sábado, 27 de setembro de 2025

Operação Rejeito: ‘homem da mala’ de dinheiro preso pela PF foi do gabinete de Rodrigo Pacheco

Preso preventivamente pela PF (Polícia Federal) na quarta-feira (17) e apontado como o “homem da mala [de dinheiro]” do esquema investigado pela Operação Rejeito, Felipe Lombardi Martins trabalhou de 2019 a 2021 como assessor do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG).

Segundo a PF, ele aparece em mensagens e documentos, entre junho do ano passado e janeiro deste ano, como responsável por transportar propinas e movimentar recursos do esquema no setor de mineração que fraudava licenças ambientais em Minas Gerais.

Pacheco não é investigado pela Operação Rejeito. Contudo, já teve relação política com outro preso, o ex-deputado estadual pelo MDB João Alberto Lages, acusado de articular o esquema e de vazar informações de operações policiais, segundo a PF. Lages fez campanha em 2014 para deputado estadual em dobradinha com Pacheco, então candidato a deputado federal. Pacheco declarou à Justiça Eleitoral uma contribuição de R$ 67 mil à campanha de Lages — o maior doador declarado.

De acordo com a investigação, o grupo contava com servidores públicos para manipular processos de licenciamento e alterar pareceres técnicos. Em paralelo, criava empresas de fachada, simulava contratos e usava “laranjas” para movimentar recursos ilícitos. A Justiça determinou 22 prisões preventivas, 79 buscas e o bloqueio de R$ 1,5 bilhão em bens.

Felipe Lombardi aparece em mensagens interceptadas como operador financeiro do grupo. Para a PF, ele seria o responsável por gerir planilhas de aportes, buscar contas de terceiros para depósitos e entregar dinheiro em espécie a servidores. Em uma das transações rastreadas, ele teria repassado R$ 300 mil a um escritório de advocacia em novembro de 2024 — o dinheiro seria parte de uma propina total de R$ 3 milhões.

Ex-presidente do Senado, Pacheco é o nome preferido de Lula (PT) para disputar o governo de Minas em 2026. O petista já expressou em diversas ocasiões a preferência pelo senador, e tem feito aparições públicas recorrentes ao lado do aliado em eventos em Minas Gerais. 

Em nota enviada à Repórter Brasil, Pacheco afirmou que conhece João Alberto Lages, desde 2014, em razão da militância político-partidária. “Desenvolvemos uma amizade nesse período, quando ele também se tornou deputado. Conheci Felipe Lombardi na mesma época, por meio da sua relação com o ex-deputado e, por um período, ele trabalhou na minha equipe do Senado, até se desligar para se dedicar à atividade privada, cuja natureza não tive conhecimento”.

Os advogados de João Alberto Lages informaram que vão se manifestar apenas nos autos do processo. “Em respeito ao Poder Judiciário e ao Ministério Público Federal”, disseram em mensagem de Whatsapp. A reportagem tentou localizar a defesa de Felipe Lombardi, mas ele ainda não tem advogado constituído para representá-lo na ação no Tribunal Regional Federal da Sexta Região (TRF-6).

<><> Diretor da ANM e ex-superintendente da PF também foram detidos

A Operação Rejeito também prendeu outros nomes de peso. Entre eles, o diretor da ANM (Agência Nacional de Mineração), Caio Mário Seabra Filho, e o ex-superintendente da PF em Minas, Rodrigo Teixeira, que chegou a ser diretor de Polícia Administrativa da corporação em Brasília, o número dois da instituição.

Os dois foram indicados para cargos no governo federal pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD-MG). Em entrevista concedida nesta segunda-feira (22), em Belo Horizonte, durante um evento voltado para a mineração, Silveira disse ter ficado surpreso com as prisões e defendeu “punição exemplar”  aos envolvidos.

“Ficamos todos surpresos. É importante ressaltar que os dois nomeados no governo federal foram afastados. O primeiro, um delegado com 25 anos de serviço, apresentava um histórico profissional impecável, tendo inclusive atuado na superintendência da PF e cumprido os trâmites legais da governança da instituição em que servia. O segundo, em atuação desde 2020 na ANM, era um técnico com reconhecida qualificação e havia sido indicado para diretor. O afastamento de ambos demonstra a prioridade das instituições sobre as pessoas, visando garantir que a justiça cumpra sua função”, disse.

O empresário Alan Cavalcante do Nascimento é apontado pela PF como chefe do esquema. A Repórter Brasil mostrou em reportagem que ele comprou imóveis vizinhos a duas juízas que analisavam processos contra ele, em ato interpretado pelos investigadores como tentativa de intimidação.

Também foi detido Gilberto Horta. Em 2024, ele disputou a presidência do Crea-MG com apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro, do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG), conforme revelou a Repórter Brasil.

