Lavagem
de dinheiro: como era o esquem a do PCC que envolvia motés, postos e jogos de
azar
Uma
operação realizada nesta quinta-feira (25) pelo Ministério Público de São Paulo
e pela Receita Federal revelou como operava um esquema da facção criminosa
Primeiro Comando da Capital (PCC) para lavagem de dinheiro ilícito nos setores
de combustíveis, motéis, franquias e jogos de azar.
👉 A Operação Spare é um desdobramento
da Carbono Oculto, que mostrou operações do PCC dentro de fintechs do sistema
financeiro da Faria Lima. Segundo a Receita, recursos de origem ilícita eram
inseridos no setor formal por meio de empresas operacionais.
Foram
cumpridos 25 mandados de busca e apreensão nas cidades de São Paulo (19
mandados), Santo André (2 mandados), Barueri, Bertioga, Campos do Jordão e
Osasco. Os investigados são suspeitos de utilizar postos, empreendimentos
imobiliários, motéis e lojas de franquia como instrumentos para lavagem de
dinheiro e ocultação de patrimônio.
O g1
explica abaixo como a investigação descobriu o esquema do PCC para lavar
dinheiro e como foi a operação.
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Qual a origem dos valores ilícitos movimentados pelo grupo?
O
dinheiro movimentado pela organização criminosa tinha origem clara em duas
atividades criminosas principais: exploração de jogos de azar clandestinos e
crimes contra as relações de consumo.
A
investigação começou com a apreensão de máquinas de pagamento por cartão em
casas de jogos ilegais em Santos, no litoral paulista. Valores captados por
essas máquinas, em nome de postos de combustível, como Posto Mingatto (R$
859.151,57) e Auto Posto Carrara (R$ 3.510.033,53), eram transferidos quase
integralmente para a fintech BK Bank.
Foi
verificado que grande parte do lucro vinha de adulteração de combustíveis e
fraudes em bombas de abastecimento de postos controlados pelo grupo. Entre os
postos identificados estão: Auto Posto Estrella Galicia (R$ 305.491,73), Auto
Posto Avenida Esperança (R$ 901.341,74) e Posto de Serviços DJF (R$
1.582.354,62).
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Como o PCC usava maquininhas de cartão?
Hardwares
comuns do mercado eram equipados com softwares de fintechs ligadas ao esquema
criminoso. Compras em motéis, postos de combustíveis e lojas de conveniência
eram direcionadas diretamente à fintech.
O
objetivo era captar dinheiro livre e formalizar a compra de bens de luxo, como
carros, iates e helicópteros.
“As
maquininhas são mais um instrumento de introdução do dinheiro dentro de uma
fintech, para depois evoluir para uma compra patrimonial através de um fundo ou
em nome de uma pessoa física", afirmou Márcia Meng, superintendente da
Receita Federal.
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Artigos de luxo adquiridos pelos investigados
A
compra de bens de alto valor levantou suspeitas da Receita Federal e do
Ministério Público.
Um
deles foi um iate de 23 metros, comprado inicialmente por um dos motéis e
depois transferido a uma empresa de fachada.
Outro
item foi um helicóptero Augusta A109E, adquirido em nome de um dos
investigados.
Também
foi encontrado um carro esportivo Lamborghini Urus, comprado por empresa
patrimonial e terrenos onde estão localizados diversos motéis, avaliados em
mais de R$ 20 milhões.
“No
caso específico dos motéis, eles compravam terrenos, imóveis, helicópteros.
Bens de luxo que não estavam compatíveis com a receita deles", explicou
Márcia.
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A BK Bank como 'buraco negro' da lavagem de dinheiro
A
fintech BK Bank, antiga Berlin Finance Meios de Pagamentos Eireli, permitia que
os valores depositados pelos clientes fossem misturados nas contas da
instituição e enviados a terceiros sem deixar rastro contábil do remetente ou
beneficiário real.
A
Receita Federal constatou que o controle das contas de clientes era feito “fora
da contabilidade”, em uma contabilidade paralela, tornando indispensável a
busca e apreensão para identificar o destino final dos recursos.
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Quem são os 25 alvos da operação?
