Lula,
ONU e o resgate do iluminismo
Na
abertura da Assembleia Geral da ONU em 2025, dois líderes expuseram projetos
antagônicos de civilização: Lula, ao reivindicar o iluminismo para o século
XXI, apontou caminhos de multilateralismo, direitos e soberania informacional;
Trump, em contrapartida, atacou a ONU, ameaçou o mundo e reiterou a lógica do
medo e da guerra. A disputa pela governança global ficou cristalina — entre a
reconstrução civilizatória e o abismo fascista.
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A cena inaugural
Na
manhã de 23 de setembro de 2025, a tribuna da Assembleia Geral da ONU tornou-se
o palco mais simbólico do nosso tempo. Não era apenas mais uma sessão anual:
era a encenação viva de uma clivagem civilizatória. De um lado, Lula ergueu sua
voz em defesa da razão pública, da paz duradoura e da justiça universal; de
outro, Donald Trump desferiu ataques contra a própria instituição que simboliza
a esperança de cooperação entre as nações. A distância entre os dois não era
meramente retórica, mas ontológica: enquanto Lula se apresentava como
continuador de um projeto iluminista de emancipação, Trump surgia como profeta
do obscurantismo tardio, cultivando o medo, a xenofobia e a ruptura.
A cena
revelou-se pedagógica: em um único espaço, dois projetos de mundo se
confrontaram sem máscaras. A ONU, concebida como baliza do pós-guerra, estava
em julgamento. Lula buscou revitalizá-la como instrumento de uma
multipolaridade justa, fundada em direitos, ciência e solidariedade. Trump, ao
contrário, transformou o púlpito em barricada do ressentimento, atacando
migrantes, negando a crise climática, ridicularizando instituições e ameaçando
países. Era como se a própria modernidade política estivesse em disputa: entre
o legado iluminista e a regressão fascista, entre a promessa de governança
global e a tentação da barbárie.
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O resgate iluminista de Lula
No
coração do discurso de Lula emergiu um gesto raríssimo no tempo presente: a
tentativa de resgatar os valores iluministas em meio a um cenário global
marcado pela erosão do direito e pelo triunfo da força. Mas não se tratava de
um iluminismo abstrato ou retórico, e sim de um iluminismo encarnado na
materialidade da vida — o direito de comer, estudar, trabalhar e viver sem
medo. Ao lembrar que o Brasil voltara a sair do Mapa da Fome, Lula não ofereceu
apenas um dado estatístico: apresentou uma prova histórica de que a democracia
substantiva é inseparável da justiça social.
Esse
movimento reposiciona o Brasil como arquiteto de uma nova ordem possível. Ao
propor a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, já com mais de cem países,
Lula mostrou que não basta denunciar o caos: é preciso construir alternativas
concretas. Ele não se limitou ao ritual diplomático, mas expôs uma visão
estratégica de mundo em que o combate à desigualdade não é caridade, mas
fundamento da paz. Essa é a pedagogia iluminista em sua forma mais radical: a
política não pode ser apenas gestão do presente, mas criação de futuro.
Ao
falar de multilateralismo e da necessidade de reforma da ONU, Lula foi além do
apelo genérico. Conectou sua própria trajetória — a do operário que enfrentou
ditaduras e sobreviveu às tentativas de destruição política — à necessidade de
coalizões globais mais democráticas. É nesse ponto que o seu soft power alcança
densidade histórica: não se trata de carisma pessoal, mas da capacidade de
articular blocos diversos (BRICS, G20, União Africana, CELAC, ASEAN) em torno
de uma visão comum. Esse é o verdadeiro resgate iluminista: a universalidade
não como abstração eurocêntrica, mas como projeto encarnado na experiência
concreta dos povos do Sul Global.
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Trump e o fascismo tardio
Se Lula
apareceu na tribuna como herdeiro do iluminismo, Trump encarnou a face mais
degradada do fascismo tardio. Seu discurso foi um desfile de ressentimento,
mentiras e ameaças — não contra inimigos imaginários apenas, mas contra a
própria arquitetura civilizatória erguida após a Segunda Guerra Mundial. Ao
atacar a ONU e acusá-la de “financiar invasões” migratórias, Trump não apenas
deslegitima a instituição: ele a transforma em inimiga, deslocando o centro de
gravidade do debate mundial para a lógica do medo e da perseguição.
