Contra
decisão de ministro sobre JBS, fiscais do Trabalho deixam cargos
AO
MENOS nove auditores fiscais do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) deixaram
cargos de coordenação regional de combate ao trabalho escravo em todo o país,
nesta quinta-feira (25). O anúncio foi feito durante reunião da Conatrae
(Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo), espaço que reúne
autoridades públicas e entidades da sociedade civil.
A
renúncia coletiva é um protesto contra a medida do titular da pasta, Luiz
Marinho, de puxar para si próprio a decisão final sobre a entrada da JBS Aves,
empresa da maior processadora de proteína animal do mundo, na chamada Lista
Suja do trabalho escravo. O cadastro oficial do governo federal torna públicos
os dados de empregadores responsabilizados por auditores fiscais do MTE por
essa prática.
A falta
de um coordenador regional não inviabiliza, mas prejudica e atrasa o
planejamento de operações de resgate de trabalhadores e a articulação com
outros órgãos públicos envolvidos nessas ações, como PF (Polícia Federal) e MPT
(Ministério Público do Trabalho). Existem 22 regionais no Brasil.
Em
nota, a assessoria de imprensa do MTE afirmou que ainda não recebeu os pedidos
oficiais de entrega dos cargos. O posicionamento diz que o ministro “exerceu
sua prerrogativa legal”. Segundo o texto, “a JBS alega que não foram
considerados os recursos apresentados e aponta inconsistências no auto de
infração”. Diante disso, o ministro “encaminhou o processo à Consultoria
Jurídica do Ministério, responsável por avaliar juridicamente as alegações”.
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Medida de Marinho foi alvo de críticas por risco de ‘politização’ de decisão
técnica
No dia
18 de setembro, o ministro Luiz Marinho “avocou” (chamou) para si próprio a
competência de decidir sobre uma autuação à JBS Aves por condições análogas às
de escravo em granjas fornecedoras da empresa — a fiscalização ocorreu em
dezembro do ano passado, no Rio Grande do Sul.
Pessoas
físicas e jurídicas autuadas pelos servidores da pasta podem se defender em
duas instâncias administrativas, antes de terem seus nomes incluídos na Lista
Suja. A decisão do ministro, no entanto, barra a entrada da companhia no
cadastro até que Marinho emita um parecer final. A medida foi alvo de críticas
de autoridades e entidades dedicadas ao combate ao trabalho escravo.
“Estamos
diante de um precedente extremamente perigoso: empresas com grande porte
econômico podem ter seus casos de trabalho escravo retirados da esfera técnica
e transferidos para negociação política. Isso institucionaliza a impunidade
seletiva e corrói toda a credibilidade do sistema de combate ao trabalho
escravo no Brasil”, afirmou em entrevista à Repórter Brasil na semana passada
Luciano Aragão, procurador do MPT (Ministério Público do Trabalho). O MPT é um
órgão independente, sem subordinação ao governo federal.
Na
reunião nesta quinta-feira (25) da Conatrae, Luciano Aragão afirmou que
pretende judicializar a questão.
Desde
novembro de 2003, quando a Lista Suja foi criada, uma “avocação” por um
ministro do Trabalho nunca havia acontecido. O período inclui os dois primeiros
governos de Lula e as duas gestões de Dilma Rousseff, além das presidências de
Michel Temer e Jair Bolsonaro.
O
artigo 648 da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) permite que o titular do
Ministério do Trabalho tenha a palavra final sobre o assunto, mas isso bate de
frente com tratados internacionais que o Brasil já ratificou, segundo Luciano
Aragão.
“A
avocação pelo ministro do Trabalho do processo administrativo contra a JBS por
trabalho escravo representa grave violação à Convenção 81 da OIT (Organização
Internacional do Trabalho), que garante a independência técnica da fiscalização
trabalhista”, afirmou o procurador do MPT.
Em
nota, o MTE sustenta que “a avocação é um instrumento previsto em lei, não
possui caráter inédito ou exclusivo e tampouco se fundamenta no porte da
empresa”. Ainda de acordo com o posicionamento, “trata-se da análise, pela
autoridade competente, de atos administrativos sob sua responsabilidade, com a
prerrogativa legal de revê-los”.
