segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Reimont Otoni: Prisão de Bolsonaro dá voz aos mortos da Covid e da ditadura

Jair Bolsonaro está preso preventivamente pelos crimes de atentado contra a democracia, tentativa de golpe e correlatos. Violou as normas da prisão domiciliar, tentou romper a tornozeleira eletrônica, mentiu ao alegar surto paranóico. Praticou e pratica golpe em cima de golpe, dos maiores e mais torpes aos pequenos golpes cotidianos para burlar a Justiça. Por isso, o STF confirmou a prisão preventiva de onde só sairá para começar a cumprir os 27 anos e três meses da pena por atuar contra o Estado Democrático de Direito, provavelmente em um presídio.

A prisão de Bolsonaro está relacionada à tentativa de golpe de estado, Mas, o que vejo nas ruas e nas redes, é também a catarse de sobreviventes e de familiares de vítimas da ditadura de 1964, é a catarse de sobreviventes e de familiares dos 700 mil mortos da covid-19. Não é vingança, mas o alívio por uma Justiça começando a se manifestar.

Ninguém encarnou e encarna tão à perfeição os porões da ditadura e a exaltação à tortura como Bolsonaro. Nenhum aplicou, nos atos do governo, a psicopatia dos algozes como ele. Em cada momento que debochou, ironizou e desprezou as vítimas da covid, na recusa em adquirir vacinas, Bolsonaro expressou a mente doentia de criminosos como Brilhante Ustra, Freddie Perdigão Pereira, Sergio Fleury e tantos outros da lista de 232 torturadores identificados pela Comissão da Verdade. 

O hoje preso e inelegível Jair usou a tortura como método de gestão do país, em total desprezo pela vida humana. Ele é um psicopata, não um psicótico. Para justificar o crime de tentar romper a tornozeleira eletrônica, que o levou à prisão preventiva, alega confusão mental e alucinações típicas de um surto paranóico. Mente mais uma vez, debocha.

A tornozeleira foi queimada, com precisão e firmeza, em todos os lados, meticulosamente. O procedimento já é extremamente difícil para uma pessoa em estado de equilíbrio, porque exige manobras demoradas e quase impossíveis para um homem de 70 anos, sedentário, com adiposidade no abdômen. Além disso, o equipamento de solda produz calor extremo, não dá para suportar sem uma proteção adequada.

Agora, imaginem para uma pessoa em surto paranóico, que os especialistas chamam de DESORGANIZADA. A pessoa tem medo, treme, grita, quebra coisas, fica fora de controle, as pernas e mãos se agitam. Como iria realizar os movimentos sem se queimar uma única vez, sem o mais leve ferimento?

Bolsonaro estava consciente e duvido que estivesse só. Como esteve consciente e ao lado de cúmplices e financiadores de todos os seus atos na Presidência da República.

A maioria dos crimes dessa horda fascista ainda espera processo, como é o caso da omissão e dos atos genocidas na epidemia da covid-19. Mas o primeiro passo está dado.

A extrema direita e o centrão já avisam que irão novamente pautar a anistia para os conspiradores, com o único e firme propósito de livrar Jair Bolsonaro da Justiça. Precisamos de todas as forças para impedir. Vamos pras ruas e redes!

•        O mal no vaso sanitário da história. Por Sara Goes

Na manhã de 17 de maio de 2013, Jorge Rafael Videla, o "senhor da vida e da morte" da Argentina, encerrou sua biografia sob o frio seco e cortante de uma massa de ar polar que havia tomado a província de Buenos Aires. Na capital, os termômetros marcavam 3 graus. Em Marcos Paz, onde o presídio Federal de segurança máxima recebia Videla desde 2010 para o cumprimento da pena de prisão perpétua, o vento do descampado reduzia a sensação térmica a quase zero. A chuva, que tantas vezes serve de metáfora para purgações históricas, só caiu no dia seguinte. Videla morreu na secura de uma manhã gelada e limpa, sem lágrimas do céu e sem qualquer gesto simbólico da natureza.

Há uma simetria pedagógica entre o fim do ditador argentino e o ocaso carcerário de Jair Bolsonaro neste final de semana. Ambos acreditaram na própria eternidade e na impunidade como atributos naturais. Videla morreu sentado no vaso sanitário de sua cela, vítima de uma queda de pressão seguida de parada cardíaca, às 8 e 25 da manhã. Bolsonaro, diante da execução penal iminente de 27 anos, tentou transformar vigílias de oração em biombo para uma tentativa de fuga frustrada. O que une essas figuras não é apenas a ideologia, mas a redução final à burocracia penal, onde não há mitos, apenas prontuários.

O processo de desidratação do poder autoritário segue roteiro conhecido: Videla perdeu as patentes e os privilégios e terminou como o Preso 39.444, administrado pelo mesmo Estado que tentou destruir. A conversão da prisão domiciliar de Bolsonaro em preventiva opera na mesma lógica de desencantamento. O Tribunal não apenas determinou a custódia, mas desmontou a logística do tumulto. A Sala de Estado onde Bolsonaro permanece preserva sua integridade física, mas o coloca no corredor do esquecimento político.

A tentativa de fuga de Bolsonaro, registrada pelo rompimento do lacre da tornozeleira à meia-noite e oito de um sábado, foi o gesto desesperado de quem percebeu que o script do golpe havia falhado. Videla escorregou dias antes de morrer, fragilizado pela idade e pelas hemorragias internas. Bolsonaro escorregou na própria arrogância ao subestimar o monitoramento eletrônico. Em ambos os casos, técnica e biologia impuseram limites que a retórica jamais poderia superar.

