Erick
Kayse: Tecnoterrorismo e o espelho quebrado da IA - a farsa do fim do trabalho
A
retórica sobre um suposto colapso ocupacional provocado por tecnologias
chamadas de Inteligência Artificial (IA) tem ocupado um espaço inesperadamente
central em discursos empresariais, consultorias globais e veículos
especializados. Fala-se em “fim de profissões”, “extinção de funções” e
“substituição inevitável do trabalho humano”, como se estivéssemos às vésperas
de um salto tecnológico capaz de remodelar toda a estrutura produtiva.
Entretanto, esse discurso não se apresenta apenas como prognóstico técnico, mas
como instrumento político. Ele opera como intimidação simbólica, produzindo
ansiedade social e moldando expectativas de trabalhadores sobre seu próprio
futuro. É esse mecanismo que chamaremos aqui de tecnoterrorismo: uma narrativa
futurista que amplifica ameaças hipotéticas para mascarar as contradições muito
concretas do presente.
O
tecnoterrorismo funciona como um espelho quebrado manejado pelo capital
tecnológico: cada caco devolve uma imagem ampliada do perigo, mas nunca permite
enxergar a totalidade. Em vez de descrever realisticamente o que a IA é capaz
de fazer, projeta fantasias hiperbólicas que servem para legitimar a
precarização, pressionar salários e justificar reformas regressivas. Essa
dramatização do “amanhã” protege o capital de encarar dilemas estruturais do
“hoje”: baixa produtividade, estagnação econômica e modelos de negócios
incapazes de gerar valor duradouro.
A
genealogia desse discurso pode ser observada desde a ascensão do “capitalismo
de plataforma”, cujo caso paradigmático é a Uber. Vendida como revolução
tecnológica, a empresa tornou-se o maior experimento contemporâneo de
desvalorização do trabalho sob o pretexto da inovação. Sua expansão dependeu de
tarifas artificialmente baixas, sustentadas por aportes bilionários de capital
especulativo, que visavam eliminar concorrentes e capturar mercados. O
resultado é conhecido: precarização profunda, algoritmos definindo
remunerações, jornadas extenuantes e transferência integral dos riscos ao
trabalhador. A empresa, mesmo após anos de operação global, só alcançou
rentabilidade contábil recentemente mediante engenharia financeira e
precarização extrema, carregando ainda um passivo de prejuízos históricos.
Demonstrando a contradição fundamental de um negócio que, embora onipresente,
não consegue gerar lucro consistente em seu cerne.
Como
mostra o economista canadense Nick Srnicek em Platform Capitalism (2016), essas
empresas não inauguram um modelo econômico mais eficiente, mas surgem como
destino privilegiado para o capital excedente em períodos de juros baixos e
poucas alternativas de investimento. A suposta inovação é, em grande medida,
uma fuga para frente, uma tentativa de compensar a falta de rentabilidade
estrutural com narrativas de disrupção. Esse mesmo mecanismo reaparece na atual
onda de investimentos em IA.
O caso
da OpenAI, empresa por trás do ChatGPT, é paradigmático: possui um valor de
mercado estimado em US$ 500 bilhões, uma cifra astronômica quando contrastada
com sua receita anual de aproximadamente US$ 13 bilhões. Esta disparidade é a
expressão numérica de uma bolha. Um estudo do MIT (2025) indicou que 95% dos
investimentos em IA não geram retorno. Relatório da McKinsey, também deste ano,
adverte que apenas 1% das empresas que adotam a tecnologia acreditam ter
atingido maturidade em seu uso. O dinheiro flui não pelos resultados presentes,
mas por uma aposta em um potencial futuro e distante. O investimento, portanto,
não se sustenta na performance, mas na crença autorreferente de que os lucros
virão “em algum momento”.
