Chineses
tentam construir alternativa à geopolítica internacional enquanto Trump
privatiza o Estado americano
As
disputas econômicas entre os dois gigantes mundiais, China e Estados
Unidos,
sugerem que transformações estão em curso nos dois países. A situação, segundo
o economista Luiz Gonzaga
Belluzzo,
pode ser resumida em dois movimentos. De um lado, Xi Jinping tenta
“construir outro ambiente para a geopolítica internacional”, apostando em um
“multilateralismo como uma forma de expansão da economia chinesa na
direção de outros países, respeitando a soberania”. De outro lado, Trump “está
privatizando o Estado americano” enquanto busca recuperar a hegemonia perdida
e reindustrializar a sua nação. O país, afirma Belluzzo, caminha
para o “ápice de uma economia capitalista de mercado, que consiste em entregar
totalmente ao setor privado as decisões políticas”. Esses processos indicam que
está em curso um “movimento de transformação das relações
geoeconômicas de afastamento do dólar”, diz o economista ao Instituto
Humanitas Unisinos – IHU na entrevista a seguir, concedida por WhatsApp. O
recente encontro entre Xi Jinping, Putin,
Kim Jong-un e Narendra
Modi na Organização para a
Cooperação de Xangai e,
posteriormente, na Praça da Paz Celestial, em Pequim, é um sinal de
que “está acontecendo um processo de substituição do dólar por outro sistema
monetário”, sublinha.
<><>
Confira a entrevista.
·
Qual o significado simbólico dos encontros entre Xi Jinping, Putin,
Kim Jong-un e Modi na semana passada? Trump acusou eles de conspirarem
contra os Estados Unidos e disse que “perdeu a Índia e a Rússia para a
‘sombria’ China”. A presença de Putin, Kim Jong-un e Modi na China sugere uma
aliança entre os países e uma nova reorganização geopolítica?
Luiz
Gonzaga Belluzzo – Essa é uma questão estrutural. O que está acontecendo é
um processo, que vai levar algum tempo, de substituição do
dólar por
outro sistema monetário. Eu diria que assim como depois da Primeira Guerra
Mundial, devido à fragilidade da Inglaterra e à dívida com
os Estados Unidos, o dólar passou a ser a moeda reserva junto com a libra,
hoje assistimos a uma situação semelhante, porque possibilidade de substituição
da moeda corrente está ligada à estrutura do comércio exterior e das relações
financeiras. O que Trump está fazendo é colocar o dólar em risco.
Aliás, é visível que ele está empurrando todos os países para se juntarem ao Brics. A reunião mais
importante foi a de Xangai [abertura da cúpula da Organização para Cooperação de Xangai], onde
estiveram Modi, Putin e todos os chefes de Estado que se
alinharam e estão se alinhando à China. A China age de uma maneira muito
prudente e inteligente; ela não entra em confronto aberto com Trump, mas,
ao mesmo tempo, vai se afastando dos Estados Unidos. É preciso ler Confúcio para entender
como é a cultura chinesa. Esta é a questão central: estamos observando um
movimento de transformação das relações geoeconômicas que definem um processo
muito claro de afastamento do dólar, inclusive por conta da tentativa americana
de recuperar a hegemonia perdida. São circunstâncias e processos que precisamos
fazer um esforço para entender. Faço aqui uma digressão histórica para
entendermos como a China surgiu. Ela se separou da União Soviética e
foi acolhida por Nixon e Kissinger. Aí começaram as reformas
chinesas, as quais tentaram se desvencilhar da forma anterior de tratamento da
economia. A China passou a integrar os mercados no seu projeto socialista –
hoje, o maior índice de empreendedorismo no mundo é chinês por causa da conexão
entre China e outros países. Nos anos 1980, o gigante asiático começa sua
caminhada e passa a receber capital estrangeiro e a incorporá-lo. Basta ver
quantas empresas americanas estão lá. Isso surge porque, numa tentativa
semelhante à de Trump, Paul Volcker, do Fed, por conta do
declínio do dólar ao longo dos anos 1970, depois do choque do petróleo,
disse que ninguém contestaria a supremacia do dólar e, portanto, diante da
valorização da moeda americana, as empresas começaram a se mover para a China,
onde as relações câmbio/salário eram muito mais favoráveis. Naquele contexto
houve um movimento de migração de empresas para a China e os chineses foram se
apropriando das tecnologias porque todas as empresas entravam lá sob a condição
de joint ventures com as empresas chinesas. Esse é o pontapé
inicial da expansão da China e sua transformação. O pessoal diz que
a China é a segunda potência mundial. Eu tenho dúvidas porque,
pela paridade do poder de compra, ela já é maior. Isso tudo afetou
os Estados Unidos porque são decisões históricas que se tomam em
determinado momento histórico, mas que se voltam contra o país posteriormente.