A solidão é o destino final de quem aposta no terror de Estado. Videla morreu isolado, repudiado pela própria cidade natal cujos moradores protestaram para impedir seu sepultamento. O corpo vagou dias pelo necrotério até ser enterrado clandestinamente sob uma lápide sem nome. Bolsonaro, por sua vez, vê sua prisão preventiva paralisar o Partido Liberal e empurrar aliados a buscar novos nomes para 2026 com velocidade quase voraz, embora essa busca seja minada pelo próprio preso, que envia recados, vetos e instruções, interditando o surgimento de qualquer sucessor que não o coloque no centro do tabuleiro. Sua recusa em permitir que alguém cresça politicamente, inclusive em sua família, o condena a um isolamento mais profundo, pois destrói as próprias alternativas que poderiam sustentar sua facção após sua queda.

É nesse isolamento que a simetria com Videla se adensa. O destino tem imaginação mórbida para punir quem acreditou estar acima das leis. Videla terminou numa latrina, reduzido a uma imagem que desmontou décadas de delírio militar. Bolsonaro, cuja biografia política sempre tentou mascarar a degradação do próprio corpo, caminha para um desfecho que pode rimar literalmente com o do argentino ou permanecer como metáfora de sua ruína. Se for literal, a história apenas confirmará o que os boletins médicos jamais admitiram voluntariamente: que as obstruções, os soluços, as estenoses e o vômito fecaloide não eram teatro, mas sintomas reais, supostamente agravados pela violência tosca empregada na tentativa de romper a tornozeleira. A fisiologia sempre foi sua testemunha menos fiel, mas a mais implacável. E se o fim vier como metáfora, será a representação perfeita da justiça divina, que às vezes opera com humor cruel, devolvendo à terra não o mito, mas o corpo que ele tentou elevar à condição de assombração nacional.

A família Bolsonaro tenta agora a cartada humanitária, alegando que soluços, problemas gástricos e o ambiente prisional ameaçam a vida do patriarca. É o mesmo repertório dos repressores argentinos, que por anos solicitaram benefícios etários. A justiça, quando enfim responde, sabe que idade não diminui responsabilidade. A Argentina negou a Videla honras fúnebres e o enterrou sem nome para evitar profanações. O Brasil, ao rejeitar embargos e preparar a execução da pena de Bolsonaro, também sinaliza que não haverá clemência institucional para golpistas.

Bolsonaro, detido para garantir a ordem pública, caminha para se tornar a evidência de que a democracia brasileira produz finalmente anticorpos contra o autoritarismo. Celebramos a restituição da normalidade, em que crimes cometidos em porões ou gabinetes encontram sua resposta legal. O fim biológico de Videla foi miserável. O fim político de Bolsonaro, selado naquela manhã de sábado, reafirma que o Nunca Más pode ser finalmente um política de Estado no Brasil.

•        Antônio Carlos Queiroz: Condenado ao ustracismo!

Tirante o frufru do vaivém usual dos fantasmas da pandemia, a noite de 21 de novembro, sexta, aniversário do Voltaire, estava calma na Quadra II do Solar de Brasília no Jardim Botânico. Seu Jair, entrementes, quer dizer, nas saliências do cérebro, estava com os nervos em pandarecos. Ouvia vozes saindo da tornozeleira, e supunha que isso fosse mais uma maldade do Xandão para desestabilizá-lo.

– Quem tá falando aí?

– Agustín Fernandez, Don Jair. Doña Mitchelle pregunta si está todo bien.

– Bem, o caralho! Cadê essa baranga dos infernos que não para em casa?

– Pero, Don Jair… Usted ya sabe que ella está acá en mi casa en vigilia de oración…

– Oração, oração, eu quero é meu passaporte pra ir pra Telavive, Budapeste ou até pra Casa do Caralho. Quando é que vai rolar a promessa do Versículo 32 do Capítulo 8?

– Cróin… beuerrrr…. brauuuu… Vruuuuum…

– Michelle? Falando em línguas outra vez?

Não era a Michelle. Era um jamming pavoroso interrompendo a comunicação. Seu Jair deu um tapa na tornozeleira, a coisa parou de chiar, e logo depois surgiu nova voz ainda mais esganiçada que a do maquiador uruguaio:

– Capitão, aqui é o Ustra!

– Mestre, bato continência!

– Ok, Ok, eu preciso lhe transmitir um recado urgente do meu superior, o marechal Malacoda, aqui dos Quintos.

– Perfeito, coronel! Sou todo ouvidos!

– Diz aqui o marechal que está na hora de você desistir. É o fim das quatro linhas. Você acaba de ser condenado ao ostracismo!

– Ustracismo? Mas essa condenação é uma subida honra para mim, coronel!

– Interprete como quiser, capitão! (Entredentes: “Ah, estúpida criatura… Onde fui amarrar minha mula, meu Santo Olavo!”)

– Valeu, meu guru!

– Afffff!

A ligação caiu, o aparelho emudeceu, lá fora caía uma chuva fininha de molhar bobo. Minutos depois a geringonça passou a emitir guinchos, estrilos e soídos. Seu Jair não conseguia compreender mais nada. Ficou jururu, sorumbático e meditabundo. A seguir, eufórico, alvoroçado. “Um soluço cortou sua voz, não lhe deixou falar.”

Curioso, correu até uma gaveta, pegou um ferro de solda e passou a atacar a tornozeleira, arriscando botar fogo na perna.

Meia hora depois chegou a agente da PF Rita Gaio para substituir o dispositivo. O resto da história todo mundo viu na televisão.

 

Fonte: Brasil 247/Outras Palavras

 

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