Dívida,
outra forma de explorar uberizados
A
financeirização da economia, marca do neoliberalismo no século XXI, atualizou
os mecanismos de dominação colonial através das plataformas digitais. A lógica
do capital financeiro, materializada na especulação, dataficação, rentismo e
hiperexploração é o vetor desse processo. Isso passa a redesenhar o mapa global
da exploração com o advento das plataformas digitais, dando ao capitalismo um
novo fôlego até outra crise estrutural. Essas corporações transcendem
fronteiras nacionais e atuam como agentes de um neocolonialismo digital,
extraindo valor e mão de obra excedente de países periféricos de forma
eficiente e desterritorializada.
O
relatório do Fairwork Brasil 2025, evidencia a questão do endividamento dos
trabalhadores de plataformas digitais no Brasil como um problema crescente e
multifacetado. A pesquisa traz uma seção específica sobre o tema intitulado
“Neocolonizadores digitais: plataformas pagam pouco e ainda lucram com
empréstimos aos trabalhadores”, em que a lógica do endividamento é detalhada. A
síntese sobre o endividamento pode ser organizada, basicamente, tendo por base
dois principais pontos: o primeiro compõe as causas que levam ao endividamento
e, o segundo, que coloca as plataformas como agentes financeiros.
No que
diz respeito às causas do endividamento, a combinação de baixos salários com os
altos custos de manutenção dos instrumentos de trabalho (veículo, combustível,
pacotes de dados, etc.) cria um cenário onde os ganhos muitas vezes não cobrem
as despesas. Isso força os trabalhadores a contraírem dívidas para conseguirem
continuar trabalhando. Uma pesquisa citada no relatório aponta que cerca de 92%
dos motoristas de plataformas digitais no Brasil estão endividados1.
A falta
de cobertura em casos de acidentes ou problemas de saúde, que são comuns devido
às jornadas exaustivas, contribui para o acúmulo de dívidas, pois os
trabalhadores ficam impedidos de atuar e gerar renda. Ou seja, a ausência de
proteção social ao trabalhador, embora seja um aspecto que passa na maior parte
das vezes como despercebido, acaba sendo uma armadilha para quem trabalha nas
plataformas. Isso porque elas simplesmente transferem todos os riscos da
atividade para os trabalhadores.
Além
disso, não só para o caso de acidentes, mas também para caso de multas ou
manutenção com o veículo, são fontes de gastos que podem levar os trabalhadores
a acumular dívidas. Há ainda as situações de envolvimento direto com as
empresas, como os casos de cancelamento de pedidos, extravio de produtos (mesmo
por motivos de roubo) ou quando não conseguem localizar o cliente. Nestas
todas, os trabalhadores costumam ser responsabilizados pelos custos do material
que não foi entregue. Um trabalhador da Rappi relatou: “Quando o cliente
cancelar um pedido em sua mão, ele já gera uma dívida para você”. Situações
como esta são recorrentes nos relatos dos trabalhadores, sobretudo dando margem
aos clientes que, porventura, querem agir de má fé, alegando que o produto não
foi recebido, quando na verdade foi, por exemplo.
Outro
aspecto central nas muitas camadas que envolvem a temática do endividamento é o
amplo comércio de aluguel de carros, motos e bicicletas que se cria em torno e
na relação direta com as plataformas. Frequentemente, essas locadoras são
parceiras das plataformas, que autorizam o débito direto na conta do
profissional. Isso faz com que os trabalhadores comecem o dia com um saldo
negativo. Um motorista descreveu a situação: “sem ter trabalhado nada, já
cheguei na segunda-feira para trabalhar endividado”.
No
segundo ponto desta organização, está o papel das plataformas como agentes
financeiros. O relatório do Fairwork 2025 revela que as empresas de plataforma
têm atuado cada vez mais como provedoras financeiras, oferecendo empréstimos
pré-aprovados diretamente aos trabalhadores através dos aplicativos.
Plataformas como Uber (Banco Didio), 99 (com o serviço 99 Empresta), o iFood
(com o iFood Pago) e Indrive (com a inDrive.Money) adotam essa prática.
Essa
estratégia cria um ciclo vicioso: a plataforma paga pouco, gerando a
necessidade de crédito e depois lucra com os juros dos empréstimos que ela
mesma oferece. Um motorista da Uber relatou ter aceitado um empréstimo por
desespero para pagar o que gastou com remédios para tratar doenças
ocupacionais. Ou seja, a empresa cria o problema ao trabalhador, transfere a
responsabilidade integralmente a ele que, na condição de não ter como pagar,
acaba refém de um financiamento fornecido por essa mesma empresa. Ao final, a
plataforma não só explora o trabalho dos sujeitos que dependem dela, como ainda
ganha com juros do que ele foi obrigado a pagar por não ser responsável pelos
custos da própria atividade.
Além de
gerar lucro adicional, essa prática aumenta a probabilidade de o trabalhador
permanecer vinculado à empresa para quitar a dívida. Tal contexto pode
alimentar intimamente um ciclo de dependência do trabalhador à plataforma. Em
suma, o relatório destaca que o endividamento não é uma consequência acidental,
mas sim um elemento estrutural e estratégico do modelo de negócio das
plataformas digitais no Brasil. Elas impõem condições precárias que levam ao
endividamento e, em seguida, se posicionam como a “solução” financeira,
lucrando duas vezes sobre a vulnerabilidade dos trabalhadores e aprofundando a
sua dependência e exploração.
Vários
autores têm destacado que o capital tem atuado não apenas por meio da
exploração, mas também da espoliação e da expropriação do trabalho (Antunes,
2018). Harvey (2024) define esse atual contexto como “novo imperialismo”, já
que é marcado crescentemente pela “acumulação por espoliação”, na qual o
capital busca lucros por meio de práticas predatórias e não pela reprodução
ampliada. Lazzarato (2010) evidencia que a política de dívidas constitui uma
das características fundamentais da financeirização. Para ele, a sujeição e a
servidão trabalham em conjunto para capturar o desejo e a força produtiva do
social, exigindo uma nova abordagem para a ação política que vise a
dessubjetivação. Nesse contexto, a financeirização configura-se como um
mecanismo central para a plataformização do trabalho, operando como um modo de
acumulação de riqueza das plataformas (Grohmann; Salvagni, 2023). Para os
autores, esse mecanismo atua de forma articulada com o gerenciamento
algorítmico e a dataficação, incluindo suas dimensões ideológicas da
racionalidade neoliberal como uma etapa crucial nesse processo.
A
exploração é o caso clássico da extração de mais valor no processo de trabalho.
Trata-se, portanto, de uma forma de acumulação de capital por meio de uma
relação no âmbito econômico. Em teoria, os trabalhadores são “livres” para
oferecer a sua força de trabalho para o capital. A expropriação e a espoliação
eram conceitos até então vinculados à formas não capitalistas de produção, como
o feudalismo e o escravagismo. No entanto, no século XXI, tem-se visto cada vez
mais a utilização pelo capital de recursos extra-econômicos, muitos no campo
político e coercitivo, para impor seus regimes de trabalho e avançar na
acumulação do capital.
A
retirada de direitos protetivos do trabalho e de cidadania é um exemplo disso,
constituindo-se fenômenos sociais como é o caso do precariado (assalariados que
recebem rendas abaixo do necessário para sua reprodução social e está
destituído ou limitado de seus direitos como cidadãos). Antigamente, a dívida
como recurso de espoliação e expropriação da renda de um trabalhador esteve
vinculada às atividades do meio rural. O lavrador acabava assumindo uma dívida
com o fazendeiro (por conta do aluguel da moradia, da dívida na mercearia da
fazenda, da viagem gasta pela migração etc.) e, apesar de não ser um escravo,
era impedido de fugir por meio de capatazes. O próprio isolamento das
propriedades rurais, longe dos grandes centros urbanos, dificultava qualquer tentativa
de se libertar desta dívida injusta. No caso da dívida moderna, como é o caso
da verificada entre entregadores de aplicativos, os mecanismos de dependência e
coerção são mais sofisticados. As condições de vida foram erodidas ao longo dos
anos e direitos protetivos foram retirados (tais como o poder de fiscalização e
o reconhecimento do vínculo de emprego), deixando-se ainda mais vulneráveis
frente ao poder do capital. Dessa forma, esses trabalhadores acabam se
subjugando à condição das dívidas, sobretudo porque o contexto não lhes
apresenta outra alternativa.
Esse
contexto demonstra que a alegada autonomia no trabalho plataformizado é
ilusória. A transferência dos riscos empresariais para o trabalhador resulta em
uma posição de subserviência. A opção por empréstimos não decorre de uma
escolha livre, mas de uma realidade marcada pelo endividamento e pela escassez
de opções. As experiências narradas evidenciam as nuances de uma significativa
reestruturação do mundo do trabalho, impulsionada pela tecnologia. O trabalho
nas plataformas digitais, portanto, aprofunda a exploração e pode acabar
estabelecendo uma relação de dependência direta para com a empresa.
Fonte:
Por Por Julice Salvagni, Ricardo Festi e Jonas Valente, em Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário