quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Chineses tentam construir alternativa à geopolítica internacional enquanto Trump privatiza o Estado americano

As disputas econômicas entre os dois gigantes mundiais, China e Estados Unidos, sugerem que transformações estão em curso nos dois países. A situação, segundo o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, pode ser resumida em dois movimentos. De um lado, Xi Jinping tenta “construir outro ambiente para a geopolítica internacional”, apostando em um “multilateralismo como uma forma de expansão da economia chinesa na direção de outros países, respeitando a soberania”. De outro lado, Trump “está privatizando o Estado americano” enquanto busca recuperar a hegemonia perdida e reindustrializar a sua nação. O país, afirma Belluzzo, caminha para o “ápice de uma economia capitalista de mercado, que consiste em entregar totalmente ao setor privado as decisões políticas”. Esses processos indicam que está em curso um “movimento de transformação das relações geoeconômicas de afastamento do dólar”, diz o economista ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU na entrevista a seguir, concedida por WhatsApp. O recente encontro entre Xi Jinping, Putin, Kim Jong-un e Narendra Modi na Organização para a Cooperação de Xangai e, posteriormente, na Praça da Paz Celestial, em Pequim, é um sinal de que “está acontecendo um processo de substituição do dólar por outro sistema monetário”, sublinha.

<><> Confira a entrevista.

·        Qual o significado simbólico dos encontros entre Xi Jinping, Putin, Kim Jong-un e Modi na semana passada? Trump acusou eles de conspirarem contra os Estados Unidos e disse que “perdeu a Índia e a Rússia para a ‘sombria’ China”. A presença de Putin, Kim Jong-un e Modi na China sugere uma aliança entre os países e uma nova reorganização geopolítica?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Essa é uma questão estrutural. O que está acontecendo é um processo, que vai levar algum tempo, de substituição do dólar por outro sistema monetário. Eu diria que assim como depois da Primeira Guerra Mundial, devido à fragilidade da Inglaterra e à dívida com os Estados Unidos, o dólar passou a ser a moeda reserva junto com a libra, hoje assistimos a uma situação semelhante, porque possibilidade de substituição da moeda corrente está ligada à estrutura do comércio exterior e das relações financeiras. O que Trump está fazendo é colocar o dólar em risco. Aliás, é visível que ele está empurrando todos os países para se juntarem ao Brics. A reunião mais importante foi a de Xangai [abertura da cúpula da Organização para Cooperação de Xangai], onde estiveram Modi, Putin e todos os chefes de Estado que se alinharam e estão se alinhando à China. A China age de uma maneira muito prudente e inteligente; ela não entra em confronto aberto com Trump, mas, ao mesmo tempo, vai se afastando dos Estados Unidos. É preciso ler Confúcio para entender como é a cultura chinesa. Esta é a questão central: estamos observando um movimento de transformação das relações geoeconômicas que definem um processo muito claro de afastamento do dólar, inclusive por conta da tentativa americana de recuperar a hegemonia perdida. São circunstâncias e processos que precisamos fazer um esforço para entender. Faço aqui uma digressão histórica para entendermos como a China surgiu. Ela se separou da União Soviética e foi acolhida por Nixon e Kissinger. Aí começaram as reformas chinesas, as quais tentaram se desvencilhar da forma anterior de tratamento da economia. A China passou a integrar os mercados no seu projeto socialista – hoje, o maior índice de empreendedorismo no mundo é chinês por causa da conexão entre China e outros países. Nos anos 1980, o gigante asiático começa sua caminhada e passa a receber capital estrangeiro e a incorporá-lo. Basta ver quantas empresas americanas estão lá. Isso surge porque, numa tentativa semelhante à de Trump, Paul Volcker, do Fed, por conta do declínio do dólar ao longo dos anos 1970, depois do choque do petróleo, disse que ninguém contestaria a supremacia do dólar e, portanto, diante da valorização da moeda americana, as empresas começaram a se mover para a China, onde as relações câmbio/salário eram muito mais favoráveis. Naquele contexto houve um movimento de migração de empresas para a China e os chineses foram se apropriando das tecnologias porque todas as empresas entravam lá sob a condição de joint ventures com as empresas chinesas. Esse é o pontapé inicial da expansão da China e sua transformação. O pessoal diz que a China é a segunda potência mundial. Eu tenho dúvidas porque, pela paridade do poder de compra, ela já é maior. Isso tudo afetou os Estados Unidos porque são decisões históricas que se tomam em determinado momento histórico, mas que se voltam contra o país posteriormente. Esse é um exemplo da decisão do Volcker, mas agora vemos um exemplo mais agravado no caso de Trump. Ele está empurrando todos os outros países que hostilizou com tarifas para o âmbito chinês.

