segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

A 'pobreza' repentina que faz com que milhões de pessoas nos EUA dependam de ajuda para não passar fome

Ilona Biskup sentiu vergonha na primeira vez em que visitou um banco de alimentos em Miami, no Estado americano da Flórida. Ela passou 32 anos trabalhando, pagando impostos e economizando para sua aposentadoria. E conseguiu comprar um apartamento em frente à praia com suas economias. Agora, ela se pergunta por que precisa de ajuda para ter o que comer.

Há quatro meses, Biskup visitou pela primeira vez o maior banco de alimentos do sul do Estado, o Feeding South Florida. A organização abastece gratuitamente a despensa de 25% dos moradores da região que não conseguem custear suas necessidades alimentares. Para poder ficar em frente às prateleiras repletas de produtos que ela, talvez, não teria comprado, Biskup precisou pedir ajuda pela primeira vez aos 62 anos, por necessidade. "Depois de ter tido tanto sucesso, agora dependo de comida grátis", declarou ela, do seu apartamento em Miami Beach, com vista de 180 graus: à direita, a cidade e, à esquerda, o mar. "Nunca pensei que, depois de trabalhar tanto, acabaria dependendo do governo", lamenta Biskup. Sua pensão por invalidez só cobre os custos de moradia e de serviços.

Biskup recebe US$ 2 mil (cerca de R$ 10,7 mil) da previdência social americana. Este nível de renda a coloca acima da linha da pobreza nos Estados Unidos, hoje em US$ 15,65 mil (R$ 83,5 mil por ano, ou cerca de R$ 7 mil por mês), segundo o Departamento de Saúde e Serviços Humanos do país. Embora seja dona da sua casa e do seu carro, o valor da pensão não chega para comer. Este empobrecimento repentino tem sua origem em eventos inesperados que consumiram seu patrimônio. Dois tratamentos contra o câncer esgotaram suas economias e o recente diagnóstico de Parkinson a obriga a recorrer ao dinheiro da aposentadoria.

<><> Problema estrutural

Biskup pertence a um amplo setor da população americana, que enfrenta dificuldades econômicas no seu dia a dia e acaba em situação extremamente vulnerável, quando surge um contratempo financeiro. Um estudo liderado pelo sociólogo Mark Rank demonstrou que quase 60% dos americanos adultos viverão pelo menos um ano abaixo da linha da pobreza e 75% vivenciarão pobreza ou uma situação parecida.

"Basicamente, existem três caminhos rumo à pobreza nos Estados Unidos: perder o emprego, uma emergência de saúde ou a separação das famílias", explica Rank, que é professor da Faculdade de Trabalho Social da Universidade Washington em San Luis, no Estado americano de Missouri. "É um problema estrutural, que se deve principalmente a dois fatores: sua rede de previdência social muito fraca, que não consegue impedir que as pessoas caiam na pobreza, e a criação de empregos com baixa remuneração e sem subsídios. Rank defende que esta combinação transformou os Estados Unidos em um dos países com os mais altos índices de pobreza, entre as nações industrializadas.

Em uma pesquisa do centro de estudos Pew Research Center, publicada em maio deste ano, 27% dos americanos declararam ter enfrentado problemas para pagar pela assistência médica, própria ou de sua família, no último ano.

E pelo menos 20% das pessoas precisaram recorrer a um banco de alimentos no mesmo período. As pesquisadoras Kim Parker e Luona Lin afirmam que 68% dos adultos afro-americanos e 67% dos adultos hispano-americanos admitem não dispor de fundo de reserva para emergências, da mesma forma que 44% dos adultos brancos.

Outra pesquisa realizada pelo Conselho Nacional para o Envelhecimento (NCOA, na sigla em inglês) e pelo centro de estudos LeadingAge LTSS, da Universidade de Massachusetts em Boston, nos Estados Unidos, revelou que os idosos com menos recursos econômicos morrem, em média, nove anos antes dos que contam com maior patrimônio. "É alarmante e inaceitável que, nos Estados Unidos, em 2025, a pobreza roube quase uma década de vida dos idosos", declarou o presidente e diretor-executivo do NCOA, Ramsey Alwin.

Rank alerta que o impacto da pobreza se agrava devido aos prejuízos sociais que a rodeiam. "Nos Estados Unidos, costumamos observar a pobreza do ponto de vista da culpabilização", relata ele. "Se você for pobre, as pessoas se perguntam: por que não se esforçou o suficiente? O que você fez de errado?" Na sua opinião, esta perspectiva leva à conclusão de que a pobreza "é problema seu, não meu". "Em um país tão rico como os Estados Unidos, esta é uma injustiça social e econômica. Mas é uma mentalidade diferente da nossa."

<><> 'Não consegui me recuperar mentalmente'

Biskup nasceu na Polônia e é cidadã americana. Ela fez carreira como comissária de bordo nas companhias aéreas Pan Am e Delta Airlines. Biskup preferia trabalhar em voos de mais de 10 horas de duração, para maximizar sua remuneração. "Eu sempre tratava os passageiros dentro do avião como se estivessem em casa", relembra ela.

Sobre sua mesa da sala de estar, ela abre suas "asas", os distintivos que levam seu nome e que ela costumava inserir na lapela do uniforme, quando prestava serviços aos passageiros.

Biskup se casou com um piloto do Estado americano do Colorado e passou anos rodeada pelas frias montanhas de Denver. Mas, depois do divórcio, sua mudança para perto do mar, em Miami, ofereceu a ela a oportunidade de construir uma nova vida própria. "Comecei a procurar lugares que pudesse apreciar", afirma ela. "Eu queria simplesmente encontrar um local novo para fechar de alguma forma esta etapa da minha vida."

Em 2014, Biskup foi diagnosticada com câncer de seio. Seu seguro cobriu as cirurgias e tratamentos, mas a nova condição médica desencadeou gastos inesperados. "Por um ano, fui submetida a quimioterapia e radioterapia. Depois, tive uma cirurgia que durou 12 horas, uma mastectomia dupla com dupla reconstrução", conta ela, uma década depois. "Eu tinha os melhores médicos e acreditava que ficaria bem, mas, depois da cirurgia, meu cérebro se rendeu e entrou em colapso. Eu diria que, durante um ano e meio, não consegui me recuperar mentalmente."

Em 2019, seu médico detectou o início de um segundo tumor, desta vez no pâncreas. Ela passou por uma cirurgia para retirar as regiões afetadas, conhecida como procedimento de Whipple, que também se prolongou por horas a fio. "Depois destes eventos, esgotei minhas economias com o câncer", relembra Biskup.

O segundo tumor também foi eliminado, mas ela se sentia fraca demais para trabalhar. E as faturas do seguro e dos gastos cobertos do próprio bolso revelam que ela pagou centenas de milhares de dólares para recuperar sua saúde física e mental.

Em meio aos lockdowns da pandemia de covid-19, Biskup aceitou o pacote de aposentadoria oferecido pela Delta. Mas a decisão a levou a abandonar seu emprego aos 60 anos de idade, quando ainda esperava se manter profissionalmente ativa. "Sempre tento ver o lado positivo de tudo o que vivencio, mas foi triste que a minha aposentadoria acontecesse desta forma", lamenta ela.

Nos últimos três anos, Biskup mudou sua alimentação e se refugiou no mar. Foi quando sua mão direita começou a tremer. Às vezes, ela estava firme, às vezes ficava lenta. Inicialmente, ela atribuiu os sintomas às cirurgias para retirar o tecido mamário, mas, há seis meses, seu médico confirmou que o temor e a rigidez são causados pelo mal de Parkinson.

<><> Comer com o SNAP

Biskup faz parte dos 42 milhões de americanos que se beneficiam do Programa de Assistência Nutricional Suplementar (SNAP, na sigla em inglês), o plano de assistência alimentar mais importante dos Estados Unidos, similar ao Bolsa Família no Brasil. Os beneficiários do SNAP recebem mensalmente, em média, US$ 187 (cerca de R$ 1 mil), mas esta ajuda pode variar segundo as condições do solicitante. Biskup, por exemplo, recebe US$ 225 (cerca de R$ 1,2 mil) por mês.

Para entrar no programa, o governo federal americano exige que a pessoa trabalhe pelo menos 30 horas semanais, a menos que seja estudante, cuide de uma pessoa com incapacidade ou de uma criança com menos de seis anos O SNAP também inclui pessoas que recebem tratamentos por alcoolismo ou dependência de drogas, ou que têm limitações mentais ou físicas, como no caso de Biskup. O programa atende um a cada oito cidadãos americanos.

