A
meritocracia como modo de vida e a dominação social no capitalismo
contemporâneo
No
contexto de décadas de hegemonia neoliberal, marcado por reestruturações
produtivas, financeirização da economia, políticas de austeridade,
flexibilização trabalhista e retração dos direitos sociais, a meritocracia
transformou-se em uma forma social que, ao se difundir na prática da vida
cotidiana, constitui também um modo de vida voltado à legitimação e atualização
da dominação do capital sobre o trabalho. Tal como Karl Marx e Friedrich Engels
já indicavam em A ideologia alemã, cada modo de
produção engendra um determinado modo de vida. Quando esse modo de produção
passa por atualizações em sua forma social, o modo de vida também se
transforma, reorganizando os hábitos, as necessidades e os vínculos sociais. No
caso do neoliberalismo, esse modo de vida se organiza pela internalização da
lógica meritocrática, que naturaliza a competição e fragmenta a sociabilidade.
Esse processo produz, ao mesmo tempo, formas renovadas de estranhamento, uma
vez que o trabalhador passa a se perceber como indivíduo isolado e responsável
único por seu destino, distanciando-se das mediações sociais e históricas que
estruturam sua existência.
A
promessa de que o esforço pessoal é suficiente para garantir o sucesso
individual nas sociedades capitalistas apresenta-se, na realidade social, como
um dos pilares que sustentam a reprodução material das desigualdades pelo
capital. À medida que o neoliberalismo se desenvolve, a noção de “meritocracia”
ganha centralidade não apenas como valor moral, mas também como forma social,
ao passo que se torna estruturante do modo de ser, agir e sentir dos
indivíduos. A meritocracia, nesse sentido, não se reduz a um discurso
ideológico, mas se consolida como um modo de vida, uma forma de
estranhamento que atravessa todas as dimensões da existência social. Isso
ocorre porque, enquanto forma social, a meritocracia internaliza a lógica da
competição e transforma relações sociais em relações reificadas de desempenho
individual, operando como instrumento de naturalização das desigualdades,
necessária à valorização do capital em sua fase de acumulação flexível.
Embora
parte da literatura liberal associe o mérito à liberdade e ao progresso, e
parte da crítica social a compreenda como uma forma ideológica funcional à
dominação, aqui buscamos um caminho distinto: analisar a meritocracia como uma
forma social histórica, constituída a partir das necessidades próprias do
desenvolvimento contraditório do capital. Em outras palavras, mais do que uma
narrativa ideológica ou uma ética individual, a meritocracia deve ser lida como
uma das engrenagens que articulam o processo de subordinação do trabalho ao
capital — especialmente em sua fase neoliberal — intensificando o estranhamento
ao converter desigualdades estruturais em atributos individuais.
Como
uma forma histórica, a meritocracia não deve ser lida como uma instância
autônoma da relação entre o capital e o trabalho, mas incorporada à totalidade
e à complexidade do desenvolvimento capitalista e à sua necessidade de
converter formas sociais tipicamente não capitalistas em essencialmente
capitalistas, em busca da valorização do valor. Desse processo resulta um modo
de vida marcado pelo estranhamento e pela reificação das relações
sociais. A meritocracia, assim, não é um valor intrínseco ao capitalismo e
à democracia liberal, tampouco uma forma natural das relações sociais, algo
imanente à humanidade. Nas sociedades capitalistas, ela se apresenta como uma
ilusão necessária, ora como uma “justificação do mundo”, ora como elemento
articulado ao funcionamento do capitalismo democrático. Enquanto forma social,
a meritocracia tem sido constantemente atualizada pela lógica do capital, em
busca de constituir um modo de vida adequado às necessidades de sua reprodução
ampliada. Com o neoliberalismo, esse processo se radicaliza, aprofundando uma
subordinação ainda mais enraizada.
Apoiados
na tradição marxista e em contribuições gramscianas, argumentamos que a
meritocracia atua como mecanismo de intensificação da exploração e da dominação
do capital sobre o trabalho. Ao mobilizar valores como esforço, qualificação e
“empreendedorismo de si”, ela induz o trabalhador a internalizar as exigências
do capital, transformando sua própria subjetividade em recurso econômico — ou,
nos termos de Michel Foucault, em capital humano — num processo que expressa
também o estranhamento do indivíduo em relação a si mesmo e à sua
atividade.
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A forma social da meritocracia
Com o
desenvolvimento das forças produtivas capitalistas, os modos de vida passam por
atualizações que correspondem às determinações da valorização do valor. No
contexto neoliberal, essas transformações assumem formas específicas de
estranhamento, como a meritocracia, que organiza a experiência do trabalhador
em relação ao conjunto de suas práticas, hábitos e relações cotidianas,
correspondentes às condições materiais da produção. Dessa forma, cada
atualização das suas forças produtivas implica, necessária e simultaneamente,
uma reorganização das práticas, hábitos e relações sociais, afetando
profundamente a subjetividade do trabalhador. Nesse sentido, o modo de vida
capitalista é inseparável de formas históricas específicas de estranhamento,
que, no neoliberalismo, se consolidam centralmente na meritocracia como
mediação social.
Foi
nesse sentido que Antonio Gramsci examinou o surgimento de um modo de vida que
denominou , em um texto homônimo, como “Americanismo e fordismo” — um processo
de atualização-radicalização da mudança psicofísica do trabalhador, conforme as
necessidades das novas formas de produção e subordinação do trabalho pelo
capital, impostas pelo regime taylorista-fordista. Essa atualização na
dominação do capital sobre o trabalho pressupõe a modificação dos hábitos
sociopolíticos, constituindo novas práticas e formas de subjetividade, lidas
como “naturais” e reproduzidas socialmente em diversas instituições privadas e
públicas, por meio de aparelhos privados de hegemonia. Trata-se, assim, não
apenas da adaptação material do trabalhador às novas exigências produtivas, mas
também da formação de um modo de vida marcado por estranhamento, no qual os
indivíduos passam a internalizar como próprios os valores e práticas que
objetivamente expressam a lógica da subordinação do capital. Esse processo
evidencia como a hegemonia se exerce na vida cotidiana de maneira molecular,
convertendo a dominação econômica em práticas, afetos e representações sociais
aparentemente espontâneas.
Sob o
capitalismo, as relações sociais adquirem uma forma fetichizada: os indivíduos
se relacionam entre si como coisas, mercadorias ou valores de troca. Nesse
contexto, a meritocracia atua como uma mediação ideológica que organiza o
sentido do mundo social, ocultando sua estrutura de exploração. Como observa
Marx, “o valor de troca se apresenta como uma propriedade natural das coisas”,
quando na objetivamente se trata de uma relação social historicamente
determinada. Assim, ao transformar as desigualdades estruturais em atividades
individuais, a meritocracia intensifica o estranhamento, na medida em que faz
com o que o trabalhador passe a se perceber separado tanto do produto e da
atividade que realiza quanto de sua própria essência e dos demais sujeitos sociais.
Desse modo, o fetichismo da mercadoria se prolonga na forma de um modo de vida
meritocrático, no qual a competição e o desempenho passam a ser vividos como
expressões naturais da existência social.
A
meritocracia se apresenta como essa “propriedade natural” dos sujeitos: todos
seriam livres para competir, investir em si mesmos e colher os frutos do
próprio esforço. Contudo, esse discurso abstrai as desigualdades estruturais —
de classe, raça, gênero, acesso à educação e redes de proteção. Nesse sentido,
o “mito da meritocracia” não é falso porque inexato, mas porque atua por meio
de uma inversão histórica, isto é, transforma desigualdades socialmente
determinadas em atributos individuais, convertendo privilégio em mérito e
reforçando o estranhamento entre os indivíduos, ao transformar a sociabilidade
em mera competição que estrutura as relações sociais.
Autores
como Thomas Piketty e Branko Milanovic tentam reabilitar a
meritocracia como princípio de justiça distributiva, mas o fazem a partir de
uma leitura que oculta a relação estrutural entre capital e trabalho. A
tradição marxista, por outro lado, revela que essa lógica é fundamental para a
reprodução do capital, uma vez que a concorrência entre trabalhadores,
alimentada pela promessa meritocrática, constitui uma condição necessária para
a valorização constante do valor — o motor do modo de produção capitalista.
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Do valor à subjetividade
A
questão não é apenas como a meritocracia justifica o capitalismo,
mas como ela molda sujeitos necessários à sua reprodução. A partir
de Gramsci, compreendemos que o capital não se impõe apenas por coerção, mas
também por consenso. A hegemonia se realiza por meio de práticas cotidianas,
valores internalizados e instituições que educam os indivíduos a se comportarem
de acordo com as exigências da acumulação, produzindo formas sociais
estranhadas que distanciam o trabalhador de sua atividade, de si mesmos e da
coletividade, ao configurar uma subjetividade segundo as necessidades do
capital.
Nesse
sentido, a meritocracia atua como um operador simbólico, organizando não apenas
o mercado, mas também a família, a escola, o lazer. O trabalhador deixa de ser
apenas explorado — ele passa a se autoexplorar, disciplinando seus afetos,
investindo em sua “empregabilidade” e gerenciando sua própria existência como
se fosse um negócio, uma empresa. Surge então o “empreendedor de si”, figura
emblemática da subjetividade neoliberal que expressa o avanço da lógica do
capital para além do trabalho, mas sobre a vida social, em um processo que
intensifica o estranhamento, pois o indivíduo passa a se perceber como capital
a ser valorizado, distanciando-se de sua própria essência.
O
desenvolvimento das forças produtivas impõe não apenas novos métodos de
trabalho, mas também um novo tipo humano, com hábitos, desejos e condutas
adaptadas à reprodução ampliada do capital. No neoliberalismo, marcado pela
lógica da financeirização, essa forma social se atualiza sob novas formas de
subordinação, como o trabalho remoto, a plataformização, a avaliação por
algoritmos, as metas pessoais e demais características da acumulação flexível.
Tudo isso reforça a ideia de que o trabalhador se constitui como responsável
pelo próprio desempenho e, por extensão, por sua própria precariedade.
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Capital humano e a naturalização da desigualdade
A noção
de “capital humano”, desenvolvida por autores como Schultz e Becker —
e, como vimos, analisada criticamente por Foucault — é central para essa
transformação. Ela pressupõe que o trabalhador se torna um capitalista de si
mesmo, investindo em sua educação, saúde e competências para aumentar sua renda
futura. Nesse modelo, o salário deixa de ser a expressão da exploração do
trabalho assalariado e passa a ser o “retorno” de um investimento pessoal, na
medida em que o indivíduo enxerga sua própria existência como capital a ser
valorizado, dissociando-se da experiência coletiva do trabalho.
Essa
lógica, porém, camufla o caráter estrutural das desigualdades. O acesso a
recursos de valorização — como escola, cultura, tempo livre — é distribuído
socialmente de maneira desigual. Ainda assim, quando um jovem negro da
periferia não alcança o mesmo sucesso de alguém da elite, o fracasso é
interpretado como falta de esforço individual, e não como expressão das
desigualdades estruturais que moldam e limitam as trajetórias sociais.
A
meritocracia, portanto, não se limita a um discurso. Ela constitui uma forma de
vida que reorganiza a subjetividade social, deslocando os conflitos de classe
para o interior do sujeito. Ao internalizar a lógica do capital, os
trabalhadores passam a concorrer entre si de forma atomizada, corroendo a
solidariedade de classe e enfraquecendo os vínculos coletivos. A atualidade do
capital, sob a forma neoliberal, exige esse tipo de individualismo competitivo
como condição para sua hegemonia.
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Crítica, luta e reinvenção do possível
A
crítica à meritocracia, quando conduzida apenas nos termos da desigualdade de
resultados, permanece insuficiente. É preciso revelar sua função na estrutura
social de dominação, seu papel na produção de sujeitos adaptados às exigências
do capital e sua presença nas práticas cotidianas, nas escolhas e nos afetos.
Compreender
a meritocracia como modo de vida é reconhecer que ela não constitui um equívoco
moral, mas um mecanismo de controle e dominação do capital sobre os
trabalhadores, cuja forma social se expressa na intensificação da exploração da
força de trabalho. Romper com essa lógica exige mais do que desmentir seus
mitos: exige construir outras formas de vida, outras relações de trabalho e de
solidariedade, baseadas não na concorrência meritória, mas na partilha das
condições de existência.
Fonte:
Por Ederson Duda, no Blog da Boitempo

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