·        Depois do desfile chinês, Trump disse que Xi Jinping deveria agradecer aos Estados Unidos porque, se a China é o que é hoje, ela é graças aos americanos.

Luiz Gonzaga Belluzzo – Ele tem uma maneira peculiar para explicar esse processo que narrei. Ele é muito tosco e afirma isso sem ter noção do que aconteceu. Por isso diz que a China deve agradecer aos Estados Unidos. Mas é verdade. Em boa medida isso é fruto da migração das empresas americanas para a China. A Tesla e a Volkswagen estão lá, inclusive as empresas europeias.

·        Que mensagem o presidente Xi Jinping transmitiu ao mundo com o desfile militar chinês em memória ao 80° aniversário da rendição do Japão e o fim da Segunda Guerra Mundial? O que a exibição do armamento chinês sugere: poder e influência chineses, poderio bélico e tecnológico, manifestação de força, um contraponto ao Ocidente, ou “desenvolvimento pacífico”, como disse Xi Jinping?

Luiz Gonzaga Belluzzo – É pacífico realmente, e a sustentação desse pacifismo está no poderio militar chinês. Os chineses anunciaram mísseis que não podem ser detectados e atacados por defesas aéreas. É muito clara a relação entre a exibição de força que a China tem, a partir de um aparato militar impressionante, e o discurso de Xi Jinping, acentuando pontos como o multilateralismo, o respeito à soberania, entre outros. Precisamos entender isso nos seus movimentos contraditórios porque, ao mesmo tempo que Xi Jinping fala isso, ele desenvolve um poder militar chinês agudo. Eu não diria que ele não tem razão por que o desempenho americano depois da doutrina Monroe, e mais agudamente no século XX – basta lembrar da Operação Condor, que promoveu as ditaduras no Brasil e no Chile –, demonstra que os Estados Unidos nunca abandonaram o propósito de dominação. Isso está no DNA deles. Não é uma questão de bondade ou maldade; é um problema sistêmico. Eles acabaram se transformando na maior economia do mundo e ultrapassaram a Inglaterra no século XIX e a Alemanha e foi feita toda a caminhada para a Primeira Guerra, que foi provocada pela inconformidade inglesa com o surgimento dessas duas economias [Estados Unidos e Alemanha]. Se formos olhar o movimento em direção à Primeira Guerra, veremos que a Inglaterra está presente em todos os momentos de atração para si mesma da solidariedade de outros países. Não podemos descartar a possibilidade de que isso ocorra outra vez.

·        Xi Jinping falou em “unir forças com o resto do mundo para construir uma comunidade com futuro compartilhado”. A China caminha nessa direção ou parece dar passos para se consolidar como um novo imperialismo?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Sim, caminha, mas há o risco, sim. Para entender a cultura chinesa, seria preciso ler os Analectos de Confúcio.

·        Por que em Confúcio encontramos a base para entender a China e o pensamento chinês? Pode dar alguns exemplos?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Porque é tudo relacionado com as relações humanas e a necessidade de respeitar o próximo, o outro. Citarei alguns itens. “O mestre disse: o céu é o autor da virtude que há em mim”. Em seguida, ele diz:

