Apesar
das novas tecnologias, o professor é imprescindível em sala de aula
Li
recentemente uma frase que me fez refletir sobre o atual momento da
inteligência artificial na educação. Embora o livro Alone Together tenha sido
publicado em 2011, antes da ascensão do Chat GPT e de outros modelos de IA, sua
crítica à narrativa triunfalista da tecnologia, que enxerga apenas
oportunidades e nunca vulnerabilidades, permanece extremamente relevante.
Na
educação básica, especialmente durante a pandemia, ficou claro o quanto os
educadores estavam despreparados para usar a tecnologia como ferramenta de
ensino. As escolas demoraram a se adaptar ao ensino remoto, o que revelou
lacunas técnicas quanto ao ofício do ensino escolar, mas também uma dependência
de ferramentas criadas por empresas de tecnologia sem participação ativa dos
professores em seu desenvolvimento.
Historicamente,
toda nova tecnologia foi vista como uma possível revolução educacional,
enquanto estávamos diante de uma mera atualização que nos modernizava
tecnologicamente, mas também absorvia as nossas funções e o nosso conhecimento.
Isso
ocorreu com os computadores pessoais, a internet, o YouTube e com muitos
outros. Entretanto, todas elas falharam retumbantemente, resultando em práticas
isoladas e dependentes de educadores pioneiros. Sustentaram-se anedotas em vez
de evidências sólidas sobre a efetividade dessas aplicabilidades. E isso pode
estar ocorrendo agora com a IA.
A
inteligência artificial é promissora, mas deve ser encarada com cautela,
especialmente na educação de crianças e adolescentes. A ideia dominante
circunda o fato de que parte dessas empresas promove soluções baseadas em
princípios de marketing e vendas, conforme a necessidade de vídeos curtos e
textos simplificados para captar a atenção. Isto pode empobrecer o processo de
aprendizagem, justamente porque se exigem, para isso, esforço, tempo e
dedicação.
Um
vídeo de 30 segundos certamente entretém, mas não necessariamente promove
aprendizado profundo e duradouro.
Diversos
sistemas que adotaram ferramentas digitais estão revendo as suas decisões, após
perceberem que os impactos do aprendizado foram menores do que a expectativa
quanto ao tema. Isso mostra o perigo de realizar experimentos sociais com
gerações inteiras de estudantes sem a devida base científica.
Não se
pode querer com isso transferir, sem critério, descobertas feitas com adultos
para o contexto da educação infantil. Deve-se questionar se é razoável esperar
que professores sejam especialistas em conteúdo, pedagogia, tecnologia e,
agora, também, em inteligência artificial. O uso efetivo da IA na sala de aula
carece de diretrizes claras; é necessário que haja uma formação docente
adequada e análise das barreiras sistêmicas que impedem sua implementação
equânime.
Discutir
o uso da tecnologia no ensino é revisitar o propósito da própria educação. A
repetida crítica de que o currículo não prepara os alunos para o “mundo real”
esbarra na importância do conhecimento fundamental: antes de desenvolver
pensamento crítico e criatividade, é preciso saber ler, escrever e calcular. O
aprendizado é cumulativo. Portanto, o conhecimento prévio é essencial.
Para
que haja proficiência no aprendizado, considera-se a formação do caráter, a
socialização, o enfrentamento do fracasso e a perseverança. Afinal, os robôs
devem substituir os professores? Caso isso ocorresse, qual impacto isso teria
em crianças cujo convívio com as máquinas fosse simulado (ou seja, máquinas que
aparentam sentir, contudo, não o fazem genuinamente)?
Tal
embate se conecta com o impacto que as redes sociais tiveram sobre os
adolescentes. Inicialmente, são vistos com otimismo, mas, hoje, seus efeitos
nocivos são facilmente reconhecidos. Estamos repetindo o mesmo erro com o uso
da IA? Se na próxima década percebermos que erramos, qual será o custo a ser
pago? Mais uma geração prejudicada?
Ainda
não está claro como lidaremos com as interações humanas a partir da tecnologia
como um intermediador dessas relações. Nossas habilidades sociais e emocionais,
bem como o empobrecimento da experiência educacional, estão em xeque. Portanto,
pergunta-se: queremos realmente uma educação acelerada, multitarefada, na qual
tudo seja conduzido por parâmetros imediatistas?
O
professor deve ser ainda o principal elemento no processo educativo; tal
presença é imprescindível em sala de aula, de maneira que o indivíduo não deve
ser substituído pela IA. Faz-se necessário refletir sobre que tipo de ensino
queremos, sobre quais valores devemos promover e sobre qual é o verdadeiro
problema que queremos resolver. Como disse Alexander Pope: “um pouco de
conhecimento é uma coisa perigosa”. Resta saber se o nosso conhecimento tem
sido substancialmente suficiente ou cada vez mais rarefeito.
Fonte:
Por Henrick Opreaem, no Le Monde

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