Esse
não é o fascismo clássico dos anos 1930, com seus símbolos militares e rituais
massivos; é o fascismo da era da guerra híbrida, adaptado à lógica algorítmica
e midiática do século XXI. Trump não governa pelo convencimento, mas pela
corrosão da confiança — tudo é dúvida, conspiração, ameaça. Quando nega a crise
climática e chama as políticas ambientais de “fraude”, ele não se opõe apenas à
ciência: aposta na desinformação como método, no negacionismo como arma. Quando
ridiculariza aliados e despreza migrantes, cultiva o ódio como cimento
político.
O que
emerge é um projeto de regressão histórica: um mundo de fronteiras muradas, de
guerras tarifárias, de xenofobia erigida como política de Estado. A lógica é a
do bode expiatório permanente — sempre haverá um culpado a ser sacrificado para
manter a chama do ressentimento acesa. É isso que faz de Trump não apenas um
personagem caricato, mas uma ameaça estrutural: ele representa a normalização
da violência, a banalização da mentira e a desintegração da governança global.
Se Lula fala de futuro, Trump só oferece ruína.
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Governança global em disputa
Na
tribuna da ONU, a disputa não foi apenas entre duas personalidades, mas entre
dois projetos de governança mundial. Lula apresentou uma visão em que o
multilateralismo é condição de sobrevivência: reforma do Conselho de Segurança,
criação de um conselho climático com autoridade real, fortalecimento do G20, do
BRICS, da União Africana e da CELAC como polos ativos da multipolaridade. Seu
discurso devolveu à ONU a função original de ser árbitro da paz e promotora de
justiça global. Foi um chamado à cooperação, mas também uma advertência: sem
instituições fortes e representativas, o sistema internacional desliza para a
lei do mais forte.
Trump,
ao contrário, utilizou o púlpito para fragilizar a legitimidade da ONU,
transformando a instituição em alvo de escárnio. Ao ameaçar países que não se
alinham à sua visão unilateral, operou como sabotador da governança global.
Esse gesto não é um erro retórico, mas estratégia: corroer as regras para
consolidar o domínio pela força econômica e militar. É a negação prática do
multilateralismo e a tentativa de substituir a política internacional pela
chantagem.
O
contraste é estrutural: Lula aposta em uma multipolaridade cooperativa, capaz
de articular Estados, blocos regionais e sociedades civis em torno de agendas
comuns — da fome à regulação digital. Trump reforça o hegemonismo punitivo, no
qual sanções, tarifas e ameaças substituem o direito e a diplomacia. Aqui se
desenha a clivagem decisiva do século XXI: ou o mundo avança para uma
governança plural, com legitimidade compartilhada, ou se rende à lógica
predatória de uma potência que não aceita dividir poder.
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Palestina, Gaza e a morte do iluminismo
Em
Gaza, a modernidade perdeu o espelho. Quando Lula nomeia o que ali se vive —
genocídio — ele não faz um gesto meramente retórico; convoca a gramática do
Direito Internacional Humanitário e expõe o colapso de um princípio
civilizatório elementar: nenhuma razão de Estado legitima a punição coletiva.
Ao reconhecer os atentados do Hamas como indefensáveis e, ao mesmo tempo,
apontar a desproporção e a ilegalidade do massacre, Lula recoloca a política no
único terreno onde ela pode se sustentar sem trair a humanidade: o da proteção
dos inocentes, do primado da lei e do horizonte de dois Estados. Trata-se de
uma posição rara, porque não cede à chantagem moral do maniqueísmo que exige
escolher entre o terrorismo e o extermínio — recusa ambos.
A
palavra “genocídio” devolve gravidade a um mundo que se habituou à eufemização.
Ela racha a armadura do cinismo que naturaliza a fome como arma de guerra, os
deslocamentos forçados como rotina e a destruição de hospitais e escolas como
“efeitos colaterais”. Ao denunciar o veto que impede a vontade majoritária da
humanidade de se traduzir em resolução, Lula ilumina o mecanismo do descrédito:
quando poucos podem bloquear a lei, o direito é degradado a ornamento. A ONU,
construída para impedir barbaridades, vê-se sequestrada por quem a utiliza para
justificá-las — e é exatamente aí que o discurso de Lula exige uma reforma que
não é protocolo, é sobrevivência da ideia mesma de civilização.
Trump,
por sua vez, tenta dissolver a tragédia na retórica do castigo sem fim: afirmar
que reconhecer a Palestina “recompensa o Hamas” equivale a interditar a única
via de futuro para um povo inteiro, punindo crianças e mulheres por um crime
que não cometeram. É a lógica do bode expiatório aplicada a uma nação:
transformar a vítima histórica em ameaça perpétua, para perpetuar a exceção. O
fascismo tardio precisa desse expediente; sem um inimigo absoluto, sua política
de medo se desfaz. Ao opor-se à solução de dois Estados e a qualquer limite
jurídico para o uso da força, Trump cava a vala onde o iluminismo é sepultado —
a negação do universal.
Ao
insistir que o Estado palestino é condição de existência e não prêmio, Lula
restabelece uma obviedade que o tempo tentou apagar: a paz não é dádiva do
vencedor, é arquitetura de reconhecimento mútuo. Quando aponta a cumplicidade
dos que têm poder para deter o massacre e não o fazem, ele convoca
responsabilidade — não só de governos, mas de sociedades que se dizem
democráticas. É aqui que o discurso se torna farol: reabre a via do direito num
deserto de exceções, reafirma que o universal não é uma herança europeia, mas
um projeto humano radical, hoje sustentado sobretudo pelo Sul Global. Se há um
lugar onde o iluminismo ainda respira, é na coragem de dizer que nenhuma
segurança se constrói sobre escombros de crianças. Queremos um século XXI
civilizado? Então que se restitua à Palestina o direito de existir — e ao
mundo, o direito de não se acostumar ao horror.
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Clima e a economia moral da transição
Se a
tragédia palestina expôs o colapso da promessa iluminista, foi no campo
climático que Lula reposicionou o horizonte da humanidade. Ao proclamar que a
COP30, em Belém, será “a COP da verdade”, o presidente brasileiro não apelou à
retórica vazia: traduziu a urgência científica em imperativo político. Em um
mundo que registrou 2024 como o ano mais quente da história, a omissão não é
mais erro, mas cumplicidade criminosa. Lula lembrou que os países do Norte
desfrutam de padrões de vida erguidos sobre dois séculos de emissões, enquanto
o Sul enfrenta, simultaneamente, pobreza estrutural e colapso ambiental. A
justiça climática, portanto, não é caridade, mas reparação histórica.
Nesse
ponto, a fala ganha densidade estratégica. Ao propor um conselho climático
dentro da ONU com poder real de monitorar compromissos, Lula desloca a questão
do clima do domínio das conferências intermitentes para o coração da governança
global. A mensagem é clara: não basta prometer metas — é preciso
institucionalizar enforcement multilateral. É a tentativa de
refundar o regime climático em bases de responsabilidade compartilhada, mas
diferenciada, ancorando a solidariedade ecológica como pilar da ordem internacional.
Trump,
em contrapartida, chamou as políticas ambientais de fraude, ridicularizou a
ciência e reafirmou sua aposta na expansão predatória. Ao negar a crise, ele
não apenas sabota compromissos globais: reitera a lógica extrativista que
transforma a Terra em recurso a ser esgotado. O contraste é brutal: enquanto
Lula fala em “economia moral da transição”, vinculando minerais críticos a
novos pactos de soberania e dignidade, Trump reforça a necropolítica do lucro
imediato. No campo climático, a disputa é literal entre vida e morte.
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Soberania informacional e guerra híbrida
Poucos
líderes têm compreendido com tanta clareza que a democracia do século XXI será
decidida no terreno da informação. Lula fez da regulação das plataformas
digitais e da inteligência artificial um eixo central de sua fala, vinculando
soberania política à soberania informacional. Ao promulgar a lei de proteção de
crianças no ambiente digital e propor datacenters sustentáveis
no Brasil, sinalizou que o Estado não pode ser refém de conglomerados privados
que colonizam mentes e exploram dados como novo minério. Para Lula, regular não
é censurar: é garantir que os crimes e abusos já reconhecidos no mundo físico
sejam punidos também no mundo virtual.
Essa
formulação é sofisticada porque rompe a dicotomia que domina o debate global —
liberdade versus controle. O que Lula propõe é deslocar o foco: não se trata de
regular a palavra, mas de regular os sistemas que transformam ódio, misoginia e
desinformação em mercadoria. Ao defender governança multilateral da IA em linha
com o Pacto Digital Global, ele inscreve o Brasil na vanguarda de um debate que
toca a própria essência da democracia contemporânea: a luta contra a captura
algorítmica da subjetividade.
Trump,
por sua vez, recorreu a truques e metáforas cínicas — zombou da ONU, atacou a
imprensa, ridicularizou adversários. Seu discurso não apresentou uma política
digital estruturada; foi espetáculo de ressentimento e desinformação. Mas é
justamente aí que se revela a diferença: enquanto Lula busca construir um
arcabouço jurídico e institucional que proteja a sociedade da guerra híbrida
total, Trump opera como agente dessa guerra, amplificando paranoia,
conspiracionismo e violência simbólica. O contraste não poderia ser mais claro:
soberania informacional como política de Estado ou desinformação como método de
governo.
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O MHD e a análise dialética do momento
Ler os
discursos de Lula e Trump apenas como opostos morais é insuficiente. Pelo farol
do materialismo histórico-dialético, trata-se de uma síntese provisória das
forças em choque no sistema-mundo. Lula representa a emergência de uma
contra-hegemonia global, articulada pelo Sul e pelas lutas sociais que nele se
enraízam. Trump, ao contrário, encarna a decadência de uma hegemonia
imperialista incapaz de se renovar sem recorrer à violência, ao lawfare e
à guerra híbrida. A ONU torna-se, assim, mais que um palco: é o campo de
batalha onde se manifesta a crise da ordem internacional construída em 1945.
A
contradição central revelada está entre a universalidade como horizonte
emancipador — fome erradicada, clima regulado, soberania informacional como
direito — e a particularidade reacionária, que tenta impor a lei do mais forte,
o veto como privilégio e a desigualdade como destino. No discurso de Lula, a
universalidade é reapropriada pelos povos historicamente submetidos: o
iluminismo descolonizado, reencarnado no Sul Global. No discurso de Trump, o
universal é negado para reafirmar a exceção: a guerra infinita, a fronteira
armada, o medo como método.
O MHD
nos obriga a enxergar que não estamos diante apenas de estilos discursivos
diferentes, mas de projetos históricos antagônicos. De um lado, o movimento da
história que aponta para um multilateralismo efetivo, para a democratização do
sistema internacional e para a construção de novas formas de soberania. De
outro, o esforço de manter privilégios coloniais sob novas roupagens — sanções,
tarifas, algoritmos e fobias culturais. A luta de classes, hoje, atravessa
fronteiras e se manifesta no choque entre um projeto civilizatório inclusivo e
a regressão fascista global.
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Conclusão: Lula como antagonista global do fascismo
O
encontro entre Lula e Trump na tribuna da ONU cristalizou a luta de classes em
escala planetária. De um lado, o presidente brasileiro resgatou os princípios
universais que nasceram com o iluminismo, mas os reinventou em chave
descolonizada: democracia substantiva, soberania informacional, justiça
climática, direito internacional como limite ao poder. Do outro, Trump ofereceu
a caricatura grotesca de um fascismo tardio, sustentado em medo, xenofobia,
negacionismo e chantagem. O contraste foi tão radical que deixou de ser disputa
de narrativas para se tornar disputa de destinos.
Lula
emergiu como antagonista global do fascismo. Não apenas por sua biografia ou
por seu carisma, mas porque seu discurso encarnou o projeto histórico do Sul
Global de inscrever-se no centro da governança mundial. O Brasil, ao falar pela
boca de seu presidente, assumiu a condição de ponte entre blocos e de voz que
denuncia os crimes do presente sem se resignar à impotência. Trump, ao
contrário, reduziu os Estados Unidos a bunker isolado, incapaz de propor futuro
que não seja a repetição da violência.
O mundo
está diante de uma encruzilhada: ou avança para um multilateralismo que dê
substância à multipolaridade, ou afunda no abismo da regressão fascista. O
discurso de Lula não foi apenas diplomacia: foi a exposição de um projeto
civilizatório. Ao apontar o dedo contra o genocídio em Gaza, contra a farsa
climática e contra a corrosão da democracia pelas plataformas digitais, ele
reabriu a via da esperança. Se a história ainda guarda espaço para o universal,
foi porque, em Nova Iorque, um líder global teve coragem de resgatá-lo do
túmulo.
Fonte: Reynaldo
José Aragon Gonçalves, para Brasil 247

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