Como
a indústria farmacêutica estragou o tratamento de Alzheimer
Há uma
ironia terrível nos cortes que a Casa Branca vem impondo ao sistema de pesquisa
médica dos EUA, especialmente no financiamento de centros de pesquisa sobre o
Alzheimer, que, segundo relatos, enfrentam um déficit de US$ 65 milhões. A
ironia começa no fato de que décadas de pesquisa não conseguiram descobrir as
causas da doença e nem encontrar uma cura. Mas a questão é muito mais profunda
do que isso.
De
acordo com um novo livro do jornalista científico Charles Piller, Doctored:
Fraud, Arrogance, and Tragedy in the Quest to Cure Alzheimer’s, algumas das
descobertas científicas associadas a essa pesquisa ficaram sob suspeita, e
cientistas foram descobertos falsificando seus estudos de laboratório ao
adulterar as imagens usadas para demonstrar os dados.
Não que
isso tenha algo a ver, no entanto, com a atual suspensão de financiamento pelo
governo Trump. Embora o secretário de Saúde e Serviços Humanos de Donald Trump,
Robert F. Kennedy Jr., tenha se referido de passagem à pesquisa “fraudulenta”
sobre a doença de Alzheimer durante sua audiência de confirmação, ele não está
tentando reformar um sistema de pesquisa falho. Os cortes de financiamento são
apenas parte de uma campanha mais ampla de implosão que Kennedy lançou com a
aprovação do presidente.
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Bomba-relógio
Ofinanciamento
governamental para pesquisas sobre demência remonta a 1974, quando os Estados
Unidos criaram o Instituto Nacional do Envelhecimento (NIA). A iniciativa
surgiu em resposta às evidências emergentes da ciência biomédica de que a
condição descoberta por Alois Alzheimer em 1906 não era apenas uma
predisposição à velhice, mas uma doença do cérebro, e que sua incidência
aumentava com o envelhecimento da população.
Nos EUA
e em outros lugares, falava-se de uma epidemia, “uma bomba-relógio”, e de uma
preocupação crescente com os custos médicos e sociais exorbitantes. O que
surgiu foi uma rede que envolveu governos, hospitais, universidades, a
indústria farmacêutica e organizações da sociedade civil, como a Associação de
Alzheimer.
Segundo
a antropóloga médica Margaret Lock, em seu livro de 2013, “The Alzheimer
Conundrum” [O Dilema do Alzheimer], isso equivalia a um mercado de pesquisa,
diagnóstico e tratamento no qual todos competiam por financiamento. Os números
divulgados, diz Lock, foram “projetados para incitar ações políticas e aumentar
o financiamento para a pesquisa da DA”. Isso não significa que fossem
exagerados, mas sim que, como diz o jargão, sua apresentação foi maquiada.
Os
sintomas da demência são hoje bem conhecidos, em parte por sua representação em
um fluxo constante de filmes e programas de televisão, tanto de ficção quanto
documentários, ao longo dos últimos trinta anos. Esses produtos culturais não
informam os espectadores sobre o contexto mais amplo — concentram-se no
indivíduo, em sua perda de memória e identidade, e em sua relação com seu
principal cuidador, frequentemente o cônjuge.
Eles
são unidos por laços de amor que são severamente testados à medida que a doença
progride, e sempre termina da mesma forma — não há finais felizes, embora
alguns filmes optem pelo escapismo. Alternativamente, a família pode ser
disfuncional, ou o cenário pode ser uma casa de repouso, e o filme pode assumir
o formato de um drama, uma comédia de humor ácido, um suspense, um road movie
ou qualquer outro, porque é assim que os gêneros cinematográficos funcionam.
Alguns
se aproximam das manifestações clínicas da doença, e outros são extremamente
perspicazes. No entanto, há um elefante na sala (o que os teóricos chamam de
ausência estruturante): nunca há nada neles sobre a economia política por trás
da medicalização da doença.
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Biomarcadores
Todos
concordam que a demência está, de alguma forma, intimamente ligada às mudanças
que ocorrem no cérebro, marcadas pelas proteínas nocivas que Alzheimer
descobriu, chamadas biomarcadores. Estes consistem em placas de amiloide e
emaranhados de tau (descobertos posteriormente) que prejudicam a sinalização
cerebral e destroem neurônios.
No
entanto, quanto mais pesquisas eram realizadas, mais incertezas e anomalias
surgiam. Acumulavam-se casos em que autópsias cerebrais mostravam biomarcadores
em pessoas que não apresentavam sintomas. Houve estudos com gêmeos, cujos genes
eram idênticos, um dos quais desenvolveu demência e o outro, não. Isso levantou
questões cruciais sobre o que impede alguém aparentemente predisposto à
demência de contrair a doença — perguntas que permanecem sem resposta.
À
medida que a pesquisa se intensificava, os cientistas distinguiam outras
variedades de demência, descobriam novos biomarcadores e levantavam novas
questões. Embora a demência geralmente surja na velhice, um pequeno número de
casos, conhecidos como de início precoce, ocorre na meia-idade, às vezes até
mais cedo.
Pesquisas
em epigenética, que investigam a maneira como a expressão gênica é ativada e
desativada, descobriram uma ligação com certas mutações genéticas. Mas ninguém
conseguiu descobrir exatamente como elas funcionavam. Também se descobriu que a
doença tem um longo período de gestação, de dez a quinze anos, antes de começar
a se manifestar.
Enquanto
isso, a indústria farmacêutica trabalhava, buscando medicamentos para aliviar
os sintomas. De acordo com um dos cientistas de laboratório que atua na área,
Karl Herrup, em seu livro “How Not to Study a Disease” [Como Não Estudar uma
Doença] (2021), eles se fixaram em um fenômeno conhecido como “cascata
amiloide”.
A
hipótese amiloide sugeria que essas proteínas resultavam em uma cascata de
alterações bioquímicas que causavam demência, e essa se tornou a principal
linha de investigação dos pesquisadores. Apesar da incerteza dessa hipótese, os
pesquisadores ignoraram as evidências emergentes de outros fatores, como várias
formas possíveis de inflamação cerebral.
Essa
fixação, segundo Herrup, equivalia a um dogma simples: “Se você não está
estudando amiloide, não está estudando Alzheimer”. Ele argumenta que foram as
empresas que ditaram essa abordagem, e não a ciência. Os cientistas precisavam
dessas empresas para levar as descobertas da pesquisa laboratorial ao programa
de ensaios exigido, recorrendo fortemente a subsídios governamentais.
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Despersonalização
As
empresas médicas competiram entre si para encontrar o medicamento decisivo.
Isso apesar de menos de um em cada dez candidatos que iniciaram os ensaios de
fase um nos EUA terem concluído a fase três e recebido aprovação oficial. Mesmo
entre os medicamentos que chegaram até esse ponto, a aprovação pode não ser
obtida em outras jurisdições.
Existe
agora um padrão estabelecido. Um após o outro, são introduzidos medicamentos
que, na melhor das hipóteses, são minimamente eficazes por um período limitado
de tempo, se os efeitos forem sequer perceptíveis. Frequentemente, são
retirados após uma “análise de futilidade”. Eles não funcionam de forma alguma
em algumas pessoas e podem produzir uma série de efeitos colaterais físicos
adversos em outras.
O
indivíduo em sofrimento é capturado por um processo de medicalização que o
domina e o redefine como um mero paciente, rotulado com um nome e um número. A
pessoa desaparece, diz Lock, “transformada em um caso de transtorno de déficit
de atenção completamente descontextualizado […] reduzido inteiramente à
neuropatologia”. Essa despersonalização tende a agravar a condição e pode levar
a diagnósticos e tratamentos excessivos, especialmente para aqueles que acabam
em casas de repouso.
Tudo
isso soa como a definição apócrifa de insanidade de Albert Einstein: fazer a
mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes. O resultado foi que
outras abordagens acabaram abandonadas. Questões sobre influências externas e
ambientais eram ainda mais elusivas, embora houvesse especulações sobre os
benefícios da educação e da aptidão física e sobre o papel da plasticidade do
cérebro saudável, que lhe confere “capacidade de reserva”.
Pesquisadores
reuniram evidências demográficas de que pessoas e classes sociais que não
possuem esses benefícios são mais suscetíveis. A incidência de demência é maior
entre mulheres do que entre homens, e entre hispânicos e afro-estadunidenses,
em oposição a brancos, e aumenta à medida que a renda familiar diminui. Esse
padrão claramente implica fatores sociais e ambientais, e não médicos.
Investigando
imagens
Agora,
o livro de Charles Piller, baseado em uma série de artigos para a revista
Science, expõe uma cultura de fraude e cumplicidade científica. “Doctored”
apresenta evidências de que diversas autoridades importantes na área,
geralmente aquelas que apoiam a hipótese amiloide, foram responsáveis por
falsificar seus estudos de laboratório, adulterando as imagens usadas para
demonstrar os dados.
Em
questão estava um teste chamado “western blot”, que mede as quantidades de
proteínas específicas em uma amostra de tecido. Quando essas imagens são
coradas em laboratório e iluminadas em um visor digital, elas aparecem em um
padrão de bandas empilhadas em forma de escada; quanto mais espessas as bandas,
maior a quantidade daquela proteína específica na amostra.
