Sem
limite de agrotóxico, cultivo de flores põe em risco saúde de produtores e
clientes
QUEM
VISITA uma unidade de produção de plantas ornamentais, como as usadas em festas
de casamento, pode se deparar com impressões conflitantes. Por um lado, a
inegável beleza das flores. Por outro, o forte cheiro dos agrotóxicos —
responsáveis por náusea e dores de cabeça em quem lida diariamente com a
atividade.
Em
2024, o setor empregou 265 mil trabalhadores e movimentou mais de R$ 21
bilhões. Apesar da escala, o cultivo de plantas ornamentais não é monitorado em
relação à aplicação correta de agrotóxicos e está sujeito a regras mais brandas
que as exigidas nas lavouras de alimentos.
Órgãos
competentes, como Anvisa e Ministério da Agricultura, não estabelecem, por
exemplo, limites de segurança de resíduos dessas substâncias para o cultivo
desse tipo de planta. Estudos recentes, porém, têm mostrado que a falta de
normas e de fiscalização coloca em risco não só a saúde dos trabalhadores, mas
também a dos clientes.
“Já
tive dor de cabeça, enjoo, tontura. Mesmo com o EPI [equipamento de proteção
individual], a gente sente”, conta um produtor de Nova Friburgo (RJ), um dos
polos de produção no país, que prefere não se identificar.
Aos 27
anos, o produtor mantém um hectare de flores como boca-de-leão, áster mariana e
tango, comumente usadas em buquês, arranjos e decoração de eventos.
Com
poucos agrotóxicos com aplicação indicada para esses tipos de flores, o
agricultor recorre a produtos de outras culturas. É o caso do Verango,
fabricado pela Bayer e recomendado para frutas, grãos e legumes.
O
fungicida é um dos mais usados pelo produtor, cujo trabalho é em boa parte
manual. “A aplicação é feita com um jato conectado a um motor, que suga a
mistura de agrotóxico com água direto da bomba até a copa das flores”,
descreve.
Ele
aplica 1 litro por hectare. Essa é a dose máxima indicada na bula do Verango
para a maioria das frutas, mas está acima do prescrito para culturas como
algodão e soja. Como o produto não é indicado para flores, o floricultor de
Nova Friburgo (RJ) não conta com nenhuma orientação precisa sobre a forma
correta de uso do Verango.
“Eu
aplico semanalmente, sempre às sextas, e realizo a colheita nas segundas. Tem
produtor que pulveriza, já colhe e leva para o consumidor final”, conta. Em
dias de pouca ventilação, as gotículas de agrotóxico não se disseminam bem e
formam “uma névoa branca sobre as flores que demora a sair”, detalha o
produtor.
A bula
do Verango recomenda para algumas frutas o intervalo de segurança de três dias
entre a última aplicação e a colheita. No caso do tomate, o período de carência
é de 30 dias. Como não há indicação para flores, o produto sequer foi testado
para plantas ornamentais.
A falta
de opções de agrotóxicos para esse tipo de atividade é explicada pelo fato de
as flores integrarem a categoria de Cultura com Suporte Fitossanitário
Insuficiente (CSFI), explica o pesquisador da Embrapa Meio Ambiente Robson
Barizon. Trata-se de um grupo de cultivos para o qual há poucos agrotóxicos
registrados pelas indústrias, por serem considerados de pequeno porte.
“As
indústrias priorizam produtos destinados a culturas maiores, com maior retorno
financeiro”, afirma Barizon. Com isso, os agricultores acabam recorrendo a
produtos registrados para outras lavouras, como a soja. A praga pode até ser a
mesma que afeta as flores, explica o pesquisador, mas as diretrizes de
segurança não foram testadas para a espécie.
O uso
irregular de agrotóxicos revela também falhas na fiscalização pelo poder
público, afirma Luiz Cláudio Meirelles, pesquisador da Escola Nacional de Saúde
Pública da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e ex-gerente da área de toxicologia
da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
“Os
agrotóxicos só podem ser vendidos com receitas agronômicas. Se o agrônomo sabe
que o produtor está comprando um produto sem registro para usar em flores, ele
precisa ser responsabilizado. Se o agricultor adquire um agrotóxico sem
receita, a fiscalização precisa atentar para isso”, resume.
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Setor não monitora limites de agrotóxicos no produto final
Apesar
do número insuficiente de agrotóxicos, o cultivo de flores deveria ter regras
mais claras para o uso dos químicos, de acordo com especialistas consultados
pela Repórter Brasil.
O setor
deveria, por exemplo, passar por controle de resíduos de agrotóxicos no produto
final. Mas como se trata de um item “não alimentar”, a legislação dispensa a
definição do LMR (Limite Máximo de Resíduo).
Esse
parâmetro define a quantidade máxima aceitável de resíduos que pode ser
encontrada em determinado produto. O objetivo é evitar a aplicação em excesso
dos agrotóxicos e reduzir o risco de contaminação. “Se o produto final é
analisado e têm uma quantidade acima do permitido, pode indicar que o produtor
aplicou mais vezes do que o indicado ou colheu antes do prazo”, explica
Barizon.
A falta
de limites de segurança é considerada “alarmante” pela cientista ambiental
Patrícia Pereira, do Instituto de Biofísica da UFRJ (Universidade Federal do
Rio de Janeiro). “Cria muitos pontos nebulosos”, avalia.
“O
produtor rural em campo está mais exposto à contaminação dérmica, pela pele. E
o consumidor final também pode ter contato com os agrotóxicos residuais nas
flores. Mas ninguém sabe a quantidade”, alerta Patrícia.
