A
canonização dos santos interesses políticos, sociais e culturais
Muito
pior do que qualquer questionamento à fé das pessoas, é observar em silêncio o
quanto elas se distanciam da realidade através de suas crenças. Não é
simplesmente uma questão de colocar um grilo na cuca do outro, mas tentar
provocar reflexão acerca daquilo que ele se propõe a defender com uma verdade
absoluta para si e para os demais. Como ex-católico praticante, eu sou grato a
cada pessoa que conseguiu me fazer enxergar o mundo real. Um mundo onde as
minhas crenças religiosas nunca puderam, de fato, mudar nada ao meu redor. Um
mundo onde ninguém nunca foi e nunca será santo, até mesmo por uma questão de
sobrevivência que muitas vezes se impõe a qualquer tentativa de existência
santificada.
É
mister fazermos uma auto crítica até chegarmos à conclusão que a nossa fé –
seja ela qual for – só diz respeito aos nossos interesses pessoais, materiais
ou espirituais, e quase nunca ao bem estar coletivo. Uma prova disso é quando
uma determinada doutrina religiosa invalida ou demoniza a existência de pessoas
que não se submetem a ela, atribuindo a esses seres humanos uma condição de
imoralidade, ilegalidade, inadequação ou aberração. A sua fé nessa doutrina
satisfaz exclusivamente ao seu ego, ou a um grupo de pessoas que se identificam
egoicamente. Santos narcisos que enxergam o mundo através do espelho embaçado
de suas alcovas. Santos que oscilam entre o céu e o inferno, a pureza e a
maldade, quando atendem às preces de seus iguais e ignoram os apelos dos
diferentes.
É
possível que a realidade da vida não fosse suportável para a maioria das
pessoas que se agarram à fé para sobreviver. Neste caso, é importante que
tenhamos compreensão com tal fraqueza. Isto é sinônimo de humanidade. No
entanto, é mais importante ainda que mostremos a essas pessoas o mundo como ele
é, deixando que elas optem por seguir suas vidas como melhor lhes convier, mas
sem deixar que a sua fé cega e, por muitas vezes, irracional, nos contamine.
Alguém pode tentar identificar uma certa pretensão deste articulista quando eu
proponho mostrar a realidade para pessoas alienadas pela fé. No entanto, a
realidade se impõe naturalmente a qualquer tipo de crença, ideologia ou
opinião. Ainda que eu tenha fé que possa frutificar morangos num pé de abacate,
isso não acontecerá, porque a realidade frutífera daquela árvore não permite.
Quando
somos condicionados a crer, por exemplo, que Deus está no controle de tudo, e
tudo o que está acontecendo está sob sua permissão e anuência, estamos
contradizendo a bondade divina que pregamos. Como imaginar um Deus de amor que
permitiu séculos de escravização africana, anos de extermínio de judeus, e que
hoje está permitindo o extermínio de palestinos em Gaza? Não seria necessário
passar a crer num Deus diferente? Que sentido faz rezar pelo fim de uma guerra
se o Deus para o qual as orações são destinadas está permitindo que ela
aconteça? Se Deus sabe o que faz, qual o sentido de pedirmos a ele para que as
coisas sejam diferentes? E se “Deus quer assim”, qual santo seria capaz de
interceder por nossas súplicas? Seria um santo maior do que Deus? Ou seria um
santo capaz de fazer Deus mudar de ideia?
Como é
possível observar, as aplicações propostas são muito mais lógicas do que
pretensiosas. Obviamente, quando estamos falando de fé, consequentemente a
lógica precisa ser descartada. A fé remove montanhas. A lógica não. A fé pode
nos fazer acreditar naquilo que não existe. A lógica não. A fé pode nos fazer
acreditar que somos escolhidos por Deus. A lógica, sobretudo, aliada ao nosso
comportamento no dia a dia com relação ao outro, não. A fé pode nos fazer
acreditar que somos melhores e superiores àqueles que não tem fé. A lógica,
principalmente, quando observamos como quem não tem fé encara a realidade do
mundo, não. Ter ou não ter fé é uma questão de escolha, e escolhas também são
sagradas porque dizem respeito à liberdade de existência de cada um. O comportamento
nunca será padronizado a partir da fé, porque a lógica da realidade se sobrepõe
a crenças.