Esse
tipo de aposta configura o que François Chesnais chamou de capital fictício:
riqueza que se valoriza no papel, mas que carece de correspondência material na
economia real. O atual circuito econômico da IA chega a ser circular: a Nvidia
injeta bilhões na OpenAI, que por sua vez usa esses recursos comprando mais
chips da própria Nvidia, criando um loop financeiro. O processo alimenta
expectativas, mas não cria valor, apenas o simula. É um ciclo típico de
instabilidade, no qual a promessa de retorno futuro serve de combustível para
inflar avaliações presentes. Essa dependência de expectativas futuras é
justamente o que torna a narrativa tecnoterrorista tão funcional: ao anunciar
que a IA extinguirá milhões de empregos, ela legitima a continuidade do fluxo
especulativo e produz uma atmosfera de inevitabilidade, necessária para manter
a bolha respirando.
Um dos
pilares ideológicos mais persistentes é a afirmação de que a IA inevitavelmente
substituirá trabalhadores por ser “mais barata”. Essa visão desconsidera que a
tecnologia opera sobre uma infraestrutura de custos massivos e crescentes. Em
outras palavras, o mito da IA “mais barata” ignora seus custos materiais e
limites ecológicos para universalização.
Como
demonstra Kate Crawford em Atlas da IA (2025), “a inteligência artificial não é
artificial nem inteligente: ela depende de recursos naturais, trabalho humano e
vastas infraestruturas industriais. Cada sistema de IA é construído sobre
intensas extrações de matéria, energia e trabalho”. Data centers consomem
quantidades imensas de energia elétrica e água potável para resfriamento
contínuo; disputam recursos com cidades, agricultura e ecossistemas inteiros;
ampliam cadeias de mineração e extração; fortalecem zonas de sacrifício
ambiental.
A
fantasia de automação total colide com a materialidade titânica da IA. Escalar
esses sistemas globalmente não é apenas financeiramente oneroso: é
ecologicamente insustentável. Cada avanço técnico exige crescimento exponencial
da infraestrutura, da energia e da água, uma demanda insustentável num planeta
já tensionado por crises hídricas e energéticas. O que se apresenta como
“eficiência futurista” é, na verdade, uma intensificação do extrativismo.
Ao
mesmo tempo, a utilidade concreta da IA permanece limitada. Apesar da
exuberância discursiva, a IA atual opera majoritariamente como um sistema de
recombinação estatística de dados, incluindo textos, imagens, códigos e sons
produzidos previamente por milhões de pessoas. Essa habilidade, capaz de
rapidamente popularizar a ferramenta, no entanto, gera efeitos econômicos muito
limitados. Seu funcionamento pressupõe um conhecimento coletivo acumulado da
humanidade (trabalho morto) que busca ser apropriado e transformado em
mercadoria. A IA opera um “cercamento” digital dos comuns, privatizando o
conhecimento socialmente produzido (o Intelecto Geral marxiano), convertendo o
saber coletivo da humanidade em mercadoria proprietária para extração de renda.
Do
ponto de vista da crítica da economia política, a IA não cria valor novo e isso
é decisivo para o seu real potencial futuro. Ela apenas transfere ao produto o
valor já incorporado nas máquinas e no trabalho pretérito que compõe seus dados
e sua infraestrutura. Seu caráter inovador é técnico, não produtivo. Embora
sacudam setores culturais, comunicacionais e informacionais, não revolucionam
as bases materiais da produção de valor. O capital só se expande através do
trabalho vivo, único capaz de produzir mais-valor. A automação em larga escala
eleva a composição orgânica do capital e pressiona a taxa de lucro para baixo,
fenômeno estrutural que nenhuma “inteligência artificial” conseguiu resolver.
Por
isso, o chamado capitalismo digital funciona como drenagem permanente da
economia produtiva, desviando capitais para setores que não geram valor, apenas
o redistribuem e concentram. Trata-se de um movimento em que vastas quantias
são deslocadas para atividades cuja rentabilidade depende menos da produção
material e mais da captura de dados, da especulação financeira e da extração de
renda monopolista. Em vez de ampliar a capacidade produtiva da sociedade, essas
plataformas absorvem recursos que poderiam ser investidos em setores geradores
de riqueza real, canalizando-os para modelos de negócio sustentados por
expectativas infladas, efeitos de rede e promessas futuristas. Eles querem se
tornar a infraestrutura inevitável (como estradas ou eletricidade) para extrair
taxas de todo o resto da economia. O seu resultado é um ecossistema econômico
cada vez mais predatório, no qual a acumulação se realiza não pela criação de
valor, mas pelo bloqueio, intermediação e apropriação de fluxos já existentes.
Fazendo
aqui um breve exercício especulativo, desconsiderando todas as questões
apontadas antes da inviabilidade de uma substituição total (ou mesmo massiva)
do trabalho vivo por máquinas. Imaginemos que isso seja mesmo possível. O
resultado seria algo bem distante dos sonhos apologéticos deste caminho para
salvar o capitalismo de sua crise. A substituição integral do labor humano
configura um paradoxo autodestrutivo, pois o desemprego sistêmico drenaria a
liquidez dos consumidores, impossibilitando a venda das mercadorias produzidas
pelas próprias máquinas. Essa desconexão entre produção otimizada e demanda
inexistente geraria uma crise de superprodução fatal, provando que o
capitalismo não sobrevive sem a circulação de renda via salários;
sociologicamente, esse colapso econômico desmantelaria a ordem pública
necessária para garantir a propriedade privada e o funcionamento dos mercados.
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Tecnoterrorismo como disciplinamento do trabalho
É nesse
cenário de fragilidade estrutural que o tecnoterrorismo cumpre sua função
ideológica. Ao difundir a profecia da obsolescência do trabalho humano,
empresas moldam comportamentos, criam insegurança e estimulam resignação. O
medo de substituição reduz resistência sindical, enfraquece reivindicações
salariais e naturaliza jornadas extensas, terceirizações e informalidade. A
promessa (ou ameaça) de que a IA varrerá empregos em massa serve menos para
descrever o futuro do trabalho do que para moldar o comportamento dos
trabalhadores no presente.
Todavia,
o disciplinamento não opera apenas através do medo da exclusão, mas pela
subordinação direta. Nos postos de trabalho que permanecem, a tecnologia se
impõe como ferramenta de gestão algorítmica, atuando como um capataz digital
onipresente. Longe de libertar o humano de tarefas repetitivas, sistemas de IA
monitoram produtividade em tempo real, cronometram pausas e ditam o ritmo da
produção, seja em galpões logísticos ou em escritórios corporativos. A
tecnologia serve, assim, para intensificar a extração de mais-valor, retirando
a autonomia do trabalhador e submetendo-o a uma cadência maquínica
desumanizante.
Parte
do relativo sucesso deste discurso se dá pela posição privilegiada de difusão
discursiva de seus principais ideólogos, a serviço dos detentores dos meios
comunicacionais de massa. “As empresas digitais não apenas preveem
comportamentos; elas os moldam. Seu poder deriva da assimetria radical entre o
que sabem sobre nós e o que sabemos sobre elas” aponta a pesquisadora americana
Shoshana Zuboff em A Era do Capitalismo da Vigilância (2021). Essa desigualdade
informacional permite orientar condutas e expectativas de forma quase
cirúrgica.
Esse
mecanismo ideológico não se limita ao Vale do Silício; ele reconfigura
políticas nacionais. O Brasil ilustra essa dinâmica: a Reforma Trabalhista de
2017, apresentada como modernização necessária das relações laborais diante das
“novas tecnologias” e para gerar empregos, consolidou um arcabouço de
precarização, informalidade e fragilização da proteção social. Nesse sentido, o
tecnoterrorismo não é apenas retórica: é programa político. Um projeto que tem
em seu centro a busca por intensificar a exploração e transferir renda do
trabalho para o capital, escudando-se na figura espectral da máquina que tudo
fará.
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Conclusão: romper o espelho quebrado
Os
sinais de que a bolha da IA se aproxima de um ponto de saturação são cada vez
mais visíveis: hesitações de investidores, relatórios cautelosos e declarações
contraditórias de líderes do setor. Ainda assim, a narrativa tecnoterrorista
persistirá enquanto for útil para pressionar trabalhadores e manter fluxos
especulativos
O
futuro não será o do fim do trabalho, mas o da disputa pela reafirmação de que
toda riqueza depende, irremediavelmente, do esforço humano. Se há algo que a
crise das plataformas e a escalada dos custos da IA demonstram é que nenhuma
tecnologia, por mais espetacular que pareça, consegue suspender as
determinações fundamentais da produção capitalista. Tecnologias verdadeiramente
transformadoras não se sustentam sobre bolhas financeiras e exploração, mas na
capacidade de, integradas ao trabalho humano, produzir valor real e
compartilhado.
O
tecnoterrorismo funciona, portanto, como um espelho quebrado, com seus
fragmentos de ameaças ampliadas, como sombras de máquinas onipotentes, distorce
tendências e oculta o fato essencial de que as tecnologias atuais não
substituem o trabalho: elas o parasitam. Reconhecer essa contradição é o
primeiro passo para desmontar a fantasia de inevitabilidade tecnológica e
impedir que trabalhadores sejam transformados em figurantes descartáveis de um
futuro que jamais se realizará.
• O trabalho na era da inteligência
artificial. Por Ricardo Antunes
O mundo
do trabalho vivencia sua fase mais aguda, desde a gênese do capitalismo.
Mergulhados em uma profunda “crise estrutural”, que pode ser assim resumida. O
sistema de capital não mais consegue acumular sem destruir. Com as fronteiras
terrestres já sob seu domínio, adentramos na era da acumulação do espaço
sideral.
Quadro
que aflorou, a partir de 1973, quando a trípode destrutiva – financeirização,
neoliberalismo e reestruturação do capital – deu impulso para que as
tecnologias de informatização invadissem o mundo da produção na indústria e, em
seguida, nos serviços que foram privatizados e se converteram em excepcionais
laboratórios de expansão dos capitais, potencializados pelos algoritmos,
Inteligência artificial, Big Data etc.
No
mundo do trabalho, a explosão global do desemprego, mais intensa no Sul Global.
O moinho satânico, cunhado por Karl Polanyi, chegava à era cibernética.
No
mundo do trabalho vimos a explosão global do desemprego, sempre mais exacerbado
no Sul Global, agravada em 2008/9 e intensificada com a inesperada eclosão da
pandemia.
Essa
realidade, além jogar nas alturas o desemprego, levou as grandes corporações a
terem um novo leitmotiv. Com o toyotismo japonês, conhecemos a expansão
ilimitada da terceirização, que nos trouxe ao trabalho intermitente, legalizado
no Brasil com a contrarreforma trabalhista de Michel Temer, em 2017, logo
depois do golpe que depôs Dilma Rousseff.
E foi
assim que chegamos ao trabalho uberizado, aquele que se expande nas grandes
plataformas digitais, articulando, com indiscreto charme, os inventos digitais
e algorítmicos, com a força de trabalho desempregada e ávida por qualquer
labor. O Brasil, com uma taxa de informalidade entre 30 e 40%, foi solo fértil
para essa empreitada.
Mas
urgia ainda encontrar uma denominação para dar vida à nova empulhação, de modo
a burlar a legislação do trabalho. O reconhecimento da condição de
assalariamento, por si só, obrigaria o cumprimento da legislação do trabalho
que, vale recordar, foi resultado de lutas históricas da classe trabalhadora.
No Brasil, a primeira greve foi dos “ganhadores”, trabalhadores negros que, em
1857 em Salvador, paralisaram o carregamento de mercadorias e pessoas e
exigiram a extinção de opressões que tipificavam a escravização. Ou a Greve
Geral de 1917, em São Paulo, que paralisou diversas categorias do operariado,
na luta por direitos básicos do trabalho.
