A
saúde mental, para além das campanhas
Durante
o mês de setembro circulou nas redes sociais a seguinte frase: “Sabe o que
seria mais efetivo para prevenção do suicídio do que a campanha setembro
amarelo? O fim da escala 6×1”.
É uma
boa provocação porque revela um equívoco frequente quando se trata do tema de
prevenção ao suicídio: associá-lo diretamente a um diagnóstico de transtorno
mental – e, como amplamente recordado nas redes, essa campanha é uma criação da
Associação Brasileira de Psiquiatria. Um dos problemas dessa associação é que a
compreensão e a resposta ficam constritas nos mesmos termos da formulação do
problema: se a questão se restringe a uma epistemologia da psiquiatria, a
resposta será relativa ao que a psiquiatria pode oferecer.
Tratar
apenas como correlatos ou secundários o contexto econômico e social faz com que
se retire da centralidade o próprio contexto de vida das pessoas, e as
respostas para as desigualdades econômicas e sociais também passam a ser
secundárias. Além disso, a experiência de sofrimento não é o mesmo que um
diagnóstico de transtorno mental: o uso de uma ou outra expressão não se dá por
mera escolha ideológica. Reduzir a experiência de sofrimento de alguém em sua
relação com o corpo social a uma categoria de doença, como nos ensinaram os
autores da perspectiva teórico-prática da desinstitucionalização, é operar pela
simplificação, descontextualização e objetificação de existências.
No
limite, a partir de uma leitura desse tipo não se produz saúde mental. Nega-se
o sujeito em sua complexidade, história, subjetividade e em sua íntima relação
com seu contexto social, que é locus de trocas e negociações. E nega-se o
cenário real da vida: as condições de trabalho e de moradia, o acesso a
serviços sociais e de saúde de forma contínua e como parte do cotidiano de
vida, o que é ofertado ou negado como oportunidades de lazer e o que se
constrói como possibilidade de projetar futuros, por exemplo.
A
reforma psiquiátrica brasileira e a luta antimanicomial vêm afirmando isso há
décadas: as pessoas precisam ser escutadas em suas necessidades e sofrimentos e
precisam de trabalho e renda dignos. As pessoas precisam ter reconhecido seu
valor social e precisam de um teto para morar. As pessoas precisam se sentir
pertencentes a redes de relação e precisam de serviços que respondam às suas
necessidades reais. As pessoas precisam sentir esperança no amanhã – e é
preciso criar as condições para isso.
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Políticas que cuidam
A
necessidade de implementação de leis e políticas que garantam o direito ao
trabalho, à renda e à moradia dignas é afirmada há décadas pelos mais diversos
movimentos sociais, incluindo o da luta antimanicomial. São políticas
necessárias porque são condições basais para viver com dignidade. E esses
direitos, quando garantidos, criam abertura para ainda mais vida.
A
redução de jornada de trabalho e o fim da escala 6×1, por exemplo, asseguram
uma condição básica para viver a vida: tempo. É preciso tempo para viver a
vida, para construir e viver relações, para descobrir o que cada um gosta e o que constrói sentido para a
existência. É preciso tempo para experimentar o mundo, para pensar e para
sentir. O tempo a mais não é apenas para descanso – que também é importante –
ou para cumprir com outras tantas atividades da vida adulta.
Já o
direito à moradia, enquanto outro exemplo de um direito que se expressa para
além de sua própria materialidade, promove a experiência de segurança: ter uma
casa é não ter a preocupação diária de batalhar por um canto para descansar o
corpo, é saber que há um lugar de referência para voltar, e é ter um espaço
real para construir permanência e futuro.
Dispor
de tempo e experimentar segurança são condições importantes para projetar a
vida, para inventar e buscar outros futuros para si, para os outros e para o
mundo e para tornar reais os sonhos. E isso é fundamental para experimentar
saúde mental.
Por
isso a provocação das redes sociais à campanha setembro amarelo é tão
pertinente.
Pepe
Mujica disse certa vez: “Você é livre quando gasta tempo da sua vida com coisas
que te motivam”. Para os que defendem a saúde mental e levam a sério a reforma
psiquiátrica e a luta antimanicomial, o tema da liberdade – ser livre – é caro
e inegociável: só há cuidado em liberdade. Essa defesa na maior parte das vezes
é afirmada (porque precisa ser assim reafirmada, considerando as tantas
instituições asilares ainda existentes) como a liberdade de circular, de ocupar
e de viver os espaços da vida comum, sendo o único cuidado possível aquele
oferecido junto aos territórios da vida compartilhada e em liberdade.
