sábado, 27 de setembro de 2025

Os 'robôs' com armadilhas explosivas de Israel que aterrorizam moradores de Gaza

"Veículos militares antigos são transformados em bombas móveis, colocados em bairros residenciais e detonados remotamente para demolir prédios inteiros, destruindo pessoas ao redor em segundos."

Foi assim que Alam al-Ghoul, que vive na Cidade de Gaza, descreveu o que moradores daquela região chamam de "robôs com armadilhas explosivas".

Moradores afirmam que é a primeira vez que veem esse tipo de arma nos anos de guerra que enfrentam, que os ataques com esses robôs estão se tornando mais frequentes e que seu impacto é mais devastador do que o de ataques aéreos.

"Esses robôs podem ser tanques antigos ou veículos blindados de transporte pessoal que não servem mais para esse propósito. Eles os pegam, enchem de explosivos e lançam nas ruas, controlando-os remotamente", explicou Ghoul à BBC.

Ghoul, que ocasionalmente se voluntaria para ajudar a recuperar os corpos de vítimas da guerra em Gaza, disse que "minutos depois de se posicionarem na área que tem como alvo, ocorre uma enorme explosão. O céu fica vermelho em segundos".

"Se houver pessoas nas proximidades da explosão, nenhum vestígio delas será encontrado. Até mesmo seus restos mortais estão espalhados, e não conseguimos encontrá-los intactos", explica.

Os edifícios são completamente destruídos ou esvaziados, dependendo da proximidade com a explosão, deixando a área livre para as forças israelenses "como se fosse uma operação de varredura", acrescentou Ghoul.

Ele testemunhou os efeitos da destruição e disse à BBC que "famílias inteiras foram dizimadas".

"As famílias estavam em suas casas quando o 'robô' explodiu, e suas casas desabaram sobre elas. Algumas ainda estão sob os escombros em bairros como Al-Zaytoun, Seikh Radwan e Jabalia", afirmou.

O Gabinete de Imprensa do governo de Gaza, administrado pelo Hamas, declarou que os militares israelenses estão conduzindo uma operação militar na Cidade de Gaza desde 13 de agosto, matando mais de 1.200 pessoas e ferindo mais de 6.000, de acordo com estatísticas divulgadas pelas autoridades de saúde e oficiais da Faixa de Gaza.

Nessa declaração, o Hamas diz que as operações militares incluem bombardeios aéreos intensivos com mais de 70 ataques aéreos diretos por aviões de guerra, além da detonação de mais de 100 robôs explosivos em áreas povoadas, causando deslocamento forçado generalizado.

O Exército israelense está realizando um ataque intenso à Cidade de Gaza, com a mídia israelense relatando explosões tão poderosas que podem ser sentidas em Tel Aviv, a cerca de 70 km de distância.

O serviço árabe da BBC contatou o tenente-coronel Avichay Adraee, porta-voz militar das Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês), para comentar as alegações de que os militares usaram essas armas contra civis.

"Não discutimos métodos operacionais, mas posso dizer que usamos vários meios — alguns altamente inovadores e usados pela primeira vez — para atingir nossos objetivos, eliminando terroristas do Hamas e protegendo soldados e civis israelenses", disse Adraee à BBC.

<><> Explosão devastadora

Nidal Fawzi, outro morador da Cidade de Gaza, questionou se Gaza havia se tornado um campo de testes para armas israelenses, observando que os robôs "semeiam o terror, especialmente entre mulheres e crianças, e forçam as pessoas a fugir".

Ele disse à BBC que viu essas armas em ação durante uma operação militar.

"Era meia-noite. Vi um enorme 'robô' retangular sendo puxado por um veículo militar. Eles o deixaram perto de um muro e foram embora no veículo. Gritei para minha família sair imediatamente. Minutos depois de fugirmos, houve uma explosão como eu nunca tinha visto antes."

Fawzi descreveu a explosão como devastadora:

"Em Al-Zaytoun, vi corpos reduzidos a pequenos fragmentos. Mesmo a 100 metros de distância, pessoas morreram devido à pressão da explosão e à asfixia. Esta é a arma mais aterrorizante que já vimos nesta guerra."

Os moradores que fugiram antes da explosão "estavam apenas pensando em sair", tentando escapar do "monstro de ferro explosivo", lembra Fawzi.

<><> Reduzir o custo do confronto militar

O professor Hani al-Basous, especialista em segurança da Academia Joaan Bin Jasim de Estudos de Defesa, no Catar (Joaan Bin Jassim Academy for Defense Studies, em inglês), que trabalhou anteriormente na Faixa de Gaza, disse à BBC que os militares israelenses usam esses veículos explosivos controlados remotamente para destruir áreas residenciais, túneis e grandes edifícios sem intervenção direta.

Segundo ele, o objetivo é "reduzir o custo do engajamento militar e evitar baixas israelenses".

Al-Basous observou que os veículos carregam grandes quantidades de explosivos e têm sido empregados em túneis e blocos residenciais, provocando explosões enormes.

Karem al-Gharabli, outro morador de Gaza, disse à BBC que presenciou a arma em ação em abril de 2025, durante um ataque israelense a um prédio residencial de vários andares no leste da Cidade de Gaza.

"Eu estava a cerca de 400 metros da explosão, mas todos os estilhaços e pedras atingiram nossa casa", relatou Gharabli.

"O céu ficou vermelho e a luz era ofuscante. Foi assustador", acrescentou.

O diretor-geral do Ministério da Saúde Palestino, Munir al-Bursh, afirmou que os militares israelenses dependem diariamente de "robôs" explosivos na Cidade de Gaza. Segundo ele, trata-se de "uma tática que representa uma ameaça direta aos civis e piora a catástrofe humanitária".

Al-Bursh disse que cada um deles carrega até sete toneladas de explosivos e que há entre sete e dez detonações diárias, forçando deslocamentos em massa e aumentando a densidade populacional no oeste de Gaza para até 60.000 pessoas por quilômetro quadrado (a cidade de São Paulo, por exemplo, tem uma densidade demográfica de cerca de 7.500 habitantes por quilômetro quadrado).

Ele alerta que o uso contínuo desses robôs pode causar "massacres e à destruição total da infraestrutura residencial", especialmente devido à escassez de recursos de resgate e socorro durante o confinamento.

¨      Trump diz que "não permitirá" que Israel anexe a Cisjordânia após lobby de aliados

Donald Trump disse que não permitirá que Israel anexe a Cisjordânia ocupada, rejeitando apelos de alguns políticos de extrema direita em Israel que querem estender a soberania sobre a área e, assim, tornar impossível o estabelecimento de um estado palestino.

“Não permitirei que Israel anexe a Cisjordânia . Não, não permitirei. Isso não vai acontecer”, disse Trump a repórteres no Salão Oval, acrescentando: “Já chega. É hora de parar agora.”

Trump fez os comentários enquanto Benjamin Netanyahu chegava a Nova York para fazer um discurso nas Nações Unidas na sexta-feira.

Houve especulação generalizada em Israel e em outros lugares sobre como Netanyahu pretende retaliar pelo reconhecimento da Palestina como um estado no início desta semana pelo Reino Unido, Austrália, França, Canadá e Portugal.

Autoridades em Jerusalém disseram que qualquer ação de Netanyahu será previamente aprovada por Trump. As opções incluem a anexação total da Cisjordânia, ou de porções menores, como uma faixa de território ao longo da fronteira com a Jordânia, ou o fechamento de consulados britânicos, franceses e de outros países em Jerusalém Oriental, disseram analistas.

No início desta semana, autoridades britânicas disseram temer que Trump reconhecesse o controle israelense sobre assentamentos ilegais na Cisjordânia em retaliação às ações do Reino Unido e de outros países.

Líderes árabes e europeus estavam envolvidos em uma intensa operação de lobby para garantir que ele não levasse adiante o reconhecimento dos assentamentos na Cisjordânia .

Netanyahu tem enfrentado pressão significativa de facções de extrema direita que fazem parte de sua coalizão governante para anexar a Cisjordânia, provocando alarme entre líderes árabes, alguns dos quais se encontraram na terça-feira com Trump à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas.

Países árabes e muçulmanos alertaram Trump sobre as graves consequências de qualquer anexação da Cisjordânia — uma mensagem que o presidente dos EUA "entende muito bem", de acordo com o ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, Príncipe Faisal bin Farhan Al-Saud.

Os assentamentos israelenses cresceram em tamanho e número desde que Israel capturou a Cisjordânia da Jordânia na guerra de 1967 e, em seguida, impôs uma ocupação militar. Eles se estendem profundamente pelo território, com um sistema de estradas e outras infraestruturas sob controle israelense, dividindo ainda mais a terra. Um plano de assentamento israelense amplamente condenado, conhecido como projeto E1 , que efetivamente dividiria a Cisjordânia ocupada e a isolaria de Jerusalém Oriental, recebeu aprovação final em agosto. Ele atravessará terras que os palestinos buscam para um Estado.

O ministro das finanças israelense, Bezalel Smotrich, um ultranacionalista, disse na época que um estado palestino estava "sendo apagado da mesa".

