Prisão
e perda de patente: entenda próximos passos após condenação de Bolsonaro e
aliados
Após
decidir pela condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e de sete aliados, a
Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que o Superior
Tribunal Militar (STM) julgue a perda de patente dos militares das Forças
Armadas réus na ação penal da trama golpista.
Com a
decisão, Bolsonaro, que é capitão da reserva do Exército, os generais Augusto
Heleno, Paulo Sergio Nogueira e Braga Netto e o almirante Almir Garnier devem
ser julgados pela Justiça Militar. A Constituição prevê que oficiais das Forças
Armadas podem ser expulsos em casos de condenação criminal superior a dois anos
de prisão.
A
análise do caso pelo STM, portanto, só pode ocorrer após o trânsito em julgado
da ação da trama golpista, ou seja, depois do esgotamento de todos os recursos
possíveis contra a condenação.
A
decisão da Justiça Militar por uma eventual perda de patente dos réus,
entretanto, não poderá ser aplicada no caso do tenente-coronel Mauro Cid, réu e
delator na trama golpista. Cid foi condenado a dois anos de prisão em regime
aberto e recebeu a garantia de liberdade.
O
benefício do regime aberto foi sugerido pelo relator na ação penal, ministro
Alexandre de Moraes, após o colegiado entrar na fase da dosimetria das
condenações dos réus da trama golpista.
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Recursos e prisão
A
maioria dos réus foi condenada no STF a mais de 20 anos de prisão em regime
fechado. Apesar da definição do tempo de condenação, Bolsonaro e os demais não
vão ser presos imediatamente. Eles ainda podem recorrer da decisão e tentar
reverter as condenações. Somente se os eventuais recursos forem rejeitados, as
prisões poderão ser efetivadas.
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Bolsonaro
O
ex-presidente cumpre, atualmente, prisão domiciliar, mas em decorrência de
outro processo. Bolsonaro é investigado por sua atuação junto ao governo do
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para promover medidas de
retaliação contra o governo brasileiro e ministros do Supremo.
Uma
série de medidas cautelares foram determinadas no inquérito que investiga o
deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente, por sua
atuação junto ao governo de Trump, para promover medidas de retaliação contra o
governo brasileiro e os ministros do Supremo.
Nesse
processo, o ex-presidente é investigado por enviar recursos, via Pix, para
bancar a estadia do filho no exterior – em março, Eduardo pediu licença do
mandato parlamentar e foi morar nos Estados Unidos, sob alegação de perseguição
política. Em agosto, a Polícia Federal indiciou Bolsonaro e o filho pelos
crimes de coação no curso do processo e tentativa de abolição do Estado
Democrático de Direito.
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Torres e Ramagem perdem cargo
O STF
também determinou que o ex-ministro da Justiça, Anderson Torres, e o ex-diretor
da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Alexandre Ramagem sejam demitidos
dos cargos de delegado da Polícia Federal. Eles estão afastados da corporação.
Concursados, devem perder o cargo em decorrência de condenação pela Corte.
• O que espera quem recebe 27 anos de
prisão: a Papuda dos anônimos ou a mansão dos poderosos? Por Washington Araujo
Onde
Jair Bolsonaro deve iniciar o cumprimento da pena de 27 anos e três meses
fixada pelo STF em 11 de setembro de 2025? Em cela da Polícia Federal, em
dependência militar, na Papuda ou no conforto vigiado da própria casa?
A
dúvida, repetida à exaustão, não é apenas logística: ela revela o abismo entre
um sistema penitenciário que superlota celas e um país que, para certos nomes,
sempre encontra uma chave extra para abrir a porta da sala.
Hoje, o
Brasil convive com algo em torno de 900 mil pessoas privadas de liberdade. A
imensa maioria está em unidades estaduais, comprimida em taxa média de ocupação
superior a 130%, numa realidade de déficit estrutural superior a 170 mil vagas.
As
condições dos presídios são dramáticas: falta de higiene, assistência médica
escassa, superlotação e violência endêmica. Relatórios mostram que um terço das
unidades foi classificado como ruim ou péssimo. As mortes violentas dentro das
prisões são quatro vezes maiores que na sociedade.
Há
cinco presídios federais de segurança máxima — Brasília, Catanduvas, Campo
Grande, Mossoró e Porto Velho — reservados a casos excepcionais. Todo o
restante pesa sobre uma malha estadual com cerca de 1,5 mil estabelecimentos,
incluindo grandes complexos e pequenas cadeias.
Na
geografia simbólica do cárcere, Tremembé, no interior paulista, tornou-se
vitrine. Ali se custodiam condenados de grande repercussão, como Suzane von
Richthofen, Alexandre Nardoni, Elize Matsunaga, Roger Abdelmassih. Por isso o
apelido: “presídio dos famosos”. Um rótulo que cola.
Se a
lei prevê domiciliar por idade, saúde, maternidade ou ausência de vaga
adequada, a prática cobra senha de acesso: bons advogados, laudos céleres,
capacidade de acionar o Judiciário. Assim, casos de grande visibilidade
alcançam a casa mais rápido.
Foi
assim com Fernando Collor, solto sete dias após ingressar na prisão por
comorbidades. E aí tem um vale-tudo: participa de comícios, viaja na garupa de
moto, mas, quando tem que cumprir pena, afirma ser bipolar, ter mal de
Parkinson e outra penca de doenças. Foi assim com Sérgio Cabral, migrado ao
regime domiciliar por decisão do Supremo após seis anos de cárcere. Com Eduardo
Cunha, a pandemia abriu a porta. Todos eles parecem mafiosos que saltam da tela
do cinema para a vida real, mas, quando precisam cumprir suas penas, adotam
discurso de dar dó.
E Lula?
Cumpriu 580 dias na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. Recusou a
domiciliar — “não sou pombo para usar tornozeleira”, disse ele uma vez — e saiu
por decisão judicial que derrubou sua prisão. Depois, o STF anulou suas
condenações por incompetência e parcialidade de Sergio Moro. A Justiça falhou
vergonhosamente com Lula.
O ponto
é que, entre exceções e revisões, a mensagem pública permanece turva. Quando a
engrenagem aperta, os mais visíveis encontram respiro fora das grades. Já os
anônimos, mesmo com as mesmas doenças e idades, ficam na fila. A seletividade
dos benefícios para os condenados mostra uma justiça que há muito aposentou a
venda que lhe cobre os olhos: ela conhece o CPF de cada um, a conta bancária de
cada um, o espaço midiático ocupado por cada um. É ultrajante essa situação.
É nesse
cenário que se decide o destino imediato de Jair Bolsonaro. Condenado por
liderar a trama golpista, o ex-presidente já vinha em prisão domiciliar. Agora,
sociedade e Justiça debatem: será cela comum ou será sala de estar? O grau de
periculosidade do ex-presidente, seu histórico de não respeitar medidas
cautelares, sua tendência a espalhar notícias falsas e promover discursos de
ódio, sua misoginia e sistemático ataque às instituições do Estado de Direito,
a meu ver, não recomendam que cumpra a pena em sua sala de estar.
Mas,
então, deveria cumprir onde? Numa sala especial na Polícia Federal ou na
Papuda. Qualquer decisão que não considere a escolha de um desses dois
endereços será um escárnio, além de um cumprimento de pena sabidamente
ineficiente, ineficaz, inútil, antipedagógico e altamente injusto para os
condenados que não possuem um sobrenome vistoso, uma conta bancária polpuda ou
legião de fãs ideológicos. Uma última opção é trancafiá-lo em apartamento de
Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário. Assim fica sanada a preocupação do
condenado de vir a morrer por falta de atendimento hospitalar tempestivo.
Não se
discute apenas segurança institucional. Discute-se igualdade da lei. Se a
escolha recair no endereço residencial, a percepção pública será clara: a
prisão domiciliar, no Brasil real, parece privilégio reservado a quem ocupa o
topo.
A
contraprova está nas estatísticas ocultas do cotidiano. Milhares de mulheres
pobres alcançam a domiciliar por maternidade graças a decisões do STF. Mas
idosos e enfermos anônimos aguardam meses por perícias, enquanto defensores
públicos sobrecarregados lutam contra a burocracia.
Nesse
quadro, a domiciliar virou válvula de escape para a superlotação. Contudo, não
corrige a causa do problema: encarceramento massivo por crimes sem violência,
prisões provisórias duradouras e lentidão processual que multiplica celas
cheias sem sentença definitiva.
O país
precisa escolher que mensagem transmitir. Se a lei vale para todos, critérios
devem ser universais e transparentes: protocolos médicos claros, fila única,
prioridade a vulneráveis, monitoramento suficiente, revisão periódica. Só assim
a exceção vira justiça.
Bolsonaro,
qualquer que seja o endereço de sua custódia, será símbolo dessa encruzilhada.
Ou reafirmaremos que a domiciliar é medida impessoal e justificada, ou
seguiremos ensinando que a mesma lei opera diferente conforme o CEP e o
sobrenome. É sempre útil repensar esse ponto.
A
democracia mede-se aí: na porta que se abre, no cadeado que resiste e no olhar
de quem segue do lado de fora, esperando que justiça não continue sinônimo de
privilégio.
• O complô que culminou no 'Capitólio
brasileiro'
As
centenas de páginas sobre as mesas da Primeira Turma do Supremo Tribunal
Federal (STF) percorrem os capítulos mais importantes que levaram à condenação
do ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão, do
"Punhal Verde e Amarelo", plano para assassinar seu rival Luiz Inácio
Lula da Silva, até o assalto aos palácios da democracia em 8 de janeiro de
2023, uma espécie de versão tupiniquim da invasão ao Capitólio.
Com
riqueza de detalhes, o julgamento listou os eventos que levaram às acusações de
organização criminosa armada, tentativa de derrubada violenta do Estado de
Direito, golpe de Estado, dano agravado a patrimônio público e deterioração de
patrimônio tombado, transformando Bolsonaro no líder desse grupo.
Em
particular, o "Punhal Verde e Amarelo" previa o envenenamento de
Lula, de seu vice, Geraldo Alckmin, e do ministro do STF Alexandre de Moraes em
dezembro de 2022.
O
plano, elaborado por generais estrelados e ministros do círculo íntimo do
ex-presidente, era acompanhado de uma minuta na qual Bolsonaro anulava o
resultado das eleições e decretava Estado de Sítio, documento encontrado na
própria mesa do ex-presidente na sede do Partido Liberal (PL).
Uma
série de complôs que culminaram no 8 de janeiro, quando militantes
bolsonaristas vestidos de verde e amarelo invadiram e depredaram o Congresso, o
Palácio do Planalto e o próprio Supremo para pedir uma intervenção militar
contra o recém-empossado Lula, enquanto o ex-mandatário estava na Flórida.
O
levante, de acordo com a acusação, foi resultado de um ano e meio de ataques
sistemáticos de Bolsonaro ao sistema eleitoral, iniciados em julho de 2021,
quando o então presidente, diante de uma popularidade em queda livre, fez uma
transmissão ao vivo em pleno Palácio do Planalto para criticar as urnas
eletrônicas.
Sem
jamais apresentar provas de suas alegações, Bolsonaro chegou a dizer que só
deixaria o poder "preso ou morto" e, com medo de perder as eleições,
convocou embaixadores do mundo todo para questionar a lisura das urnas durante
a pré-campanha de 2022.
• Condenado, Bolsonaro só poderia se
candidatar novamente com 105 anos de idade; entenda
O
ex-presidente Jair Bolsonaro poderá ficar fora das disputas eleitorais pelos
próximos 35 anos em decorrência da condenação pela tentativa de golpe de
Estado. A decisão foi tomada nesta quinta-feira (11) pela Primeira Turma do
Supremo Tribunal Federal (STF), que, por quatro votos a um, aplicou a pena de
27 anos e três meses de prisão ao ex-mandatário.
De
acordo com a Lei da Ficha Limpa, quem sofre condenação em instância colegiada
fica proibido de concorrer a cargos eletivos por oito anos após o cumprimento
da pena. Com isso, Bolsonaro estaria impedido de se candidatar até 2060, quando
teria 105 anos de idade. Hoje, ele tem 70.
A
decisão do STF soma-se à condenação já imposta pelo Tribunal Superior Eleitoral
(TSE), que o tornou inelegível até 2030 por abuso de poder político e
econômico. Essa sentença teve como base a reunião de julho de 2022 com
embaixadores, realizada no Palácio da Alvorada, em que o então presidente
atacou o sistema eletrônico de votação. O episódio foi considerado pelo STF um
dos atos de execução da trama golpista.
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Alteração na Lei da Ficha Limpa
Na
semana passada, o Senado aprovou uma mudança na legislação que pode reduzir o
prazo de inelegibilidade. O PLP 192/2023, já encaminhado ao Palácio do
Planalto, prevê que os oito anos de impedimento sejam contados a partir da data
da condenação. Caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancione a medida,
Bolsonaro poderia voltar a ser elegível em 2033.
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Pressão por anistia
Mesmo
assim, aliados do ex-presidente consideram que sua única saída real para
disputar novas eleições seria a aprovação de uma lei de anistia. Parlamentares
bolsonaristas na Câmara já se movimentam para pressionar o presidente da Casa,
Hugo Motta (Republicanos-PB), a pautar uma proposta nesse sentido.
• Ministros de Lula defendem a condenação
de Bolsonaro e repudiam interferência dos EUA
Ministros
do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defenderam o processo
judicial conduzido pelo Supremo Tribunal Federal contra Jair Bolsonaro no
inquérito da trama golpista e destacaram a importância da condenação dos oito
réus, incluindo o ex-mandatário. Membros do primeiro escalão do governo também
reafirmaram a soberania brasileira após o governo Donald Trump (EUA) citar o
processo contra o político da extrema direita para aplicar sanções ao Brasil.
O
ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias, disse que o
“Supremo foi bastante cuidadoso em dar a oportunidade de defesa e, é claro,
cumprir a lei”. “A democracia, doa a quem doer, seja a pessoa mais simples ou
um ex-presidente, tem que prevalecer. É lamentável ver pessoas se colocando a
serviço de interesses contrários ao país. Traição à pátria não é aceitável”,
afirmou Dias, que participou do 3º Encontro Nacional de Economia Francisco e
Clara, realizado no Recife (PE).
O
ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Márcio Macêdo,
afirmou que a condenação foi “um marco histórico na defesa do Estado
Democrático de Direito”. “O devido processo legal foi respeitado e a Justiça
deixou claro que ninguém está acima da lei", disse.
Segundo
o ministro, "a decisão reafirma o respeito à soberania popular, expressa
nas urnas em 2022, à lisura do sistema eleitoral brasileiro e fortalece as
instituições nacionais ao condenar a tentativa de golpe de Estado que ameaçou a
democracia e planejou o assassinato do presidente e vice-presidente eleitos e
de um ministro do STF”.
“O
resultado do julgamento demonstra ainda que o Brasil não aceitará qualquer
forma de ameaça externa às nossas instituições e ao nosso povo. Nosso
compromisso é com a Constituição, a democracia, a justiça e a soberania do povo
brasileiro”.
De
acordo com a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, “houve
devido processo legal, direito de defesa e provas consistentes de uma tentativa
de golpe de Estado”.
A
titular da pasta recordou também que, segundo investigadores, os envolvidos na
trama golpista pretendiam assassinar o presidente Lula (PT), o vice Geraldo
Alckmin (PSB) e o ministro do STF Alexandre de Moraes, relator da investigação
do plano golpista na Corte.
“É
inaceitável. O Brasil já sofreu com uma história de golpes e ditaduras, marcada
por tortura e assassinatos. Não podemos naturalizar esse passado. Precisamos
virar a página”, declarou Luciana.
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Condenações e a reação dos EUA
O STF
condenou os oito réus na investigação - Jair Bolsonaro, o ex-chefe do Gabinete
de Segurança Institucional (GSI) Augusto Heleno, o deputado Alexandre Ramagem
(PL-RJ), o ex-ministro Paulo Sérgio Nogueira, o ex-comandante Almir Garnier
Santos, o tenente-coronel Mauro Cid, o general Braga Netto e o ex-ministro
Anderson Torres.
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a defender Bolsonaro após a
decisão do STF. A Embaixada dos Estados Unidos no Brasil classificou Moraes
como “violador de direitos humanos”.
O
secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, também saiu em defesa do
ex-mandatário e aproveitou para fazer ataques ao ministro do STF Alexandre de
Moraes. O magistrado é o relator do inquérito do plano golpista no Supremo.
Deputados
democratas dos EUA divulgaram uma carta e alertaram que Trump tenta acabar com
a democracia brasileira. No Brasil, o Itamaraty, comandado pelo ministro Mauro
Vieira, rebateu o secretário de Estado.
Fonte:
O Dia/JB/Agencia Brasil/Brasil 247

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