quinta-feira, 25 de setembro de 2025


 

A mistura de política e religião no funeral de Charlie Kirk que indica futuro do movimento Maga de Trump

O evento em homenagem ao ativista conservador Charlie Kirk, morto em 10/09, foi realizado em um estádio no Arizona no domingo, 21/09. A cerimônia combinou memorial, avivamento cristão de grandes igrejas e comício político conservador.

Também ofereceu uma visão do Partido Republicano diante de uma encruzilhada, ponderando entre perdão e retaliação, entre reconciliação e conflito.

As principais lideranças da coalizão trumpista Make America Great Again (Maga, "Faça a América Grande Novamente", em tradução livre) reuniram-se para celebrar a vida de Kirk em um evento de várias horas, com música e discursos.

O evento indicou a direção que o movimento Maga pode seguir, mais de dez anos após sua ascensão e a transformação da política nos Estados Unidos.

<><> Erika Kirk, possível estrela do futuro

Apesar da presença de políticos proeminentes no domingo à noite (21/09), o momento central ocorreu quando Erika Kirk, viúva de Charlie, subiu ao palco. A ex-candidata de concursos de beleza, podcaster e empresária de 36 anos aproveitou a ocasião para pregar a unidade, incluindo o perdão ao assassino do marido.

"A resposta ao ódio não é ódio", disse, com a voz embargada. "A resposta, sabemos pelo Evangelho, é amor e sempre amor: amor pelos nossos inimigos e amor por aqueles que nos perseguem."

Foi um discurso marcante de uma mulher que rapidamente encontrou seu espaço sob os holofotes mais implacáveis. Na semana passada, ela foi nomeada líder da organização juvenil conservadora fundada pelo marido, Turning Point USA, grupo que ganhou nova energia e determinação após o assassinato de Kirk.

O domingo à noite mostrou que Erika Kirk possui força e caráter para se tornar a face pública efetiva da Turning Point USA.

Ela pode se tornar uma candidata formidável a cargos públicos em seu Estado natal, o Arizona, importante campo de batalha político. Suas palavras contrastaram com o tom explosivo e confrontador que marca grande parte da política americana contemporânea.

<><> O chamado às armas de Trump

Se Erika Kirk ofereceu uma visão de um futuro possivelmente mais gentil para o movimento conservador, o presidente americano, Donald Trump, que falou imediatamente após ela, lembrou rapidamente que o Partido Republicano atual pode ter prioridades muito diferentes.

"Odeio meus adversários e não quero o melhor para eles", disse Trump, com uma risada. "Agora a Erika pode falar comigo e com todo o grupo e talvez consigam me convencer de que isso não está certo, mas eu não suporto meu adversário."

As declarações de Trump ocorreram um dia após uma postagem na plataforma Truth Social em que ele exigia que o Departamento de Justiça processasse seus inimigos políticos, incluindo o senador da Califórnia Adam Schiff (Partido Democrata), o ex-diretor do FBI James Comey e a procuradora-geral de Nova York, Letitia James.

Trump também anunciou que havia demitido um procurador federal que recentemente afirmou não haver provas suficientes para acusar James de um crime, substituindo-o por um de seus antigos advogados de defesa.

As falas de Trump no memorial destoaram do tom da ocasião, mas ele não foi o único a usar o evento para prometer ações contra "inimigos".

"Nós somos a tempestade", disse Stephen Miller, assessor sênior da Casa Branca. "Nossos inimigos não conseguem compreender nossa força, nossa determinação, nossa firmeza, nossa paixão."

Miller acrescentou que os conservadores lutariam pela cultura e tradições ocidentais e que seus adversários não tinham nada além de maldade e inveja.

"Vocês não têm ideia do dragão que despertaram", afirmou.

<><> Indícios de um revival religioso

Embora o evento apresentasse notas discordantes, o tema geral lembrava um renascimento religioso — reminiscente das cruzadas de tendas de Billy Graham nas décadas de 1930 e 1940 ou dos "grandes despertares" do século 19.

O memorial celebrou o cristianismo de Charlie Kirk e prometeu novo entusiasmo entre jovens americanos por valores tradicionais, com fervor evangélico.

Dezenas de milhares de apoiadores lotaram o estádio, outros milhões acompanharam online. Esses números devem empolgar líderes conservadores que desejam ver o cristianismo ocupar papel mais central na vida pública e política dos EUA — posição defendida por Kirk em diversas ocasiões.

"O corpo político da América era tão cristão e tão protestante que nossa forma e estrutura de governo foi construída para pessoas que acreditavam em Cristo, nosso Senhor", disse Kirk em 2024. "Não se pode ter liberdade se não houver uma população cristã."

Embora o cristianismo tenha diminuído nos EUA nos últimos anos, ainda é a fé majoritária. Pesquisas indicam, porém, que jovens americanos são menos religiosos que os mais velhos, o que aponta para possíveis mudanças futuras.

A morte de Kirk pode provocar um despertar religioso entre a juventude americana. Se não o fizer, a retórica evangélica de domingo à noite pode excluir tanto quanto unir — aprofundando divisões culturais e políticas no país.

<><> Ambições presidenciais em evidência

Embora o segundo mandato de Trump tenha apenas nove meses, o domingo à noite pode ter sido um primeiro confronto na disputa pela indicação republicana à Presidência em 2028.

Três possíveis candidatos — J.D. Vance (vice-presidente), Marco Rubio (secretário de Estado) e Robert F. Kennedy Jr. (secretário de Saúde) — tiveram espaços de fala destacados.

Todos falaram sobre a importância de seu relacionamento com Kirk e sua própria fé, oferecendo elogios mais focados e tradicionais, em nítido contraste com o discurso de Trump. Ainda assim, havia um viés político voltado para o futuro em suas falas.

"Por Charlie, reconstruiremos os Estados Unidos da América para a grandeza", disse Vance. "Por Charlie, nunca recuaremos, nunca nos acovardaremos e nunca vacilaremos, mesmo quando estivermos diante do cano de uma arma."

Kennedy descreveu Kirk como alguém que "mudou a trajetória da história" e destacou os riscos de desafiar "interesses arraigados". Rubio elogiou Kirk por inspirar os americanos a "viver uma vida produtiva, casar, constituir família e amar o país".

Trump, naturalmente, foi um orador de destaque no comício, mas o presidente dos Estados Unidos não dominou o evento como costuma fazer em ocasiões políticas.

No domingo, os conservadores começaram a ter uma noção de quem pode se tornar ator-chave no cenário nacional quando Trump deixar a cena.

<><> Uma reconciliação inesperada com Musk

Falando em protagonistas, o domingo à noite marcou o retorno de uma das figuras mais proeminentes do início do segundo mandato de Trump.

O bilionário da tecnologia Elon Musk, que era confidente próximo de Trump antes de uma desavença pública em junho, visitou o camarote do presidente no evento em Phoenix e manteve o que pareceu ser uma conversa amigável.

"Achei legal", disse Trump aos repórteres em seguida. "Ele veio; conversamos."

Musk, que chefiou o Departamento de Eficiência Governamental (Doge, na sigla em inglês) de Trump no início deste ano, supervisionou demissões em massa no governo federal e tentou cortes orçamentários.

Ele rompeu com Trump em relação a um projeto de lei de gastos de US$ 3,4 trilhões (cerca de R$ 18,5 trilhões) do Congresso e, posteriormente, prometeu criar seu próprio partido político.

A reconciliação entre Trump e Musk não foi o desenvolvimento mais relevante do memorial, mas pode ter sido um dos mais inesperados — e ninguém sabe para onde isso pode levar.

¨       Trump diz que já acabou com 7 guerras: é verdade?

Enquanto o presidente dos Estados UnidosDonald Trump, tenta intermediar o fim da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, ele vem destacando seu histórico em negociações de paz desde o início de seu segundo mandato.

Em discurso na Casa Branca em 18 de agosto, onde foi pressionado por líderes europeus a insistir em um cessar-fogo, ele afirmou: "Eu acabei com seis guerras... eu fiz todos esses acordos sem sequer mencionar a palavra 'cessar-fogo'".

No dia seguinte, o número que ele citou havia subido para "sete guerras".

Nesta terça-feira (23/9), em seu primeiro discurso na Assembleia Geral da ONU desde 2020, Trump voltou a dizer que acabou com sete guerras.

O governo Trump afirmou que "já passou da hora" de o "pacificador-chefe" receber o Prêmio Nobel da Paz — e listou as "guerras" que ele supostamente encerrou.

Algumas duraram apenas alguns dias — embora fossem resultado de tensões de longa data —, e não está claro se alguns dos acordos de paz vão ser duradouros.

Trump também usou a palavra "cessar-fogo" várias vezes ao falar sobre o tema em sua plataforma Truth Social.

A BBC Verify, equipe de checagem da BBC, analisou mais de perto esses conflitos — e até que ponto o presidente americano merece crédito por ter acabado com eles.

<><> Israel e Irã

O conflito de 12 dias começou quando Israel atacou alvos no Irã em 13 de junho.

Trump confirmou que havia sido informado pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, antes dos ataques.

Os EUA realizaram ataques a instalações nucleares iranianas — o que foi amplamente visto como um passo para encerrar rapidamente o conflito.

Em 23 de junho, Trump postou: "Oficialmente, o Irã vai iniciar o CESSAR-FOGO e, após 12 horas, Israel vai iniciar o CESSAR-FOGO e, após 24 horas, o FIM OFICIAL DA GUERRA DE 12 DIAS vai ser saudado pelo mundo".

Após o fim das hostilidades, o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, insistiu que seu país havia obtido uma "vitória decisiva", e não mencionou um cessar-fogo.

Desde então, Israel sugeriu que poderia atacar o Irã novamente para combater novas ameaças.

"Não há acordo sobre uma paz permanente ou sobre como monitorar o programa nuclear do Irã daqui para frente", argumenta Michael O'Hanlon, pesquisador do think tank Brookings Institution.

"Portanto, o que temos é mais um cessar-fogo na prática do que o fim da guerra, mas eu daria a ele algum crédito, pois o enfraquecimento do Irã por Israel — com a ajuda dos EUA — foi estrategicamente significativo."

<><> Paquistão e Índia

As tensões entre esses dois países com armas nucleares existem há anos, mas em maio as hostilidades eclodiram após um ataque na Caxemira administrada pela Índia.

Após quatro dias de ataques, Trump postou que a Índia e o Paquistão haviam concordado com um "CESSAR-FOGO TOTAL E IMEDIATO".

Ele disse que isso foi resultado de "uma longa noite de negociações mediadas pelos Estados Unidos".

O Paquistão agradeceu a Trump, e mais tarde recomendou seu nome para o Prêmio Nobel da Paz, citando sua "intervenção diplomática decisiva".

A Índia, no entanto, minimizou os relatos sobre o envolvimento dos EUA: "As negociações sobre a cessação das ações militares foram realizadas diretamente entre a Índia e o Paquistão, por meio dos canais existentes estabelecidos entre os dois exércitos", disse o secretário de Relações Exteriores da Índia, Vikram Misri.

Ruanda e República Democrática do Congo

As hostilidades de longa data entre esses dois países se intensificaram depois que o grupo rebelde M23 tomou o controle de um território rico em minerais no leste da República Democrática do Congo no início do ano.

Em junho, os dois países assinaram um acordo de paz em Washington com o objetivo de pôr fim a décadas de conflito. Trump disse que isso ajudaria a aumentar o comércio entre eles e os EUA.

O texto pedia "respeito ao cessar-fogo" acordado entre Ruanda e a República Democrática do Congo em agosto de 2024.

Desde o último acordo, ambos os lados se acusam mutuamente de violar o cessar-fogo, e os rebeldes do M23 — que o Reino Unido e os EUA vinculam a Ruanda — ameaçaram abandonar as negociações de paz.

"Ainda há combates entre o Congo e Ruanda — então, esse cessar-fogo nunca foi realmente mantido", afirma Margaret MacMillan, professora de história que deu aula na Universidade de Oxford, no Reino Unido.

<><> Tailândia e Camboja

Em 26 de julho, Trump postou na plataforma Truth Social: "Estou ligando para o primeiro-ministro interino da Tailândia, agora mesmo, para solicitar um cessar-fogo e o fim da guerra, que está atualmente em curso".

Poucos dias depois, os dois países concordaram com um "cessar-fogo imediato e incondicional" após menos de uma semana de combates na fronteira.

A Malásia realizou as negociações de paz, mas o presidente Trump ameaçou interromper negociações separadas sobre a redução das tarifas (impostos sobre importações) dos EUA, a menos que a Tailândia e o Camboja parassem de lutar.

Ambos dependem fortemente das exportações para os EUA.

Em 7 de agosto, a Tailândia e o Camboja chegaram a um acordo com o objetivo de reduzir as tensões ao longo da fronteira compartilhada.

<><> Armênia e Azerbaijão

Os líderes dos dois países afirmaram que Trump deveria receber o Prêmio Nobel da Paz por seus esforços em garantir um acordo de paz, que foi anunciado na Casa Branca em 8 de agosto.

"Acho que ele merece crédito por isso — a cerimônia de assinatura no Salão Oval pode ter levado as partes à paz", afirma O'Hanlon.

Em março, os dois governos afirmaram estar prontos para pôr fim ao conflito de quase 40 anos centrado no status de Nagorno-Karabakh.

A mais recente e grave onda de combates ocorreu em setembro de 2023, quando o Azerbaijão tomou o enclave (onde viviam muitos armênios étnicos).

<><> Egito e Etiópia

Não havia nenhuma "guerra" aqui para o presidente encerrar, mas há muito tempo existem tensões em relação a uma represa no rio Nilo.

A Grande Represa do Renascimento Etíope foi concluída neste verão do hemisfério norte, com o Egito argumentando que a água que recebe do Nilo poderia ser afetada.

Após 12 anos de divergências, o ministro das Relações Exteriores do Egito disse em 29 de junho que as negociações com a Etiópia haviam chegado a um impasse.

Trump disse: "Se eu fosse o Egito, iria querer a água do Nilo". Ele prometeu que os EUA iriam resolver a questão muito rapidamente.

O Egito recebeu bem as palavras de Trump, mas as autoridades etíopes afirmaram que elas corriam o risco de acirrar a tensão.

Não foi alcançado nenhum acordo formal entre o Egito e a Etiópia para resolver as divergências.

<><> Sérvia e Kosovo

Em 27 de junho, Trump afirmou ter evitado uma onda de hostilidades entre eles, dizendo: "Sérvia e Kosovo estavam prestes a entrar em conflito, seria uma grande guerra. Eu disse que, se eles entrassem em conflito, não haveria comércio com os Estados Unidos. Eles disseram: bem, talvez não entremos em conflito".

Os dois países estão em disputa há muito tempo — um legado das guerras dos Balcãs da década de 1990 —, com tensões crescentes nos últimos anos.

"A Sérvia e Kosovo não estão lutando nem atirando um no outro, então não há uma guerra para encerrar", observa MacMillan.

A Casa Branca indicou à reportagem os esforços diplomáticos de Trump em seu primeiro mandato.

Os dois países assinaram acordos para normalizar as relações econômicas no Salão Oval com o presidente em 2020, mas não estavam em guerra na época.

 

Fonte: BBC News América/BBC Verify


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