A
Anvisa diante de seus novos desafios
Poucos
anos após a autarquia ocupar um papel central na resposta do país à pandemia da
covid-19, a nova diretoria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)
se depara com um leque renovado de desafios. Entre eles, se incluem a pressão
ligada à alta na judicialização para fornecimento de medicamentos não
incorporados ao Sistema Único de Saúde (SUS) nos últimos anos, bem como as
dificuldades decorrentes da falta de pessoal no órgão.
Em meio
ao Seminário SUS 35 anos realizado na semana passada, Outra Saúde entrevistou o
advogado baiano Thiago Campos, um dos três novos diretores da Anvisa empossados
na quinta-feira da semana anterior (11/9), para conhecer as perspectivas dos
nomes que agora assumem a agência sobre alguns desses temas. Campos, que é o
primeiro negro a compor a diretoria do órgão, foi empossado junto de Daniela
Marreco Cerqueira e Leandro Pinheiro Safatle, este último sendo nomeado
diretor-presidente da autarquia.
A
cerimônia de posse encerrou um longo impasse, durante o qual três das cinco
cadeiras da diretoria da autarquia ficaram vagas por quase nove meses.
Desejosos de emplacar aliados em uma série de agências reguladoras, membros do
Senado Federal se recusaram por todo um semestre a pôr em pauta a votação dos
nomes já indicados.
Vice-presidente
do Instituto de Direito Sanitário Aplicado (Idisa), Campos avalia que a
judicialização não pode ser considerada a causa de problemas para a saúde
pública. “Ter acesso à Justiça é uma garantia democrática. É importante que,
diante de uma violação ou do risco da violação ao direito, as pessoas possam se
socorrer de um ente que tenha o poder de fazer aquele direito. Muitas ações
exitosas do SUS foram fruto da judicialização promovida por entidades da
sociedade civil, como algumas políticas públicas de HIV/aids”, pondera.
“Nos
últimos anos, a judicialização apareceu como um tema central para o SUS, mas
ela é apenas consequência de outros fatores que precisam ser avaliados. O
subfinanciamento da saúde pública, a ausência de um sistema bem regionalizado e
hierarquizado e as pressões do mercado pela incorporação de novas tecnologias é
que causam a judicialização. É importante fazer um esforço de distinguir, para
não ofuscar as causas dos problemas”, complementa.
Thiago
Lopes Cardoso Campos é advogado sanitarista e especialista em Direito Sanitário
e Gestão de Políticas de Saúde. Antes de ser indicado para a diretoria da
Anvisa, foi consultor jurídico da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares
(Ebserh) e atuou como gerente de projetos da Secretaria de Atenção à Saúde e
diretor de programa da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação da Saúde,
em gestões anteriores do Ministério da Saúde. É conselheiro titular do Conselho
Estadual de Saúde da Bahia.
Atualmente,
a judicialização já corresponde a 33% do total gasto com assistência
farmacêutica pelos estados brasileiros, de acordo com um levantamento do
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Segundo pesquisas conduzidas
pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o fenômeno também avança
sobre o orçamento dos municípios, especialmente com medicamentos para
tratamento do sistema nervoso e de doenças degenerativas crônicas. Para
diversos especialistas e ativistas da área da saúde, esse processo impacta a
capacidade do Estado, em seus diferentes níveis, de planejar os gastos do SUS.
No ano
passado, o Supremo Tribunal Federal (STF) emitiu uma decisão em que buscou
definir regras para o fornecimento de medicamentos pela via judicial. O
entendimento da corte prevê que, em linhas gerais, “a Justiça não pode
determinar o fornecimento de medicamentos que não estão incorporados no SUS”.
No entanto, eles poderão ser concedidos de forma excepcional, caso estejam
registrados na Anvisa e cumpram uma lista de seis requisitos definidos pela
própria autarquia.
Na
visão de Campos, a decisão é um avanço ao promover uma racionalidade mínima
para as futuras disputas, ainda que haja discordâncias quanto aos detalhes da
decisão do STF. “Essa racionalização passa inclusive pela valorização do papel
da Anvisa. A decisão reconhece que a Anvisa é o ambiente que faz uma avaliação
da qualidade, eficácia e segurança dos produtos, para conceder o registro
daquilo que pode ser comercializado no nosso país”, defende.
Por
outro lado, o advogado opina que uma nova onda de judicialização poderá advir
da demora da Anvisa na conclusão de processos de registro de medicamentos e
outros insumos de saúde, cada vez mais destacada pelos meios de comunicação.
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A falta de pessoal na Anvisa
No ano
passado, após uma crítica pública de Lula à Anvisa pela demora no registro de
remédios, o então diretor-presidente Antonio Barra Torres enviou uma carta
aberta ao presidente da República em que afirmou tê-lo alertado 26 vezes da
falta de funcionários que atinge a autarquia. “Com o número insuficiente de
trabalhadores e com tarefas que só fazem crescer, o tempo para realização de
tais tarefas só pode se tornar mais longo”, diz a missiva de agosto de 2024.
“O
atual Governo Federal foi alertado que o número insuficiente de servidores
traria impacto direto no cumprimento da missão da Agência, desde o Gabinete de
Transição, logo após as eleições de 2022, quando os diretores da Anvisa foram
convidados a expor e detalhar essa carência de pessoal, e quatro ofícios foram
encaminhados, à época”, também escreveu Barra Torres.
Nos
últimos anos, centenas de quadros da Anvisa faleceram, se aposentaram, entraram
em licença médica ou mesmo buscaram outros caminhos profissionais – neste
último caso, não em pequena parte devido ao clima hostil ao órgão durante o
governo Jair Bolsonaro –, o que agravou as dificuldades na condução de seu
trabalho. No entanto, a resposta do atual Governo Federal ainda é tímida. Em
2024, um concurso abriu 50 vagas para a autarquia – 48 foram preenchidas. Neste
ano, o Concurso Nacional Unificado (CNU) prevê a adição de apenas mais 14
servidores públicos para a Anvisa.
Thiago
Campos oferece uma avaliação sobre o cenário: “A falta de pessoal é um fato.
Qualquer comparação com outras agências internacionais do mesmo porte, da mesma
confiabilidade e do mesmo grau de credibilidade da Anvisa demonstra que aqui
temos menos trabalhadores do que as demais. Além disso, trata-se de um quadro
de servidores envelhecido, em fase de aposentação”.
O
advogado defende que o Ministério da Saúde (MS) e o Governo Federal estão
buscando alternativas para fortalecer a Anvisa. Ele relembra que a Medida
Provisória nº 1.301/25, que instituiu o programa Agora Tem Especialistas,
remanejou cerca de 400 postos que estavam ociosos no MS, transformando-os em
129 vagas na carreira de Regulação e Fiscalização Sanitária da Anvisa.
Além
disso, em comunicado de maio, a autarquia afirmou que “o Ministério da Saúde
está elaborando os estudos necessários para a criação de 256 novos cargos
efetivos para a Anvisa, por meio da transformação de [mais] cargos vagos do
próprio Ministério. A proposta deverá ser formulada em projeto de lei, a ser
enviado ao Congresso Nacional no segundo semestre”. A soma dessas duas medidas,
ainda a serem concretizadas, fortaleceria o órgão de regulação sanitária com
mais 385 postos – mas sem criar novas vagas no serviço público, em um cenário
bastante ilustrativo da austeridade fiscal que assola o país desde meados da
década passada.
Na
visão de Campos, agora que foi empossada, a nova diretoria deve trabalhar para
se aproximar do atual quadro de servidores e buscar conhecer suas opiniões e
também as insatisfações, promovendo um processo coletivo de reaproximação. Ele
explica que já foram iniciadas reuniões que buscam congregar membros de
diversas áreas, estimulando a troca de avaliações entre o pessoal das
diferentes gerências e a participação efetiva dos funcionários na condução do
trabalho cotidiano. “Vamos precisar prover gente e aumentar os quadros, mas
também precisamos remotivar a turma para um projeto que faça sentido, porque só
assim vamos conseguir fazer o nosso melhor”, propõe.
Central
para o próximo período, resume Thiago Campos, é o fortalecimento da autarquia e
de seu trabalho. “A Anvisa é muito importante não só para o Sistema Único de
Saúde em específico, mas para toda a sociedade brasileira”, concluiu.
Fonte:
Por Guilherme Arruda, em Outra Saúde

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