encontram no crescimento das alas supremacistas
e antissemitas do MAGA um novo fator de pressão.
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Charlie Kirk — catalisador da disputa
A
trajetória de Charlie Kirk dentro do trumpismo ajuda a compreender a
profundidade da fissura que hoje ameaça o movimento. Fundador da Turning Point
USA (TPUSA), Kirk construiu uma das maiores redes de mobilização juvenil
conservadora nos Estados Unidos, ocupando espaço estratégico nos campi
universitários e nas redes sociais. Sempre se colocou como aliado incondicional
de Donald Trump e defensor aberto de Israel, postura que o aproximou do lobby
sionista e de setores evangélicos. Em Israel, era tratado como um “embaixador
informal” do trumpismo entre a juventude norte-americana.
Ao
mesmo tempo, Kirk se tornou alvo prioritário das alas identitárias e
conspiracionistas dentro do MAGA. Desde 2019, os Groypers liderados por Nick
Fuentes passaram a hostilizá-lo publicamente em eventos, acusando-o de
subserviência ao lobby judaico e de traição à verdadeira agenda “America
First”. Essa tensão transformou Kirk em símbolo de uma disputa maior: entre a
institucionalidade pró-Israel e a militância radical que rejeita qualquer
concessão a aliados estrangeiros.
O
assassinato de Charlie Kirk, em setembro de 2025, foi o estopim dessa
contradição. Enquanto líderes israelenses e políticos pró-sionistas nos EUA
exaltaram sua memória como a de um combatente leal à causa, milhares de
mensagens em fóruns ligados ao MAGA disseminaram a ideia de que Israel teria
sido responsável por sua morte. A Anti-Defamation League (ADL) registrou um
surto de mais de 10 mil publicações antissemitas em poucos dias, mostrando a
rapidez com que a ala conspiracionista conseguiu capturar a narrativa e
transformá-la em munição contra o bloco pró-Israel.
Esse
episódio não apenas expôs a fissura, mas a tornou incontornável. Kirk, que
simbolizava a ponte entre juventude, conservadorismo e apoio a Israel, acabou
transformado em mártir ambivalente: celebrado por uns como herói e denunciado
por outros como prova da manipulação sionista. Seu destino demonstra que a
divisão interna não é mais uma disputa de bastidores, mas uma guerra aberta
pela hegemonia dentro do trumpismo.
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O fator Epstein e a armação conspiratória
Nenhum
tema expõe tão bem as fraturas internas do MAGA quanto o caso Epstein. Desde a
abertura de documentos judiciais em 2024, listas de nomes atribuídas ao círculo
do financista circulam em fóruns, redes sociais e canais conspiracionistas.
Para o bloco pró-Israel, esse material virou munição contra o antissemitismo,
já que parte das narrativas que emergem associa Epstein a uma suposta “cabala
judaica global”. Para a ala supremacista e neonazista, por outro lado, o caso
serve como prova de que as elites cosmopolitas — muitas vezes codificadas como
“judaicas” — controlam a política e exploram os americanos comuns.
O
problema é que, no MAGA, Epstein é mais do que um escândalo de pedofilia e
tráfico sexual: ele se tornou um coringa retórico, manipulado por ambos os
lados. Enquanto os setores conspiracionistas o usam para reforçar narrativas
antissemitas e teorias sobre globalismo, os operadores pró-Israel tentam
deslocar a atenção para inimigos internos e apontar que a exploração do caso é,
em si, uma peça de guerra cultural antissemita. Essa disputa simbólica mostra
como a mesma matéria-prima pode ser convertida em discursos totalmente opostos
dentro de um mesmo movimento.
Essa
instrumentalização é ainda mais grave porque Epstein conecta dois campos
sensíveis para o trumpismo: a relação com elites de Wall Street e Hollywood, e
a associação com figuras políticas de alto escalão, inclusive republicanos.
Assim, qualquer menção ao caso desencadeia um efeito cascata: para uns, prova
de que Trump é vítima de perseguição fabricada por elites judaicas e
democratas; para outros, evidência de que a proximidade com Israel e com
grandes financiadores mina a autenticidade da agenda “America First”.
Epstein,
portanto, funciona como um prisma: cada ala do MAGA projeta nele seus inimigos,
seus medos e suas justificativas. Mais do que um escândalo isolado, é um campo
de batalha discursivo que intensifica a fissura entre pró-Israel e
antissemitas, tornando mais difícil qualquer síntese narrativa dentro do
trumpismo.
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Um movimento em guerra consigo mesmo
O
trumpismo, que sempre se apresentou como a síntese de todas as direitas
americanas sob a bandeira do “America First”, hoje vive uma guerra interna. O
bloco pró-Israel, sustentado por doadores bilionários, evangélicos sionistas e
políticos disciplinados, encara de frente um magma identitário cada vez mais
agressivo, que não se satisfaz com alianças externas e exige pureza ideológica.
O resultado é um movimento que parece homogêneo na superfície, mas que na
prática é atravessado por contradições profundas.
De um
lado, a ala institucional defende que a parceria com Israel é estratégica e
inevitável: garante financiamento, legitimidade religiosa e projeção
internacional. De outro, supremacistas, neonazistas e conspiracionistas acusam
essa lealdade de ser um sinal de submissão a interesses estrangeiros, ecoando
narrativas antissemitas que se fortaleceram nos últimos anos. Entre esses dois
polos, figuras políticas orbitais tentam equilibrar o discurso, mas acabam
sendo tragadas pelo fogo cruzado — como ocorreu com Charlie Kirk, celebrado
como aliado leal e ao mesmo tempo transformado em alvo conspiratório após seu
assassinato.
Essa
guerra interna não é apenas retórica: ela corrói a coerência do movimento. Cada
operação israelense sem coordenação com Washington, cada escândalo de
espionagem tecnológica, cada lista conspiratória como a de Epstein, reabre
feridas e alimenta a suspeição de que o trumpismo está dividido entre duas
almas irreconciliáveis. O que antes era visto como “pluralidade de vozes” agora
aparece como risco de implosão: um movimento que já não consegue conciliar seus
pilares sem se expor a contradições fatais.
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Cenários futuros
A
fissura interna do trumpismo entre o bloco pró-Israel e a ala
supremacista/antissemita não é um detalhe de bastidor, mas um fator que pode
definir o futuro do movimento. O que está em jogo não é apenas a política
externa dos Estados Unidos, mas a própria capacidade do MAGA de se manter coeso
em um ambiente de guerra cultural global. A seguir, três cenários possíveis
ajudam a visualizar os caminhos que esse conflito pode tomar.
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Cenário 1 — Aliança tensa, mas intacta.
Trump
mantém o apoio institucional a Israel como eixo central da sua política
externa. O lobby, os evangélicos sionistas e os aliados em Washington continuam
ditando a linha dura, enquanto as franjas conspiracionistas seguem sendo
toleradas desde que não ameacem a máquina eleitoral. Nesse cenário, a fissura
não desaparece, mas é administrada pela lógica pragmática: vitórias eleitorais
e financiamento falam mais alto que a pureza ideológica. É a continuidade do
equilíbrio instável que já marcou o trumpismo no primeiro mandato.
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Cenário 2 — Ruptura informacional.
Um novo
episódio de espionagem ou uma operação israelense sem coordenação — como o
ataque em Doha — pode radicalizar ainda mais a ala identitária contra Israel. A
consequência seria um avanço do antissemitismo digital, acompanhado de pressões
internas para que o governo reduza seu compromisso com Jerusalém. Não haveria
ruptura diplomática imediata, mas uma corrosão lenta do consenso pró-Israel
dentro da base MAGA, que começaria a se fragmentar em discursos cada vez mais
hostis.
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Cenário 3 — Crise aberta e implosão parcial.
Se a
ala supremacista conquistar massa crítica — impulsionada por mártires como
Charlie Kirk, teorias conspiratórias sobre Epstein ou escândalos tecnológicos
como Pegasus —, o trumpismo pode entrar em crise aberta. Israel deixaria de ser
apenas alvo retórico e passaria a ser tratado como símbolo de traição nacional,
empurrando o movimento para uma cisão. Esse cenário representaria não apenas um
desafio para a política externa, mas a desestabilização do próprio núcleo do
MAGA, que perderia sua narrativa de coesão e poderia se fragmentar em facções
rivais.
Esses
cenários não são previsões fechadas, mas mapas de possibilidades. Todos apontam
para um futuro onde a fissura interna do trumpismo se tornará cada vez mais
visível, com impactos sobre o equilíbrio global e sobre países que orbitam a
disputa, como o Brasil.
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Implicações para o Brasil
A
fissura interna no trumpismo não é apenas um problema da política
norte-americana. Ela abre oportunidades estratégicas para países que buscam
afirmar soberania em um mundo multipolar — e o Brasil está no centro dessa
possibilidade. Ao mesmo tempo em que os Estados Unidos se veem divididos entre
um trumpismo pró-Israel e um trumpismo radicalizado pelo antissemitismo e pelo
isolacionismo, o espaço para manobra diplomática de países do Sul Global se
amplia.
Para o
Brasil, compreender essa divisão é vital por três razões. Primeiro, porque
permite explorar a contradição entre a ala institucional republicana, presa a
lobbies e compromissos externos, e a base insurgente do MAGA, que rejeita
alianças internacionais. Essa contradição fragiliza a coerência estratégica dos
Estados Unidos e abre espaço para que o Brasil se apresente como voz de
estabilidade e de soberania no Sul Global.
Segundo,
porque a instabilidade da política americana em relação a Israel pode
reposicionar o Brasil como interlocutor confiável em arenas diplomáticas do
Oriente Médio e da ONU. Enquanto Washington se desgasta com crises como o
ataque de Doha ou a anexação de territórios, o Brasil pode defender um discurso
de equilíbrio, de defesa do direito internacional e de multilateralismo,
ganhando capital simbólico e fortalecendo sua liderança regional.
Terceiro,
porque a guerra cultural dentro do MAGA se reflete diretamente nas campanhas de
desinformação e nas redes digitais que também atingem o Brasil. A retórica
antissemitista, os discursos supremacistas e as estratégias de polarização não
ficam restritas aos Estados Unidos — circulam em escala transnacional. Isso
exige do Brasil vigilância informacional e capacidade de resposta, tanto no
campo institucional quanto no da sociedade civil.
Em
outras palavras, a crise interna do trumpismo pode se converter em ativo
estratégico para o Brasil, se o país souber articular sua diplomacia,
fortalecer sua soberania informacional e ocupar o espaço deixado pelo desgaste
americano. A fissura MAGA–Israel é, portanto, não apenas um tema da política
externa dos EUA, mas uma janela de oportunidade para a democracia brasileira.
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Conclusão
A
relação entre o trumpismo e Israel sempre foi apresentada como inquebrantável,
mas os fatos mostram que essa aliança é atravessada por contradições profundas.
Por trás da fachada de unidade, o movimento vive uma guerra interna: de um
lado, o bloco institucional, sustentado por doadores, evangélicos sionistas e
operadores políticos que enxergam em Israel um aliado indispensável; de outro,
alas supremacistas e antissemitas que veem nessa lealdade um sinal de submissão
e de traição à verdadeira soberania americana. Essa fratura não é retórica, mas
estratégica — e se manifesta em episódios de espionagem, em choques
diplomáticos e em narrativas conspiratórias que ganham força nas redes.
O caso
Charlie Kirk, convertido em catalisador dessa disputa, mostrou que a fissura já
não pode ser contida. O trumpismo está diante de uma escolha impossível: manter
a aliança com Israel a qualquer custo, arriscando perder parte da sua base
radical, ou ceder às pressões conspiracionistas, abrindo mão de um dos pilares
de sua identidade política. Qualquer caminho significa instabilidade.
Para os
Estados Unidos, isso representa risco de erosão da coerência externa; para
Israel, incerteza quanto ao apoio do seu maior aliado; e para o mundo, a
perspectiva de um trumpismo cada vez mais fragmentado e imprevisível. Mas para
o Brasil e outras democracias do Sul Global, essa crise abre uma janela
estratégica: compreender as rachaduras internas do trumpismo significa
identificar oportunidades de afirmação soberana, de protagonismo diplomático e
de fortalecimento democrático em um cenário global marcado pela disputa
informacional e pela guerra cultural.
A
fissura MAGA–Israel, portanto, não é apenas uma curiosidade da política
americana. É um sintoma de um tempo em que alianças tradicionais se corroem por
dentro, em que as guerras culturais reconfiguram blocos de poder e em que a
democracia só se sustenta se souber ler os sinais de instabilidade para
transformá-los em oportunidades.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon Gonçalves, em Brasil 247

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