Mas, em meio ao recente fechamento do governo federal, que durou 43 dias (o mais longo da história do país), o governo do presidente americano Donald Trump ordenou a suspensão dos pagamentos do SNAP no mês de novembro.

Um juiz do Estado americano de Rhode Island decidiu contra a medida, ordenando que o governo agilizasse os depósitos. Mas a Suprema Corte validou o congelamento do programa por parte de Trump, dias antes da reabertura do governo.

À espera de um novo depósito no seu cartão do SNAP, Biskup visitou a despensa do Feeding South Florida para completar sua alimentação com 10 produtos frescos e 10 embalados ou em lata, que é a quantidade que ela poderia levar.

Ela pegou bananas, tomates, abobrinhas, pepinos e milho, além de arroz, macarrão, sopa, cereais, ervilhas, molhos e biscoitos. Biskup escaneou as informações nutricionais dos produtos com um aplicativo que avalia a qualidade dos alimentos. Desde que se recuperou do câncer, ela observa com atenção o que come para evitar recaídas de saúde. "Estou agradecida por receber esta ajuda", declarou ela.

<><> O banco de alimentos

Ao longo dos seus 25 anos na organização, o presidente do Feeding South Florida, Paco Vélez, presenciou emergências causadas por furacões, crises econômicas e, é claro, a pandemia de coronavírus.

Ele garante que a suspensão do programa SNAP fez disparar a quantidade de pessoas que solicitam produtos gratuitos da despensa do Feeding South Florida. "As famílias têm medo e não sabem como irão pagar não só pela comida, mas por tudo", afirma Vélez.

Os preços dos alimentos aumentaram em 2,7% nos 12 meses anteriores a setembro deste ano. Os aumentos foram significativamente maiores para produtos como o café (18,9%), carne moída (12,9%) e banana (6,9%).

Este aumento ocorreu em meio a medidas como as tarifas de importação e a perseguição de imigrantes sem documentos que trabalham na agricultura, o que encareceu a produção agrícola de alimentos, explicou o especialista em economia alimentar David Ortega à BBC Verify.

Famílias numerosas de baixa renda, veteranos das Forças Armadas, mães e pais solteiros e pessoas com incapacidade, como Biskup, são alguns dos perfis das pessoas que recorrem ao Feeding South Florida.

"Nos condados do sul da Flórida, mais de 967 mil pessoas dependem deste tipo de ajuda", alerta Vélez.

Em meio aos atrasos administrativos no pagamento do SNAP, a afluência de beneficiários se mantém, segundo a chefe de pessoal da organização, Jessica Benites.

"No início deste ano, observamos mais ou menos 40 famílias por dia", ela conta. "No início de outubro, quando fechou o governo, o número duplicou."

Durante a primeira semana de novembro, quando Biskup visitou a despensa, eles receberam em média 120 famílias por dia, segundo Benites.

Os alimentos são doados por produtores agrícolas e supermercados. Em uma parede, ficam os cheques que mostram alguns dos donativos recebidos pela instituição, variando entre US$ 3 mil e US$ 380 mil (cerca de R$ 16 mil a R$ 2 milhões). Eles vêm de empresas distribuidoras de alimentos até fabricantes de automóveis.

O governo federal já retomou suas atividades, mas as pessoas que cuidam do banco de alimentos se preparam para ampliar seus horários, com voluntários que comparecem toda semana para verificar a qualidade dos produtos e organizar os alimentos na despensa.

Com os últimos depósitos do SNAP, Biskup fez compras em uma cadeia de atacadistas. Ela comprou produtos em quantidades que normalmente não compraria, se não se sentisse obrigada a maximizar o rendimento da ajuda.

Ela também visita um centro comunitário em Miami Beach, onde almoça de graça depois de praticar Tai Chi ou Qi Gong, que a ajudam a exercitar a serenidade para enfrentar a perda de controle dos movimentos causada pelo mal de Parkinson.

Biskup afirma estar decidida a lutar para manter o nível de vida para o qual sempre trabalhou, embora precise ajustar seus hábitos de consumo e suas rotinas.

