Subcomandante
Moisés: “A tempestade se aproxima, e só um povo organizado pode detê-la”
"Algumas
Partes do Todo" foi o nome do Encontro Internacional de Resistências
e Rebeliões organizado em território zapatista, com a participação de mais
de 3 mil pessoas, entre bases de apoio, cidadãos mexicanos e cidadãos de
outras partes do mundo. Demonstrando admirável organização, os zapatistas prepararam
o Encontro Internacional de Resistências e Rebeliões "Algumas
Partes do Todo". Eles acolheram aproximadamente 3 mil pessoas das
bases de apoio zapatistas, cidadãos mexicanos e pessoas de todo o mundo durante
15 dias, de 2 a 17 de agosto, em terras recuperadas localizadas no Caracol
Morelia, em Chiapas, México. Eles praticaram o que o crítico do
desenvolvimento Gustavo Esteva propôs como alternativa ao desastre
capitalista: a hospitalidade. Foi isso que os zapatistas fizeram, criando
condições para o reconhecimento mútuo e fomentando relações horizontais entre
povos de diversas culturas.
Os zapatistas alojaram
os participantes (que não apenas ouviram, mas também compartilharam suas lutas)
em estruturas cobertas ou sob grandes tendas para acampar, enquanto montavam
tendas ao redor dos espaços, deixando os melhores lugares para os visitantes.
Construíram e disponibilizaram banheiros, chuveiros e lavanderias para todos.
Dois grandes auditórios, mesas 1 e 2, também foram montados, onde coletivos e
organizações de todo o mundo compartilhavam suas ideias diariamente. Houve uma
grande presença internacional, começando com vários indivíduos, organizações e
coletivos de Abya Yala, bem como da Europa Rebelde ou Slumil
K'ajxemk'op (como os zapatistas a renomearam durante a Turnê pela
Vida), jovens gringos organizados em terras
roubadas, Chile, Nicarágua e Brasil em resistência,
bem como a participação do povo Mapuche, da Austrália e de
muitos outros movimentos. Do México, compareceram representantes
das Mães em Busca, do Congresso Nacional Indígena, do Centro
Frayba de Direitos Humanos, bem como de grupos de mulheres das periferias e de
muitas outras organizações. Eles encontraram uma gama incrivelmente diversa de
lutas e línguas, tantas que seria impossível listar aqui em poucas linhas. Como
se não bastasse, a cozinha comunitária "El Común" funcionava
todos os dias sob os cuidados dos chefs Manuel e Mari José, que,
com uma equipe de aproximadamente 30 pessoas, alimentavam o Encontro todos os
dias durante longos turnos de 20 horas. A denúncia do genocídio sionista e o apoio
à resistência palestina foram constantes durante todo o evento. Em
vários debates, palavras de ordem de solidariedade foram gritadas, informações
sobre a situação foram fornecidas e apelos foram feitos para continuar a
organização e a divulgação. Durante vários dias, um protesto com panelaços foi
realizado em apoio, começando no pátio do Caracol Morelia e se espalhando pelo
Refeitório e outros locais, lembrando os participantes da urgência histórica
que enfrentamos.
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“Destrua a pirâmide”
Uma das
principais propostas promovidas pelos zapatistas durante o Encontro
foi destruir as pirâmides do sistema capitalista (políticas, mas
também sociais e ideológicas) e, em seu lugar, construir "os bens
comuns" sobre a base democrática dos nossos povos. Eles também alertaram
sobre a necessidade de nos prepararmos para a tempestade que se aproxima, tanto
a do capitalismo quanto a da Mãe Terra.
Durante
os primeiros dias do Encontro, os zapatistas realizaram uma peça
teatral em várias partes na qual uma pirâmide monumental representando o
capitalismo, com lendas de desapropriação, exploração, repressão e desprezo
escritas em cada lado da pirâmide, foi completamente destruída, deixando apenas
a base de pé, simbolizando sua proposta política. Em outras duas ocasiões ao
longo do Encontro, os companheiros zapatistas apresentaram peças informativas
com a magnífica participação de dezenas de atores e atrizes. Nessas peças,
apresentaram ao público dois grandes exercícios de reflexão e compromisso
assumidos pelas comunidades. O primeiro consistiu em um diálogo entre
as comunidades zapatistas atuais e uma assembleia de zapatistas
falecidos, significando seu compromisso com todos aqueles que deram suas vidas
para que pudessem ser livres hoje. A segunda peça representou um diálogo com as
"aguitas", como chamavam uma representação de óvulos e
espermatozoides que representam o futuro — ou seja, o compromisso com a luta
pela liberdade que os zapatistas atuais
assumiram com as comunidades de amanhã.
A
proposta política das comunidades zapatistas insere-se na linha de organizações
e movimentos em todo o mundo que lutam fora do Estado e das pirâmides. Como
apontou Raúl Romero, enquanto neoconservadores e neoliberais disputam
o controle do planeta, uma alternativa é urgentemente necessária. Essa
alternativa é a dos povos organizados na base e
à esquerda, anticapitalistas. Já na Sexta Declaração da Selva
Lacandona, os zapatistas afirmavam: "Dizemos apenas que o nosso é
um anticapitalismo mais modesto: é aquele que mira no próprio coração
do sistema. Os hábitos de consumo de uma sociedade ou as formas e meios de
circulação de bens podem ser alterados, mas se a propriedade dos meios de
produção não mudar, se a exploração do trabalho não desaparecer, o capitalismo
permanecerá vivo e ativo". Enquanto o mundo sofre uma onda de neofascismo, com movimentos
de extrema-direita se espalhando e governando as pirâmides dos
Estados-nação; enquanto partidos de direita e social-democratas no poder
continuam a sustentar o capitalismo e o poder corporativo por meio de
megaprojetos, bem como distribuindo programas sociais que, em vez de mudar a
estrutura, dividem as comunidades, o zapatismo continua a convocar os
organizados a descer, não a subir, a não desistir da criação de alternativas
anticapitalistas.
Durante
a reunião, eles nos incentivaram constantemente a focar no que nos une e a
aprender com outras lutas. Ressaltaram que podem compartilhar suas lutas nas
montanhas, mas que o contexto nas cidades é diferente e que aqueles que lutam
lá podem contribuir muito para o resto de nós. Também indicaram que estavam lá
para ouvir e aprender com outras lutas. O zapatismo é um dos
movimentos de resistência mais transformadores do mundo, praticando e
promovendo o aprendizado contínuo. Eles trazem um sopro de ar fresco aos
movimentos tradicionais, onde a autocrítica é notoriamente ausente e onde
conquistar o topo da pirâmide é o verdadeiro objetivo. Isso foi apontado
por Raúl Zibechi, que destacou a capacidade de autocrítica do
zapatismo, que lhe permitiu ser uma das revoluções mais duradouras da história.
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Os bens comuns e a não propriedade
No 30º
aniversário do movimento zapatista, no Caracol de Dolores Hidalgo, em
2023, os companheiros e companheiras zapatistas apresentaram seu projeto de
"Terra em Comum" ou "Não Propriedade", que foi outro
conceito-chave no atual Encontro Internacional, somando-se a tantas outras
contribuições que enriqueceram a luta dos companheiros e redes de solidariedade
zapatistas, como "raiva digna", "tudo para todos, nada para
nós", "rebelião alegre", etc. Na sessão de partilha
do Exército Zapatista (EZ), o Sup Moi — como o Subcomandante Moisés é
coloquialmente conhecido — destacou que eles já haviam colocado a terra em
comum para trabalhar. Trata-se de terras recuperadas que são emprestadas a
companheiros zapatistas e não zapatistas para que tenham uma fonte de trabalho.
"A colheita obtida é para as pessoas que trabalharam aquela terra
igualmente, mas a terra continua sendo comum", disse o subcomandante.
"Os bens comuns" começam
destruindo "a pirâmide", que são as muitas estruturas verticais de
poder, que tendem à corrupção. Mas os zapatistas, explicaram, não o fazem
como algo que leram: "Não estudamos em livros para entender o que
significa... aprendemos com nossos avós, bisavós, essa ideia maravilhosa de
viver e nos defender em comum." O Sup Moi destacou que eles
copiaram o sistema político piramidal por 30 anos, que aplicaram em seu sistema
de municípios autônomos e Conselhos de Bom Governo. Não funcionou para eles;
"houve atos de corrupção", e então o mudaram por meio da autocrítica.
Por esse motivo, eles passaram um ano implementando um novo sistema político
baseado nos GAL (Grupos Autônomos Locais), que são basicamente as
aldeias, com populações variadas, que decidem diretamente como administrar
todas as áreas da comunidade: educação, saúde, justiça, etc. Com a criação do
GAL, os antigos Conselhos de Bom Governo foram extintos. Eles também
criaram outra estrutura chamada Coletivo de Grupos Autônomos
Zapatistas (CGAZ), que serve como um local de reunião, mas não toma
decisões. Por fim, a Interzona é a assembleia geral de todos os CGAZ.
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Uma sala de cirurgia na Selva Lacandona
No México,
existe uma tradição de pensamento antissistêmico que se concentra na amizade e na
convivência comunitária como uma força transformadora, escapando ao
controle de especialistas e tecnocratas que, de fora, colonizam e impedem a
auto-organização. São esses indivíduos, grupos e instituições que estudaram e
disseminaram o pensamento de Ivan Illich, o grande crítico
das instituições modernas que viveu em Cuernavaca na década de 1970. O
pensamento de Ivan pode ser observado na prática em comunidades
zapatistas por meio de sua proposta para "Os Comuns", e um ótimo
exemplo é o novo projeto de sala cirúrgica zapatista. Um ambiente comunitário,
como a saúde, é um espaço social onde as pessoas se reconhecem como indivíduos,
cuidam umas das outras e cooperam sem depender de mediação institucional. "Este
não é apenas um projeto zapatista, mas um projeto compartilhado",
afirmaram os zapatistas. Uma das novidades que chamou a atenção neste
encontro foi o progresso alcançado na construção do primeiro centro cirúrgico
zapatista, que deverá atender às necessidades de uma ampla região. Atualmente,
ele está na primeira fase de construção. "Desde o início, uma grande
variedade de pessoas participou voluntariamente, colaborando de diferentes
maneiras. Em comum, pertence a todos no mundo", explicou a apresentação.
A
construção envolveu o trabalho, o apoio e a solidariedade de "indivíduos,
grupos, coletivos, organizações e movimentos de várias partes do mundo". O
trabalho e as contribuições financeiras foram feitos com companheiros de fora
das bases de apoio zapatistas; também participaram
membros indígenas não zapatistas, companheiros do Congresso
Nacional Indígena, Slumil K'ajxemk'op, bem como zapatistas de
várias gerações, línguas e origens. O Capitão conta que o projeto arquitetônico
foi solicitado a um arquiteto profissional, que concordou em realizar o projeto
por 500 mil pesos. No entanto, a Interzona (isto é, todos nós)
pensou: "Se para criar um mundo novo é melhor não dependemos de grandes
teóricos e pensadores, mas sim o fazemos com nossos próprios pensamentos e
práticas, então construamos um edifício de acordo com o que queremos e com
nosso conhecimento." Assim, com a sabedoria das comunidades e a
solidariedade dos Comuns, o projeto do centro cirúrgico zapatista avança,
um grande motivo de orgulho para a convivialidade zapatista.
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O cerco da mídia
As
mudanças observadas nas comunidades
zapatistas em
seus mais de 30 anos de vida pública são notáveis. Devemos lembrar que, quando
o zapatismo decidiu pegar em armas e se tornar visível, o número de
indígenas em Chiapas que morreram de desnutrição era, segundo o
falecido Sup. Marcos, de 15 mil por ano,
mais do que na guerra em El Salvador; no entanto, as mortes ocorriam
apenas de um lado: os indígenas. Alguns textos também reconhecem que,
naquela época, os proprietários de terras ainda exerciam o direito de pernada
(uma mulher prestes a se casar era obrigada a passar a noite com seu patrão
antes de se casar); em suma, os caciques que ocupavam o topo da pirâmide
governavam um sistema de tirania absoluta. Hoje, 31 anos depois, com sólida
autonomia, os territórios zapatistas são uma referência nacional e
internacional para as lutas de resistência daqueles indivíduos, grupos,
coletivos e redes que decidem construir alternativas comuns fora do Estado e da
pirâmide, buscando comunalizar as esferas que sustentam a vida. Isso não é um
capricho. As companheiras zapatistas viram na prática como uma sociedade
piramidal tende à corrupção: "Copiamos a pirâmide deles, mas vimos que não
funcionava, então a jogamos fora, e agora o próprio povo decide tudo." No
entanto, esse compromisso com a construção de uma autonomia abrangente,
socializando todas as esferas da vida, exercendo a autocrítica e continuando a
se organizar a partir de uma perspectiva anticapitalista levou a imprensa
tradicional ou oficial a construir um cerco midiático inquebrável por muitos
anos.
Hoje,
como sempre, se alguém no México ou no mundo quiser aprender sobre
o zapatismo, é difícil; é preciso se esforçar. Jornais nacionais fizeram
pouca ou nenhuma cobertura do Encontro. Na realidade, ele foi disseminado
principalmente pelas mídias sociais ou por veículos de mídia alternativos
como Desinformémonos, Rádio Pozol e Rádio Zapatista. Isso
explica por que, apesar de o zapatismo ter se mostrado uma alternativa real
para os que estão na base há mais de 30 anos, muitas pessoas, por ignorância,
questionam não apenas sua validade como alternativa política, mas até se
perguntam se ele desapareceu. "Como zapatistas, devemos ir e fazer o
trabalho em nossas comunidades", foi uma das palavras com que o Sup
Moi, porta-voz do movimento zapatista, concluiu o Encontro Internacional
de Rebeliões e Resistências, "Algumas Partes do Todo". Com este
mandato, ele indicou que o que foi aprendido durante o Encontro deve agora ser
compartilhado nas comunidades zapatistas, bem como nos bairros e cidades de
origem dos participantes de outras partes do mundo. Organizemo-nos e rompamos o
cerco onde quer que estejamos.
A
autocrítica Zapatista. Por Raúl Zibechi
Em
diversas ocasiões, comentamos que a autocrítica foi se evaporando da esquerda
mundial, mesmo daquela que se autodenomina revolucionária ou radical. A
ausência de uma prática central da política entre aqueles que querem mudar o
mundo faz parte do colapso da esquerda e dos movimentos antissistêmicos.
Durante
a primeira semana de agosto, presenciamos um fato absolutamente novo entre os
movimentos que lutam para mudar o mundo. Aconteceu no semillero de Morelia,
no encontro “Algumas partes do todo”. Durante vários dias, encenaram peças que
variaram desde uma assembleia dos mortos (aqueles que tombaram na luta), que
ensinam os zapatistas a não repetirem velhos erros, até um diálogo entre pessoas
que ainda não nasceram (representadas por cem espermatozoides e óvulos), a quem
transmitiram as suas reflexões.
Milhares
de pessoas puderam ver e ouvir as peças, desde participantes nacionais e
internacionais até bases de apoio e milicianos e milicianas. O aspecto mais
impressionante foi como elas mostraram os erros cometidos pelos Conselhos
de Bom Governo e pelos municípios autônomos, as diversas formas de
corrupção, como o desvio de recursos financeiros coletivos, até os abusos e más
práticas das autoridades.
Um
primeiro ponto que vale destacar é que centenas de zapatistas encenaram as
peças, todos muito jovens, igualmente distribuídos entre homens e mulheres. A
maneira como explicaram e se comportaram no enorme palco que é o centro
do semillero (do tamanho de um campo de futebol) revela meses
de ensaios entre grupos de diferentes comunidades e caracóis, demonstrando uma
tremenda coordenação entre regiões, escrita de roteiros e ensaios ao longo de
um longo período. O que não é visível me parece tão importante quanto o que
ouvimos.
Mas a
questão que me parece quase inacreditável, porque nunca tinha acontecido antes
e eu nunca tinha podido presenciar em mais de 55 anos de militância, é o como,
onde e para quem. A autocrítica foi pública perante as bases
de apoio e os participantes mexicanos e internacionais, além daqueles que
assistiram pelas redes sociais. Foi realizada por pessoas comuns, jovens
zapatistas que questionavam os caminhos de suas próprias autoridades. Eles a
dramatizaram com uma boa dose de humor, o que não significa que não fossem
críticas rigorosas e profundas, revelando um estado de espírito sereno e
reflexivo.
Na
cultura política em que nos formamos durante a revolução mundial de 1968
(como Wallerstein a chamou), a autocrítica era importante, mas
com o tempo praticamente desapareceu, e todos os males começaram a ser
atribuídos ao inimigo. Talvez seja por isso que o Subcomandante Moisés,
que interveio diversas vezes durante o encontro, enfatizou que “nem todos os
problemas vêm do capitalismo” (cito de memória). Em geral, se há autocrítica,
ela vem da liderança, nunca (mas nunca mesmo) da base. Os dirigentes eram os
que decidiam o que era feito certo ou errado, e o restante da organização seguia
essa liderança. “Cada base de apoio deve poder criticar seu governo”, foi dito
em uma das performances.
No zapatismo, há uma inversão
completa dessa prática hierárquica. A autocrítica não é apenas pública e aberta,
mas também realizada de baixo para cima. Teria sido muito diferente
se fosse resumida em um comunicado. O fato de serem os zapatistas de base que a
fazem demonstra dois aspectos-chave: sua firmeza e coerência ética, implacáveis
e teimosas; e a decisão política de deixar que as comunidades organizadas
definam a direção do movimento. Isso não significa que o Capitão Marcos, o Subcomandante Moisés ou
o CCRI (Comitê Clandestino Revolucionário Indígena) não tenham um
papel a desempenhar, mas sim que eles tomaram a decisão ético-política de
comandar obedecendo, não como um lema, mas como uma prática concreta e real,
como um guia para suas ações.
Daí até
a derrubada da pirâmide havia apenas um passo, que também foi dado
coletivamente, de baixo para cima. Antes, relembraram os aspectos positivos
dos Conselhos de Bom Governo e dos municípios autônomos, porque nem
tudo foi um problema, mas também uma escola de autonomia.
Neste
ponto, assim como os participantes com quem pude conversar, acredito que
devemos nos curvar ao EZLN e suas bases de apoio, por sua coerência,
por serem o que são e por nos mostrarem caminhos nunca antes trilhados por
nenhum movimento, em nenhum lugar do mundo, ao longo da história. O movimento zapatista é uma
verdadeira revolução, que não brinca com as palavras, mas demonstra práticas de
mudança profunda, não capitalistas, não patriarcais.
Fui
formado durante os anos da Revolução Cultural Chinesa, à qual aderi com
entusiasmo por acreditar que era a continuação das lutas após a conquista do
poder, ao contrário do que havia acontecido na União Soviética, onde toda
crítica vinda de baixo foi esmagada. Mais tarde, soubemos que a mobilização em
massa foi impulsionada por líderes partidários para resolver disputas entre
elites, usando as massas, como sempre. Isso é horrível porque sangue foi
derramado de baixo para fortalecer a pirâmide.
Nestes
momentos de escuridão global, de genocídios e massacres perpetrados de cima,
o zapatismo é a única esperança; intacto, imaculado, com erros, mas
sem horrores. É a exceção no pequeno mundo global antissistêmico, e devemos
reconhecê-lo como tal. Eles conseguiram isso sem se render, sem se vender, sem
ceder... e sem depor as armas.
Fonte:
Por Carlos Soledad, para El Salto/Desinformémonos

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