Pois
bem, em pleno século XXI, na era da explosão das tecnologias digitais que
poderiam reduzir expressivamente a jornada de trabalho, as empresas forjaram
“novas” modalidades de trabalhos, com um condicionante inquestionável: a cabal
recusa em cumprir a legislação do trabalho. Apresentando-se como “empresas
prestadoras de serviços e de tecnologia”, com o estrito objetivo de obliterar a
condição real de assalariamento, o trabalho uberizado deslanchou. Foi assim que
as grandes plataformas digitais “redefiniram” a condição de assalariamento,
milagrosamente convertido em empreendedorismo.
Um
aparente paradoxo aflorou: em plena era dos algoritmos, Inteligência
artificial, ChatGPT, Big Data etc., o capitalismo do século XXI vem recuperando
formas pretéritas de exploração, expropriação e espoliação do trabalho que
foram vigentes nos séculos XVIII e XIX. O crowdsourcing, por exemplo, tão
cultuado hoje, é a variante digital e algorítmica do velho outsourcing, vigente
durante parte da Revolução Industrial, onde homens, mulheres e crianças
trabalhavam em suas casas ou em espaços fora das fábricas, desprovidos de
qualquer legislação do trabalho. Nos defrontamos, então, atualmente, com um
novo espectro rondando o mundo do trabalho: a epidemia da uberização.
Mas não
parou aí o tamanho do problema. Um outro movimento tornou o trabalho ainda mais
vulnerável: o advento da Indústria 4.0, que foi criada para potencializar a
automação, digitalização, a internet das coisas (IoT) e a Inteligência
artificial. Seu objetivo precípuo: reduzir trabalho humano, introduzindo mais
máquinas digitais, robôs, ChatGPT etc., que passaram a se esparramar nas novas
cadeias produtivas de mais-valia.
O que
estamos vendo hoje, com a Inteligência artificial calibrada pelos capitais
financeiros, já apresenta resultados catastróficos para a classe trabalhadora.
Se sabemos que a tecnologia floresceu junto com o primeiro microcosmo familiar,
é imperioso reconhecer que a tecnologia atual está sendo prioritariamente
plasmado pelo sistema do capital, que só pensa naquilo: na sua valorização. O
resto é pura balela. Ou alguém conhece uma grande corporação global que ampliou
a Inteligência artificial, reduziu significativamente a jornada de trabalho e
ainda aumentou substantivamente o salário dos trabalhadores/as?
Atam-se,
então, as duas pontas do mesmo processo destrutivo em reação ao trabalho: ao
mesmo tempo em que a Indústria 4.0 elimina uma miríade de atividades
laborativas, as grandes plataformas digitais incorporam essa força sobrante de
trabalho em condições que remetem à protoforma do capitalismo.
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O Brasil no meio do furacão
Primeira
nota: Lula ganhou as eleições de outubro de 2022, depois de um embate eleitoral
árduo. Nos subterrâneos, gestava-se um plano golpista – o “punhal verde e
amarelo” – urdido pelos neofascistas. Mas Lula sagrou-se vitorioso, vale
reiterar, pelo voto majoritário da classe trabalhadora.
Dentre
as propostas que defendeu em sua campanha, uma é essencial: vencendo as
eleições, ele revogaria a (contra)reforma trabalhista de Michel Temer. Aquela
que nos herdou o trabalho intermitente; a prevalência do negociado sobre o
legislado; o desmonte sindical; a forte retração da Justiça do Trabalho; a
perda de direitos das mulheres trabalhadoras etc. Sem falar da Lei da
Terceirização, que eliminou a diferença entre atividade meio e fim e assim
propiciou a liberação geral da terceirização.
Será
que Lula esqueceu dessa proposta?
O que
pode explicar o PLP 12/2024, apresentado pelo governo, em abril deste ano que,
em seu artigo 3º afirma: “o trabalhador que preste o serviço de transporte
remunerado privado individual de passageiros em veículo automotor de quatro
rodas […] será considerado, para fins trabalhistas, trabalhador autônomo”.