"Este apartamento é o meu refúgio, o lugar onde me recuperei de câncer duas vezes e onde espero viver tudo o que o Parkinson irá trazer", declarou ela, da sacada do seu apartamento. "Farei todo o possível para continuar vivendo perto do mar."

¨      Escultura, Rolex e até avião: magnatas pagam cada vez mais caro por uma “mãozinha” de Trump

Recomendações para uma visita à Casa Branca: chegar com presentes como barras de ouro, relógios, um avião… assegurar que durante a visita as estadias sejam em hotéis com o nome do anfitrião e/ou investir em criptomoedas da primeira família… e, certamente, não mencionar coisas como suas relações com um famoso pedófilo.

Tudo isso é parte dos custos de fazer negócios com o regime em Washington. E funciona. No início deste mês, os suíços enviaram uma delegação de empresários com vários presentes, incluindo uma barra de ouro de um quilo personalizada com os números 45 e 47 — em referência às duas presidências de Trump e avaliadas em 130 mil dólares — e um relógio de mesa especial Rolex. Os presentes foram aceitos por Trump em nome de sua biblioteca presidencial, o que os torna aparentemente legais (enquanto, por lei, ele e todo funcionário federal são proibidos de aceitar presentes cujo valor supere 480 dólares). Pouco depois da visita, o mandatário reduziu as tarifas que havia imposto sobre a Suíça.

Não foi um caso especial nem novo para o ocupante da Casa Branca, lembra o portal Axios, já que, segundo uma investigação do Congresso, Trump e sua família não reportaram pelo menos 117 presentes de estrangeiros recebidos durante seu primeiro mandato, e cujos valores juntos são de aproximadamente 291 mil dólares.

Em seu retorno à Casa Branca, a diferença é que agora os presentes são cada vez mais luxuosos. Entre os mais generosos está o de maio, da família real do Catar: um avião presidencial no valor de 400 milhões de dólares.

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E não são apenas estrangeiros que o agraciam. O executivo-chefe da Apple, Tim Cook, lhe deu um emblema de sua empresa em vidro sobre uma base de puro ouro, e tanto sua companhia quanto várias outras (incluindo Meta, Amazon, Microsoft, mais 33 empresas e até cidadãos) estão patrocinando com mais de 300 milhões de dólares o grande salão de baile que Trump está construindo na Casa Branca.

Também são aceitos investimentos nas criptomoedas administradas pela família do presidente estadunidense. As aplicações de especuladores estrangeiros já multiplicaram os ganhos da empresa familiar, a Trump Organization, para 864 milhões de dólares até meados deste ano, segundo a Reuters. Alguns calculam que a família Trump agregou 5 bilhões de dólares às suas fortunas pessoais apenas nos primeiros sete meses de sua presidência, o que a organização Public Citizen classificou como “o maior caso de corrupção na história presidencial”.

A vaidade acompanha o negócio, como sempre aconteceu com esta “primeira-família”, onde toda propriedade, hotel, clube de golfe, leva seu nome. Mas agora, desde a presidência, há propostas para nomear sedes e produtos oficiais — do salão de baile em construção ao velho Centro Kennedy — com o nome presidencial. Uma moeda oficial proposta para comemorar o 250º aniversário leva a imagem de Trump em ambos os lados — perde o significado, assim, a frase “dois lados da mesma moeda”, assim como será impossível usar o termo “cara ou coroa”.

No entanto, todo esse negócio poderia ser colocado em xeque se a crise do falecido Jeffrey Epstein continuar explodindo e expondo a relação de Trump com o famoso pedófilo e amigo de ricos e famosos — o ex-príncipe Andrew já teve que pagar sua parte da conta. Em novas mensagens divulgadas, Epstein afirma que Trump “sabia das garotas”. Até agora, o republicano não conseguiu escapar do problema, o que inclusive está provocando fissuras entre suas bases e aliados.

Por essa razão, em parte, especula-se abertamente que o quase Prêmio Nobel talvez precise da nova Nobel da Paz, Corina Machado, para provocar uma guerra no Caribe. Assim, o sangue de cidadãos venezuelanos poderia distrair a comunidade nacional e internacional do problema pessoal que envolve Trump.