Como
acontece com qualquer imagem fotográfica, é fácil corrigir as manchas usando
softwares como o Photoshop. Com essas ferramentas prontamente disponíveis, as
faixas podem ser copiadas e coladas; suas formas podem ser ajustadas, sua
intensidade manipulada e seus fundos alterados.
Dissidentes
científicos revelaram essa manipulação por meio de exames detalhados de imagens
com programas de IA. Esses “detetives de imagens” eram os informantes de
Piller. O livro é um relato jornalístico vibrante e ousado de dezenas de casos
envolvendo aparente má conduta em pesquisas sobre Alzheimer por cientistas
renomados.
Estes
são (ou foram) líderes da área que lideraram grandes conferências e fundaram
suas próprias empresas biofarmacêuticas. Eles atuaram como revisores uns dos
outros, citaram os artigos uns dos outros e editaram os periódicos em que
publicavam. Eles também controlavam as oportunidades de carreira e a concessão
de bolsas uns aos outros. Essa “máfia amiloide” fomentou uma monocultura
científica que esvaziou o cenário de pesquisa ao seu redor.
Os
investigadores de imagens descobriram mais do que manipulação de imagens. Às
vezes, artigos diferentes usavam a mesma imagem para representar resultados
diferentes. Acima de tudo, os resultados não eram replicáveis — o teste
decisivo do método científico.
Quando
manifestavam suas preocupações pelos canais adequados, os céticos
frequentemente enfrentavam resistência dos editores, ou os reguladores
repassavam o problema às universidades que empregavam os cientistas envolvidos.
As instituições hesitavam para evitar escândalos indesejáveis.
Piller
mostra como, no final, autores e periódicos foram forçados a retratar muitos
artigos amplamente citados, lançando uma sombra sobre todo o sistema de
publicação e revisão por pares. O escândalo arruinou reputações, e as empresas
associadas aos dados contaminados tiveram seus preços de ações gravemente
afetados. Uma dessas empresas acabou sendo indiciada por fraude por suposta
fabricação de dados.
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Engano e destruição
Posso
imaginar um produtor independente e ousado, se ainda houver algum por aí,
pegando este livro e transformando-o em um thriller como exposé. No entanto,
ensaios clínicos com voluntários tomando medicamentos fúteis, que podem custar
bilhões de dólares e levar muitos anos para serem concluídos, continuam quando
deveriam ser interrompidos. Financiamentos ainda são concedidos a startups e
patentes são licenciadas com base em ciência ruim e aparentemente fraudulenta.
Pelo
menos, argumenta Piller, há sinais de que a maré virou, com mais recursos
começando a fluir para vias alternativas de pesquisa. Isso seria bom, claro,
mas para os afetados, o problema permanece. Eles estão presos em um sistema
medicalizado no qual o cuidado é sacrificado no altar da cura em nome do lucro
privado. Mas os lá de cima não se importam.
Atualmente,
estou escrevendo um livro sobre a forma como a demência é representada na tela.
Lendo o livro de Piller, depois de assistir a filmes que apresentam imagens
cerebrais digitais de vários tipos, me sinto impelido a questionar o que nos é
mostrado e convidado a acreditar que se trata de representações autênticas, se
tais imagens podem ter sido manipuladas. De qualquer forma, o espectador comum
não consegue entendê-las, exceto como ícones de um terror desconcertante.
Isso
empalidece diante da amarga ironia do que acontece atualmente. Robert F.
Kennedy Jr. está desmantelando um sistema reconhecidamente disfuncional em nome
da “transparência radical”, defendendo que qualquer coisa “que promova a saúde
humana e não possa ser patenteada pela indústria farmacêutica” tenha
prioridade. Mas a retórica do secretário de saúde de Trump é vazia.
Não
imagino que ele esteja pensando em desviar qualquer uma das grandes somas
investidas em ciência tendenciosa para apoiar musicoterapia em casas de
repouso, por exemplo, ou outras formas de promover as boas vibrações que são
bem conhecidas por aliviar os sintomas, reconectando até mesmo pacientes em
estágio avançado que perderam a capacidade de falar com suas memórias
emocionais.
O
relatório com o qual iniciei o texto cita uma pesquisadora de Alzheimer da
Universidade de Pittsburgh que foi forçada a reduzir o orçamento do seu
laboratório em três quartos: “Estou interessada no que a experiência vivida faz
com o envelhecimento cerebral. Isso não é algo que interessará aos acionistas
de uma empresa privada, porque eles não podem monetizá-lo.”
Se este
é o problema, não foi criado por Trump — a responsabilidade recai sobre a ala
medicalizada do complexo industrial-governamental. Mas ele e seu governo não
estão resolvendo o problema — estão destruindo-o, e nada de bom pode resultar
disso.
Fonte:
Por Michael Chanan – Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

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