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JBS foi autuada por trabalho escravo na produção de frangos no RS
A JBS
Aves foi responsabilizada por submeter dez pessoas a condições análogas à
escravidão, no Rio Grande do Sul, em inspeção realizada em dezembro do ano
passado. Segundo os auditores fiscais do Ministério do Trabalho, os resgatados
atuavam na coleta de frangos em granjas fornecedoras da empresa e tinham
jornadas de até 16 horas diárias.
A
operação também identificou trabalho forçado e condições degradantes, elementos
caracterizadores do crime, segundo o artigo 149 do Código Penal. Os auditores
fiscais apontaram que as despesas de transporte e alimentação do grupo, desde
seus municípios de origem até o local de trabalho, eram ilegalmente abatidas da
remuneração, o que configuraria servidão por dívida.
Originalmente,
os trabalhadores foram contratados por uma terceirizada, a MRJ Prestadora de
Serviços. No entanto, a Inspeção do Trabalho classificou a unidade da JBS Aves
de Passo Fundo (RS) como a principal responsável pelas infrações. Segundo os
auditores fiscais, a JBS Aves seria a responsável por estabelecer locais e
horários da apanha do frango nas granjas fornecedoras.
Questionada
especificamente sobre a possibilidade de avocação por parte do ministro Luiz
Marinho, a JBS não se manifestou. A nota emitida pela assessoria de imprensa
afirmou que a Seara (marca do grupo empresarial) “suspendeu imediatamente o
prestador de serviços em Passo Fundo, encerrou o contrato e bloqueou esta
empresa assim que tomou conhecimento das denúncias”. O posicionamento informa
ainda que “a companhia tem tolerância zero com violações de práticas
trabalhistas e de direitos humanos”.
“Todos
os fornecedores estão submetidos aos nossos Código de Conduta de Parceiros e à
nossa Política Global de Direitos Humanos, que veda explicitamente qualquer
prática de trabalho como as descritas na denúncia”, acrescentou a nota.
• Fiscalização encontra venezuelanos
escravizados em obra do governo de Rondônia
UMA
FORÇA-TAREFA FLAGROU trabalhadores em condições análogas à escravidão na
reforma de uma escola indígena contratada pelo governo de Rondônia. O caso
chama atenção porque a gestão do governador Marcos Rocha (União Brasil)
desarticulou a comissão de combate à escravidão no estado.
No
último dia 10, procuradores do MPT (Ministério Público do Trabalho) e do MPF
(Ministério Público Federal), auditores-fiscais do MTE (Ministério do Trabalho
e Emprego) e agentes da PF (Polícia Federal) resgataram dois venezuelanos que
trabalhavam na obra, na Terra Indígena Rio Guaporé, custeada com recursos
públicos.
Os
trabalhadores estavam alojados em condições precárias, sem alimentação
garantida, com salários atrasados e sem condições de deixar o local de trabalho
nos dias de descanso.
Coronel
aposentado da Polícia Militar, Rocha está no segundo mandato como governador de
Rondônia. Elegeu-se em 2018 pelo PSL, então partido do ex-presidente Jair
Bolsonaro, agora no PL. Em 2022, foi reeleito pelo União Brasil.
No
início do atual mandato, ele revogou um decreto de 2017 que criava a Coetrae
(Comissão Estadual para Erradicação do Trabalho Escravo). Trata-se de um órgão
consultivo, formado por integrantes do poder público e da sociedade civil,
responsável por executar e monitorar políticas de combate à escravidão
contemporânea.
Procurado
para comentar o caso, o governo de Rondônia não se pronunciou até o momento. O
espaço segue aberto a manifestações.
Os
autos de infração ainda não foram lavrados pelos auditores-fiscais do trabalho.
Os procuradores também não concluíram as apurações. As autoridades ainda
estudam o grau de responsabilidade do governo de Rondônia e da empresa
contratada para a obra.