De fato, são necessárias distrações: Trump permanece em seu ponto mais baixo nas pesquisas, com apenas 41% de aprovação e 55% de desaprovação. Em um recente levantamento da NBC, 30% afirmam que apoiam o movimento MAGA, enquanto 43% agora apoiam a campanha de opositores sob o lema “Não aos Reis”.

<><> “Salvar a América”: por que imigrantes e socialistas são uma ameaça aos EUA?

Parece que o país mais poderoso do mundo, agora encabeçado por um governo que pretende ser um “valentão”, tem medo de tudo, especialmente de estrangeiros de “cor”, de regimes que não são obedientes — e, portanto, “narco-terroristas” —, assim como desse outro espectro que parece ter ressuscitado: o “socialismo”.

“Proteger a América de estrangeiros criminosos. Proteja sua pátria e defenda sua cultura”, convida o Departamento de Segurança Interna em um anúncio que mostra como o governo está intensificando o recrutamento de agentes. Em outro chamado, aparece a imagem do Tio Sam declarando: “A América precisa de você. A América foi invadida por criminosos e predadores. Precisamos de você para expulsá-los.”

Inclusive, a ameaça é tão grave que requer até citações bíblicas, enquanto se mostram agentes federais armados em filmagens em preto e branco, tudo acompanhado de uma trilha sonora tipo country, rezando pelas forças necessárias para defender o país — tudo parte de um novo vídeo de recrutamento para o Serviço de Imigração e Controle Aduaneiro (ICE, na sigla inglês) do Departamento de Segurança Interna. Se alguém pensava que havia sido alcançada a separação entre Estado e Igreja, se enganou: para este governo, Deus quer agentes armados caçando Jesus e Maria, entre outros imigrantes e refugiados.

Enquanto isso, os países desobedientes a Washington e de onde provêm esses “invasores” são acusados de outra ameaça aos Estados Unidos: envenenar os muito saudáveis e inocentes estadunidenses. O agora chamado Departamento de Guerra (nome mais preciso que o anterior, “de Defesa”, já que o país tem realizado mais guerras do que qualquer outro nas últimas décadas) está movimentando porta-aviões, navios de guerra, aviões de caça, mais de 15 mil tropas, helicópteros, junto a forças encobertas no Caribe, em uma missão oficial cuja função parece mudar diariamente: combater as drogas, retomar a Doutrina Monroe ou até mesmo mudar o regime na Venezuela.

Além da invasão de imigrantes e de países desobedientes que exportam “drogas”, há um inimigo interno que não deixa de assustar: o “socialismo”. A preocupação é tamanha que a grande maioria da Câmara de Representantes (incluindo o líder democrata e dezenas de seus partidários) teve que se proclamar contra o socialismo, pouco antes de Zhoran Mamdani — um perigoso socialista democrático e prefeito eleito de Nova York — chegar para visitar o presidente. A resolução legislativa aprovada se chama “Denunciando os horrores do socialismo” e conclui afirmando que os Estados Unidos foram fundados sobre a “santidade do indivíduo”, oposta ao “sistema coletivista do socialismo” e, portanto, “o Congresso denuncia o socialismo em todas as suas formas e se opõe à implementação de políticas socialistas nos Estados Unidos”.

Pouco depois, a bancada republicana da Câmara Baixa difundiu pelas redes sociais uma imagem de uma águia com a foice e o martelo em suas garras, com o lema: “Resista ao socialismo. Salve a América.”

Talvez tenham razão sobre todas essas ameaças. O socialismo é visto favoravelmente por uma maioria dos jovens e dos democratas, segundo sondagens recentes. E o triunfo de Mamdani na maior cidade do país confirma os temores da direita. Além disso, este é literalmente um país construído e transformado por imigrantes, desde os seus primeiros dias até hoje. Às vezes, as duas coisas se misturam: ideias “radicais” como os direitos à educação, à saúde e a um trabalho digno para todo trabalhador e suas famílias são fruto de imigrantes que as “importam” para os EUA. Na semana passada, por exemplo, foi comemorado o aniversário da morte de Ricardo Flores Magón em uma prisão estadunidense, como também o do grande organizador trabalhista imigrante Joe Hill — ambos anarcossindicalistas, rebeldes e “perigosos”. Assustam (alguns estadunidenses) até hoje.

 

Fonte: BBC News Mundo/Opera Mundi

 

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