Sem
pretensão de polemizar, mas podemos dizer que o cristianismo é meio narcísico
quando nos apresenta como única e realmente válida a fé em Jesus. Quando
dizemos que só Jesus salva, e que só há prosperidade, paz e alegria em Jesus,
estamos não apenas colocando em condição de superioridade os cristãos, mas
também contrariando a lógica da realidade. Basta observarmos quantas pessoas
sofrem com fé em Jesus, e quantas outras tantas são felizes crendo em Buda,
Shiva, Exu ou em nada, por exemplo. O que determina o seu estado de felicidade
é um conjunto de fatores dentre os quais a fé é apenas mais um componente.
Porém, a alienação religiosa tenta invalidar a existência plena de qualquer
pessoa que não esteja submissa à fé em alguma crença. O estar fraco é estar
forte preconizado pelo apóstolo Paulo, é um dilema lógico que a fé se propõe a
resolver. Quando estou fraco, não posso ter forças. Mas a fé me faz superar a
fraqueza. Isso é positivo, e até vital para muitas pessoas.
A fé
também pode estar relacionada à sua força interior, ao seu desejo de superar as
dificuldades, ao seu espírito de combate para lutar pela sobrevivência. E isto
não está necessariamente relacionado a Deus, a santos ou a demônios. Do
contrário, os ateus estariam sempre derrotados a cada momento de fraqueza que
tivessem. O fato é que cada um de nós carregamos conosco uma ligação com a
espiritualidade, que alguém muito esperto inventou de doutrinar de acordo com
os seus interesses políticos, sociais e pessoais. Somos incrédulos por
natureza, mas a lógica da realidade nos torna crédulos naquilo que estamos
vendo diante de nossos olhos, enquanto a fé nos faz crer naquilo que não
sabemos se de fato é real. “Só acredito naquilo que posso tocar. Não acredito,
por exemplo, em Luiza Brunet.”, disse o já saudoso Luis Fernando Veríssimo, com
seu humor peculiar e genial. Mas há quem tenha crido e imaginado que pudesse
tocá-la algum dia. Mas nem tudo é uma questão de fé.
Eu
tenho fé, mas não abro mão da lógica. Talvez este seja o segredo da
sobrevivência sadia num mundo cada vez mais insano e cheio de crenças
infundadas por todos os lados. Talvez, nós sejamos os santos padroeiros de
nossas vidas. Parafraseando Verissimo, só acredito num Deus que possa ajudar a
todos igualmente. Não acredito, por exemplo, no deus de Malafaia, Macedo e de
outros picaretas da fé. Um deus que enche de bênçãos supostos “ungidos”, e
deixa à míngua pessoas que têm mais fé nele do que tais charlatões. Para quem é
mais fácil ter fé: para quem tem casa, comida e dinheiro, ou para quem está em
situação de rua e agradece a Deus quando um padre Júlio Lancelotti da vida
aparece com um prato de comida para lhe oferecer? E mesmo assim, muitos
“abençoados por Deus” defendem o extermínio social de pessoas em condição de
vulnerabilidade.
Neste
mundo de novos santos e convenientes canonizações, devemos nos questionar sobre
o porquê de crianças e adolescentes pretos mortos por balas perdidas nas
periferias da vida, não serem considerados objetos de santificação. Estes sim
morreram inocentes pagando pelos pecados de um mundo violento e desumano.
Violência social, racial e econômica “permitida” por Deus que, mesmo no
“controle” de tudo, não os poupou de tamanho sofrimento e dor. Não mereceriam
estas pequeninas vítimas de tamanha crueldade uma canonização? Não são eles
mártires de um estado racista e policialesco, cuja maioria se diz cristã e tem
fé em Deus? Ou será que a calça jeans que eles usavam não estava no estilo dos
novos santos? Ou será porque os seus pais não eram grandes empresários num país
europeu? Ou será porque a cor da pele de seus corpos abatidos não combina com
as dos santos deste mundo? Parafraseando agora Joãosinho Trinta, o santo
carnavalesco da Beija-Flor: Mesmo invisibilizados, rogai por nós todos os
santos pobres, pretos e periféricos que ainda crianças, jovens e adolescentes,
experimentaram a morte neste calvário social que a fé e a lógica nos apresentam
de formas bem distintas.
Fonte:
Por Ricado Nêggo Tom, em Brasil 247

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