quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Bepe Damasco: O dia em que um estadista global fez um tirano fascista se render

Sobe à tribuna para abrir a assembleia, prerrogativa que cabe ao Brasil desde 1947, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva. 

E Lula exibe seu brilho retórico habitual com um discurso combativo, corajoso e ao mesmo tempo propositivo, que não deixa de fora nenhum tema de interesse global atualmente.

Crítica às sanções arbitrárias ao Brasil, reafirmação de que a soberania e a democracia do nosso país são inegociáveis, denúncia do genocídio em Gaza, alerta para as ameaças ao multilateralismo, defesa da transição energética justa para os países em desenvolvimento, reforma do Conselho de Segurança da ONU, refundação da OMC e taxação dos super-ricos do mundo para combater a fome. Nada que importa e aflige o planeta escapou da abordagem de Lula. Uma honra para o Brasil. 

Foi aplaudido. 

Depois, também seguindo a tradição que garante aos EUA o segundo discurso, chega a vez do presidente dos EUA, Donald Trump. Com apenas poucos minutos de sua fala, o mundo já pôde perceber o fosso entre os dois governantes, a enorme distância que separa um líder de expressão mundial com sólidas convicções democráticas, como Lula, de um déspota mediocre, autoritário, negacionista e isolacionista, como Trump.

Chegou a ser constrangedor.

Depois de gastar grande do seu tempo com autoexaltações mentirosas, padrão típico da extrema-direita, como a que ele pôs fim a sete guerras e merece o Prêmio Nobel da Paz, Trump atacou as políticas de imigração da ONU e deu um show de reacionarismo e obtusidade em questões relacionadas ao clima e aos direitos humanos.

Até aí tudo dentro do esperado.

Mas o balde de água gelada no bolsonarismo veio no fim do discurso . Para a surpresa geral, Trump disse que gosta de Lula, pretende fazer negócio com ele, que abraçou o presidente brasileiro, sentiu uma ótima química entre eles e que acertou com Lula um encontro para a semana que vem.

Claro que tudo que Trump diz está sujeito a chuvas e trovoadas, pois lhe falta um mínimo de credibilidade e coerência. É, antes de tudo, um bravateiro, um mentiroso.

Aconteça o que acontecer, porém, o episódio crava uma estaca no peito do bolsonarismo, que apostou todas as suas fichas na exclusividade do canal de negociações com Trump, para cometer crimes de traição ao Brasil.

Grande dia!

<><> Lula fala verdades enquanto Trump delira na ONU. Por André Gattaz

A abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, ocorrida nesta terça-feira (23/9) evidenciou o contraste entre os presidentes das duas “maiores democracias ocidentais”. Enquanto o presidente brasileiro tratou dos desafios de um novo mundo multipolar, o presidente estadunidense apresentou um discurso cheio de mentiras e de ódio, que cada vez mais isola seu país. A diferença de recepção foi evidente, com a Assembleia interrompendo Lula cinco vezes para aplaudir, enquanto Trump só foi aplaudido ao pedir a liberação dos reféns israelenses em poder do Hamas. Para piorar, diversas vezes Trump saiu da leitura do teleprompter, desfilando então suas digressões recheadas de mentiras, ódio e ufanismo.

Entre as verdades faladas por Lula, podemos destacar: os ideais dos fundadores da ONU estão ameaçados e a autoridade da instituição está em xeque;  o autoritarismo se fortalece quando a comunidade internacional não fortalece a democracia; a agressão externa ao nosso Judiciário é inaceitável; o Brasil deu recado a todos os autocratas: nossa soberania e nossa democracia são inegociáveis (aplausos); democracia supõe redução da desigualdade; a única guerra de que podemos sair vencedores é contra a fome e a pobreza; a comunidade internacional precisa rever suas prioridades; os super ricos devem pagar mais impostos que os trabalhadores; é preocupante equiparação entre criminalidade e terrorismo; é inadmissível que Cuba seja listada como país que patrocina o terrorismo (aplausos); é necessário criar opção realista para solução negociada da paz na Ucrânia; os atentados terroristas do Hamas são indefensáveis, mas nada justifica o genocídio em curso em Gaza (muitos aplausos!); ali está enterrado o direito internacional; o genocídio não poderia acontecer sem cumplicidade; a fome é usada como arma de guerra; o povo palestino corre o risco de desaparecer; é lamentável que o presidente Abbas tenha sido impedido pelo país anfitrião de comparecer à ONU (muitos aplausos); bombas e armas não nos protegerão do aquecimento global; é necessário sair da palavra à ação; medidas unilaterais desorganizam o comércio mundial; a voz do sul global deve ser respeitada e ouvida (aplausos).

De um modo geral, apesar das críticas veladas a Trump e aos EUA, e da crítica aberta a Israel e seus apoiadores, o tom do discurso de Lula foi positivo, destacando a necessidade de se reforçarem os organismos e a cooperação multilateral. 

Em seguida a Lula, ocupou seu lugar na tribuna o presidente estadunidense, que deu então início ao desfile de mentiras, inverdades, incorreções e falsidades, reforçadas por sua proverbial falta de modéstia. Entre estas, podemos elencar: os EUA têm a maior economia do mundo (não têm mais);  os EUA têm o exército mais forte do mundo (não têm mais); os preços da energia, gasolina e alimentos estão mais baixos nos EUA (não estão); a indústria está florescendo (não está); o governo garantiu 17 trilhões de dólares em investimentos (não garantiu) e está construindo a maior economia da história do mundo (não está; a China está); os EUA são respeitados novamente no teatro mundial, como nunca foram respeitados (sorrisos de desdém); foram assinados muitos acordos comerciais com outros países (não há evidências disso); ele encerrou sete guerras no mundo (não há evidências), enquanto a ONU não ajudou para solucionar esses conflitos (porque os EUA impedem); todos dizem que ele merece o Prêmio Nobel (todos quem?), enquanto ele não está preocupado com isso, apenas em salvar vidas (mentira deslavada); o ataque estadunidense obliterou o programa nuclear iraniano (apenas atrasou); o Hamas rejeitou as ofertas de cessar-fogo dos EUA (não rejeitou) e deve soltar os reféns agora (Obs: aqui houve um pequeno aplauso, a única vez que isso ocorreu durante seu discurso; Washington DC era a capital do crime na América (não era); o Brasil quis interferir na vida de cidadãos estadunidenses (não quis); o Lula gosta dele (não gosta; mas se tiver que conversar pelo bem do país, conversa); não existe aquecimento global (existe); Trump está correto a respeito de tudo (acredite, ele reforçou que isso é uma verdade!).

No discurso de Trump foi notável o silêncio da plateia, especialmente após afirmações impactantes, que sob o ponto de vista MAGA deveriam ensejar aplausos, tais como o fato (a mentira) de que nos últimos quatro meses o número de imigrantes ilegais que entrou no país foi zero. Também questionou o sentido das Nações Unidas, criticando as “palavras vazias” da instituição, deixando de notar o papel fundamental dos EUA para que a ONU seja impotente diante dos conflitos mundiais. Foi também notável também seu silêncio sobre o genocídio que Israel vem promovendo na Faixa de Gaza, referindo-se apenas à necessidade de o Hamas devolver os israelenses sequestrados. 

Em suma, dois discursos representando bem os dois lados em conflito nesses tempos de Terceira Guerra Mundial: o Sul Global, multilateralista, apoiado em organizações como BRICS, SCO, ASEAN etc., preocupado com questões como aquecimento global, conflitos coloniais e concentração de riqueza; e a Aliança Atlanticista, unilateralista, apoiadas na imposição do mais forte, defendendo aumento dos gastos militares, reforço do protecionismo e da interferência estatal pró mercado, apoio ao genocídio israelense, repressão ao livre pensamento. Não é difícil realizarmos a escolha sobre de que lado devemos estar.

¨       Trump oferece espelhinhos a Lula e ao Brasil. Por Moisés Mendes

Lula poderá falar para Janja ou alguém de confiança do impacto que sentiu ao ficar diante de Trump e apertar sua mão inchada. E poderá depois trocar impressões com Putin e Zelensky.

Trump iria acabar com a guerra em encontros com os dois. Parte da esquerda brasileira aliou-se aos mais eufóricos ‘pacifistas’ certos de que um tapete vermelho para Putin seria algo com um grande significado. Trump não iria chamar Putin ao Alaska e estender um tapete vermelho impunemente.

Aconteceu o que todos sabemos. Mesmo que a anunciada conversa com Lula resulte em concessões pontuais, o que importa é que o eixo da relação entre ele e Trump não será alterado.

Trump não fará concessões relevantes a Lula e ao Brasil, porque isso não teria o menor sentido. Trump não pode deixar de ser Trump e Lula não pode criar um personagem diante do líder do fascismo mundial.

Trump deixaria de ser Trump se corresse o risco de fortalecer Lula internamente e como protagonista do Brics. Ele nunca irá sugerir aos americanos que não se incomoda com a aproximação de Brasil e China. 

Trump não aceitaria nada que pudesse representar, não o enfraquecimento de Bolsonaro, que já está morto politicamente, mas da extrema direita que dará sequência ao bolsonarismo sem seu fundador.

Se esse encontro anunciado for apenas uma reunião fracassada, será ruim para Lula mas não será o pior. O desastre acontecerá se, mesmo com toda a precaução de Lula para a armadilha, Trump estiver puxando o brasileiro para uma das suas arapucas.

Se não acontecerem avanços, como não aconteceram depois dos encontros com Putin e Zelensky, se Lula sair derrotado da conversa e se Trump continuar fazendo o jogo do fascismo, ninguém deve se surpreender.

Mas é preciso considerar a hipótese de que, mesmo sem humilhar publicamente Lula, porque esse seria um gesto perigoso, Trump pode usar seu inimigo para mandar o recado de que continua orientando os movimentos de tudo e de todos, na Europa, na Ucrânia, em Israel, na Rússia e no Brasil.

Ao dizer que estava encantado com Lula, Trump mandou a mensagem do mafioso. Ele é quem determina quando e onde conversar, porque está acima de Lula, da ONU e de todo o resto. 

A conversa é a concessão de Trump para oferecer espelhinhos a Lula, que não pode nem deve esperar mais. Trump poderá até dizer que entregará os 10 primeiros espelhos e que tem mais 50 numa grande caixa à espera da paz com o Brasil.

Poderá fazer uma lista de produtos que terão redução de tarifas. Economistas que analisarem a lista chegarão à conclusão de que há de fato recuos importantes. Teremos manchetes: Trump revê tarifaço.

Mas o assediador do Brasil, que sabota a economia, ataca o Judiciário e procura jogar Lula num conflito dos Estados Unidos com a Venezuela, não mudará nem depois de três horas de conversa com Lula.

A essência das relações de Trump com Lula e com o Brasil não será alterada, porque não há como desfazer o conjunto de coisas que o incomodam. 

Trump não quer salvar Bolsonaro, mas usá-lo para que a extrema direita, sem ele, retorne ao poder. Quer a intensificação da guerra ou dos blefes com o Brics e a China e quer ver Lula encerrando sua vida política no ano que vem.

Imaginemos que, depois do encontro com Lula, Trump cumpra com o roteiro do gesto magnânimo dos gângsteres e anuncie que vai ceder nas tarifas e até na revogação das sanções contra Alexandre de Moraes.

A extrema direita ficará incomoda e parte da esquerda vai comemorar, porque Eduardo e os que ainda o seguem se sentirão traídos. Mas é só isso. Não há diferença entre uma dúzia ou uma centena de espelhinhos. 

¨       Lula cita "fracasso" da esquerda mundial e "sufocamento" da democracia pela extrema-direita

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta quarta-feira (24) que a esquerda precisa reconhecer erros cometidos ao longo de sua trajetória e fortalecer a participação popular para enfrentar o avanço da extrema-direita. A declaração ocorreu durante a 2ª Reunião “Em Defesa da Democracia, Combatendo Extremismos”, realizada em Nova York, com a presença de chefes de Estado da América do Sul e da Espanha. O encontro dá continuidade à iniciativa lançada em 21 de julho, em Santiago, no Chile.

Segundo Lula, a democracia enfrenta um momento decisivo no cenário global. Ele defendeu que líderes progressistas façam uma autocrítica sobre os motivos que permitiram a ascensão da extrema-direita em diferentes países. “O que me inquieta hoje é a gente responder para nós mesmos: aonde é que os democratas erraram? Qual foi o momento em que a esquerda errou? Por que nós permitimos que a extrema-direita crescesse com a força que está crescendo? É virtude deles ou é incompetência nossa?”, questionou.

<><> Trajetória política e o surgimento do PT

Durante o discurso, Lula resgatou sua própria experiência política desde o final dos anos 1970. Ele lembrou que, antes de ingressar na vida partidária, era apenas um jovem metalúrgico e sindicalista que, "por acaso", acabou se tornando protagonista da política brasileira.

O presidente relatou o episódio que o motivou a criar o Partido dos Trabalhadores: a tentativa do regime militar, em 1978, de restringir o direito de greve de determinadas categorias. Ao se manifestar contra a medida em Brasília, Lula percebeu que não havia trabalhadores representados no Congresso. “Voltei para casa pensando: ‘como eu, um operário, quero que votem leis favoráveis à classe trabalhadora se não tem trabalhador no Congresso Nacional?’. Foi essa a grande descoberta que fiz na vida e foi daí que criei um partido”, explicou.

<><> A criação do Foro de São Paulo

O presidente também destacou a importância da articulação internacional entre movimentos progressistas. Ele lembrou que, após sua primeira candidatura presidencial em 1989, convocou lideranças da esquerda latino-americana para formar o Foro de São Paulo, com o objetivo de fortalecer partidos e movimentos sociais da região. “Era necessário que todos voltassem a fazer política”, afirmou.

<><> Autocrítica e defesa da democracia

No encontro em Nova York, Lula reforçou a necessidade de os governos democráticos recuperarem o vínculo com a sociedade civil, em vez de priorizar interesses do mercado ou ceder às pressões de adversários políticos. “Muitas vezes a gente ganha as eleições com discurso de esquerda e, quando começa a governar, atende muito mais os interesses dos nossos inimigos do que dos nossos amigos. Esse é o fracasso da democracia”, criticou.

O presidente ainda fez um apelo para que militantes, partidos e lideranças sociais retomem a prática da organização popular em comunidades, locais de trabalho e espaços de estudo. Para ele, essa é a base para reconstruir a confiança da população no projeto democrático.

“Antes de procurar a virtude do extremismo de direita, temos que procurar os erros que a democracia cometeu na relação com a sociedade civil. Se encontrarmos essa resposta, vamos voltar a vencer a direita. Se não, continuaremos sufocados pelo negacionismo, pelo extremismo e pelo discurso fascista que estamos vendo agora”, concluiu Lula.

 

Fonte: Brasil 247

 

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