Nas
sombras, um ex-presidente faz carreira representando as techs
Nos
bastidores do parlamento brasileiro, Michel Temer é frequentemente lembrado
como um ótimo articulador político. Foi presidente da Câmara dos Deputados três
vezes e, com isso, conquistou a aliança para ser vice de Dilma Rousseff, em
2010. Mais tarde, usando das mesmas habilidades, fez parte da articulação que o
levou a sentar na cadeira da presidência da República do Brasil, a partir de 12
de maio de 2016, após o controverso processo de impeachment de Dilma Rousseff.
Nas palavras dele, em seu livro “A escolha”, Temer creditou a Eduardo Cunha a
retirada da petista do cargo. Já na descrição de Cunha, o ex-presidente “lutou”
de todas as maneiras para tirar Dilma.
Temer
só deixou a cadeira após entregar a faixa presidencial a Jair Bolsonaro, em
janeiro de 2019. Uma vez “desempregado”, o líder do MDB resolveu retomar uma
carreira abandonada três décadas antes, a advocacia. O ex-presidente é formado
pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), das mais
tradicionais do país, e autor de importantes livros sobre Direito
Constitucional. Mas passou décadas sem advogar. Após a presidência, Temer
remodelou sua carreira na advocacia – mas não em qualquer setor.
O
projeto A Mão Invisível das Big Techs, investigação liderada pela Agência
Pública e pelo Centro Latino-Americano de Investigação Jornalística (CLIP),
mapeou os rastros da atuação do ex-presidente em Brasília e no Superior
Tribunal Federal (STF) brasileiro. Entre tantas áreas, o ex-presidente passou a
representar empresas de tecnologia com disputas na Corte. A atuação foi
admitida publicamente, porém, é pouco registrada de modo formal.
Por
cerca de dois meses, a reportagem fez diversos pedidos de entrevista ao
ex-presidente para ouvi-lo sobre seu trabalho no setor. Foram enviadas
mensagens a um de seus assessores e para sua secretária desde o dia 5 de junho.
Apenas no dia 4 de agosto, ele enviou uma mensagem por meio de sua equipe de
assessoria: “para finalizar seu assunto, Dr. Michel Temer informa que não trata
de assuntos de interesse dos clientes com outras pessoas. Agradeço a sua
compreensão”.
Quando
o CLIP, membro desta aliança jornalística, procurou a equipe de Temer, foi
informado que estavamos fazendo uma reportagem sobre o trabalho do
ex-presidente como advogado e acompanhando sua atuação na área de tecnologia.
Também foi dito ao ex-presidente, por email a sua equipe, que havia sido
encontrado um processo em que ele atua para a Gradiente já que constava uma
procuração, mas não era possível entender a atuação no caso. Além disso, foi
dito a Temer que ele tinha sido apresentado como advogado do Google, mas não
tinha sido possível localizar casos em que ele atua para a empresa no STF. Por
isso, existiam vários questionamentos a serem feitos.
No fim
de junho de 2023, o Google anunciou a contratação de Temer durante as
negociações do PL das “Fake News”. No mês anterior, em maio de 2023, o então
presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, pediu que a Procurador-Geral
da República (PGR) e a Polícia Federal (PF) investigassem a campanha do Google
e do Telegram contra o projeto. Entre outras coisas, as empresas publicaram em
sua plataforma textos da posição da empresa para mobilizar os usuários contra a
lei que se pretendia criar. O Google, por exemplo, usou a home da busca para
dizer que o PL “podia piorar a internet” e iria “aumentar a confusão entre o
que é verdade e mentira no Brasil”. Mais tarde, após toda a pressão, o projeto
nunca foi votado.
A
reportagem apurou que a contratação de Michel Temer, porém, se deu bem antes
disso. No início de maio daquele ano, os dirigentes das empresas passaram a ser
investigados pela PF pela pressão contra o projeto, a pedido do então
presidente da Câmara dos Deputado, Arthur Lira. Os executivos da empresa
chegaram a prestar depoimentos no inquérito. Além da investigação na PF, o
Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e a Secretaria Nacional de
Defesa do Consumidor também abriram apurações sobre o episódio. Segundo pessoas
que acompanharam a crise e pediram anonimato, a decisão pela contratação de
Temer se deu para que ele atuasse intermediando diálogos em todos esses
processos.
No
entanto, a representação jurídica ficou a cargo de outros advogados. Com isso,
Temer também atuou, em favor da empresa, junto ao relator do projeto de lei, o
deputado federal Orlando Silva (PCdoB). O parlamentar, um dos poucos que
concordou em conceder entrevista, relembrou a essa coalizão o episódio
relatando que, naquele período, em junho de 2023, recebeu uma ligação do
ex-presidente Michel Temer que pediu a ele que fosse a seu escritório em São
Paulo para uma conversa.
Temer
tem um escritório na rua Pedroso Alvarenga, no bairro do Itaim Bibi, na zona
sul de São Paulo, há anos. O local é utilizado por Temer para reuniões desde a
época em que era deputado e também quando estava na Presidência da República.
Ao chegar no local, Silva disse que Temer informou que “estava acompanhando o
conflito” das empresas de tecnologia, Congresso Nacional e governo em torno do
projeto de lei para a regulação e responsabilização das redes sociais. Segundo
Silva, Temer informou que “queria ajudar” e perguntou se o deputado aceitaria
um encontro com os dirigentes do Google.
“Fui ao
escritório dele (Temer) e conversamos um pouco. Ele disse que estava
acompanhando a discussão no Congresso e tinha capacidade de diálogo e que
estava à disposição e perguntou se eu podia conversar com os dirigentes do
Google”, contou Silva. Temer, em momento algum, anunciou que era advogado da
empresa ou que tinha sido contratado por ela para atuar no caso.
Na
sequência, segundo Silva, foi marcado um encontro novamente no escritório de
Michel Temer, alguns dias depois. Na segunda conversa, além do ex-presidente
estava Fábio Coelho, presidente do Google Brasil. Eles falaram sobre as ideias
deles. O foco dele estava na responsabilidade. “Eles (Google) achavam que não
cabia a responsabilização (das empresas). Eu repus todos os argumentos. Eles
ficaram de mandar textos e mandaram sugestões, mas eram as mesmas que eles já
tinham encaminhado outras vezes”, relatou Silva, ao mencionar que já mantinha
contato com os dirigentes da empresa. Depois disso, o deputado disse que nunca
mais tratou do assunto com Temer.
A
contratação de Temer foi revelada pela jornalista Patrícia Campos Mello, no
jornal Folha de S. Paulo, em junho de 2023. Na ocasião, a assessoria do Google
disse que: “Assim como outras empresas e entidades, contratamos agências e
consultores especializados para ajudar na mediação dos nossos esforços de
diálogo com o poder público para podermos levar nossas contribuições a
políticos e parlamentares, especialmente, em questões importantes e técnicas
como a construção de novas legislações”. Esta coalizão apurou que a contratação
de Temer durou cerca de seis meses e, depois que a situação estava
“controlada”, o trabalho foi encerrado.
Procurado,
o Google informou que não tinha nada a acrescentar além do que já tinha
mencionado quando anunciou a contratação de Temer em 2023. Em março de 2024, a
investigação da PF sobre a atuação do Google e do Telegram foi arquivada a
pedido da PGR embora os policiais tivessem indicado em seu relatório final que
viam abuso de poder econômico das empresas no caso. Os casos no Cade e na
Secretaria de Defesa do Consumidor seguem em aberto.
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Parecer para a Huawei
Antes
do episódio com o Google, Temer também já tinha sido convocado em outra
situação de crise. Por isso, nos bastidores do Congresso Nacional, ele é
conhecido como um tipo de trabalho para “Lobby de Crises” embora negue fazer
lobby quando perguntado. Em 2021, quando o governo de Jair Bolsonaro pretendia
banir a chinesa Huawei da participação do leilão para disputar as concessões em
torno das transmissões 5G, a empresa também recorreu a Temer para elaborar um
parecer jurídico sobre a entrada da empresa no mercado brasileiro.
Em 27
de setembro de 2021, o ex-presidente Michel Temer foi questionado no programa
Roda Viva sobre o caso e respondeu aos questionamentos sobre lobby. “Eu dei um
parecer. Você sabe que eu sou da área jurídica e eu tenho que sobreviver. Como
estou no meu escritório, eu retomei a advocacia e tenho sido procurado para
pareceres. Não foi só para eles (Huawei) que eu dei não. Dei outros pareceres.
Aliás, dei para uma empresa que presta serviços para a Huawei. Até se me
dissessem, a Huawei está procurando seus serviços advocatícios, eu faria com
muito gosto. Profissionalmente, é perfeitamente possível, mas não é isso que
acontece. Evidentemente, não faço lobby. Eu me lembro que um colunista, não sei
quem, falou ‘Temer foi contratado para fazer lobby’. Não faço lobby. Não tenho
contato com ninguém. Dou pareceres. Disso, não há dúvida. Dei para eles,
legitimamente e acho que o governo estava resistindo um pouco indevidamente e
inconstitucionalmente”.
Mais
tarde, no fim de 2021, a Huawei não chegou a disputar o leilão que era para
operadoras dessa tecnologia. No entanto, a empresa é uma das principais
fornecedoras de equipamentos para que seja possível fazer uso do 5G. A Huawei
deixou de ser atacada por Bolsonaro, que atendia os interesses do primeiro
governo de Donald Trump, à época. Os norte-americanos não querem deixar que os
chineses controlem o mercado de equipamentos e a Huawei também é investigada
por suspeitas de espionagem em diferentes locais do mundo. “Ele conseguiu
mediar, conseguiu resolver o problema”, explica Rafael Zanatta, diretor da
Associação Data Privacy Brasil de Pesquisa. “Ele, claramente, tá orientando a
carreira dele como um lobista de crise”, completou Zanatta.
Temer,
como já sabemos, não fez pareceres ao Google em 2023. Mas mediou contatos entre
dirigentes do Google e o deputado Orlando Silva, relator do PL das “fake news”.
Mas
como definimos o que é lobby? “No nível mais abstrato, o lobby é uma defesa de
uma causa perante um agente decisório e não é crime em si”, explica Zanatta, ao
lembrar que no Brasil não há uma regulação de lobby. O pesquisador observa
ainda que na lei americana, por exemplo, entre outros aspectos, é previsto uma
defesa pública, democrática e equitativa da causa, o que não ocorre no modo
como o setor atua no Brasil. “O que não é permitido é fazer um jantar em
Lisboa, por exemplo, ou produzir algo só para um parlamentar. Além disso, não é
permitido fazer um rascunho de texto que depois um assessor parlamentar
apresenta especificamente para um projeto de lei”, finaliza Zanatta, ao
mencionar vários aspectos que ocorrem no Brasil.
A
entrada de Temer na representação do Google e das demais techs configura a
conhecida tática de “revolving door” ou “porta giratória, uma clássica tática
de lobby em que altos funcionários públicos passam a atuar no setor privado ou
o contrário. No projeto A Mão Invisível das Big Techs, verificamos diversos
outros casos que se assemelham.
Reportagens,
à época, anunciaram encontros do ex-presidente com líderes partidários para
tratar do PL das fake news. Então, para entender como atua o ex-presidente, o
CLIP pediu à Câmara dos Deputados, por meio de um pedido de lei de acesso à
informação, a lista de registros da presença de Temer na casa. A Câmara
respondeu que não tinha nenhum registro de entrada de Temer no prédio entre
janeiro de 2023 e maio de 2024. A Casa, porém, ressalvou que “a entrada de
pessoas com credencial de acesso ao Congresso Nacional, congressistas e altas
autoridades não são registradas”. Temer não é congressista e também não é mais
Presidente. Em entrevistas com fontes que pediram anonimato, Temer foi descrito
como parte da articulação que levou à derrubada do projeto que pretendia
regular as empresas de tecnologia.
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No STF, com a Apple
O CLIP
também rastreou a atuação de Temer no STF. Nos processos que o Google move na
Corte, não há qualquer registro da atuação do ex-presidente. O CLIP chegou a
pedir os registros de acesso do ex-presidente na Corte, mas o STF não quis
informar. No sistema da Corte, o único processo localizado na área de
tecnologia com o ex-presidente entre os advogados é uma ação que a Apple move
contra a empresa IGB Eletrônica S.A devido ao registro e uso da marca
“Gradiente Iphone” que foi registrada no Brasil em 2008.
A Apple
pede no processo a anulação do registro que permitiu a IGB o uso do nome
“Gradiente Iphone”. O pedido foi feito pela IGB Eletrônica S.A em 2000, mas só
em 2008 ele foi concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial
(INPI). Antes disso, em 2007, a Apple lançou o iPhone, que ganhou projeção
mundial. A Apple já venceu em primeira e segunda instância. No STF, a IGB
Eletrônica S.A tenta reverter as decisões.
Temer
foi contratado pela IGB Eletrônica, em 14 de outubro de 2023, quando o caso já
estava caminhando para a fase final de julgamento no STF. A Aliança
Jornalística teve acesso ao processo e viu a procuração dele na caso. O relator
é o ministro Dias Toffoli. No entanto, o único registro dele nos autos é
justamente a procuração que o formalizou como representante da IGB. Ele não
apresentou nenhuma petição e não há nenhum outro ato formal de Temer.
Procurado, o advogado Igor Mauler Santiago, líder na defesa da IGB, não quis
dar entrevista.
A
reportagem conversou com fontes que participaram ativamente das negociações com
Temer, que pediram anonimato, e foi informada de que ex-presidente teria
produzido um parecer técnico sobre a questão da propriedade intelectual da
Gradiente em relação ao nome em disputa com a Apple. Esse documento teria sido
mostrado aos ministros do STF, mas não foi juntado aos autos. Além disso, a
contratação de Temer teria se dado depois que ele advogou na Adin 5529, que
tratou da inconstitucionalidade do dispositivo da Lei de Propriedade Industrial
(Lei 9.279/1996) que prorrogava a vigência de patentes no país. Ele defendia,
naquele caso, uma tese que interessava à Gradiente.
O
julgamento do caso começou no plenário virtual e a Gradiente estava perdendo
por 5 votos (Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso, Cármen Lucia, Cristiano
Zanin e Luiz Fux) a 3 (Dias Toffoli, Gilmar Mendes e André Mendonça) quando o
ministro Toffoli decidiu levar a discussão para o plenário físico, o que
reinicia a votação. Desde o fim de 2023, as partes aguardam a resolução do caso
com a análise pelo plenário do STF, o que ainda não ocorreu.
Além
disso, Michel Temer tem atuado em alguns outros processos de grandes empresas.
No caso da Eletrobras vs Fundo de Investimento, ele representa a empresa na
tentativa de evitar pagar R$ 142 milhões, após perder um processo que durou
mais de 20 anos, mas o STJ negou o pedido.
Já nos
processos de iluminação pública de São Paulo, trata-se de uma megalicitação de
R$ 6,9 bilhões onde diferentes consórcios brigam na justiça – o STJ manteve o
contrato da Iluminação Paulistana funcionando para não deixar a cidade no
escuro. Temer atua pelo Consórcio Walks, que perdeu a licitação e discute a
questão no Judiciário.
Já em
outro caso, uma disputa na usina de Belo Monte, Temer atua como advogado da
Eletrobras, o STF decidiu que a usina pode continuar operando, mas as empresas
devem compensar as comunidades indígenas pelos impactos causados.
Processos
criminais e investigações
Michel
Temer enfrentou dois processos criminais principais. No caso da Lava Jato, ele
e outros réus foram absolvidos sumariamente de acusações de organização
criminosa envolvendo Petrobras, Furnas e outros órgãos públicos, com a decisão
transitando em julgado em 2023.
Já no
caso do “Decreto dos Portos”, Temer conseguiu uma vitória importante ao
desbloquear R$ 32,6 milhões que estavam sequestrados, pois o tribunal entendeu
que não havia fundamentação adequada para o bloqueio dos bens. Ele foi
absolvido, mas o MPF recorreu. Segundo a acusação, Temer teria recebido
propinas e vantagens por meio de empresas para editar e beneficiar empresas do
setor.
Fonte:
Por Juliana Dal Piva e Luiza Souto, da Agencia Públia

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