Esse é um exemplo da decisão do Volcker, mas agora vemos um exemplo mais
agravado no caso de Trump. Ele está empurrando todos os outros países que
hostilizou com tarifas para o âmbito
chinês.
·
Depois do desfile chinês, Trump disse que Xi Jinping
deveria agradecer aos Estados Unidos porque, se a China é o que é hoje, ela é
graças aos americanos.
Luiz
Gonzaga Belluzzo – Ele tem uma maneira peculiar para explicar esse
processo que narrei. Ele é muito tosco e afirma isso sem ter noção do que
aconteceu. Por isso diz que a China deve agradecer aos Estados
Unidos. Mas é verdade. Em boa medida isso é fruto da migração das empresas
americanas para a China. A Tesla e a Volkswagen estão
lá, inclusive as empresas europeias.
·
Que mensagem o presidente Xi
Jinping transmitiu ao mundo com o desfile militar chinês em memória ao 80°
aniversário da rendição do Japão e o fim da Segunda Guerra Mundial? O que a
exibição do armamento chinês sugere: poder e influência chineses, poderio
bélico e tecnológico, manifestação de força, um contraponto ao Ocidente, ou
“desenvolvimento pacífico”, como disse Xi Jinping?
Luiz
Gonzaga Belluzzo – É pacífico realmente, e a sustentação desse pacifismo
está no poderio militar chinês. Os chineses anunciaram mísseis que não podem
ser detectados e atacados por defesas aéreas. É muito clara a relação entre a
exibição de força que a China tem, a partir de um aparato militar
impressionante, e o discurso de Xi Jinping, acentuando pontos como o
multilateralismo, o respeito à soberania, entre outros. Precisamos entender
isso nos seus movimentos contraditórios porque, ao mesmo tempo que Xi
Jinping fala isso, ele desenvolve um poder militar chinês agudo. Eu não
diria que ele não tem razão por que o desempenho americano depois da doutrina Monroe, e mais agudamente
no século XX – basta lembrar da Operação Condor, que promoveu
as ditaduras no Brasil e no Chile –, demonstra que os Estados
Unidos nunca abandonaram o propósito de dominação. Isso está no DNA deles.
Não é uma questão de bondade ou maldade; é um problema sistêmico. Eles acabaram
se transformando na maior economia do mundo e ultrapassaram
a Inglaterra no século XIX e a Alemanha e foi feita toda a
caminhada para a Primeira Guerra, que foi provocada pela inconformidade
inglesa com o surgimento dessas duas economias [Estados Unidos e Alemanha]. Se
formos olhar o movimento em direção à Primeira Guerra, veremos que
a Inglaterra está presente em todos os momentos de atração para si
mesma da solidariedade de outros países. Não podemos descartar a possibilidade
de que isso ocorra outra vez.
·
Xi Jinping falou em “unir forças com o resto do mundo
para construir uma comunidade com futuro compartilhado”. A China caminha nessa
direção ou parece dar passos para se consolidar como um novo imperialismo?
Luiz
Gonzaga Belluzzo – Sim, caminha, mas há o risco, sim. Para entender a
cultura chinesa, seria preciso ler os Analectos de Confúcio.
·
Por que em Confúcio encontramos a base para entender a
China e o pensamento chinês? Pode dar alguns exemplos?
Luiz
Gonzaga Belluzzo – Porque é tudo relacionado com as relações humanas e a
necessidade de respeitar o próximo, o outro. Citarei alguns itens. “O mestre
disse: o céu é o autor da virtude que há em mim”. Em seguida, ele diz:
“O
mestre ensina quatro matérias: cultura, conduta moral, fazer o melhor possível
e ser coerente com aquilo que se diz”. Depois: “Não tenho qualquer esperança de
encontrar um sábio; ficaria contente se encontrasse um cavalheiro. O mestre
diz: não tenho qualquer esperança de encontrar um homem bom; ficaria contente
se encontrasse alguém constante. É difícil considerar constante um homem que
diz ter quando lhe falta e diz estar cheio quando está vazio e estar
confortável quando está em circunstâncias difíceis.Existem presumivelmente
homens que inovam sem possuir conhecimento. Mas essa é uma falha que eu não
tenho. Faço amplo uso dos meus ouvidos e sigo o que é bom daquilo que ouvi.
Faço amplo uso dos meus olhos e retenho na minha mente o que vi. Isso constitui
o melhor substituto para o conhecimento inato”. Ou seja, ele está falando do
processo de aprendizado. Isso tudo está ancorado na cultura chinesa,
visivelmente. Nas manifestações bélicas havia uma multidão de jovens assistindo
à cerimônia de celebração da vitória na Segunda Guerra. Eles estavam
ouvindo e repetindo o que Xi Jinping dizia. Então, é preciso entender
que a China – e o próprio Xi Jinping acabou de dizer – é
um socialismo à moda
chinesa.
O que é o socialismo à moda chinesa? É uma coisa que corresponde ao que Hegel e Marx chamavam
de aufhebung, ou seja, superação. Eles entenderam a transformação
da economia chinesa como uma superação daquela forma que eles haviam adotado,
da economia de comando. O Partido Comunista Chinês tem uma estrutura
dentro dele que vem de baixo para cima. Por exemplo, Xi Jinping veio
de baixo e ascendeu. Os chineses realizam congressos anuais em que as
lideranças regionais vão ascendendo a uma posição importante entre as
lideranças. Esse é um exemplo de como eles veem a política. Ou seja, a política
é muito participativa. Para termos uma ideia: quando a China se
afastou dos Estados Unidos, foi promovido um debate enorme sobre como
transformar a economia chinesa. Eles escreveram livros sobre isso, traduzidos
para o inglês. Essa forma de se desvencilhar do bloqueio econômico da economia
de comando, daquela ineficiência, foi caminhando no sentido de fazer as
reformas econômicas que culminaram com Deng Xiaoping, o grande patrono da
transformação chinesa.
·
Nessa proposta de “futuro compartilhado” e no processo de
substituição do dólar, como a Europa se situa em relação à China?
Luiz
Gonzaga Belluzzo – As relações da China com
a Europa são um tanto complicadas porque Ursula von der Leyen,
presidente do Parlamento Europeu, foi aos Estados
Unidos e negociou uma coisa submissa aos americanos, uma coisa que
revela a fragilidade da Europa. Mas, ao mesmo tempo, anteriormente ela deu
uma declaração dizendo que não admitiria mais o avanço das exportações chinesas
de automóveis mais baratos porque isso prejudicava a economia europeia, sobretudo
as empresas automobilísticas. Ela disse que havia muitos subsídios para os
chineses, mas a questão mais importante a se registrar é que as fábricas
chinesas são imensas, escuras, com uma multidão de trabalhadores porque isso
promove ganhos de escala. Todos os economistas ocidentais falam disso, mas essa
questão não se realiza. Quer dizer, a China produz muito para poder
ter um preço acessível.
·
Há aí um risco de dependência dos produtos chineses? No
caso do Brasil, quais os efeitos do
investimento chinês em montadoras, plataformas de delivery, HUB de energia
renovável, parques industriais de ecossistema verde?
Luiz
Gonzaga Belluzzo – A meu ver, Xi Jinping entende
o multilateralismo como uma forma de expansão da economia chinesa na
direção de outros países, respeitando a soberania. A China, desde
o Império do Meio, nunca teve uma ação extraterritorial. Os chineses estão
tentando construir outro ambiente para a geopolítica internacional. É uma
caminhada. Vamos observar porque no mundo dos homens sempre tem que se
desconfiar dos propósitos, que podem se transformar em malefícios. Mas, no caso
da China, acho que essa chance é um tanto quanto remota.
·
O Brasil tem que
seguir nesse caminho de aproximação com a China?