A
operação cumpriu 25 mandados de busca e apreensão. Veja quem são os 25 alvos de
busca e apreensão e suas funções no esquema, segundo o MP:
#
Flávio Silvério: apontado pelo MP como o principal beneficiário e comandante do
núcleo. O relatório o liga a diversos postos, hotéis e empresas de fachada
usadas para movimentar valores;
#
Sharon Nogueira: esposa de Flávio; o MP aponta que ela figura como beneficiária
e integrou o quadro societário de empresas do grupo. Contas de parentes
próximos a ela foram usadas para movimentações. Também aparece como ré em ação
anterior relacionada ao caso;
#
Leonardo Silvério Siqueira: não há informações sobre possível participação no
esquema;
#
Maurício Soares de Oliveira: figura como proprietário, ao lado da mãe, de uma
rede de empresas de perfumaria. Elas foram objeto de diversas comunicações do
Coaf, que apontavam contas bancárias em que 100% dos recursos se referem a
depósitos em espécie, além de receita bruta crescente mesmo durante a pandemia;
Eduardo
Silvério Siqueira: utilizou um suposto empréstimo de R$ 1,5 milhão de Mauricio
para justificar seu aumento patrimonial;
#
Adriana Siqueira de Oliveira: responsável pela empresa AFS Apoio
Administrativo, usada para comprar combustível para helicóptero;
#
Stefania Cusumano Pereira: vinculada à operação de valores movimentados pela
organização criminosa;
# João
Martinho do Carmo Crespim: atua como "laranja" para Flávio Silvério e
Eduardo Silvério;
#
Tatiana Aparecida Crispim: mesma função de João Martinho;
#
Valdir de Souza Vicente: aparece como sócio de uma administradora de postos de
combustíveis, mas tem vínculo trabalhista com salário baixo e é citado em um BO
na condição de gerente de posto onde foi constatada fraude nas bombas;
#
Suelen Ramos Santos: não há informações sobre possível participação no esquema;
#
Rodrigo Cavarzere dos Santos: apontado como um dos "laranjas"
utilizados pela organização criminosa;
#
Wagner dos Santos: aparece como "laranja" para Flávio e Eduardo
Silvério;
#
Reinaldo José Bezerra: ligado a Flávio Silvério, ele e a esposa são réus por
venda de combustível adulterados, e seu filho recebeu valores relevantes de
empresas de fachada controladas pelo grupo;
# Alex
Batista Medeiros: aparece como "laranja", cedendo seu nome para
figurar no quadro societário de postos de combustíveis controlados pelo grupo;
#
Felipe Teles de Oliveira Souza: não há informações sobre possível participação
no esquema;
# Lucas
Rodrigues Pegoraro: não há informações sobre possível participação no esquema;
#
Rosangela Ferreira de Aquino: não há informações sobre possível participação no
esquema;
#
Gilberto Lauriano Júnior: apontado como um dos contadores centrais para as
atividades da organização criminosa;
# João
Muniz Leite: apontado como um contador que participou ativamente das condutas
praticadas por Flávio Silvério, Adriana e Eduardo, sendo responsável pela
elaboração e transmissão das declarações de Imposto de Renda desses
investigados.
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Envolvidos com a empresa de investimento são:
Mário
Luiz Gabriel Gardin: apontado como criador de empresa de investimentos; a
Receita Federal constatou inconsistências em suas declarações;
Caio
Henrique Hyppolito Galvani: apontado como administrador da empresa; a Receita
identificou indícios de que ele possuía relevante capacidade financeira,
indicando ser um operador com alguma relevância;
Camila
Cristina de Moura Silva: recebeu procuração da empresa, evidenciando que
exercia função de confiança na administração;
Danilo
Augusto Tonin Elena: atual responsável pela empresa, apontado como
"laranja" utilizado para ocultar os verdadeiros donos;
Marcelo
Dias de Moraes: uma empresa em seu nome, além de sua conta pessoal, foram
favorecidas por créditos da empresa de investimentos ligada a Caio.
A
função da empresa no esquema criminoso, segundo o MP e a Receita Federal, era
atuar como uma instituição de pagamento centralizadora e "buraco
negro" para a lavagem de dinheiro de origem ilícita do PCC.
As
defesas dos citados não foram localizadas até a última atualização desta
reportagem.
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O núcleo Flávio Silvério e a rede de laranjas
A
investigação concentrou-se no núcleo Flávio Silvério Siqueira, identificado
como o chefe e o principal beneficiário do esquema de lavagem.
Flávio
Silvério e Eduardo Silvério utilizavam uma vasta rede de “interpostas pessoas”,
incluindo familiares de Flávio (parentes de sua esposa Sharon Nogueira) e
outros, como Reinaldo José Bezerra, Alex Batista Medeiros e Rodrigo Cavarzere
dos Santos.
Empresas
hoteleiras e motéis, como Motel Uma Noite em Paris, Motel Chamour, Motel Casual
e Motel Vison, eram usados para realizar transferências em favor da BK Bank.
Formalmente controlados por terceiros, eles realizavam pagamentos de acordos
judiciais em nome de Flávio Silvério e Sharon Nogueira, comprovando que ambos
eram os principais beneficiários.
Foram
identificados ativos de grande valor adquiridos em nome de laranjas, como o
Motel Anonimato em Santos, comprado em 2018, e o helicóptero Augusta modelo A
109E, de R$ 6 milhões, adquirido por Maurício Soares de Oliveira, mas de fato
pertencente a Flávio Silvério.
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Provas telemáticas e contadores como peças-chave
A
principal prova que mapeou a estrutura criminosa veio da quebra de sigilo
telemático da conta arturgil2020@icloud.com. A conta continha centenas de
imagens de comprovantes de transações bancárias, mostrando transferências de
postos, motéis e empresas de fachada para a BK Bank.
Gilberto
Laureano e João Muniz Leite centralizavam as atividades e ajudavam a ocultar o
aumento patrimonial dos investigados. Declarações de Imposto de Renda
elaboradas por João Muniz revelaram crescimento patrimonial de Flávio, Adriana
e Eduardo Silvério.
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Quais motéis foram usados para lavar dinheiro?
Uma
rede de cerca de 60 motéis e empresas hoteleiras movimentou mais de R$ 450
milhões entre 2020 e 2024. Os estabelecimentos identificados pela operação são:
Maramores
Empreendimentos Hoteleiros
Motel
Uma Noite em Paris
Motel
Chamour
Motel
Casual
Sunny
Empreendimentos Hoteleiros
Mille
Motel
Marine
Empreendimentos Hoteleiros
Ceesar
Park Empreedimentos
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Quanto de dinheiro o grupo movimentou?
A
Receita Federal descobriu que o grupo criminoso envolvido no esquema de lavagem
de dinheiro do PCC era dono de 267 postos de combustíveis, 60 motéis, 98 lojas
de franquia, além de empreendimentos imobiliários no Brasil.
Em
quatro anos, de 2020 a 2024, essas empresas movimentaram quase R$ 6 bilhões,
segundo a investigação. O empresário Flávio Silvério Siqueira, o Flavinho, é
apontado como principal beneficiário.
Fonte:
g1

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