Nos
cultos, Malafaia usa Bíblia para transformar investigação em provação divina
Passavam
das 10 da manhã, quando o pastor Silas Malafaia subiu ao púlpito para dar uma
bronca em seus fiéis. Suas “ovelhas”, como ele se refere aos membros da igreja,
precisavam trazer mais pessoas para o culto – não bastava estarem ali, se não
convertessem conhecidos. A reclamação tinha motivo: naquele domingo ensolarado
de 31 de agosto deste ano, sobravam cadeiras na sede da Assembleia de Deus
Vitória em Cristo (Advec), na Penha, zona norte do Rio, com capacidade para
seis mil pessoas. A parte superior estava praticamente vazia.
As
reclamações de Malafaia não se dirigiram apenas às suas ovelhas: sobrou espaço
para criticar a Polícia Federal (PF), o Supremo Tribunal Federal e os
vazamentos de suas conversas com o ex-presidente Jair Bolsonaro. E para se
defender de todas essas ações.
“Eu
tenho muitos defeitos. De vez em quando alguns aparecem. De vez em quando,
alguns aparecem quando cometem o crime de quebrar o sigilo! Como diz a
Constituição, no artigo 5º, inciso 10: é inviolável a intimidade das pessoas!
Mas estamos vendo um país que ninguém respeita a Constituição. Quem devia
respeitar é o primeiro a rasgar, mas isso é outro assunto”, esbravejou no
púlpito.
Dez
dias antes, em 21 de agosto, o STF autorizara a PF a cumprir mandado de busca e
apreensão contra o pastor — celulares e passaportes foram retidos. Segundo a
Procuradoria Geral da República (PGR), Malafaia teria orientado o ex-presidente
Jair Bolsonaro e seu filho Eduardo nas ações para pressionar o andamento do
julgamento por tentativa de golpe de Estado.
Naquele
mesmo dia, a imprensa ainda divulgou trechos das conversas do pastor com
Bolsonaro. Em algumas delas, Malafaia chamava Eduardo de “babaca”, “idiota” e
“estúpido de marca maior”, após o deputado defender publicamente o tarifaço de
Donald Trump contra o Brasil.
Os
palavrões levaram Malafaia a assumir aos fiéis que erra, sob a lógica do “sou
só um filho Deus”. “Seu pastor não é perfeito. Acho que as últimas notícias já
mostram que eu não sou perfeito”, disse, soltando gargalhadas de seus fiéis.
“Eu sou um pastor que tenho defeitos, tenho virtudes, como você, e tô lutando
também para melhorar, para chegar no céu. Nós lutamos para que a gente possa
chegar no céu, não é? Aqui, nós estamos em aperfeiçoamento. Se você tá
procurando uma igreja perfeita, pede para Jesus te levar. Tá legal?”, disse no
culto anterior, no dia 27, na Advec do Méier, também na zona norte do Rio.
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Por que isso importa?
• Silas Malafaia é um dos principais
defensores de Bolsonaro dentro das lideranças evangélicas, que são uma parte
importante do eleitorado que vota por pautas conservadores defendidas pelo
ex-presidente;
• Além disso, Malafaia foi apontado pela
Procuradoria da República como orientador de Bolsonaro nas articulações para
pressionar o julgamento no STF, que pode condenar o ex-presidente e vários de
seus aliados.
Apoiador
declarado de Bolsonaro, Malafaia usa as redes sociais para divulgar vídeos em
defesa do ex-presidente – e para acusar o STF de perseguição. Malafaia é um dos
organizadores dos protestos previstos para o próximo domingo, no 7 de setembro,
e estará presente nos atos em Copacabana. A sua participação no ato de São
Paulo, marcado para as 15h na avenida Paulista, ainda não está confirmada.
A
reportagem procurou a assessoria da Advec para questionar se a organização ou
algum dos líderes citados nesta reportagem gostaria de se posicionar sobre as
investigações no STF e a ação da PGR contra Malafaia. A igreja também foi
questionada se teria algo a acrescentar sobre a organização dos atos de 7 de
setembro. O espaço segue aberto a manifestações.
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O “apóstolo” Malafaia
No
domingo 31 de agosto, Malafaia escolheu abrir o culto da Santa Ceia com um
trecho da segunda carta do apóstolo Paulo aos Coríntios (capítulo 4, versículos
8 e 9), que fala sobre as aflições e resistências dos cristãos.
“Olha o
que diz a palavra: Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos,
mas não desanimados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não
destruídos”, disse. E seguiu com outros trechos sobre os aprendizados das
‘adversidades’ da vida.
“Jesus
confirma isso em João 16:33. ‘Tenho vos dito isso para que em mim tenhais paz.
No mundo tereis aflições, tribulações, adversidades, mas eu venci o mundo.’
Jesus confirma essa condição humana. A tribulação e a adversidade é [sic]
permitida por Deus, como um corretivo. Muitas vezes Deus permite a luta, a
adversidade na minha vida e na sua como um corretivo. […] O Salmo 119:71 diz:
‘Foi-me bom ter sido afligido para que aprendesse a tua lei’. Isso é, a luta e
a adversidade é [sic] uma maneira pedagógica de Deus para corrigir alguma área
da nossa vida. […] a tribulação e as adversidades, nos forjam para alcançarmos
patamares espirituais maiores”.
Entre
versículos e salmos, Malafaia parecia querer justificar a própria situação em
que se encontra como atos de injustiça e sinais de provação. Se na PF, ele
preferiu se calar durante o depoimento, aos seus fiéis, ele falou.
“Ninguém
gosta de tribulação. Mas aí um um deputado lesado evangélico [em referência a
Otoni de Paula], né? Que a GloboNews deu a chance a ele para me atacar, ele
disse: ‘O pastor Silas Malafaia quer ser preso’. Irmão, uma coisa é estar
preparado para ser preso, outra coisa é querer ser preso. Eu estou preparado.
Se eu não tivesse preparado, eu não fazia o que faço. Agora querer ser preso?
Quem quer ser preso? Manda internar no hospício. Manda para o psiquiatra. Dizer
que eu quero ser [preso], porque eu declaro ‘eu não tenho medo de ser preso’, é
muito diferente.”
Lá pela
metade do culto, Malafaia citou a Primeira Carta de João (capítulo 5 versículo
18): “aquele que é de Deus, o maligno não lhe toca”. E voltou a falar sobre si
mesmo. Contou que, certa vez, o pai, que também era pastor, foi “quebrar um
altar de Satanás”. E outros fiéis lhe avisaram que, toda vez que alguém tentava
tirar aquilo de lá, algo ruim acontecia na vida da pessoa. Segundo ele, no
mesmo momento em que o pai quebrava o tal altar, um carro entrou com tudo na
calçada por onde ele passava.
“Alguma
coisa me segurou na cintura por frações de segundo, aquele carro ia me
atropelar e me matar. […] Então vamos ver o que aconteceu no mundo espiritual.
Quando meu pai começou a quebrar o altar de Satanás, Satanás pegou um demônio e
disse assim: ‘Vai lá e mata o filho dele’. […] Naquela mesma hora também Deus
disse: ‘guarda ele lá’. Quando o diabo jogou aquele carro em cima de mim, tinha
um anjo dizendo: ‘Esse aqui não’”, contou. “Dardos inflamados, setas do
inferno, demônios querendo te atingir, demônios querendo te tocar e o Senhor
dizendo: ‘esse aqui não’. Esse aqui tem proteção, tem guarda. Perseguido sim,
desamparado não. Você não está sozinho! É por isso que eu não tenho medo de
Xandão.”
Para
Magali Cunha, pesquisadora em Religião e Política do Instituto de Estudos da
Religião (Iser), as passagens bíblicas escolhidas por Silas Malafaia são
estratégicas e instrumentais para “justificar posições e posturas” políticas.
“O
Malafaia escolher passagens bíblicas para justificar o seu posicionamento
político, classificar, por exemplo, também Bolsonaro, a quem ele muito defende,
como uma pessoa escolhida por Deus, tudo isso faz parte dessa cultura de
selecionar as passagens bíblicas para manifestar, neste caso, um posicionamento
político”, diz a pesquisadora.
Para
Vinícius do Valle, que é cientista político e pesquisador das igrejas
evangélicas e política no Brasil, “certamente existe um planejamento de
discussões políticas de acordo com a agenda eleitoral”.
No
culto, cada vez que Malafaia ironizava ou desafiava as decisões de Alexandre de
Moraes, do STF, ou da Polícia Federal, o público respondia favoravelmente.
Gargalhavam com ele, ecoando suas ironias e reforçando com glórias e aleluias a
narrativa de que Deus não abandonará o pastor — ainda que o Estado,
‘injustamente’, o investigue.
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Tom morno nos cultos em São Paulo
Se no
Rio, Malafaia usou o púlpito como palanque para criticar o STF, em São Paulo,
os pastores foram bem mais contidos ao manifestar seus posicionamentos
políticos. A reportagem acompanhou cultos nos dias 1 e 3 de setembro na sede da
Advec na Mooca, Zona Leste da capital paulista. E a diferença foi nítida.
No dia
1 de setembro, no chamado “Culto da Vitória”, o pastor Pedro Henrique Bravo,
líder regional da Advec em São Paulo, abriu a celebração religiosa após quase
20 minutos seguidos de louvores que cantavam a vitória daqueles que se
submetiam às vontades de Deus. Diferente de Malafaia, o líder religioso não fez
manifestações políticas diretas e nem convocou os seus fieis ao ato de 7 de
setembro. Assim como nos cultos no Rio, havia muitas cadeiras vazias.
No
encerramento, em um tom morno, Bravo explicou ao público presente que Malafaia
não realizaria cultos em São Paulo no 7 de setembro devido ao horário marcado
para a manifestação.“[…] Ele pregaria e à tarde iria para a manifestação que
ele lidera, né? Mas, como a manifestação começa mais tarde, por isso, nós vamos
transmitir o culto do Rio e depois ele vem direto para São Paulo”, prometeu o
pastor.
“É
melhor a gente chegar cedo, porque vai vir aquele povo todo da manifestação pra
cá e não vai ter lugar”, comentou uma frequentadora da Advec que assistia ao
culto junto de sua família, nas últimas fileiras do salão principal.
Em tom
de ironia, uma outra frequentadora disparou: “vai você lá para a manifestação
para ver se não vai sair presa. Se nem o Malafaia está escapando, imagine
você.”
Um dos
funcionários da Advec foi questionado pela reportagem se havia alguma caravana
que sairia da sede da Mooca, rumo à avenida Paulista, mas a resposta foi que
“não estava sabendo”.
Já na
noite de quarta-feira, 3 de setembro, foi o dia da “Escola da Palavra”, um
encontro dos fieis para estudos sobre a bíblia e as doutrinas da Assembleia de
Deus Vitória em Cristo. Havia pouco mais de 50 pessoas na plateia, que após
entoarem os seus louvores, sacaram uma revista que trazia as “epístolas
universais”, descritas como um jeito “simples e prático de aprender a ser um
verdadeiro cristão”.
No
púlpito, quem comandava era o pastor Erivelton Nunes, que utilizou as epístolas
do amor, propagadas pelo apóstolo João, para conduzir a pregação daquela noite.
O
sermão daquela noite se apoiava na carta de João, que pregava o amor
incondicional para chegar aos céus. Durante a leitura, o pastor deu o seu
modesto comentário político em um discurso que dizia que, quem não amasse aos
seus irmãos, não teria lugar no céu e também não adiantava ficar na “esquerda”
ou na “direita” do reino de Deus, pois não seria aceito. No entanto, mais à
frente, ele disparou: “esquece esse negócio de esquerda”, que levou a enxuta
plateia a uma gargalhada.
Segundo
a pesquisadora Magali Cunha, o esvaziamento nos cultos tanto no Rio, quanto em
São Paulo, pode ser um indício de desgaste da narrativa bolsonarista dentro das
igrejas evangélicas, onde “houve um discurso mais aguerrido”. “Silas Malafaia
tem uma identificação muito forte com a figura de Jair Bolsonaro. Então, isso é
sim uma possível razão para o esvaziamento”, concluiu.
Para
além das lotações das plateias, Vinícius do Valle diz que os templos não foram
planejados para estarem sempre cheios, mas as suas estruturas grandiosas são
“para demonstrar poder”. “Existe toda uma arquitetura da demonstração de
poderio político em algumas igrejas e a Assembléia de Deus, Vitória em Cristo,
ela é uma representante dessa prática”, afirma. “Mas, sim, dá para dizer que há
um cansaço com a discussão política dentro das igrejas”, completa o cientista
político.
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Pastores se manifestam politicamente nas redes
Se no
culto em São Paulo o pastor Henrique Bravo evitou o tom político da igreja, nas
redes sociais, sua fidelidade a Malafaia e o engajamento político ficam claros
por fotos em atos bolsonaristas ou vídeos de convocação de fieis para
manifestações anteriores.
Dias
após o líder da Advec ser alvo de busca e apreensão pela da Polícia Federal,
Bravo fez um vídeo para justificar o porquê de Malafaia se envolver em assuntos
políticos, onde o descreveu como um líder “profético”, cuja marca é denunciar
injustiças e governantes que não cumprem o seu papel, em uma semelhança aos
profetas bíblicos.
“Se
você é cristão, não caia no conto da mídia e das trevas que querem tirar a
credibilidade de quem está se posicionando apenas pela sua forma de ser ou sua
forma de falar. Inegavelmente, goste ou não, o pastor Silas foi levantado como
uma voz para esse templo e para esta nação”, afirmou Bravo.
Na
interpretação da pesquisadora Magali Cunha, Bravo não concorre com a figura de
Silas Malafaia e, por este motivo, não utiliza o mesmo discurso aguerrido em
suas pregações.
“Bravo
vai assumir a sua figura de pastor, conciliador, que até fala de política nas
mídias sociais, mas que essa não é uma fala que deva ser levada por ele na
igreja, porque essa fala pertence a Silas Malafaia”, avalia.
Ao
dedicar suas orações a Malafaia, em virtude do “momento de perseguição
política”, o pastor Erivelton Nunes descreveu o líder da Advec como a “voz
profética”, porque ele não se contém apenas aos muros da igreja, assim como os
profetas, que “exerciam influência nos assuntos da nação”.
Fonte:
Por Carol Castro e Rafael Custódio, da Agencia Pública

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