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Governo foi processado para reformar escola indigena
A
escola em reforma fica na Aldeia Ricardo Franco, às margens do Rio Guaporé, em
Guajará-Mirim (RO), região na fronteira entre o Brasil e a Bolívia. Lá vivem
indígenas da etnia Wajuru, que há anos cobram a revitalização da Escola
Estadual Indígena de Ensino Fundamental 5 de Julho. Em 2024, o MPF chegou a
processar o governo para que a reforma fosse realizada.
Ainda
no ano passado, a Seduc (Secretaria Estadual de Educação) incluiu a obra num
contrato firmado com a empresa Terra Forte Limitada para reformas de unidades
estaduais de ensino. Pelo contrato, a Terra Forte receberia R$ 21 milhões.
Desse valor, segundo o MPT, R$ 504 mil seriam destinados à Escola 5 de Julho,
que é relativamente pequena — atende entre 51 e 200 alunos, de acordo com o
Censo Escolar de 2024.
Camilla
Holanda Mendes da Rocha, procuradora do Trabalho e coordenadora regional da
Conaete (Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo e
Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas) em Rondônia e Acre, disse que os recursos
previam a contratação regular de operários para a reforma, bem como a compra de
equipamentos de proteção individual. A força-tarefa de fiscalização, contudo,
encontrou uma situação diferente da prevista em contrato.
Cinco
trabalhadores foram encontrados no canteiro de obras. Três deles eram indígenas
da Aldeia Ricardo Franco, trabalhando sem proteção e contratados de forma
precária. Outros dois eram imigrantes venezuelanos que atuavam como
serralheiros. No caso deles, as irregularidades configuravam trabalho análogo à
escravidão, segundo a procuradora.
Ela
conta que os trabalhadores não tinham banheiro adequado. No lugar de portas e
janelas havia telhas de fibrocimento. Eles usavam como copo coletivo uma
latinha de cerveja improvisada e dormiam em colchões em cima de mesas escolares
juntas umas às outras.
“As
condições encontradas eram de fato degradantes”, descreveu o auditor-fiscal do
trabalho André Vagner Dourado Santos, que participou da operação, segundo
declarações publicadas no site do MPT.
“Eles
estavam privados de sair do local porque a empresa não pagava os salários
regularmente e, como o acesso era difícil, não tinham dinheiro sequer para
tentar sair de lá. Por algumas vezes, tentaram falar com quem eles entendiam
que seria o patrão e não obtiveram resposta, o que acabou configurando essa
privação do direito de ir e vir por se encontrarem em local de dificílimo
acesso”, acrescentou Santos.
Os
próprios membros da força-tarefa só conseguiram chegar ao canteiro de obras de
helicóptero, depois de receberem uma denúncia de alunos e professores da
pós-graduação da Unir (Universidade Federal de Rondônia), que visitaram a
aldeia em agosto.
De
acordo com o artigo 149 do Código Penal, quatro elementos podem definir
escravidão contemporânea no Brasil: trabalho forçado (que envolve cerceamento
do direito de ir e vir); servidão por dívida (um cativeiro atrelado a dívidas,
muitas vezes fraudulentas); condições degradantes (trabalho que nega a
dignidade humana, colocando em risco a saúde e a vida); ou jornada exaustiva
(levar ao trabalhador ao completo esgotamento dado à intensidade da exploração,
também colocando em risco sua saúde e vida). A presença de apenas um desses
elementos já configura trabalho escravo.
Para a
procuradora Camilla Rocha, o isolamento da aldeia e até o senso de urgência dos
indígenas sobre a reforma da escola da comunidade acabaram por contribuir para
a situação degradante dos trabalhadores. “Os indígenas eram quem muitas vezes
fornecia comida aos venezuelanos, pois viam a situação deles e também queriam
que a obra avançasse”, explicou.
— Toda
essa situação gerou um caso absurdo: o dinheiro da sociedade acabou financiando
o trabalho análogo à escravidão no estado — Camilla Holanda Mendes da Rocha,
procuradora do Trabalho.
À
força-tarefa, um dos trabalhadores contou que passou situação semelhante na
Guatemala, onde não teve apoio estatal. Na Terra Indígena Rio Guaporé, ele se
recusou inicialmente a ficar no alojamento oferecido, mas por fim teve de
ceder. “Havia morcegos por todo lado”, declarou.
Camilla
ainda lembrou que o STF (Supremo Tribunal Federal) ratificou recentemente que a
administração pública é responsável pelo meio ambiente do trabalho, mesmo nos
casos em que contrata uma empresa para executar o serviço. A corte ratificou
também que os contratos preveem verbas para que isso seja garantido. Como isso
não ocorreu, é preciso saber para onde esses recursos foram destinados. “Há um
outro tema a ser apurado”, disse a procuradora.
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Contexto de fragilização em Rondônia
A
procuradora também reclamou da falta de políticas públicas em Rondônia para a
prevenção de casos de trabalho escravo. Após o resgate de trabalhadores
venezuelanos, o MPT enviou uma recomendação para que o governo garanta o
cumprimento das leis e normas de trabalho. A Repórter Brasil cobrou a gestão
estadual sobre o recebimento da recomendação, mas não houve retorno.
O
estado de Rondônia firmou em 2016 o Pacto Nacional para a Erradicação do
Trabalho Escravo, justamente para tentar garantir empregos dignos aos seus
habitantes. Segundo Camilla, desde então, muito pouco foi feito.
Em
2017, o então governador Confúcio Moura, hoje senador pelo MDB, assinou o
decreto que criou a Coetrae em Rondônia. Nunca, entretanto, nomeou todos os
seus membros para que a comissão funcionasse em condições ideais. A partir de
2019, a pressão pela nomeação de membros da Coetrae recaiu sobre o coronel
Marcos Rocha.
Em
2022, a Conatrae (Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo) chegou
a emitir uma nota pública revelando que o governador Rocha planejava extinguir
a comissão estadual e posicionando-se contra a ideia. Acabou não sendo ouvida.
Além de
Rondônia, outros seis estados criaram uma Coetrae e a desativaram: Acre,
Amazonas, Espírito Santo, Minas Gerais, Paraíba e Pernambuco. As comissões de
Espírito Santo e Paraíba estão em processo de reativação, segundo levantamento
do Ministério dos Direitos Humanos.
Outros
três estados nunca criaram uma Coetrae, segundo o ministério: Amapá, Roraima e
Santa Catarina. As comissões do DF e dos 16 estados restantes estão ativas.
Em
2023, ano da extinção da Coetrae em Rondônia, o estado registrou o maior número
de casos de trabalho escravo em dez anos: foram quatro episódios, com 16
trabalhadores resgatados, de acordo com dados do MTE tabulados pelo projeto
Perfil Resgatado, da Repórter Brasil. O número de trabalhadores resgatados nos
últimos três anos (51) representa 55% do total de resgatados da última década.
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Responsabilidades e indenizações
A
Repórter Brasil enviou pedidos de informações à Secretaria de Comunicação de
Rondônia desde a segunda-feira (22), mas não recebeu respostas. Representantes
do governo do estado participaram de audiência com o MPT para tratar do assunto
no último dia 17. Eles têm até a próxima segunda-feira (29) para se pronunciar
sobre o tema.
No
mesmo dia, também estiveram em audiência representantes da Terra Forte. A
empresa da capital Porto Velho tem mais de R$ 66 milhões em contratos firmados
com o governo de Rondônia só em 2024. Também já recebeu outros R$ 6,2 milhões
do governo federal. A Repórter Brasil ligou e enviou e-mail aos contatos da
empresa que constam em seus registros oficiais. Ninguém respondeu.
Os
trabalhadores resgatados foram encaminhados à Semias (Secretaria Municipal de
Inclusão e Assistência Social) de Porto Velho para atendimento psicológico e
análise da situação familiar. Cada um deverá receber R$ 16,6 mil em verbas
rescisórias, incluindo saldo de salário, férias, 13º proporcional e horas
extras.
Fonte:
Repórter Brasil

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