Quo
vadis, África?
Como
anda e para onde vai a África em meio às múltiplas crises que o mundo enfrenta?
Neste século, a última vez em que parte do mundo virou-se para o continente
africano com preocupações humanistas, que eu me lembre, foi durante a pandemia
da Covid – 19.
Durante
este período, as atenções foram motivadas, principalmente, pelo receio que se
tinha em relação a uma eventual hecatombe, a pior de todas que aconteceriam, já
que o continente era o que possuía uma estrutura de saúde mais precária. A
própria OMS encabeçava esta preocupação.
Até
agora, se alguém sabe o que aconteceu por aqui, ainda não compartilhou.
Ficou-se por saber quais terão sido as razões que explicariam a baixa
letalidade da Covid 19 em África: os regimes securitários vigentes terão tido
mais sucesso na implementação de medidas restritivas do estado de emergência?
Terá contribuído a experiência com surtos e epidemias recorrentes? Teriam os
africanos alguma resistência natural ao coronavirus?
São
muitas as perguntas que podem ser feitas a respeito disso. Mas, certamente, não
caberia espaço para respondê-las aqui, assim como também precisaria de muitas
valências para fazê-lo. Mas como perguntar não faz mal, então deixaremos muitas
perguntas sem respostas.
Mas, e
hoje? A quantas anda a África em meio a tanta balbúrdia nas relações
internacionais entre os estados, em meio às marés das fake news, de tantas
ameaças, como a crise ambiental, a ameaça da guerra nuclear e tantas outras
ameaças que afligem a humanidade? Mais preciso ainda, como anda este continente
na escalada do imperialismo, da extrema direita e do trumpismo, em particular?
África
não está imune, no todo, ao caos, à desordem do mundo. Pelo contrário, como
quem chora nos porões, o que se passa aqui deixou de novo de ser ouvido lá
fora. Num cenário em que sistemas multilaterais encontram-se quase que
completamente desacreditados – em que relações históricas entre países e blocos
foram abalados, em que os alinhamentos ideológicos ora são importantes ora são
eclipsados pelas tentativas de diplomacias pragmáticas – cada país se agarra
onde pode.
Na
melhor das hipóteses, cada país procura o seu o bloco. Assim é também neste
continente, onde, além da União Africana, alguns outros blocos regionais tentam
oferecer fólego para as agendas de desenvolvimento dos seus pares. Mas não sem
grandes dificuldades.
África
sobreviveu à Covid 19, mas não ao mundo que emergiu depois desta crise de saúde
pública. De fato, o caos pós-pandemia foi apenas mais um condimento na
caldeira, pois o continente já se debatiam naquela altura com os seus múltiplos
e antigos desafios como a pobreza, a insegurança alimentar e nutricional,
agravados por prolongadas recessões econômicas.
Em
decorrência de tudo isso, este continente afundou-se em mais endividamentos,
estando quase todo ele mergulhado em crises econômicas e financeira,
propulsores do aumento da miséria e da tensão social. África se encontra hoje
quase completamente manietada pelas instituições financeiras internacionais
ocidentais e pela China. Nem da crise mundial de matéria-prima a África
consegue tirar alguma vantagem. Pelo contrário, tornou-se no elo mais fraco na
escalada do imperialismo euro-estaduninense.
Largados
à própria sorte, desamparados e, em alguns casos, até desprotegidos pelas suas
matrizes ideológicas, cada governo africano tenta a sua própria arte de
governar, de tal modo que as autocracias se proliferam, agora também sob
modelos trumpista e bolsonarista, segundo aos quais cada presidente tentará
fazer tudo o que quiser. Isso numa altura em que os níveis de democracias
vinham relativamente aumentando,
principalmente,através das alternâncias pacíficas de poder.
Não são
poucos os líderes políticos africanos que agora vão assumindo uma nova roupagem
populista e demagoga com todo o aparato técnico-informacional para mobilização
de apoiantes e meios militares para contenção política dos descontentes,
deslocando-se assim os regimes políticos de autocracias “puras” para uma
espécie de “democracias autocráticas”, se assim se pode designar.
Com
poucos exemplos progressistas, pouca vontade política, incapacidade de
enfrentamento ideológico e militar contra os seus principais algozes
capitalistas, não é mais estranho assistir a estreitamentos de relações
diplomáticas e comerciais entre países como Angola e a Argentina de Javier
Milei. Ou acordos de deportação entre os Estados Unidos da América e o Ruanda,
por exemplo. No geral, as “novas” relações bilaterais parecem juntar agora
amigos improváveis.
Nos
últimos anos, África regrediu drasticamente no combate à fome e a pobreza,
voltando a ter milhões de pessoas famintas, principalmente, na subregião
meridional do continente. As reformas estruturantes não aconteceram ou não
alcançaram os resultados desejados, a exemplo da reforma agrária na África do
Sul. As guerras já duram décadas sem que o mundo deite uma lágrima a mais por
isso.
Ironicamente,
as guerras entre a Ucrânia e a Rússia e no Oriente Médio foram as piores
notícias que os países africanos puderam ter nos três últimos anos. Não somente
em razão da guerra em si, já o bastante suficiente, mas também por desviarem
parte da atenção dos doadores internacionais. Estas ajudas viraram-se quase
toda para estes dois conflitos deixando os africanos em acampamentos em que já
encontravam à decadas sob os cuidados de forças militares conjuntas ou de
tropas da ONU, esta moral e financeiramente desgastadas. São os casos do Sudão
do Sul, República Democrática do Congo e até mesmo de Moçambique, para citar
apenas alguns exemplos.
A
África ainda precisa muito destes apoios internacionais, situação que se agrava
com os cortes financeiros feitos pelo governo de Trump aos programas de apoio
aos muitos países do continente, dentre os quais, no combate ao HIV/SIDA,
Tuberculose e controle da malária.
A
situação militar no continente parece ser agora uma estratégia de dominação do
Ocidente. Seria como uma chama acesa com oxigénio suficiente para não precisar
de mais combustível, por enquanto, mas que bombeiro local nenhum consegue
extinguir. São como guerras que podem esperar, mas sempre na presença militar
das potências mundiais que mantém reforçados adidos militares no continente em
números e importância consideráveis.
A crise
ambiental grassa. Suas cidades emergentes espelham uma urbanização inacabada
com graves problemas de saneamento básico e de mobilidade urbana, ficando cada
vez mais distantes das soluções que se aventam para a melhoria da qualidade de
vida das pessoas no planeta. Secas, inundações, pragas de insetos, e tudo mais,
anulam as tentativas de uma produção agrícola capaz de alimentar as populações
ao mesmo tempo em que acesso aos fundos de financiamento ambiental se deparam
com os entraves político-institucionais próprios à (re)produção da desigualdade
entre as nações ricas e pobres.
O caso
das vacinas da própria Covid-19 foi emblemática no sentido de demonstrar como
os países centrais do capitalismo, através dos organismos internacionais, atuam
na reprodução da pobreza em África, por exemplo, ao impedirem a África do Sul e
o Senegal de produzirem uma vacina que pudesse ajudar o continente naquela
altura. As soluções tecnológicas made in Africa enfrentam e continuarão a
enfrentar estes entraves como formas de manutenção da hegemonia eurocêntrica.
A
pobreza se alastra, impulsionando a emergência de movimentos sociais que lutam
contra má governação, contra o desemprego, abusos de poder, etc. A contenção
política nem sempre é só opressora pela força. É também argumentativa de tal
forma que as narrativas do desenvolvimento não toleram questionamentos sobre os
malefícios e falácias em torno do agrenegócio ou do empreendedorismo, por
exemplo.
Aos
olhos do grande capital, África parece ter voltado a ser apenas uma reserva de
recursos naturais e minerais em disputa pelas poderosas nações. Já os governos
africanos, vão tentando driblar os seus “animigos” antes do xeque-mate,
equilibrando-se entre as imposições de boa governanção e gestão de tesouraria.
Vão
ensaiando também parcerias fora das tradicionais relações, mas, sempre muitos
mais vulneráveis no jogo das alianças, na atração do capital estrangeiro e no
fortalecimento do capital nacional emergente. Por tudo isso, fica claro que a
financeirização e a militarização são as duas armas poderosas utilizadas pelos
credores internacionais, competidores entre si, para manter o continente sob
algum controle.
Mas a
África é resiliente. A população mais jovem do mundo se reinventa. Fazendo
trinta por uma linha, as pessoas do continente parecem mais livres do que
nunca, para criar e recriar se utilizando da frecha de luz lançada, por
exemplo, pelas tecnologias da informação. O smarthphone é um exemplo claro
disso, um instrumento de ligação com o mundo e, em muitos casos, o principal
instrumento de trabalho.
A
juventude, esta dor de cabeça dos governos africanos, cresce nas artes e nas
engenhosidades que margeiam as invenções capitalistas, reiventado diariamente
formas de sobreviver com alegria, esperança, bom humor e com determinação. É
uma juventude emancipada que desafia a gerontocracia à velocidade dos
algoritmos, impelindo os governos à mudanças. Mas a questão continua em
saber-se para quando estas mudanças e para onde vai a África.
Fonte:
Por Garcia Neves Quitari, em A Terra é Redonda

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