Faria
Lima quer o dinheiro do crime sem sujar as mãos, diz sociólogo que estuda o PCC
As operações deflagradas pela Polícia
Federal,
Receita Federal e órgãos como o Ministério Público de São Paulo (MPSP) contra o
Primeiro Comando da Capital (PCC) na última semana revelaram uma complexa
estrutura de negócios mantida pelo
grupo no setor de combustíveis.
As
atividades se espalham por todas as etapas da cadeia e chegam inclusive
ao mercado financeiro. São bilhões em
importações ilegais e sonegação de impostos, adulteração de combustíveis, uso
de redes de postos para lavagem de dinheiro e de fundos de investimento para
ocultação de recursos de origem ilícita.
Expostas
nesta quinta-feira (28/8), as engrenagens do esquema reiteram uma
característica do crime organizado neste século 21 já bem conhecida por quem
pesquisa esse tema: a atuação simultânea nas economias legais e ilegais.
É o que
aponta o sociólogo Gabriel Feltran, diretor de pesquisa no Centre National de
la Recherche Scientifique (CNRS) e professor titular da Sciences Po, em Paris.
Ele é autor de Irmãos: Uma História do PCC e nos últimos anos
tem estudado os mercados ilegais transnacionais entre Américas, Europa e
África.
Em
entrevista à BBC News Brasil, Feltran diz que a presença do PCC em fundos
e fintechs da Faria Lima não o surpreendeu.
Ele
questiona, contudo, a concepção de que o crime organizado se infiltrou no
centro financeiro de São Paulo, ideia repetida pela subsecretária da Receita
Federal, Andrea Costa Chaves, ao detalhar a investigação.
"Não
sei bem quem está 'se infiltrando'. Será que não são os faria limers,
políticos e outros os que querem se infiltrar, para se apropriar da economia
bilionária dos mercados ilícitos?", argumenta Feltran.
"O
mercado financeiro quer esse dinheiro criminal, ativamente, e pensa como fazer
para tê-lo sem sujar as mãos", ele acrescenta.
Feltran
também desafia a ideia de que a operação da última semana chegou ao "andar
de cima" do PCC, como expressou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
"Quando
caem os operadores, a facção cai junto? Ou ela os substitui? Até hoje, ela os
tem substituído facilmente, da mesma forma como um aplicativo substitui seus
entregadores ou motoristas", ressalta o pesquisador.
Leia, a
seguir, a entrevista.
·
Qual o alcance dessa operação da PF? Ela atinge de fato o
"andar de cima" do PCC ou está mais voltada a operadores e
intermediários?
Gabriel
Feltran - Em
2020, houve uma operação da PF muito similar, chamada "Rei do Crime".
Antes, houve operações também muito grandes contra o PCC, dezenas. A concepção
é correta do ponto de vista policial: investigação, análise das redes criminais
e ação interinstitucional. Mas o fato é que o PCC não mostrou sinais de fadiga
depois delas e, ao contrário, continuou crescendo.
Não há
passe de mágica: a operação tem 200 mandados de prisão, o PCC tem dezenas de
milhares de integrantes, milhões de operadores contratados para atividades
intermediárias.
Os
valores operados já eram bilionários em 2020, agora são ainda maiores. Qual é o
aprendizado que retiramos dessas experiências? O primeiro é sobre que PCC é
esse que as operações enfrentam. Será que o PCC funciona nessa estrutura de
"andares", centralizando todo o dinheiro no topo, como vende a
narrativa policial-jornalística? Ou foi se constituindo numa plataforma de
negócios na qual atuam milhares de empreendedores criminais autônomos, de
diferentes tamanhos e ramos da economia, inclusive legais?
Sabemos
separar, nesse montante identificado, o dinheiro que é dos operadores
individuais e o que é dos caixas da organização? O dinheiro com origem em
negócios legais, dos ilegais? Quando caem os operadores, a facção cai junto? Ou
ela os substitui? Até hoje, ela os tem substituído facilmente, da mesma forma
como um aplicativo substitui seus entregadores ou motoristas. Há que se
conhecer melhor o fenômeno que se "combate".
·
O montante identificado é significativo dentro do
faturamento total do PCC?
Feltran
- Claro.
Estamos falando de R$ 60 bilhões identificados, só nessa operação. A maior
empresa do Brasil – a Petrobrás – lucrou R$ 36 bilhões e faturou R$ 115 bilhões
em 2024. Até hoje se pensa que os mercados ilegais são marginais, a despeito de
todas as evidências de que eles são absolutamente centrais na nossa economia.
Esse dinheiro participa diretamente do nosso PIB.
Empresários
legais sofrem com a concorrência ilegal, claro. Mas do ponto de vista
macroeconômico, a produção de valor ilegal é plenamente apropriada na economia
formal, em muitos países, porque ela também é global.
O
dinheiro identificado nas "contas do PCC" não é apenas de origem
ilegal: as estratégias de ocultação misturam rapidamente dinheiro limpo e sujo.
Tampouco sabemos quanto é da organização, e quanto é de operadores privados que
estão nas redes de negócio da organização.
·
O que o senhor acha da fala da subsecretária da Receita
Federal sobre a "invasão do crime organizado na economia real e no mercado
financeiro"?
Feltran
- Depois
de mais de vinte anos estudando esses temas, acho engraçada essa ideia de
"infiltração". Até porque não sei bem quem está "se
infiltrando". Será que não são os faria limers, políticos e outros os que
querem se infiltrar, para se apropriar da economia bilionária dos mercados
ilícitos?