“O mestre ensina quatro matérias: cultura, conduta moral, fazer o melhor possível e ser coerente com aquilo que se diz”. Depois: “Não tenho qualquer esperança de encontrar um sábio; ficaria contente se encontrasse um cavalheiro. O mestre diz: não tenho qualquer esperança de encontrar um homem bom; ficaria contente se encontrasse alguém constante. É difícil considerar constante um homem que diz ter quando lhe falta e diz estar cheio quando está vazio e estar confortável quando está em circunstâncias difíceis.Existem presumivelmente homens que inovam sem possuir conhecimento. Mas essa é uma falha que eu não tenho. Faço amplo uso dos meus ouvidos e sigo o que é bom daquilo que ouvi. Faço amplo uso dos meus olhos e retenho na minha mente o que vi. Isso constitui o melhor substituto para o conhecimento inato”. Ou seja, ele está falando do processo de aprendizado. Isso tudo está ancorado na cultura chinesa, visivelmente. Nas manifestações bélicas havia uma multidão de jovens assistindo à cerimônia de celebração da vitória na Segunda Guerra. Eles estavam ouvindo e repetindo o que Xi Jinping dizia. Então, é preciso entender que a China – e o próprio Xi Jinping acabou de dizer – é um socialismo à moda chinesa. O que é o socialismo à moda chinesa? É uma coisa que corresponde ao que Hegel e Marx chamavam de aufhebung, ou seja, superação. Eles entenderam a transformação da economia chinesa como uma superação daquela forma que eles haviam adotado, da economia de comando. O Partido Comunista Chinês tem uma estrutura dentro dele que vem de baixo para cima. Por exemplo, Xi Jinping veio de baixo e ascendeu. Os chineses realizam congressos anuais em que as lideranças regionais vão ascendendo a uma posição importante entre as lideranças. Esse é um exemplo de como eles veem a política. Ou seja, a política é muito participativa. Para termos uma ideia: quando a China se afastou dos Estados Unidos, foi promovido um debate enorme sobre como transformar a economia chinesa. Eles escreveram livros sobre isso, traduzidos para o inglês. Essa forma de se desvencilhar do bloqueio econômico da economia de comando, daquela ineficiência, foi caminhando no sentido de fazer as reformas econômicas que culminaram com Deng Xiaoping, o grande patrono da transformação chinesa.

·        Nessa proposta de “futuro compartilhado” e no processo de substituição do dólar, como a Europa se situa em relação à China?

Luiz Gonzaga Belluzzo – As relações da China com a Europa são um tanto complicadas porque Ursula von der Leyen, presidente do Parlamento Europeu, foi aos Estados Unidos e negociou uma coisa submissa aos americanos, uma coisa que revela a fragilidade da Europa. Mas, ao mesmo tempo, anteriormente ela deu uma declaração dizendo que não admitiria mais o avanço das exportações chinesas de automóveis mais baratos porque isso prejudicava a economia europeia, sobretudo as empresas automobilísticas. Ela disse que havia muitos subsídios para os chineses, mas a questão mais importante a se registrar é que as fábricas chinesas são imensas, escuras, com uma multidão de trabalhadores porque isso promove ganhos de escala. Todos os economistas ocidentais falam disso, mas essa questão não se realiza. Quer dizer, a China produz muito para poder ter um preço acessível.

·        Há aí um risco de dependência dos produtos chineses? No caso do Brasil, quais os efeitos do investimento chinês em montadoras, plataformas de delivery, HUB de energia renovável, parques industriais de ecossistema verde?

Luiz Gonzaga Belluzzo – A meu ver, Xi Jinping entende o multilateralismo como uma forma de expansão da economia chinesa na direção de outros países, respeitando a soberania. A China, desde o Império do Meio, nunca teve uma ação extraterritorial. Os chineses estão tentando construir outro ambiente para a geopolítica internacional. É uma caminhada. Vamos observar porque no mundo dos homens sempre tem que se desconfiar dos propósitos, que podem se transformar em malefícios. Mas, no caso da China, acho que essa chance é um tanto quanto remota.

·         O Brasil tem que seguir nesse caminho de aproximação com a China?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Sim. Não tem jeito. O que mostra a operação Xangai é que os países estão se alinhando em torno da China, sobretudo na Eurásia. A Índia mantinha uma posição hostil em relação à China, mas Modi foi à reunião. Isso é provocado pelo desespero americano de recuperar a sua hegemonia, com o “América grande outra vez”. Eu, certamente, não vou assistir a esse desfecho porque ele será muito longo, mas diria que os Estados Unidos estão numa posição difícil. De maneira geral, Trump lançou tarifas sobre todo mundo. Ele acha que essa é uma forma de promover a reindustrialização americana. Nos anos 1980 e 1990, as empresas americanas foram produzir na China, que era mais barato, para exportar aos Estados Unidos. O que precisamos considerar é o fato de que o Brasil não tem muita alternativa. Ele tem que buscar relações como está ocorrendo agora, ou seja, redefinir suas relações comerciais de modo a se afastar um pouco da dependência das exportações dos Estados Unidos. Aliás, o nosso grande cliente comercial é a China, por causa das commodities. O Brasil tem essa vantagem territorial e climática que favorece a agricultura. O avanço e a automação na agricultura é muito importante e dá competitividade para os produtos brasileiros, vis-à-vis, por exemplo, os Estados Unidos. Os chineses já estão encrencando com as exportações de soja americanas e estão propondo que sejam substituídas pelas exportações brasileiras.

·        O senhor menciona a tentativa dos Estados Unidos de se reindustrializar. De outro lado, que está sendo gestado no país com o governo Trump e os CEOs das big techs? As análises que apontam para o slogan “Menos Estado, mais Big Tech” e a formação de um tecnofeudalismo dão conta de compreender o que se passa no interior dos EUA e as transformações em curso?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Na semana passada, Trump ofereceu um jantar para todos os figurões das big techs. Vou fazer uma conjectura um tanto quanto estranha: ele está privatizando o Estado americano. Está entregando a essas empresas o poder de definir as políticas. Aliás, ele vem fazendo isso sistematicamente. Chegará ao ápice de uma economia capitalista de mercado, que consiste em entregar totalmente ao setor privado as decisões políticas. As decisões não deixam de ser políticas, mas são privadas. É isso que está em curso.

¨       Trabalhadores ‘presos no emprego’ ameaçam a economia americana

Uma mudança silenciosa, mas significativa, está ocorrendo no mercado de trabalho dos Estados Unidos: cada vez menos americanos estão trocando de emprego, enquanto as contratações diminuem, criando um cenário de mobilidade limitada e estagnação. O fenômeno, descrito por especialistas como o “abraço ao emprego”, reflete o medo do desconhecido e tem implicações profundas para trabalhadores, empresas e a economia como um todo.

Desde abril de 2024, a economia norte-americana perdeu cerca de 1,2 milhão de empregos, enquanto o ritmo de novas contratações caiu para seu nível mais baixo em uma década — excluindo a retração provocada pela pandemia. A taxa de demissões, tradicionalmente um termômetro da confiança dos trabalhadores, encontra-se em aproximadamente 2%, um índice raramente visto desde 2016.

“Tem havido muita ansiedade quanto à direção da economia e do mercado de trabalho”, afirmou James Atkinson, vice-presidente de liderança inovadora da SHRM, grupo profissional voltado à gestão de recursos humanos. “Acredito que isso seja parte do que mantém as pessoas empregadas.”

<><> O “abraço ao emprego”

A consultoria Korn Ferry cunhou o termo “abraço ao trabalho” para descrever a situação. Em essência, os trabalhadores estão priorizando a segurança em vez de arriscar uma mudança, mesmo quando estão insatisfeitos ou poderiam ganhar mais em outra posição.

“Durante a grande onda de demissões de anos atrás, muitas pessoas deixaram seus empregos em busca de aumentos salariais maiores”, disse Matt Bohn, sócio sênior da Korn Ferry. “Hoje, o crescimento salarial esfriou, os prêmios por mudança de emprego diminuíram e muitos trabalhadores temem que seus salários não acompanhem o aumento do custo de vida. Então, estão se agarrando à estabilidade em um momento de incerteza.”

O fenômeno não afeta apenas os funcionários. Para as empresas, manter trabalhadores desmotivados ou presos em funções pelas quais não têm entusiasmo custa bilhões de dólares em produtividade perdida, além de prejudicar a inovação e o desenvolvimento futuro da força de trabalho. A falta de mobilidade laboral também limita a circulação de talentos, reduzindo oportunidades para empresas que buscam se renovar e crescer.

<><> Medo versus oportunidade

O “abraço ao emprego” revela uma tensão central: trabalhadores querem estabilidade financeira e segurança, mas muitas vezes isso vem à custa do crescimento pessoal e profissional. A incerteza econômica — alimentada por preocupações com inflação, política monetária e um cenário global instável — faz com que funcionários permaneçam em funções que já não os satisfazem.