Luiz
Gonzaga Belluzzo – Sim. Não tem jeito. O que mostra a operação
Xangai é que os países estão se alinhando em torno da China,
sobretudo na Eurásia. A Índia mantinha uma posição hostil em
relação à China, mas Modi foi à reunião. Isso é provocado pelo
desespero americano de recuperar a sua hegemonia, com o “América grande
outra vez”. Eu, certamente, não vou assistir a esse desfecho porque ele
será muito longo, mas diria que os Estados Unidos estão numa posição
difícil. De maneira geral, Trump lançou tarifas sobre todo
mundo. Ele acha que essa é uma forma de promover a reindustrialização
americana. Nos anos 1980 e 1990, as empresas americanas foram produzir
na China, que era mais barato, para exportar aos Estados
Unidos. O que precisamos considerar é o fato de que o Brasil não
tem muita alternativa. Ele tem que buscar relações como está ocorrendo agora,
ou seja, redefinir suas relações comerciais de modo a se afastar um pouco da
dependência das exportações dos Estados Unidos. Aliás, o nosso grande cliente
comercial é a China, por causa das commodities. O Brasil tem essa
vantagem territorial e climática que favorece a agricultura. O avanço e a
automação na agricultura é muito importante e dá competitividade para os
produtos brasileiros, vis-à-vis, por exemplo, os Estados Unidos. Os chineses já
estão encrencando com as exportações de soja americanas e estão propondo que
sejam substituídas pelas exportações brasileiras.
·
O senhor menciona a tentativa dos Estados Unidos de se
reindustrializar. De outro lado, que está sendo gestado no país com o governo
Trump e os CEOs das big techs? As análises que apontam para o slogan “Menos
Estado, mais Big Tech” e a formação de um tecnofeudalismo dão conta de compreender o que se passa
no interior dos EUA e as transformações em curso?
Luiz
Gonzaga Belluzzo – Na semana passada, Trump ofereceu um jantar
para todos os figurões das big techs. Vou fazer uma conjectura um tanto
quanto estranha: ele está privatizando o Estado americano. Está entregando a
essas empresas o poder de definir as políticas. Aliás, ele vem fazendo isso
sistematicamente. Chegará ao ápice de uma economia capitalista de mercado, que
consiste em entregar totalmente ao setor privado as decisões políticas. As
decisões não deixam de ser políticas, mas são privadas. É isso que está em
curso.
¨
Trabalhadores ‘presos no emprego’ ameaçam a economia
americana
Uma
mudança silenciosa, mas significativa, está ocorrendo no mercado de trabalho
dos Estados Unidos: cada vez menos americanos estão trocando de emprego,
enquanto as contratações diminuem, criando um cenário de mobilidade limitada e
estagnação. O fenômeno, descrito por especialistas como o “abraço ao
emprego”, reflete o medo do desconhecido e tem implicações profundas para
trabalhadores, empresas e a economia como um todo.
Desde
abril de 2024, a economia norte-americana perdeu cerca de 1,2 milhão de
empregos, enquanto o ritmo de novas contratações caiu para seu nível mais baixo
em uma década — excluindo a retração provocada pela pandemia. A taxa de
demissões, tradicionalmente um termômetro da confiança dos trabalhadores,
encontra-se em aproximadamente 2%, um índice raramente visto desde 2016.
“Tem
havido muita ansiedade quanto à direção da economia e do mercado de trabalho”,
afirmou James Atkinson, vice-presidente de liderança inovadora da SHRM,
grupo profissional voltado à gestão de recursos humanos. “Acredito que isso
seja parte do que mantém as pessoas empregadas.”
<><>
O “abraço ao emprego”
A
consultoria Korn Ferry cunhou o termo “abraço ao trabalho” para
descrever a situação. Em essência, os trabalhadores estão priorizando a
segurança em vez de arriscar uma mudança, mesmo quando estão insatisfeitos ou
poderiam ganhar mais em outra posição.
“Durante
a grande onda de demissões de anos atrás, muitas pessoas deixaram seus empregos
em busca de aumentos salariais maiores”, disse Matt Bohn, sócio sênior da
Korn Ferry. “Hoje, o crescimento salarial esfriou, os prêmios por mudança de
emprego diminuíram e muitos trabalhadores temem que seus salários não
acompanhem o aumento do custo de vida. Então, estão se agarrando à estabilidade
em um momento de incerteza.”
O
fenômeno não afeta apenas os funcionários. Para as empresas, manter
trabalhadores desmotivados ou presos em funções pelas quais não têm entusiasmo
custa bilhões de dólares em produtividade perdida, além de prejudicar a
inovação e o desenvolvimento futuro da força de trabalho. A falta de mobilidade
laboral também limita a circulação de talentos, reduzindo oportunidades para
empresas que buscam se renovar e crescer.
<><>
Medo versus oportunidade
O
“abraço ao emprego” revela uma tensão central: trabalhadores querem
estabilidade financeira e segurança, mas muitas vezes isso vem à custa do
crescimento pessoal e profissional. A incerteza econômica — alimentada por
preocupações com inflação, política monetária e um cenário global instável —
faz com que funcionários permaneçam em funções que já não os satisfazem.
Especialistas
alertam que essa postura pode mascarar um desinteresse generalizado, com
consequências duradouras. A estagnação de talentos enfraquece a competitividade
das empresas e limita a capacidade do mercado de trabalho de se adaptar a novas
demandas e tecnologias.
“O
custo para a economia vai além dos salários”, afirma Atkinson. “Quando
profissionais ficam em empregos apenas por segurança, há um impacto direto na
produtividade, na inovação e no desenvolvimento de futuras lideranças.”
<><>
Reflexo de um novo mercado de trabalho
O
panorama atual contrasta fortemente com anos recentes, quando a alta
rotatividade e os aumentos salariais eram sinais de um mercado aquecido. Hoje,
a combinação de medo do desemprego, crescimento salarial moderado e
aumento do custo de vida faz com que o apego à estabilidade seja mais
forte do que nunca.
A
mensagem para empresas e líderes de RH é clara: compreender esse comportamento
é essencial para engajar e motivar equipes, repensar estratégias de retenção e
criar ambientes que estimulem o desenvolvimento, mesmo em tempos de incerteza
econômica.
Enquanto
isso, os trabalhadores continuam “abraçados” a seus empregos, equilibrando
segurança e insatisfação — um fenômeno silencioso, mas que pode moldar o futuro
do mercado de trabalho americano por anos.
<><>
O “abraço ao emprego” pode esconder desinteresse
Embora
a baixa rotatividade seja frequentemente celebrada pelos empregadores,
especialistas alertam que ela pode mascarar um problema silencioso:
o desengajamento crescente entre os trabalhadores.
Um
estudo publicado em fevereiro no American Journal of Preventive
Medicine estimou que o desinteresse dos funcionários custa a uma
empresa média de 1.000 pessoas cerca de US$ 5 milhões por ano em perda de
produtividade. Na prática, um trabalhador desengajado pode gerar um prejuízo
anual médio de US$ 4.000, enquanto um executivo desmotivado pode custar
até US$ 20.000.
Além
disso, uma pesquisa do LinkedIn realizada no início deste ano mostrou
que 58% dos profissionais americanos sentem que suas habilidades são
subutilizadas nos cargos que ocupam atualmente.
O
problema vai além do indivíduo. Funcionários desinteressados, mesmo cumprindo
suas tarefas, acabam transferindo parte da carga de trabalho para colegas,
aumentando o estresse e diminuindo a produtividade geral. “Mesmo que as pessoas
estejam engajadas e se esforçando mais, talvez precisem ir além para compensar
o desinteresse de alguns colegas de equipe”, explicou James Atkinson, da
SHRM. “Então, é um problema individual do funcionário, mas também há um efeito
cascata em toda a organização.”
<><>
Impactos para a economia e para o crescimento
A
tendência de permanecer no emprego também representa riscos para o cenário
econômico mais amplo. A mobilidade reduzida pode frear o crescimento
salarial e levar empresas a adotarem estratégias mais cautelosas. Em
alguns setores, o congelamento de contratações substituiu a rotatividade
natural, criando um mercado de trabalho que parece estável à primeira vista,
mas que carece de dinamismo e inovação.
No
entanto, nem todos os trabalhadores são prejudicados. A Geração Z, por
exemplo, é adaptável e familiarizada com tecnologias digitais, o que pode
colocá-la em vantagem caso as empresas invistam em programas de qualificação e
estratégias inteligentes de gestão da força de trabalho, segundo Matt
Bohn, da Korn Ferry.
Perspectivas
futuras
Especialistas
alertam que, a curto prazo, a economia americana pode enfrentar um período
prolongado de estagnação se a confiança dos trabalhadores não se recuperar e a
mobilidade laboral não retornar. O “abraço ao emprego”, embora ofereça
estabilidade, pode estar criando uma força de trabalho menos motivada,
menos inovadora e menos produtiva, com impactos que vão além das empresas
individuais e atingem toda a economia.
A
situação levanta questões sobre como equilibrar segurança e engajamento no
trabalho — e sobre como as organizações podem reverter essa tendência antes que
o desinteresse se transforme em um problema estrutural.
Fonte:
Entrevista especial com Luiz Gonzaga Belluzzo, para IHU/CNBC

Nenhum comentário:
Postar um comentário