Na última sexta-feira (20), a Justiça Federal determinou a transferência de três dos chefes do grupo para o Presídio Federal de Campo Grande (MS), em razão da periculosidade atribuída ao caso e do risco de obstrução processual. Segundo a PF, é a primeira vez que responsáveis por crimes ambientais são enviados a um presídio federal de segurança máxima.

•        Denúncia de Nikolas contra Duda Salabert se baseou em grupo investigado pela PF

Uma denúncia apresentada em novembro de 2024 pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) contra a colega de Câmara Duda Salabert (PDT-MG) à PF (Polícia Federal), por suposto uso indevido do fundo eleitoral, foi alimentada por integrantes do grupo investigado na Operação Rejeito, deflagrada na semana passada. A informação consta de interceptações telefônicas e relatórios da própria PF, anexados ao inquérito.

Até agora, a operação já prendeu 22 pessoas, incluindo empresários, políticos e agentes públicos. A investigação aponta um esquema bilionário de corrupção no setor de mineração em Minas Gerais, com fraudes em licenciamento, corrupção de servidores e lavagem de dinheiro.

Segundo os documentos, a ofensiva contra Duda Salabert teria sido iniciada após um ofício enviado pela deputada à ANM (Agência Nacional de Mineração), em 17 de julho de 2023. No documento, ela solicitava a fiscalização e a paralisação imediata das atividades minerárias na Serra do Curral, cartão postal de Belo Horizonte (MG). Empresas como Gute Sicht e Fleurs Global, ambas ligadas ao grupo investigado pela PF, são mencionadas no ofício.

Prints de conversas de Whatsapp anexados ao inquérito mostram que o documento foi repassado pelo diretor de procedimentos minerários da ANM, Guilherme Santana Lopes Gomes, ao ex-deputado estadual pelo MDB João Alberto Paixão Lages. Ambos estão presos preventivamente.

Conforme a PF, Gomes seria o responsável por enviar informações privilegiadas da ANM ao grupo criminoso. Lages, por sua vez, atuaria como articulador político, usando sua rede de contatos para defender os interesses da organização.

A defesa de Lages afirmou à reportagem que só se pronunciaria em juízo. Os advogados de Gomes não foram encontrados até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto caso desejem se manifestar.

A Repórter Brasil entrevistou o advogado Thiago Rodrigues de Faria, assessor jurídico de Nikolas Ferreira. Faria disse à reportagem que foi ele próprio quem elaborou a denúncia protocolada pelo deputado do PL contra Duda Salabert na Polícia Federal, com base em informações enviadas por um dos presos na Operação Rejeito. Faria afirma ainda que Nikolas Ferreira “não tem qualquer relação com o grupo investigado”. Leia mais abaixo.

Procurada, Duda Salabert ainda não se pronunciou. O texto será atualizado caso a deputada envie um posicionamento.

<><> Duda Salabert virou alvo de grupo investigado pela PF

Ao se opor à atividade minerária na Serra do Curral, a deputada teria se transformado em alvo do grupo. Em maio de 2024, por exemplo, ela publicou um vídeo em que, durante a madrugada, flagrava caminhões retirando minério irregularmente da serra.

Interceptações já registravam ataques à deputada feitos desde dezembro de 2022 por Gilberto Henrique Horta de Carvalho, empresário também preso com a deflagração da operação.

Em mensagens reproduzidas no inquérito, Carvalho aparece reclamando que a deputada atrapalharia os negócios da mineração. De forma pejorativa, o empresário refere-se a Duda — mulher trans e ambientalista — como “travestida”.

Carvalho é apontado como operador do esquema, e seria o responsável por intermediar negócios entre empresários, autoridades e órgãos de controle. Interceptações mostram que ele atuaria como lobista na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, tentando barrar projetos de proteção da Serra do Curral, como o PL 1449/23, da deputada Beatriz Cerqueira (PT). Em uma conversa com João Lages, Carvalho disse que pediria vista do projeto no gabinete do deputado Bruno Engler (PL), como forma de atrasar a tramitação.

Muito próximo de lideranças do PL, Carvalho já atuou como assessor parlamentar do vereador Uner Augusto (PL) e da coronel Cláudia Romualdo, candidata a vice na chapa de Engler à Prefeitura de Belo Horizonte em 2024.

Procurada, a defesa de Carvalho não respondeu às perguntas enviadas até o momento da publicação. O texto será atualizado se um posicionamento for recebido pela reportagem.

Carvalho também recebeu apoio público de nomes da direita, como o deputado Nikolas Ferreira, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), quando foi candidato à presidência do Crea-MG (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Minas Gerais), segundo revelou a Repórter Brasil.

<><> Denúncia contra Duda Salabert foi protocolada em novembro de 2024

Em 8 de outubro de 2024, as movimentações contra a deputada Duda Salabert se intensificaram. Trocas de mensagens mostram que Carvalho enviou ao delegado federal Rodrigo Teixeira, ex-superintendente da PF em Minas, prints de gastos da campanha de Duda, afirmando: “Duda Salabert recebeu R$ 8 milhões para a campanha e gastou R$ 5 milhões somente com a empresa desse ex-assessor. Coincidência, né?”

Teixeira respondeu: “Vai ter que explicar a coincidência…”

Teixeira está preso preventivamente desde a deflagração da operação. A PF o aponta como facilitador da organização dentro da corporação, atuando para beneficiar interesses do grupo em investigações e processos administrativos.

A reportagem ligou para o escritório de advocacia responsável pela defesa do delegado, mas ninguém atendeu a ligação. O espaço segue aberto para manifestação.

A denúncia contra Duda foi protocolada por Nikolas um mês depois do diálogo com o delegado, em 14 de novembro de 2024, em Belo Horizonte. O documento acusava Duda de desviar recursos do fundo eleitoral para empresas de um ex-assessor, em valores superiores a R$ 5 milhões.

A denúncia foi noticiada por veículos como Rádio Itatiaia, Metrópoles e O Globo. Na ocasião, Duda negou qualquer irregularidade, afirmou que todas as contratações de campanha foram legais e que suas contas foram devidamente prestadas.

O grupo investigado pela Operação Rejeito continuou acompanhando o caso mesmo após o protocolo da denúncia. Em 22 de novembro, João Alberto Lages telefonou para o delegado Teixeira e, logo depois, enviou o número do protocolo registrado.

As interceptações também revelam que João Alberto Lages acionou um outro delegado da PF, primo dele. Em mensagem, o delegado respondeu compartilhando links de reportagens sobre o caso e comentou: “Bom demais! Pena que o chefe da Delinst é petista”.

<><> Assessor de Nikolas confirma que recebeu informação de investigados

O coordenador da assessoria jurídica de Nikolas Ferreira, Thiago Rodrigues de Faria, disse à Repórter Brasil que elaborou a denúncia protocolada por Nikolas contra Duda Salabert na Polícia Federal. 

“O João Alberto Lages nos encaminhou essas informações [contra Duda], como outros fazem. Achei estranho o conteúdo e protocolei junto à PF. Isso não tem nada a ver com atender a interesses de grupo”, entende Faria.

Para o assessor, o procedimento seguiu o padrão habitual do gabinete. “Recebo denúncias de todo o Brasil. Como chefe jurídico, encaminho tudo que tem indício de irregularidade aos órgãos competentes”, explicou.

Faria sustenta ainda que Nikolas “não tem qualquer relação com o grupo investigado”.

O advogado responsável pela assessoria jurídica de Nikolas afirma que mantinha uma relação de amizade com Carvalho, dizendo tê-lo conhecido em eventos da direita. Segundo Faria, a aproximação se deu também por sua atuação no campo do direito.

Sobre João Alberto Lages, Faria disse que o conhecia de forma superficial, por já ter advogado para um conhecido dele, há quatro anos, mas afirmou que não mantinha relação próxima com o ex-deputado estadual.

O nome de Faria também aparece no inquérito em documentos sobre a negociação dos direitos minerários da Topázio Imperial Mineração. A transação é investigada pela PF por indícios de fraude.

O advogado confirma a intermediação da venda, mas nega irregularidades em sua atuação. “É uma área disponível no mercado. Gilberto [Carvalho] me apresentou a proposta, e eu a ofereci a alguns grupos. Como advogado, posso intermediar esse tipo de negociação. Tudo com nota fiscal e dentro da legalidade”, afirmou Faria.

O advogado reforçou que atua regularmente como advogado, com escritório e registro na OAB. Segundo ele, a atividade não entra em conflito com sua função de assessor jurídico de Nikolas Ferreira. Especialista em direito minerário, Faria recebe salário de R$ 17,2 mil no gabinete de Nikolas. “Se alguém cometeu crime, tem que ser investigado. Estou tranquilo e pronto para colaborar”, afirma.

<><> Disputa política começou na Câmara Municipal de Belo Horizonte

Nikolas e Duda iniciaram juntos a carreira política. Ambos foram eleitos para a Câmara Municipal de Belo Horizonte em 2020 — Duda como a vereadora mais votada da história da cidade e Nikolas como o segundo colocado.

Em 2022, ambos migraram para a Câmara dos Deputados, em Brasília. Nikolas se elegeu como o deputado federal mais votado do Brasil e se consolidou como um dos principais nomes da direita no país. Já Duda ganhou projeção nacional por sua atuação em defesa do meio ambiente, tendo a Serra do Curral como uma de suas principais bandeiras.

Em 2024, ela disputou a Prefeitura de Belo Horizonte e terminou em 5º lugar. Os embates entre os dois parlamentares são frequentes desde o início da carreira, incluindo ações judiciais. Duda já venceu processos contra Nikolas, como o movido após ele afirmar, em entrevista, que se recusava a tratá-la com pronomes femininos.

 

Fonte: Reporter Brasil

 

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