Especialistas alertam que essa postura pode mascarar um desinteresse generalizado, com consequências duradouras. A estagnação de talentos enfraquece a competitividade das empresas e limita a capacidade do mercado de trabalho de se adaptar a novas demandas e tecnologias.

“O custo para a economia vai além dos salários”, afirma Atkinson. “Quando profissionais ficam em empregos apenas por segurança, há um impacto direto na produtividade, na inovação e no desenvolvimento de futuras lideranças.”

<><> Reflexo de um novo mercado de trabalho

O panorama atual contrasta fortemente com anos recentes, quando a alta rotatividade e os aumentos salariais eram sinais de um mercado aquecido. Hoje, a combinação de medo do desemprego, crescimento salarial moderado e aumento do custo de vida faz com que o apego à estabilidade seja mais forte do que nunca.

A mensagem para empresas e líderes de RH é clara: compreender esse comportamento é essencial para engajar e motivar equipes, repensar estratégias de retenção e criar ambientes que estimulem o desenvolvimento, mesmo em tempos de incerteza econômica.

Enquanto isso, os trabalhadores continuam “abraçados” a seus empregos, equilibrando segurança e insatisfação — um fenômeno silencioso, mas que pode moldar o futuro do mercado de trabalho americano por anos.

<><> O “abraço ao emprego” pode esconder desinteresse

Embora a baixa rotatividade seja frequentemente celebrada pelos empregadores, especialistas alertam que ela pode mascarar um problema silencioso: o desengajamento crescente entre os trabalhadores.

Um estudo publicado em fevereiro no American Journal of Preventive Medicine estimou que o desinteresse dos funcionários custa a uma empresa média de 1.000 pessoas cerca de US$ 5 milhões por ano em perda de produtividade. Na prática, um trabalhador desengajado pode gerar um prejuízo anual médio de US$ 4.000, enquanto um executivo desmotivado pode custar até US$ 20.000.

Além disso, uma pesquisa do LinkedIn realizada no início deste ano mostrou que 58% dos profissionais americanos sentem que suas habilidades são subutilizadas nos cargos que ocupam atualmente.

O problema vai além do indivíduo. Funcionários desinteressados, mesmo cumprindo suas tarefas, acabam transferindo parte da carga de trabalho para colegas, aumentando o estresse e diminuindo a produtividade geral. “Mesmo que as pessoas estejam engajadas e se esforçando mais, talvez precisem ir além para compensar o desinteresse de alguns colegas de equipe”, explicou James Atkinson, da SHRM. “Então, é um problema individual do funcionário, mas também há um efeito cascata em toda a organização.”

<><> Impactos para a economia e para o crescimento

A tendência de permanecer no emprego também representa riscos para o cenário econômico mais amplo. A mobilidade reduzida pode frear o crescimento salarial e levar empresas a adotarem estratégias mais cautelosas. Em alguns setores, o congelamento de contratações substituiu a rotatividade natural, criando um mercado de trabalho que parece estável à primeira vista, mas que carece de dinamismo e inovação.

No entanto, nem todos os trabalhadores são prejudicados. A Geração Z, por exemplo, é adaptável e familiarizada com tecnologias digitais, o que pode colocá-la em vantagem caso as empresas invistam em programas de qualificação e estratégias inteligentes de gestão da força de trabalho, segundo Matt Bohn, da Korn Ferry.

Perspectivas futuras

Especialistas alertam que, a curto prazo, a economia americana pode enfrentar um período prolongado de estagnação se a confiança dos trabalhadores não se recuperar e a mobilidade laboral não retornar. O “abraço ao emprego”, embora ofereça estabilidade, pode estar criando uma força de trabalho menos motivada, menos inovadora e menos produtiva, com impactos que vão além das empresas individuais e atingem toda a economia.

A situação levanta questões sobre como equilibrar segurança e engajamento no trabalho — e sobre como as organizações podem reverter essa tendência antes que o desinteresse se transforme em um problema estrutural.

 

Fonte: Entrevista especial com Luiz Gonzaga Belluzzo, para IHU/CNBC

 

Nenhum comentário: