sábado, 27 de setembro de 2025

Milei e Trump reescrevem economia argentina: US$ 20 bilhões do FMI condicionados à vitória em outubro

Com duas mensagens públicas em redes sociais e um programa com detalhes opacos, o Tesouro dos Estados Unidos e o Fundo Monetário Internacional (FMI) mostraram que existe um novo consenso de Washington que define a política econômica do governo do presidente da Argentina, Javier Milei. 

Por um lado, Scott Bessent, secretário do Tesouro de Donald Trump, avisou que vai ajudar financeiramente a Argentina — com um swap de US$ 20 bilhões — apenas se Milei vencer as eleições de meio termo outubro.  

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Bessent ainda se atreveu, numa intromissão inédita, a ordenar que o governo argentino volte a subir os impostos sobre a soja, o que obrigou o ministro da Economia argentino, Luis Caputo, a explicar quando o setor sojeiro voltaria a pagar o tributo. 

Por outro lado, poucos dias antes de deixar seu cargo e apresentando a ideia original do organismo, Gita Gopinath, ex-número dois da diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, garantiu que a assistência estadunidense é positiva, mas que a Argentina deve desvalorizar e deixar o dólar flutuar.  

De fato, horas depois, a própria Georgieva declarou, após reunião com Milei e Caputo, que o governo argentino deve manter sua política de ajuste fiscal. Emocionado com o resgate, “Toto” Caputo reconheceu a troca de comando econômico e adiantou que “começa uma nova era”. 

Segundo apurou o Página/12, o acordo que Milei e Caputo alcançaram com Trump tem pontos delicados, entre eles frear obras de energia como represas no Sul e derrubar, o quanto antes, os swaps de assistência financeira da China que estão no Banco Central da República Argentina. 

Outro pedido de Washington é que Milei articule acordos políticos, em vez de romper pontes — uma demanda central também feita pelo FMI. 

Fontes que acompanham as negociações afirmaram ao jornal argentino que as exigências dos Estados Unidos à Argentina “são grandes e importantes”. As mesmas fontes asseguram que Caputo pediu a Milei manter em reserva os pontos delicados do pacto para não agitar as águas.  

O que para Milei é um resgate, para Washington é um passo em seu programa geopolítico e, sobretudo, em sua disputa pela liderança regional com a China. 

<><> Com Milei, Trump designa novo “ministro” à Argentina

Logo pela manhã, com uma mensagem na rede social X (ex-Twitter), Bessent comunicou detalhes do acordo de salvamento ao governo de Milei: 

“O Tesouro está negociando atualmente com as autoridades argentinas uma linha swap de US$ 20 bilhões com o Banco Central. Trabalhamos em estreita coordenação com o governo argentino para evitar uma volatilidade excessiva. O Tesouro está pronto para comprar bônus argentinos em dólares e o fará conforme as condições exijam.” 

O secretário do Tesouro acrescentou: 

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“Também estive em contato com numerosas empresas estadunidenses que planejam realizar importantes investimentos estrangeiros diretos na Argentina em múltiplos setores, no caso de um resultado eleitoral positivo.” 

Bessent destacou ainda que  

“a administração Trump mantém firme apoio aos aliados dos Estados Unidos, e o presidente Trump concedeu ao presidente Milei um respaldo excepcional, demonstrando confiança nos planos econômicos de seu governo e a importância estratégica da relação entre Estados Unidos e Argentina”.  

Ele concluiu que “imediatamente após as eleições, começaremos a trabalhar com o governo argentino no pagamento de suas principais dívidas”

<><> O novelão da soja favorece a China 

Bessent assegurou, também, que  

“estamos preparados para conceder um importante crédito stand-by através do Fundo de Estabilização Cambial e mantivemos conversas ativas com a equipe do presidente Milei para fazê-lo. Os Estados Unidos estão dispostos a comprar dívida governamental secundária ou primária e trabalhamos para pôr fim às isenções fiscais para os produtores de matérias-primas que convertam divisas”

A declaração, que pedia o fim do imposto zero à soja, gerou um novelão inesperado. Pela manhã, o setor agropecuário pensou que os impostos subiriam imediatamente, já que ficariam zerados até 31 de outubro. O telefone de Caputo explodiu, e o ministro teve de explicar que, na realidade, Bessent apenas autorizou a manutenção das alíquotas em zero até o prazo acordado. 

O movimento disparou um nível recorde de liquidações de exportações, por temor de que os Estados Unidos elevassem as retenções argentinas. Muitos aproveitaram para vender rapidamente antes de que o teto de US$ 7 bilhões estabelecido pelo governo fosse alcançado. Em poucas horas, registraram-se contratos de US$ 4,1 bilhões, dos quais US$ 450 milhões entraram para as reservas argentinas. 

Parece incrível, mas a decisão dos Estados Unidos de administrar o que fazer com os impostos da soja na Argentina disparou um caos no país do norte. Este diário teve acesso a um comunicado da American Soybean Association (Associação da Soja), assinado por seu presidente, Caleb Ragland, no qual ele se queixa de que as ações de Bessent e Caputo com as exportações terminou afetando os produtores estadunidenses e favorecendo a China. 

“Tudo isso permitiu que outros exportadores, como o Brasil e, agora, a Argentina, capturassem nosso mercado prejudicando nossos agricultores. A frustração é avassaladora. Os preços da soja estadunidense estão caindo, assim como a colheita, e nós, produtores, lemos manchetes que não falam de um acordo seguro com a China, mas sim de um governo estadunidense que dá 20 bilhões de dólares de respaldo econômico à Argentina. Tudo isso enquanto esse país baixa os impostos das exportações de soja para vender 20 navios carregados de grãos para a China, em apenas dois dias”. 

O documento é revelador, e os bastidores da operação local o confirmam. Devido ao controle da economia argentina assumido por Bessent, os chineses compraram 12 navios de soja argentina, com 30 mil toneladas cada, a US$ 15 abaixo do preço da tonelada que antes compravam dos Estados Unidos ou do Brasil.  

Por isso, os agricultores estadunidenses ficaram em fúria. “É o outlet de soja do ‘Toto’”, ironizou um dirigente da Mesa de Enlace, em referência ao ocorrido. A operação é simples: a Argentina registra no exterior os contratos de exportação e, a partir daí, os chineses aproveitam a oferta a preço de liquidação. 

Em meio à colonização do plano econômico pelas mãos de Bessent, as liquidações de soja foram a única boa notícia para Milei. Nesta quarta-feira (24) à noite, foi informado que a meta de US$ 7 bilhões em exportações havia sido cumprida.  

Esse dinheiro é o único recurso imediato do governo, dado que o pacto com os Estados Unidos só prevê desembolsos se Milei vencer as eleições legislativas. No fim de semana, quando esses acordos foram planejados, a baixa do imposto sobre a exportação da soja foi definido justamente porque se sabia que os Estados Unidos não fariam nenhum aporte imediato.  

A gestualidade de Bessent e Trump conteve a corrida, a soja ajudou a baixar o dólar, o Tesouro comprou divisas para que a cotação não despencasse e os mercados reagiram de forma moderada. Não houve febre nem lucros recordes. A maior dúvida permanece: Milei parece não se conectar com a economia real, e esse é o ponto que regula suas chances eleitorais. Sem outubro, não há resgate. Por ora, os dólares da soja apenas tapam o buraco. 

¨      Trump anuncia novas tarifas

O presidente dos Estados UnidosDonald Trump, anunciou uma nova onda de tarifas na noite de quinta-feira (25/9) com vigência prevista a partir do próximo dia 1º de outubro.

Entre os produtos que serão taxadas estão medicamentos, alvo de alíquotas de 100%, armários de cozinha e banheiro (50%), mobiliários estofados (30%) e caminhões pesados (25%).

A medida foi comunicada por Trump em três posts compartilhados em seu perfil na Truth Social, sua rede social, a despeito dos apelos feitos por empresas americanas para que a Casa Branca não impusesse mais tarifas a importações.

"A razão para isso é a 'INUNDAÇÃO' em larga escala desses produtos nos Estados Unidos por outros países", escreveu o republicano ao falar sobre os produtos da indústria moveleira.

As novas taxas sobre armários de cozinha e banheiro e mobiliário estofado, segundo ele, foram uma resposta aos níveis elevados de importação desses produtos, o que, na visão do presidente americano, estaria prejudicamento fabricantes nacionais.

No caso de remédios, Trump ressalvou que farmacêuticas que estivessem construindo fábricas em solo americano estariam isentas da taxação.

A tarifa sobre caminhões pesados, por sua vez, ​​teria como objetivo resguardar fabricantes americanos da "concorrência externa desleal" e ajudaria a impulsionar empresas locais como Peterbilt e Mack Trucks.

Essas empresas "estarão protegidas do ataque de interrupções externas", escreveu Trump.

Em um documento publicado em maio, a Câmara de Comércio dos EUA chegou a desaconselhar a Casa Branca quanto à imposição de tarifas sobre caminhões, argumentando que muitas peças usadas na produção desses veículos são provenientes "em sua grande maioria" de locais como México, Canadá, Alemanha, Finlândia e Japão.

Esses países, segundo a organização, são "aliados ou parceiros próximos dos EUA, não representando nenhuma ameaça à segurança nacional".

México e Canadá estão entre os maiores fornecedores de peças para caminhões médios e pesados para a indústria americana, respondendo por mais da metade do total das importações dos EUA no setor no ano passado, ainda conforme a análise.

O relatório alertava que seria "impraticável" esperar que muitas dessas peças passassem a ser negociados por fornecedores locais, com a possibilidade de aumento de custos para o setor.

Trump anunciou em julho tarifas abrangentes sobre os produtos exportados por mais de 90 países aos EUA. A política protecionista foi uma promessa de campanha do republicano, que acredita que ela seja um caminho para impulsionar a geração de empregos e a indústria americana.

As novas tarifas favorecem os produtores nacionais, mas são "terríveis" para os consumidores, já que provavelmente virão acompanhadas de aumento de preços, avalia a especialista em comércio Deborah Elms, da empresa de pesquisa Hinrich Foundation.

Do ponto de vista da gestão Trump, Elms pondera que a taxação de produtos de setores específicos podem servir como uma espécie de plano B do governo para garantir a arrecadação, já que o tarifaço mais amplo sobre parceiros comerciais dos EUA tem sido questionado por diversas empresas e entidades na Justiça americana.

¨      A mais recente ameaça tarifária de Trump levanta novas preocupações para a indústria farmacêutica do Reino Unido

A ameaça de Donald Trump de impor novas tarifas a partir da semana que vem sobre medicamentos de marca, caminhões e armários de cozinha levantou novas preocupações para a indústria farmacêutica do Reino Unido, que continua excluída do acordo tarifário de Keir Starmer nos EUA , fechado há cinco meses.

Trump prometeu ao Reino Unido "tratamento preferencial" em tarifas farmacêuticas em maio, mas ainda não cumpriu sua promessa.

Um porta-voz do governo britânico disse: “Sabemos que isso será preocupante para a indústria, e é por isso que estamos nos envolvendo ativamente com os EUA e continuaremos a fazê-lo nos próximos dias.

“Setores como o farmacêutico são essenciais para nossa economia… por isso, continuaremos a pressionar os EUA por resultados que reflitam a força do nosso relacionamento e ofereçam benefícios reais para a indústria do Reino Unido.”

Trump revelou novas tarifas de importação abrangentes, incluindo taxas de 100% sobre medicamentos de marca, 25% sobre caminhões pesados ​​e 50% sobre armários de cozinha e banheiro, que entrarão em vigor em 1º de outubro.

A última salva também é um lembrete da natureza incompleta do acordo tarifário do Reino Unido, que se concentrou principalmente em carros, aço e produtos aeroespaciais, incluindo motores de avião.

Na semana passada, o Reino Unido estendeu o tapete vermelho para Trump com sua segunda visita de Estado, incluindo um banquete oferecido pelo Rei Charles no Castelo de Windsor.

Mas, apesar da ofensiva de charme e da presença de vários chefes da indústria, incluindo Emma Walmsley, chefe da gigante farmacêutica britânica GSK, no evento luxuoso, o setor do Reino Unido continua no limbo.

Lale Akoner, analista de mercado global da eToro, disse que as preocupações do Reino Unido podem não ter fundamento, pois as tarifas sobre medicamentos só se aplicariam às empresas que não têm, ou não estão planejando, bases de fabricação nos EUA.

“Os investidores veem mais latidos do que mordidas. A maioria das gigantes farmacêuticas globais, incluindo as europeias Novo Nordisk, Novartis, Roche e AstraZeneca, já têm fábricas nos EUA em operação, o que provavelmente as mantém fora da linha de fogo”, disse ela.

As empresas suíças Roche e Novartis disseram na sexta-feira que não esperavam ser afetadas pelo último anúncio de tarifas farmacêuticas de Trump porque estavam construindo novas unidades nos EUA e investindo lá.

A UE, que foi criticada por eurodeputados e representantes da indústria por um mau acordo, reiterou na sexta-feira que seu acordo sobre tarifas gerais de 15% incluía produtos farmacêuticos e "representa uma apólice de seguro de que nenhuma tarifa mais alta surgirá para os operadores econômicos europeus".

No entanto, ainda há preocupações sobre dispositivos médicos após a decisão dos EUA de abrir uma investigação da seção 232 no setor, vista como o primeiro passo em direção às tarifas.

As exportações da UE variam de stents a máquinas de raio X, marcapassos, cateteres e próteses.

A associação comercial automobilística alemã, a VDA, disse que as novas tarifas de Trump sobre caminhões não faziam sentido.

É incompreensível que o governo dos EUA anuncie novas tarifas adicionais de 25% sobre caminhões imediatamente após anunciar reduções tarifárias sobre automóveis de passeio e peças automotivas [da UE]. Barreiras comerciais adicionais não só prejudicariam ainda mais os investimentos e os empregos nos EUA, como também enfraqueceriam as cadeias de suprimentos e aumentariam os custos.

Acrescentou que a indústria alemã emprega mais de 120.000 pessoas nos EUA.

As ações de alguns fabricantes europeus de caminhões caíram na sexta-feira após o anúncio de Trump.

A Daimler Trucks, principal fabricante de veículos comerciais, caiu mais de 2%, assim como o Traton Group, cujas marcas incluem Scania, MAN, International e Volkswagen Truck & Bus.

Neil Shearing, economista-chefe do grupo Capital Economics, disse que o México pode ser o mais afetado pelas novas tarifas: “Os EUA obtêm 78% das importações de caminhões pesados ​​do México e 15% do Canadá, então uma questão fundamental é se haverá isenções para produtos em conformidade com o USMCA.

Isso não está claro no momento, mas vale ressaltar que a maioria das tarifas específicas para produtos (com exceção de autopeças) não conta com isenções do USMCA (Acordo Estados Unidos-México-Canadá). Se não houver isenção do USMCA, o México será o mais afetado pelas tarifas sobre caminhões grandes.

A gigante sueca de móveis Ikea, que é coberta pela tarifa de 15% da UE, disse que as tarifas tornaram os negócios com os EUA "mais difíceis".

“As tarifas estão impactando nossos negócios da mesma forma que outras empresas, e estamos monitorando de perto a evolução da situação”, disse um porta-voz.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global/BBC News/ The Guardian

 

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