Elisabeth
Lopes: O julgamento de Bolsonaro e a
prova de maturidade da democracia brasileira
No dia
2 de setembro iniciará o julgamento da Ação Penal (AP) 2668, que tem como réus
o ex-presidente Jair Bolsonaro e sete ex-integrantes de seu governo. Eles
compõem o chamado “Núcleo 1” ou “Núcleo Crucial” dos acusados pela
Procuradoria-Geral da República (PGR) por tentativa de golpe de Estado,
ocorrida entre 2022 e 2023.
Na
perspectiva desse julgamento tão aguardado pela sociedade brasileira, torna-se
necessário revisitar a trajetória recente da política nacional para compreender
como se construiu o ambiente que possibilitou a ascensão de um político
parasitário do denominado baixo clero improdutivo, que nada propôs em projetos
políticos úteis ao povo que justificassem sua legislatura paga pelo erário
público ao longo de quase três décadas, mas que, ainda assim, alcançou a
Presidência da República em 2018.
Tudo
começou em 2013, com as Jornadas de Junho, inicialmente impulsionadas pelo
Movimento Passe Livre em defesa da redução da tarifa de ônibus. Em poucos dias,
entretanto, a extrema direita apropriou-se das manifestações, degenerando sua
pauta e direcionando os ataques contra as instituições democráticas. Um ano
após, esses mesmos segmentos da extrema direita se uniram ao candidato
derrotado nas eleições de 2014, Aécio Neves (PSDB-MG), na construção de um
ambiente de instabilidade política.
A
presidente Dilma Rousseff, legitimamente reeleita, começou a sofrer retaliações
da elite financeira do país por meio de seus prepostos da extrema direita e
direita inconformados com o quarto mandato progressista no país. Com uma
popularidade de 79% em 2013, após as manifestações das Jornadas de Junho teve
sua aprovação reduzida a 31%, chegando em agosto de 2015 a 8%. Esse processo de
corrosão política desembocou no impeachment de 2016, um golpe parlamentar que,
como reconheceu o ministro Luís Roberto Barroso, não se deu por “pedaladas
fiscais, mas por perda de sustentação política”.
Forças
do retrocesso político tanto da extrema direita, como da direita toma lá, dá cá
e do mercado financeiro com “o Congresso e com tudo” descontentes com mais um
governo de esquerda trataram de expurgá-lo, substituindo-o por um projeto
liberal devastador e solapador dos direitos sociais e dos projetos de justiça
social em curso, que marcaram o dois
mandatos do Presidente Luís Inácio Lula da Silva com a redução das
desigualdades sociais e aprovação histórica de (87%), além de sua projeção como
relevante Estadista no plano internacional, o mesmo acontecendo com a aprovação
da Presidenta Dilma assinalada no parágrafo anterior.
Surge a
ponte para o futuro com Michel Temer, o político que ficou registrado na
história, como o vice desleal. Só uma figura deplorável eticamente aceitaria a
vergonhosa missão de conspirar e trair nos corredores e gabinetes dos poderes
republicanos, a confiança de uma presidente do país legitimamente reeleita pelo
povo, com 51,64% dos votos válidos. Temer não só traiu Dilma Roussef, ele traiu
o povo brasileiro retirando do cargo, uma mulher de conduta ilibada escolhida
para representá-lo.
Ao
longo desse período turbulento, emergiu a Operação Lava Jato, conduzida pelo ex
juiz suspeito Sergio Moro e um grupo de procuradores do Ministério Público,
entre estes, Deltan Dallagnol que, ao arrepio da lei, transformaram Curitiba em
palco de lawfare.
Durante
a operação, Moro e os procuradores articulavam-se por meio de aplicativos de
mensagens, coordenando em tempo real cada diligência. A conduta do juiz
revelava uma parcialidade gritante, que não apenas negava um princípio
elementar do direito processual, como também expunha de forma cristalina seu
projeto pessoal de ascensão política, posteriormente confirmado. Em meio a
imagens sensacionalistas, anunciava-se em alto e bom som, para todos os cantos
do país, a espetacularização das conduções coercitivas. De powerpoints surreais
a perseguições sem provas, passando por buscas e apreensões arbitrárias,
grampos ilegais e vazamentos seletivos para a grande mídia, a Operação Lava
Jato acumulou abusos, como um número expressivo de condenações baseadas em meras
convicções, tortura psicológica contra investigados, prisões injustas e,
sobretudo, a manobra que impediu Lula de concorrer em 2018, abrindo espaço para
a ascensão de Jair Bolsonaro. Até que, em um certo dia, a ação de um hacker
expôs as entranhas da operação e pôs fim à festa da organização violadora do
devido processo legal.
Assim,
em 2018, emergiu o falso “antissistema” Jair Bolsonaro, que por 28 anos ocupou
o baixo clero improdutivo da Câmara Federal. Nesse período, não apresentou
qualquer contribuição relevante ao país, limitando-se a acumular patrimônio por
meio de esquemas obscuros. Um parlamentar que deveria ter sido cassado quando,
em pleno processo de impeachment de Dilma Rousseff, fez apologia ao mais
abominável torturador da ditadura militar. Com o sarcasmo que lhe é peculiar,
dedicou seu voto “à memória do torturador do Exército Carlos Alberto Brilhante
Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”, arrematando com o lema que viria a se tornar
sua marca: “um Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”.
Na
prática, nunca se tratou de “Brasil acima de tudo” nem “Deus acima de todos”. O
lema bolsonarista sempre foi “Família Bolsonaro acima de tudo e de todos”,
acima da democracia, da soberania e do próprio povo. Em troca da impunidade
ofereceram o Brasil e suas instituições ao governo norte-americano, causando
prejuízos econômicos e diplomáticos incalculáveis, incluindo um tarifaço de
Trump que custou R$ 40 bilhões ao Brasil, além das restrições indevidas pela
Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes, relator da Ação Penal (AP) 2668,
sem contar os cancelamentos de vistos dos EUA a outros ministros da Suprema
Corte, ao Ministro da Justiça Enrique Ricardo Lewandowski e ao Procurador-Geral
da República, Paulo Gonet.
A
partir de 2 de setembro, no decorrer do julgamento, é oportuno recordar que a
soberba, aliada à completa incapacidade de Jair Bolsonaro para governar, gerou
consequências devastadoras em áreas vitais ao desenvolvimento sustentável do
país, como saúde, trabalho, educação, economia, cultura, transporte e
infraestrutura. O Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) apontou, em
2023, que seu governo deixou “marcas negativas profundas, que levarão tempo
para serem superadas”. (Fonte Brasil de Fato).
Na
pandemia, sua postura negacionista e suspeita de desvios ilegais resultou em
milhares de mortes evitáveis, estima-se que 75% das 690 mil vítimas fatais
poderiam ter sobrevivido com políticas responsáveis. A CPI da Covid
responsabilizou Bolsonaro por crimes como charlatanismo, prevaricação, epidemia
com resultado morte, uso irregular de verbas públicas, incitação ao crime,
falsificação de documentos e até crimes contra a humanidade (Fonte: Agência
Senado).
Somam-se
a essas ações delituosas, os escândalos envolvendo venda ilegal de joias
pertencentes à união, atuação em milícias digitais, criação do gabinete do
ódio, ataques infundados ao processo eleitoral e fraudes em cartão de
vacinação. A tentativa de ruptura do Estado de Direito é apenas mais uma entre
tantas práticas ilegais que marcaram sua carreira política, para além de sua
história pregressa de quebra de confiança, desrespeito e indisciplina como
militar até sua trajetória como parlamentar e presidente
Não por
acaso, o julgamento de Bolsonaro ganhou repercussão internacional. A revista
britânica The Economist publicou em 28 de agosto de 2025: “Brazil offers
America a lesson in democratic maturity. It is a test case for how countries
recover from a populist fever”, ou seja, “O Brasil oferece aos Estados Unidos
uma lição de maturidade democrática. É um teste de como se recuperam de uma
febre populista” (Disponível em:
https://www.economist.com/leaders/2025/08/28/brazil-offers-america-a-lesson-in-democratic-maturity,
acessado em 28/08/25).
O mês
de setembro de 2025 ficará marcado na memória brasileira. Sobre Jair Bolsonaro
recairá parte das consequências de seus atos, ainda que muitas de suas faltas
permaneçam sem julgamento. Independentemente do desfecho, trata-se de um marco
histórico, o início do acerto de contas de um personagem abjeto que traiu a
confiança do povo e atentou contra a democracia. O julgamento dos réus do
núcleo crucial não é apenas sobre a tentativa de golpe, mas sobre a necessidade
de reafirmar a soberania, a democracia e o compromisso do Brasil com sua
própria história.
• STF terá esquema de segurança reforçado
com drones para julgamento de Bolsonaro
O
Supremo Tribunal Federal (STF) adotará um esquema especial de segurança para o
julgamento de Jair Bolsonaro (PL), marcado para terça-feira (2). Segundo o
jornal O Globo, a operação contará com drones equipados com câmeras térmicas,
revista de mochilas e reforço do policiamento no entorno da Praça dos Três
Poderes. O ex-mandatário será julgado sob a acusação de planejar um golpe de
Estado para impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e
permanecer no poder.
De
acordo com a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF), as
ações terão foco nas vias de acesso ao tribunal, como as avenidas S1 e S2, e
incluirão ainda o uso de cães farejadores e controle rigoroso de entrada nas
dependências do STF. A medida segue determinação da Corte, que já havia
proibido acampamentos e bloqueios nas imediações do prédio.
A
partir da próxima segunda-feira (º), será ativada a Célula Presencial Integrada
de Inteligência, que reunirá órgãos de segurança locais e nacionais. O grupo
ficará responsável por monitorar redes sociais, compartilhar dados e
identificar movimentações suspeitas em tempo real. A iniciativa busca prevenir
atos de violência ou mobilizações irregulares durante o julgamento.
Em
nota, a secretaria afirmou que o trabalho de inteligência será fundamental para
garantir a tranquilidade dos eventos. O reforço também se estenderá ao feriado
de 7 de Setembro, quando manifestações costumam levar milhares de pessoas à
Esplanada dos Ministérios.
Ainda
de acordo com a reportagem, as medidas de segurança previstas para o feriado
incluem a interdição da Esplanada a partir das 17h do dia 6 de setembro. O
acesso ao desfile oficial só será autorizado mediante revista pessoal, e alguns
itens estarão proibidos, como armas, objetos cortantes, mochilas grandes, fogos
de artifício e drones não credenciados.
A
SSP-DF ressalta que o objetivo é evitar riscos à segurança pública e preservar
o livre funcionamento das instituições. As autoridades reforçam que a
integração entre forças locais e nacionais será determinante para garantir a
normalidade tanto no julgamento do STF quanto nas celebrações da Independência.
• CRIMINOSO CONTUMAZ: Eduardo Bolsonaro
ameaça policiais que fazem vigilância na casa de seu pai
O
deputado federal lesa-pátria Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que está foragido nos
EUA, lançou ameaças aos policiais penais do Distrito Federal que fazem a
vigilância dentro da área externa da casa de seu pai, num bairro nobre de
Brasília. A decisão de colocar agentes no quintal da residência do
ex-presidente golpista foi tomada na manhã deste sábado (30), pelo ministro
Alexandre de Moraes, do STF, relator da ação penal que julga Jair Bolsonaro
(PL) e outros integrantes do seu antigo governo pela tentativa de ruptura
institucional empreendida por eles entre o final de 2022 e o começo de 2023.
“A
liberdade não se perde toda de uma só vez, é aos poucos, igual se corta salame,
fatia por fatia (Hayek). Espero que os policiais que violarem a casa de meu
pai, tida na constituição como asilo inviolável, saibam do abuso que estão
cometendo, cumprindo ordem manifestamente ilegal”, escreveu o parlamentar
traidor em seu perfil oficial no X (antigo Twitter).
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Veja a postagem:
Naturalmente,
o argumento de Eduardo é uma distorção completa e absoluta da lei, algo que ele
costuma fazer com frequência ao utilizar analogias, interpretações e
comparações descabidas para tentar sair com razão das situações em que age de
forma criminosa. A inviolabilidade do domicílio é uma previsão constitucional
no Brasil que impede qualquer pessoa, inclusive policiais, de entrarem nos
lares dos cidadãos, mas essa garantia é quebrada quando, por motivo
justificado, a Justiça autoriza o ingresso numa residência, como é o caso de
seu pai, um réu que está sob suspeita de tentativa de fuga para o exterior.
Jair
Bolsonaro começa a ser julgado na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal na
terça-feira (2), e a expectativa é de que a sentença dele e dos demais corréus
do chamado “núcleo crucial da tentativa de golpe” seja conhecida no dia 12 de
setembro. O antigo ocupante do Palácio do Planalto pode receber uma pena de
mais de 40 anos de prisão.
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Já ameaçou outros policiais
Eduardo
Bolsonaro acha que tudo no mundo deve estar conforme os seus desejos e age como
se fosse intocável, um ser supremo. Para isso, invariavelmente lança ameaças
contra quem não faz suas vontades. Delegados e agentes da Polícia Federal já
foram explicitamente intimidados por ele, em alguns casos até com suas
identidades expostas, por investigarem os crimes do deputado lesa-pátria e de
seu pai golpista.
Fonte:
Brasil 247

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