Mas a
reforma psiquiátrica, ao colocar como horizonte a transformação da relação
social com a loucura, também afirma a liberdade enquanto a liberdade de ser
quem se é, celebrando as múltiplas formas de existência e de expressão
singulares no mundo. E, para descobrir quem se é, também é preciso tempo e
segurança: é preciso tempo para experimentar quem somos em diferentes relações,
e segurança para arriscar experimentar coisas novas e descobrir o que nos
alegra e compõe com a nossa existência. É preciso espaço na vida para
experimentar o desejo que nos move no mundo.
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Serviços que cuidam
Transformar
as condições materiais de existência, assegurando o direito ao trabalho e à
renda dignos, bem como à moradia e outras formas de bem-estar social, é
fundamental para todos. Mas, para que não reste dúvida, também é necessário
prover cuidado estratégico em saúde mental para quem precisa.
Para
isso, é preciso investir em serviços que cuidam.
Em
2017, um ano marcado por retrocessos significativos na política nacional de
saúde mental, que estava em desalinho com a reforma psiquiátrica, foi divulgado
pelo então Ministério da Saúde em uma apresentação um dado muito interessante:
“a existência de CAPS no município reduz em 14% o risco de suicídio”. O slide
apresentava os fatores de risco e de proteção para o suicídio, e o único fator
de proteção identificado foi a presença de CAPS, os Centros de Atenção
Psicossocial parte da Rede de Atenção Psicossocial do SUS, nos municípios. Isso
não é pouca coisa.
Os CAPS
são serviços estratégicos de saúde mental substitutivos ao modelo asilar, de
base comunitária, do tipo “portas abertas” e que constroem relação com o
território a que pertencem – apenas para início de conversa. Os CAPS são
serviços que, quando existentes nos municípios, transmitem a mensagem de que
ali está presente ao menos alguém – um profissional, uma equipe inteira, um
serviço – para cuidar de quem sofre.
Claro
que nem tudo são flores e que os desafios para os CAPS cumprirem com seu
mandato são muitos. Mas justamente esse dado sobre os CAPS coloca para os
governos um dever ético e político de investir na expansão de uma rede de
serviços de base territorial e substitutivos ao modelo asilar. E coloca uma
direção para o legislativo: além de leis que melhoram as condições gerais das
vidas das pessoas, o que precisamos é investir na Rede de Atenção Psicossocial
para que essa rede se fortaleça de forma coordenada e articulada.
Os
CAPS, em sua concepção, são serviços que assumem a responsabilidade pelas
pessoas e pelos territórios de sua abrangência, e com investimento apropriado
são vórtices de transformações no tecido social na construção de uma comunidade
que cuida. Os CAPS são serviços em que a liberdade é princípio e horizonte.
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Comunidades que cuidam
Certamente
é muito mais possível construir percursos de cuidado em serviços de saúde
mental quando há políticas e leis que cuidam. Qualquer trabalhador de saúde
mental sabe, pela prática, que é muito diferente o percurso de cuidado de uma
pessoa quando ela tem casa, comida, trabalho e acesso a uma rede de serviços, e
quando esses direitos estão ausentes ou são negados.
Agora,
além do acesso a direitos pelas políticas e do uso de serviços de saúde mental
implementados, o cuidado requer pessoas.
De
todos os recursos disponíveis e inventados para cuidar da saúde mental o mais
importante são as pessoas. São as pessoas que, quando se dispõem a entrar com
seus corpos em relação, escutando o outro em sua alteridade e sofrimento e
operando com os conflitos que emergem das relações, transformam as relações e
com isso transformam vidas; são os trabalhadores de serviços da Rede de Atenção
Psicossocial que, junto às pessoas com necessidades e sofrimentos e em aliança
com a comunidade, constroem percursos de cuidados e de cidadania. Não se é
livre, nem se experimenta segurança sozinho.
O
cuidado envolve uma sociedade inteira. Uma comunidade que cuida e que dispõe de
tempo coletivo para isso e de segurança no amanhã para sonhar.
Como as
redes sociais estão afirmando, assegurar a redução de jornada de trabalho e o
fim da escala 6×1 é lutar de maneira ampliada pelo cuidado em saúde mental.
Afinal, também como já disse Mujica, “a vida não é só trabalhar. Tem que deixar
um bom capítulo para as loucuras que cada um tem”.
Fonte:
Por Cláudia Braga, para sua coluna em Outra Saúde

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