Autônomo?
Como assim? Desconsiderando as pesquisas acadêmicas sérias, feitas sem recurso
financeiro das plataformas? Desconhecendo a Diretiva da União Europeia, recém
aprovada pelos 27 Estados-membros da região, que parte da presunção do vínculo
empregatício e indica também a necessidade imperiosa de controlar os
algoritmos, programados para beneficiar exclusivamente as grandes plataformas.
Se esse
PLP for aprovado, uma enorme parcela da classe trabalhadora será excluída da
legislação do trabalho. Não terá férias, nem 13º. salário, descanso semanal,
FGTS, nenhum direito para as mulheres e ainda verá liberada uma jornada
(ilegal) de até 12 horas por dia, por plataforma. Se for aprovada, a porteira
vai se escancarar de vez… E a conta vai sobrar para a história do Lula.
Segunda
nota: As eleições municipais desse ano, se estão entre as mais negativas da
história recente, ao menos ofereceram um lampejo crucial, ao tematizar
vivamente a questão da jornada de trabalho (escala 6×1). Tema que tem sido
tergiversado até mesmo pelas esquerdas dominantes, que se curvam às benesses do
embuste do falso empreendedorismo.
Daí a
louvável exceção de um jovem trabalhador do comércio no Rio de Janeiro, que fez
sua campanha, pelo PSol, centrada na jornada de trabalho, apontando para a
exploração do trabalho presente na escala 6×1. Ao tornar este tema eixo de sua
campanha eleitoral, questões vitais foram afrontadas: tempo extenuante de
trabalho, intensidade da exploração, que impede que essa geração de
trabalhadores/as possa dispor de um mínimo de vida dotada de sentido fora do
trabalho.
A
alternativa: a jornada 4×3, quatro dias de labuta dura, e três de descanso,
então, emplacou em cheio. Enquanto outros, aqui e alhures, mostravam-se
maravilhados com o falso empreendedorismo. E, ao aflorar uma das questões mais
vitais do mundo do trabalho, jogou para o debate público uma real tragédia
cotidiana do trabalho.
Trabalhar,
trabalhar, sem chance de estudar, sociabilizar, descansar, sem a possibilidade
de viver um tempo maior fora da exaustão do trabalho. Isso porque a jornada 6×1
significa laborar em geral, cinco dias de trabalho, com oito horas cada, mais
um dia de ao menos quatro horas, para totalizar 44 horas semanais (que é a
jornada legal no Brasil). Que frequentemente se converte em 48 horas,
especialmente nos serviços do comércio, hotelaria, bares, restaurantes,
shoppings, etc., onde a burla é muito frequente e muitos sindicatos carecem de
força social ou ter perfil mais patronal. Sem esquecer as jornadas ilimitadas
presentes no trabalho motoristas e entregadores uberizados.
Pior
que o 6×1, ao menos para quem gosta de futebol, só mesmo o 7×1.
Uma
última nota: Nestes tempos de trabalho digital, algoritmos, Inteligência
artificial e assemelhados, está surgindo um novo espectro que ronda o mundo do
trabalho. Trata-se do espectro da uberização. Como impedir essa tragédia?
Esse é
o maior desafio da classe-que-vive-do-trabalho. E há um elemento novo e quase
sempre desconsiderado no cenário social global: ao mesmo tempo em que a classe
trabalhadora se mostra ainda mais heterogênea em seu mosaico laborativo, está
em curso também uma forte homogeização em suas condições de trabalho, uma vez
que a precarização estrutural do trabalho é uma tendência global, diminuindo em
alguma medida as diferenças entre Norte e Sul. Basta pensar no trabalho
imigrante global.
Fonte,
portanto, de novas ações e lutas da classe trabalhadora, base social
imprescindível para que se possa reinventar um novo modo de vida.
Fonte:
IHU

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