A
pesquisadora é uma das autoras de um estudo publicado em 2021 sobre os riscos
de exposição humana e contaminação ambiental na floricultura. A pesquisa
concluiu que a falta de limites de agrotóxicos para as flores de uso ornamental
pode levar ao uso excessivo de químicos no plantio.
O
estudo fez uma revisão bibliográfica de pesquisas realizadas em várias partes
do mundo e identificou 201 químicos adotados na produção de flores. Quase
metade deles (94) é proibida na Europa, região com regras rigorosas para uso de
agrotóxicos. Na Bélgica, um dos maiores produtores globais, resíduos tóxicos
foram encontrados em amostras de flores e nas luvas usadas pelos trabalhadores.
Sobre o
impacto à saúde, as pesquisas analisadas indicavam alterações no
desenvolvimento neurocomportamental, disfunções endócrinas, distúrbios
reprodutivos e malformações congênitas em trabalhadores e moradores de áreas
produtivas. “No entanto, há pouca informação sobre a exposição por via oral e
inalatória”, diz o estudo.
Para a
pesquisadora, o Brasil deveria definir limites de agrotóxicos no cultivo de
ornamentais. “O LMR vai obrigar o registro adequado dos produtos para este tipo
de cultura, criar parâmetros para coibir o uso excessivo e estabelecer o
intervalo de segurança, evitando que o produtor defina esse prazo por conta
própria”, explica.
“É
fundamental estabelecer LMR específicos para o setor ornamental e criar
incentivos para o registro de pesticidas adequados”, concorda o engenheiro
agrônomo Márcio Godoi, pesquisador do Centro de Energia Nuclear na Agricultura,
ligado à Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da
Universidade de São Paulo). “Essas medidas são essenciais para garantir maior
segurança ao consumidor, proteger o meio ambiente e promover uma produção de
flores e plantas ornamentais mais sustentável”, afirma.
Um
representante dos produtores ouvido pela reportagem reconhece os riscos na
cadeia produtiva. “Temos poucos produtores associados, mas eles estão cientes
que o uso de agrotóxicos é prejudicial à saúde. Mas sem agrotóxicos eles não
conseguem colher um produto de qualidade”, diz Amauri Verly, presidente da
Associação de produtores da Vargem Alta (Afloralta), de Nova Friburgo.
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Uso de agrotóxicos potencialmente cancerígenos
Um dos
motivos de preocupação é o fato de o setor usar agrotóxicos ligados a graves
problemas de saúde, como o mancozebe e a abamectina, conforme contaram à
Repórter Brasil produtores de Nova Friburgo e Holambra (SP), maior produtora
nacional.
O
mancozebe, ingrediente usado em produtos como o Ridomil, está associado a casos
de câncer de tireoide. E a abamectina é investigada pela relação com
infertilidade e baixa qualidade do sêmen.
A abamectina
já passou por duas reavaliações da Anvisa, nos anos de 2008 e 2018. Na primeira, a Fiocruz emitiu uma nota
técnica considerando que o produto provoca “toxicidade para o sistema nervoso,
endócrino, reprodução e desenvolvimento”. Já em 2018, também optou-se por
mantê-lo no mercado “com adoção de medidas de mitigação de riscos à saúde e
necessidade de alterações no registro, monografia e bulas.”
O
pesquisador da Fiocruz Luiz Cláudio Meirelles considera “perigoso destinar
agrotóxicos carcinogênicos e com alta toxicidade para o cultivo de flores”. A
solução mais viável, diz ele, seria os órgãos de registro priorizarem produtos
biológicos, com baixa toxicidade. “Mais do que registrar, [é preciso] garantir
o acesso, pois muitos agricultores sequer sabem que esses produtos existem e
podem ser usados”, afirma.
“O
cenário estufa, que é um ambiente fechado, aumenta os riscos [de contaminação]
e precisa ser considerado para determinar medidas adequadas”, continua
Meireles.
Outro
aspecto que levanta preocupação é a dependência do trabalho manual para o
cultivo. Por se tratar de um produto sensível, isso ocorre em todas as etapas
de produção, desde a colheita, pós colheita, embalagem e até a organização de
arranjos e buquês. “É onde o funcionário da indústria floral tem o maior
contato com esses produtos”, afirma o engenheiro agrônomo Márcio Godói,
pesquisador da Esalq/USP.
“Essa
exposição prolongada pode provocar a contaminação pela pele, que tem potencial
de 10% de levar o agrotóxico à corrente sanguínea”, explica Godoi. “E as mãos,
assim como a inalação, têm 100% de potencial de levar o produto à corrente
sanguínea”, continua.
Mas os
mais expostos são os produtores de flores, “pela demanda por aplicações
sequenciais na alta temporada de vendas”, finaliza.
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O que dizem Ibraflor e Anvisa?
Procurado
pela Repórter Brasil, o Ibraflor (Instituto Brasileiro de Floricultura) afirmou
que já existem no mercado opções de produtos registrados para as plantas
ornamentais. “Além disso, muitos produtores não usam mais defensivos agrícolas
e preferem optar por controle biológico”, diz a nota enviada à reportagem.
A
Anvisa afirmou que “as flores não são consideradas culturas de uso alimentar e,
de acordo com a legislação vigente, não são exigidos estudos de resíduos para
tais culturas (RDC 4/2012, Art. 7º, § 4º).”
Ainda
segundo o órgão, “as flores se enquadram no tipo de cultivo de plantas
ornamentais, para o qual foi estabelecido regramento específico”, por meio de
uma instrução normativa de 2019, assinada conjuntamente por Anvisa, Mapa e
Ibama. “Este ato estabelece diretrizes para o registro de agrotóxico e afins
destinados ao uso agrícola em cultivos de plantas ornamentais, bem como para
inclusão desses usos em produtos já registrados”, diz a nota.
Fonte:
Repórter Brasil

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