Como
vazamento de telefonema derrubou primeira-ministra da Tailândia
O
Tribunal Constitucional da Tailândia voltou a intervir na política do país,
destituindo mais um primeiro-ministro do cargo.
O
colegiado de nove juízes, conhecidos pelo perfil altamente intervencionista,
decidiu que Paetongtarn Shinawatra violou padrões éticos em uma ligação
telefônica feita em junho com o líder veterano cambojano Hun Sen — que vazou a
gravação.
Na
conversa, Paetongtarn foi ouvida chamando Hun Sen de "tio" e
criticando um de seus comandantes do Exército. Ela se mostrava conciliadora em
relação à disputa de fronteira entre os países, em meio ao agravamento das
tensões.
A
primeira-ministra se defendeu dizendo que vinha tentando abrir um canal
diplomático com Hun Sen, amigo de longa data de seu pai, Thaksin Shinawatra, e
que a conversa deveria ter permanecido confidencial.
A
destituição de Paetongtarn é um golpe duro para dinastia política da família
Shinawatra, que presidiu vários governos tailandeses.
Ela se
torna a terceira Shinawatra a ter seu mandato de premiê interrompido: seu pai,
Thaksin, foi deposto por um golpe militar em 2006 e sua tia, Yingluvk, também
foi destituída pelo Tribunal Constitucional em 2014.
O
vazamento prejudicou a reputação de Paetongtarn e de seu partido, o Pheu Thai,
gerando pedidos para que ela renunciasse, já que seu maior parceiro de coalizão
abandonou o governo, a deixando com uma pequena maioria.
Em
julho, sete dos nove juízes do tribunal votaram para suspender o mandato da
primeira-ministra.
Eles
afirmaram que ela tinha um "relacionamento pessoal" que "parecia
alinhado com o Camboja" e rejeitaram suas alegações de que a ligação
telefônica foi uma "negociação pessoal para restaurar a paz sem o uso da
violência."
Esse
posicionamento dava indícios de que Paetongtarn teria o mesmo destino que seus
quatro antecessores.
Assim,
a decisão desta sexta-feira (29/08) não foi uma surpresa.
Paetongtarn
é a quinta primeira-ministro tailandesa a ser afastada do cargo pela corte
desde 2008, todos os casos de governos apoiados pelo seu pai.
Isso
deu origem a uma crença generalizada na Tailândia de que o tribunal tende a
decidir contra pessoas vistas como ameaça pelas forças conservadoras e
monarquistas.
O
tribunal já baniu 112 partidos políticos, muitos deles pequenos, mas também
duas versões anteriores do Pheu Thai e o Move Forward (Movimento Adiante, na
tradução literal para o português), o movimento reformista que venceu as
últimas eleições em 2023.
Em
poucos países do mundo a vida política é tão rigorosamente policiada por um
ramo do judiciário.
Neste
caso, foi o vazamento da conversa telefônica que selou o destino de
Pateongtarn.
Não
está claro porque Hun Sen decidiu romper sua amizade com a família Shinawatra.
Antes
disso, ele reagiu com raiva a um comentário de Paetongtarn, que chamou de
"pouco profissional" o uso que ele fazia das redes sociais para
sustentar seus argumentos. Hun Sen classificou a fala como "um insulto sem
precedente", que o levou a "expor a verdade".
Mas sua
decisão causou uma crise política na Tailândia, inflamando as tensões na
fronteira entre os dois países — que, no mês passado, explodiram em uma guerra
de cinco dias, deixando mais de 40 mortos.
Agora,
a Constituição tailandesa exige que os membros do parlamento escolham um novo
primeiro-ministro a partir de uma lista bem reduzida.
<><>
A escolha de um novo primeiro-ministro
Antes
das últimas eleições, cada partido foi obrigado a apresentar três candidatos
para disputar o cargo de primeiro-ministro.
O Pheu
Thai já usou dois dos três nomes apresentados, já que Srettha Thavisin também
foi afastado pela Corte no ano passado por nomear um aliado para seu gabinete,
que havia sido preso por tentar subornar um juiz.
O
terceiro candidato do partido, Chaikasem Nitisir, é um ex-ministro e veterano
na política, mas tem pouca projeção pública e enfrenta problemas de saúde.
A
alternativa seria Anutin Charnvirakul, ex-ministro do Interior, cujo partido
Bhumjaithai deixou a coalizão governista após o vazamento da ligação.
A
relação entre os dois países está estremecida. Para assumir o governo, Anutin
dependeria do apoio do Pheu Thai, que tem muito mais cadeiras no parlamento, o
que está longe de trazer estabilidade.
O maior
partido do parlamento, com 143 deputados, integrava o extinto Move Forward e se
transformou no The People's Party (Partido do Povo), prometeu não se juntar a
nenhuma coalizão, mas permanecer na oposição até a realização de uma nova
eleição.
Embora
uma nova eleição pareça ser a saída mais óbvia para resolver a crise, o Pheu
Thai resiste a isso.
Depois
de dois anos no poder, o partido não conseguiu cumprir suas promessas de
recuperação econômica.
<><>
Golpe duro para dinastia Shinawatra
A
inexperiente Paetongtarn, de 39 anos, ingressou no partido apenas em 2021 e não
conseguiu consolidar qualquer autoridade real sobre o país, com a maioria dos
tailandeses presumindo que seu pai tomava todas as grandes decisões.
Mas
Thaksin Shinawatra — que se aposentou há alguns anos da política, mas
permanecia influente — parece ter perdido seu "toque de mágica".
A
principal promessa eleitora do Pheu Thai — uma carteira digital que colocaria
10 mil baht (cerca de R$1.300) no bolso de cada adulto tailandês — estagnou e
foi amplamente criticada como ineficaz.
Outros
grandes planos, como legalizar cassinos e construir um "corredor
terrestre" ligando os oceanos Índico e Pacífico, também não saíram do
papel.
Em um
momento em que o nacionalismo tailandês foi inflamado pela guerra na fronteira
com o Camboja, a amizade de longa data — agora rompida — da família Shinawatra
com Hun Sen aumentou a desconfiança em setores conversadores de que eles sempre
colocarão seus interesses econômicos acima do país.
A
popularidade do partido despencou e é provável que perca muitas das 140
cadeiras em uma eleição agora.
Por
mais de duas décadas, o Pheu Thai foi uma força eleitoral imbatível que dominou
a política na Tailândia. É difícil imaginar como ele irá recuperar esse domínio
algum dia.
Fonte:
BBC News

Nenhum comentário:
Postar um comentário