DO
NARCOTRÁFICO À FARIA LIMA: A metamorfose do PCC em conglomerado empresarial e
sua ameaça à economia
A
operação “Carbono Oculto”, deflagrada em 28 de agosto de 2025, transcendeu o
escopo de uma ação policial tradicional contra o crime organizado. Com a
mobilização de 1.400 agentes e alvos que iam de postos de gasolina na periferia
aos escritórios climatizados da Avenida Faria Lima, o centro financeiro do
país, a operação expôs uma verdade sistêmica e profundamente alarmante: o
Primeiro Comando da Capital (PCC) completou sua metamorfose de uma organização
de narcotráfico para um sofisticado e multifacetado conglomerado
criminoso-empresarial. A investigação, que desvelou um esquema de US$ 9,6
bilhões no setor de combustíveis, serve como o estudo de caso definitivo de uma
evolução que ameaça não apenas a segurança pública, mas a própria integridade
dos mercados e a estabilidade do sistema financeiro do Brasil. Mais do que um
problema doméstico, a “Carbono Oculto” é um alerta vermelho para a comunidade
internacional, especialmente para a Europa, onde o PCC, notadamente em
Portugal, já estabeleceu bases operacionais e começa a replicar seu manual de
infiltração econômica.
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A mudança de paradigma estratégico: de “siga o dinheiro” para “siga os
produtos”
Para
decifrar a complexidade da operação “Carbono Oculto”, é preciso primeiro
entender a mudança de paradigma na lógica econômica do crime organizado, um
fenômeno brilhantemente diagnosticado pelo estudo Follow the Products,
publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). A pesquisa postula
que a estratégia clássica das forças de segurança de “seguir o dinheiro”
(follow the money), embora ainda relevante, tornou-se insuficiente para conter
as ameaças contemporâneas. O novo imperativo estratégico, argumenta o FBSP, é
“seguir os produtos” (follow the products), reconhecendo que as cadeias de
suprimentos de bens lícitos, como combustíveis, bebidas, ouro e tabaco,
tornaram-se o principal motor de lucro e o mais eficaz mecanismo de lavagem de
dinheiro para facções como o PCC.
A
lógica por trás dessa migração baseia-se em um cálculo puramente econômico de
risco-recompensa. O estudo do FBSP estima que a receita ilícita gerada pela
infiltração em apenas quatro mercados legais atinge a monumental cifra de US$
27 bilhões anuais. Esse montante ofusca o lucro estimado com o tráfico
transnacional de cocaína, que orbita em torno de US$ 2,8 bilhões por ano. O
setor de combustíveis, isoladamente, emerge como o mais lucrativo, com uma
receita ilícita estimada “conservadoramente” em US$ 11,3 bilhões anuais. Esses números não apenas justificam, mas
tornam inevitável a incursão do PCC na economia formal. Para essa organização
criminosa, não se trata de uma mera diversificação de portfólio, mas de uma evolução
fundamental de seu modelo de negócios para um campo com maior potencial de
lucro, fluxos de receita mais estáveis e, paradoxalmente, uma menor percepção
de risco. Crimes como fraude fiscal, adulteração de produtos e formação de
cartel, embora graves, demandam um aparato investigativo mais complexo e muitas
vezes resultam em penalidades distintas daquelas associadas ao tráfico de
drogas.
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Anatomia de um império corporativo-criminoso: a operação “Carbono Oculto”
A
operação “Carbono Oculto” é a materialização empírica da tese Follow the
Products. A investigação, resultado de uma cooperação interinstitucional sem
precedentes, revelou como o PCC aplicou uma estratégia de integração vertical
para dominar metodicamente toda a cadeia de valor dos combustíveis, desde a
importação de matérias-primas até a venda final ao consumidor na bomba. O modus
operandi espelha o de um conglomerado monopolista, mas com as “vantagens
competitivas” da violência, da intimidação e do total desrespeito ao arcabouço
legal.
O
esquema começava com a importação fraudulenta de matérias-primas, como metanol,
nafta e diesel, usando uma rede de empresas de fachada para ocultar os
verdadeiros beneficiários. A partir daí, a facção exercia controle sobre a
produção e a adulteração, possuindo ou financiando ativos estratégicos, como
quatro usinas produtoras de álcool. A etapa logística era assegurada por sua
própria frota de 1.600 caminhões de transporte, garantindo a distribuição
capilarizada do produto adulterado. O elo final da cadeia era uma vasta rede de
mais de 1.000 postos de gasolina, espalhados por dez estados brasileiros.
Esses
postos de varejo serviam a um duplo propósito estratégico: primeiro, gerar
lucro direto com a venda de combustível adulterado, lesando o consumidor e
criando uma concorrência desleal que expulsava os operadores legítimos do
mercado; segundo, funcionar como uma gigantesca “lavanderia” para o dinheiro
oriundo de todas as atividades ilícitas do grupo, incluindo o tráfico de
drogas. Entre 2020 e 2024, essa rede movimentou a impressionante soma de US$ 10
bilhões, resultando em uma sonegação fiscal estimada entre US$ 1,4 bilhão e US$
1,6 bilhão. A sofisticação do esquema era tamanha que incluía o uso de postos
“fantasmas” que, embora não operacionais, receberam US$ 400 milhões em notas
fiscais simuladas, provavelmente para justificar transferências de capital de
grande porte para as distribuidoras controladas pela organização.
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O motor financeiro: fintechs, fundos de investimento e a conexão Faria Lima
O
mecanismo que permitiu a movimentação de cifras tão astronômicas foi o sistema
financeiro, explorado em suas vulnerabilidades mais recentes e sofisticadas. A
investigação expôs que o PCC utilizava fintechs como “bancos paralelos” ou
“clandestinos”, aproveitando-se de um ambiente regulatório que historicamente
tem sido menos rigoroso em comparação aos bancos tradicionais. Uma única
instituição de pagamento, funcionando como uma câmara de compensação privada
para o crime, movimentou US$ 8,5 bilhões. Para burlar a fiscalização, a fintech
utilizava “contas de bolso”, contas abertas em nome da própria instituição em
um banco comercial, que não identificavam os clientes finais, e recebeu mais de
10.900 depósitos em espécie, prática flagrantemente incompatível com a natureza
de uma empresa de pagamentos digitais.
O
dinheiro lavado não era simplesmente ocultado; era ativamente reinvestido e
legitimado no coração do capitalismo brasileiro, a Avenida Faria Lima. A
operação identificou 42 alvos no centro financeiro de São Paulo, revelando que
o PCC controlava uma rede de pelo menos 40 fundos de investimento com um
patrimônio somado de US$ 5,5 bilhões. Esses fundos, muitas vezes estruturados
em um modelo de cascata (“fundo de fundos”) para máxima opacidade, foram o
veículo para a aquisição dos ativos físicos do conglomerado: usinas, um
terminal portuário, a frota de caminhões e mais de 100 imóveis de luxo. A
investigação alcançou grandes nomes do mercado financeiro, incluindo a Reag
Investimentos (listada na bolsa B3), o Banco Genial, a Trustee e o BK Bank,
sinalizando a profundidade da penetração do esquema no sistema convencional.
Em uma
resposta direta e imediata, o Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou
que as fintechs passariam a ter as mesmas obrigações rigorosas de prestação de
informações que os bancos, sendo compulsoriamente incluídas no sistema
“e-Financeira” da Receita Federal. A
medida, embora essencial, é uma ação reativa a uma vulnerabilidade sistêmica
que o crime organizado já havia explorado em escala industrial.
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A contraofensiva do Estado e o desafio dos facilitadores de colarinho branco
A
operação “Carbono Oculto” é aclamada como um marco na cooperação
interinstitucional, uma força-tarefa que uniu a expertise da Receita Federal,
dos Ministérios Públicos Federal e Estaduais, da Polícia Federal, das polícias
estaduais e de agências reguladoras como a ANP (Agência Nacional do Petróleo,
Gás Natural e Biocombustíveis). Essa abordagem integrada, que combina
inteligência fiscal, investigação criminal e persecução penal, é o único modelo
viável para confrontar um adversário que atua simultaneamente nos campos da
fraude tributária, do crime comum e da alta finança.
Contudo,
o verdadeiro desafio estratégico começa agora. O sucesso a longo prazo da
contraofensiva do Estado não será medido apenas pelo desmantelamento da rede
operacional, mas por sua capacidade de responsabilizar a “classe de
facilitadores”, os gestores de fundos, advogados e contadores de colarinho
branco que forneceram a expertise técnica e a legitimidade aparente para o
esquema funcionar. As investigações apontam para a cumplicidade consciente de
administradores de fundos que colaboraram ativamente para ocultar os
verdadeiros beneficiários dos recursos. A persecução penal desses atores,
amparada pela Lei de Lavagem de Dinheiro e pelas rigorosas normas de due
diligence da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), é o próximo e mais complexo
passo. Condenar os operadores da Faria Lima que viabilizaram o esquema de US$
10 bilhões é tão importante, se não mais, do que prender os membros da facção,
pois ataca a infraestrutura intelectual que permite a existência de tal
conglomerado.
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Contágio global: o Brasil como laboratório e a Europa como próxima fronteira
O
fenômeno descrito não está contido nas fronteiras brasileiras. A presença do
PCC já é uma realidade confirmada em pelo menos 28 países, com Portugal
servindo como principal porta de entrada e base operacional na Europa. Relatórios de inteligência indicam a presença
de membros no país, que não se limitam a gerenciar a logística do tráfico de
cocaína através dos portos de Lisboa, Sines e Leixões.
O
grande e urgente alerta para as autoridades europeias é que o PCC não está
apenas exportando um produto ilícito; está exportando seu sofisticado modelo de
negócio. A facção não é mais apenas um fornecedor de narcóticos. Ela se apresenta como uma “multinacional do
crime”, buscando ativamente infiltrar-se em setores da economia legal europeia,
como construção civil, restaurantes, setor imobiliário e empresas de
importação/exportação, para lavar seu capital e estabelecer uma fachada
empresarial duradoura. As autoridades europeias, ao focarem excessivamente no
vetor do tráfico, arriscam-se a diagnosticar erroneamente a natureza da ameaça,
subestimando a capacidade do PCC de corromper instituições, distorcer mercados
locais e minar a credibilidade do sistema financeiro, replicando em solo
europeu a mesma estratégia devastadora revelada pela operação “Carbono Oculto”.
A
cooperação entre Brasil e Portugal, recentemente reforçada por novos acordos de
segurança, é um passo vital, mas precisa evoluir. A troca de informações deve
transcender a esfera estritamente policial e engajar profundamente as unidades
de inteligência financeira e as autoridades fiscais de toda a União Europeia. O
adversário não é mais um simples cartel de drogas, mas um ator econômico hostil
com ambições e capacidades transnacionais.
A
operação “Carbono Oculto” é mais do que a crônica de um esquema criminoso de
proporções inéditas. É um retrato da evolução do crime para uma forma híbrida,
corporativa e globalizada que desafia as fronteiras entre o lícito e o ilícito.
A resposta, tanto no Brasil quanto no exterior, deve ser igualmente
sofisticada, integrada e, acima de tudo, ciente de que a batalha contra o crime
organizado moderno não é mais travada apenas nas ruas, mas também nas planilhas
de Excel, nos contratos de investimento e nos pregões da bolsa de valores.
Fonte:
Por Roberto Uchôa de Oliveira Santos, no Le Monde

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