Porque
vejamos bem: o valor bilionário é produzido ilegalmente, e está chegando aos
grandes fundos financeiros. Monta-se então empresas de intermediação, que fazem
esse dinheiro sujo ter cara limpa para circular como finança. Não há um
movimento ativo, nos mercados formais e financeiros, para capturar esse valor
produzido ilegalmente? As elites não se interessam por essa acumulação?
A
sociologia econômica tem algo a ensinar aqui: dinheiro é sujo ou limpo até
determinada escala. Depois, a sua qualidade é a sua quantidade.
·
A presença do PCC em fundos e fintechs da
Faria Lima, com infiltrados e não apenas empresas de fachada, surpreende o
senhor? Sempre se especulou sobre a ligação do crime com camadas mais altas da
economia — Vieira Souto, Jardins, Faria Lima. Esse envolvimento ainda
surpreende ou já era esperado?
Feltran
- A
integração das economias lícitas nas ilegais não me surpreende nem um pouco, as
conclusões de nossos projetos de pesquisa apontam para isso. Onde há muito
dinheiro, os que gostam de dinheiro vão "crescer o olho". Quando
estudamos a cadeia de valor de carros e autopeças roubados, o interesse de
elites financeiras nesse dinheiro criminal já era evidente, assim também no
caso da cocaína.
Fizemos,
como grupo de pesquisa, algumas entrevistas na Faria Lima, entre 2021 e 2022.
Conversamos com operadores do mercado financeiro sobre como o dinheiro ilegal
chegava ali.
As
conversas começavam assim: "Há muitos controles, é muito difícil ter
dinheiro de origem ilegal aqui". Mas depois de duas horas conversando:
"É, você sabe, tendo muito dinheiro, tudo é possível".
O
mercado financeiro quer esse dinheiro criminal, ativamente, e pensa como fazer
para tê-lo sem sujar as mãos.
·
Como o senhor avalia a complexidade desse esquema?
Movimentações em combustíveis e outros setores "clássicos" já eram
esperadas. Há algo de novo ou surpreendente nesse caso específico? O uso
de fintechs pelo PCC é uma inovação ou apenas adaptação de
práticas já conhecidas de lavagem de dinheiro?
Feltran
- Para
o universo criminal brasileiro, o PCC significou uma enorme inovação, ainda não
compreendida. Os últimos dez anos de expansão internacional são ainda menos
compreendidos.
A
primeira geração de facções, o CV, o "Tudo 2", faz controle
territorial armado e extorsão. O PCC é de uma geração posterior, aposta no
controle de cadeias de valor e usa a violência, quando preciso, nessa direção.
É o
"Tudo 3", outra forma de fazer o crime presente em todos os Estados
do Brasil. Não querem apenas os postos de gasolina, querem controlar a cadeia
toda dos combustíveis, se possível todo o setor. Não é claro isso nessa
operação? Fazem assim em todas as cadeias nas quais atuam. Da produção à
distribuição, passando pela regulação.
Os
mercados ilegais funcionam na forma de ampulhetas. Muitos operadores baixos na
produção, muitos no varejo, mas poucos operadores no centro da cadeia de valor
– os "traders". Ali se concentra o poder sobre a cadeia. Uma miríade
de empreendedores, pequenos e grandes, se relaciona por meio dessa
intermediação, que tem lógica "plataformizada".
No PCC,
a coordenação dessa plataforma não é personalizada, é feita institucionalmente.
Se cair um, há outro que entra no lugar e opera a máquina. Empreendedores
criminais têm seus negócios próprios, mas ninguém pode tocar no dinheiro da
organização. Esses empreendedores reinvestem seus lucros em mercados legais e
ilegais. Então a própria ideia de "lavagem de dinheiro" fica
obsoleta. Não há dinheiro sujo "antes" e uma "lavagem" para
deixá-lo limpo, depois.
Há
esquemas associados entre mercados ilegais e legais, nos quais o dinheiro de
diferentes origens se acumula, de forma muito difícil de detectar.
·
Essa operação representa mesmo, como dizem Lula e
Lewandowski, a maior resposta já dada ao crime organizado no país, ou há um
exagero com viés político?
Feltran
- Minha
preocupação não é, sinceramente, com governo A ou B. O modelo de segurança
pública no Brasil é um desastre que se reproduz, de governo a governo, nos
últimos 40 anos.
Temos
um problema de direcionamento de políticas de Estado, não de governo, na área
de segurança. Estamos reféns de uma concepção que vê segurança como guerra, não
como uma área de política pública.
Policiais
inflamados por essa ideologia funesta se sentem guerreiros, heróis, não
operadores de política pública. Vão à igreja orar para enfrentar essa guerra
moral, desprezam quaisquer áreas de conhecimento, matam e se matam mais do que
em qualquer lugar do mundo, é um desastre sem proporções.
O
Brasil não fez o mínimo, que outros países democráticos fizeram, para ter
segurança pública. Era preciso rever o direcionamento estatal, e não
governamental, das políticas de segurança.
·
A oposição tem sido acusada de ter favorecido esse
esquema ao bloquear regras mais rígidas para fintechs na época
da crise do Pix. Há indícios de conivência política com o PCC ou essa relação
não se sustenta?
Feltran
- Não
penso que exista, no PCC, uma visão político-institucional coesa. A ideologia
fundamental da facção é "contra o sistema". Mas o sistema parece
bastante interessado em partilhar os lucros das economias ilegais.
·
O PCC consegue facilmente substituir esse tipo de lavagem
de dinheiro por outros mecanismos caso esse seja bloqueado?
Feltran
- No
começo dessa conversa lembramos da operação policial de 2020, muito similar a
essa. Ali já víamos mecanismos bastante parecidos com os que vimos essa semana.
Temos que aprender um pouco com a experiência.
Fonte:
BBC News Brasil

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