Cerca de 700.000 colonos israelenses vivem entre 2,7 milhões de palestinos na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, que Israel anexou em uma ação não reconhecida pela maioria dos países.

A maior parte da comunidade internacional considera os assentamentos israelenses na Cisjordânia ilegais segundo o direito internacional. Israel contesta essa posição, citando laços históricos e bíblicos com a região e afirmando que os assentamentos proporcionam profundidade estratégica e segurança.

Enquanto líderes internacionais se reúnem nas Nações Unidas em Nova York, os EUA apresentaram um plano de paz de 21 pontos para o Oriente Médio, numa tentativa de acabar com a guerra de quase dois anos em Gaza.

Trump, que continua sendo o aliado mais fiel de Israel no cenário mundial, disse que conversou com representantes de países do Oriente Médio e Netanyahu na quinta-feira e que um acordo sobre Gaza pode acontecer em breve.

"Queremos os reféns de volta, queremos os corpos de volta e queremos paz naquela região. Então, tivemos conversas muito boas", disse ele.

Israel atraiu condenação global por sua guerra em Gaza, desencadeada por um ataque do Hamas a Israel em 2023, no qual militantes mataram 1.200 pessoas, a maioria civis. O conflito causou grande destruição e matou mais de 65.000 palestinos, a maioria civis. Um grupo de monitoramento da fome apoiado pela ONU afirma que parte do território sofre com a fome.

¨      Washington apoia plano para que Tony Blair lidere a autoridade transitória de Gaza

A Casa Branca está apoiando um plano que veria Tony Blair liderar uma administração temporária da Faixa de Gaza — inicialmente sem o envolvimento direto da Autoridade Palestina (AP), de acordo com relatos da mídia israelense.

Segundo a proposta, Blair lideraria um órgão chamado Autoridade Internacional de Transição de Gaza (Gita), que teria o mandato de ser a “autoridade política e legal suprema” de Gaza por até cinco anos.

Segundo relatos do Haaretz e do Times of Israel, o plano se baseia nas administrações que inicialmente supervisionaram a transição de Timor-Leste e Kosovo para a condição de Estado. A proposta sugere que Gita poderia inicialmente ficar baseada em el-Arish, capital provincial egípcia próxima à fronteira sul de Gaza, e eventualmente entraria no território acompanhada por uma força multinacional majoritariamente árabe, apoiada pela ONU. O plano prevê "a eventual unificação de todo o território palestino sob a Autoridade Palestina".

Segundo o plano, os palestinos não seriam obrigados a deixar o território, como se temia que acontecesse em propostas anteriores dos EUA para desenvolvê-lo como a “Riviera de Gaza” .

Se aprovado, Blair chefiaria um secretariado de até 25 pessoas e presidiria um conselho de sete pessoas para supervisionar um órgão executivo que administraria o território.

Mas qualquer papel para o ex-líder trabalhista inevitavelmente geraria intensa controvérsia. Após deixar o cargo de primeiro-ministro em 2007, ele assumiu o cargo de enviado para o Oriente Médio até 2015 e goza de alta reputação entre muitos líderes do Golfo. Mas Blair é profundamente ressentido por muitos palestinos – que o veem como um obstáculo aos seus esforços para alcançar a soberania – e, de forma mais ampla, por toda a região, por seu papel no apoio à invasão do Iraque pelos EUA em 2003.

Alguns diplomatas ocidentais enfatizaram que não era de forma alguma um acordo fechado que Blair comandaria a administração interina palestina, e disseram que ela poderia permanecer no poder por apenas dois anos.

Eles acrescentaram que o plano de Trump para o dia seguinte está vinculado a um cessar-fogo e a um acordo total sobre reféns.

A notícia do plano surgiu poucos dias após a Assembleia Geral da ONU aprovar um plano diferente para uma administração tecnocrática assumir o controle de Gaza . Segundo essa proposta, conhecida como Declaração de Nova York, a administração interina operaria por apenas um ano, com o claro entendimento de que, em seguida, entregaria o poder a uma Autoridade Palestina reformada, com uma Constituição revisada e após eleições para um novo presidente e parlamento.

A falta de um cronograma claro para a transição para o controle da AP, segundo o plano da Casa Branca, é vista como um potencial obstáculo ao seu endosso por palestinos e líderes árabes. Mas essa falta de especificidade, e a presença de Blair, seriam vistas como uma garantia para o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.

A Casa Branca vê o novo plano como um meio-termo entre a proposta inicial de Donald Trump para que os EUA e Israel "tomassem" Gaza e a Declaração de Nova York, endossada por mais de 140 estados. As sugestões anteriores de Trump de que os EUA e Israel poderiam "limpar" os palestinos de Gaza equivaleriam a uma limpeza étnica da população de cerca de 2 milhões de pessoas. Segundo os relatos, segundo o novo plano, os palestinos não seriam incentivados a deixar o território.

Uma versão ampla do plano apoiado pelos EUA foi apresentada por Trump em uma reunião em Nova York na quarta-feira com o emir do Catar, Sheikh Tamim bin Hamad al-Thani; o ministro das Relações Exteriores saudita, Príncipe Faisal bin Farhan Al Saud; o Rei Abdullah II da Jordânia; o presidente da Indonésia, Prabowo Subianto; e o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan. Trump disse que a reunião foi bem-sucedida, acrescentando que "estamos perto de fechar algum tipo de acordo".

O presidente francês, Emmanuel Macron, vem tentando conciliar as duas propostas.

Os estados árabes disseram que só contribuirão para uma força internacional de manutenção da paz mandatada pela ONU se houver um cronograma político claro para a formação de um estado palestino, e alguns podem argumentar que o plano de Blair não estabelece um curso irreversível para a criação de um estado, mas representa uma ocupação diferente e mais benigna do que aquela fornecida por Israel.

O Gita teria um conselho composto por sete a 10 membros, que incluiriam “pelo menos um representante palestino qualificado (potencialmente do setor empresarial ou de segurança)”, um alto funcionário da ONU, figuras internacionais de destaque com experiência executiva ou financeira e uma “forte representação de membros muçulmanos”.

Um grupo de cinco comissários se reportaria a uma secretaria executiva e supervisionaria áreas-chave da governança de Gaza: assuntos humanitários, reconstrução, legislação e assuntos legais, segurança e coordenação da AP.

Notavelmente, o plano afirma que o comissário que supervisiona os assuntos humanitários será responsável pela coordenação com agências humanitárias, incluindo a controversa Fundação Humanitária de Gaza, que a maioria dos estados árabes e agências humanitárias insistem que deve ser desmantelada.

Um comissário de coordenação da Autoridade Palestina seria encarregado de “garantir que as decisões do Gita e as da AP estejam, na medida do possível, alinhadas e consistentes com a eventual unificação de todo o território palestino sob a AP”.

O comissário também “acompanharia os esforços de reforma da AP em coordenação com doadores internacionais, instituições financeiras e parceiros árabes envolvidos no desenvolvimento institucional palestino”.

Uma Autoridade Executiva Palestina separada interagiria mais diretamente com os palestinos, prestando serviços “por meio de uma administração profissional e apartidária”.

A PEA será chefiada por um CEO formalmente nomeado pelo conselho do Gita e será responsável por supervisionar uma série de ministérios tecnocráticos, incluindo saúde, educação, finanças, infraestrutura, assuntos judiciais e bem-estar.

A PEA também receberia relatórios dos municípios de Gaza, que seriam responsáveis ​​por prestar serviços em nível local; uma força policial civil de Gaza composta por oficiais recrutados nacionalmente, profissionalmente avaliados e apartidários, encarregados de manter a ordem pública e proteger civis; um conselho judicial presidido por um jurista árabe que supervisionará os tribunais e o Ministério Público de Gaza; e a já mencionada Unidade de Preservação dos Direitos de Propriedade.

Numa tentativa de amenizar os receios de que o plano levará dezenas de milhares de palestinos a serem forçados a sair de Gaza durante a reconstrução, seria criada uma "unidade de preservação dos direitos de propriedade", com o objetivo de garantir que qualquer saída voluntária de palestinos de Gaza não comprometa o seu direito de regressar ao território ou de manter a propriedade.

Em discurso à Assembleia Geral da ONU na quinta-feira, Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, afirmou que o Hamas não teria nenhum papel na governança de Gaza no pós-guerra – uma condição fundamental para Israel e os EUA. No entanto, Abbas e a Autoridade Palestina administram apenas a Cisjordânia e não têm papel direto nas negociações sobre um cessar-fogo ou no planejamento pós-guerra para Gaza.

Ele disse que Gaza era uma “parte integrante do estado da Palestina e que estamos prontos para assumir total responsabilidade pela governança e segurança lá”.

Abbas discursou na reunião por videoconferência depois que seu visto foi revogado pelos EUA na preparação para a 80ª sessão da assembleia geral da ONU.

Na noite de quinta-feira, na Casa Branca, Trump rejeitou veementemente qualquer sugestão de que Israel pudesse anexar partes da Cisjordânia. Ele disse: “Não permitirei que Israel anexe a Cisjordânia. Não. Não permitirei. Isso não vai acontecer.”

 

Fonte: BBC News/Reuters/The Guardian

 

Nenhum comentário: