Waldir
Pires dedicou vida e carreira à defesa da democracia
O
Brasil aprendeu que a democracia precisa de defesa constante depois de 21 anos mergulhado
em uma ditadura militar. E um baiano, que viveu em exílio durante esse período
sombrio da história nacional, era defensor inegociável da participação do povo
na política. Nascido em 21 de outubro de 1926, Waldir Pires construiu desde a
juventude no movimento estudantil, passando pela resistência ao golpe de 1964 e
a redemocratização do país a partir de 1985, uma trajetória guiada pela certeza
de que a democracia só se realiza plenamente quando garante a igualdade entre
todos os cidadãos. No mês do seu centenário, mergulhamos no acervo histórico de
A TARDE para recontar parte da história de um dos políticos baianos mais
respeitados do século XX.
Ao
longo de sua vida pública, Waldir Pires buscou fazer da política um espaço de
esperança, legando uma atuação pública dedicada à justiça social e à afirmação
dos direitos humanos. Seu primeiro nome é Francisco [Francisco Waldir],
homônimo ao do santo católico que se doava aos mais necessitados. Nasceu em
Acajutiba e começou a estudar em Amargosa, passando depois para Nazaré das
Farinhas, onde fez o antigo curso ginasial e, mais tarde, se mudou para Salvador, onde concluiu o ensino médio no Ginásio da
Bahia.
No
colégio ele começou a vida política a partir do movimento estudantil. Ao mesmo
tempo, trabalhava para garantir a permanência na escola. A graduação ele
concluiu em 1949, quando foi orador da primeira turma de Direito da
Universidade Federal da Bahia (Ufba). Na Faculdade de Direito, participou
ativamente das lutas estudantis, especialmente em defesa da criação da
Petrobras. O espírito de combater nas fileiras democráticas vem desde essa
época.
"A
insistência de Waldir Pires na afirmação da democracia e da política como
elementos civilizatórios foi uma de suas contribuições mais importantes dentro
da política. Ele defendia a política como um instrumento da civilização porque
a política permite a convivência de contrários, desde que com respeito",
explica o jornalista e escritor Emiliano José, membro da Academia de Letras da
Bahia (ALB) e autor da biografia em dois volumes de Waldir Pires.
Emiliano
teve inúmeras conversas com o político para produzir o livro e conta que ele
era um admirador da democracia ateniense, da Revolução Francesa e da Revolução
Americana, mas que sempre lembrava que nenhuma dessas experiências realizou
plenamente o potencial de um ‘governo do povo para o povo’. "Ele sempre
dizia em nossas conversas que a democracia ainda não havia se realizado no
mundo”, afirma o autor.
Na
Grécia e na França, pensava Waldir, houve exclusão de grande parcela da
sociedade. E, no caso dos Estados Unidos, apesar da revolução que libertou o
país da Inglaterra, o regime escravagista foi mantido até a Guerra Civil,
deixando marcas profundas que ainda hoje afetam e explicam o país. Por isso,
mesmo diante das revoluções que admirava, buscou não se inebriar pelo que
Emiliano chama de ‘liberalismo democrático’.
"Para
ele, a democracia não poderia ser um regime apenas de eleições. Ela é, claro,
um fruto das eleições, mas não se pode resumir a isso. Para Waldir, a
democracia é, sobretudo, a afirmação da igualdade entre todos os seres humanos
e essa era a luta dele. Por isso digo que o legado de Waldir Pires não é
simplesmente uma obra ou um momento em sua carreira, mas uma trajetória
absolutamente rigorosa no leito da democracia, sem nunca se afastar dela”.
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Carreira e exílio
A
carreira política de Waldir Pires começou aos 24 anos, pouco depois da
formatura em Direito, quando assumiu o posto de secretário de Estado do então
governador da Bahia, Regis Pacheco. A função era parecida àquela que hoje
corresponde à de um secretário de Relações Institucionais. "Isso foi em
1950. Em 1954, ele se elege deputado estadual e se torna, na prática, o líder
do governo de Antônio Balbino. Havia um líder de direito, mas ele era o líder
de fato do governo que foi bastante progressista para o momento",
acrescenta Emiliano José.
Em
1958, Waldir foi eleito deputado federal e em 1962 disputou pela primeira vez o
governo da Bahia. Foi derrotado por Lomanto Júnior por menos de 5% de diferença
nos votos, "mas conseguiu se afirmar como um grande nome da vida política
baiana naquele momento", afirma Emiliano. Com a derrota, ele abraça a área
acadêmica e se torna docente do curso de Direito da Universidade Católica do
Salvador (Ucsal) e depois passa a ser um dos professores da Universidade de
Brasília, junto com Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro.
No ano
de 1959, foi chamado para ser Delegado Federal do Ministério da Educação (MEC)
na Bahia e Sergipe, cargo que ocupou oficialmente até 1969. E, em 1963, se
tornou Consultor-Geral da República, assumindo a Controladoria Geral da
República do governo João Goulart. "Passa a integrar o governo reformista
de Goulart. Era ele quem redigia os principais investimentos e decretos, como o
bloqueio do envio de dinheiro brasileiro para o exterior e a reforma agrária.
Tudo que Goulart tentou colocar em prática, Waldir Pires foi quem redigiu.
Então veio o golpe", aponta o biógrafo.
Com a
ditadura militar, continua Emiliano, Waldir Pires fugiu para exílio junto com
Darcy Ribeiro, Mas, para não serem presos em uma viagem convencional, fugiram
em um “teco-teco” (nome popular dos aviões monomotores) abastecido com gasolina
de caminhão, até chegarem ao Uruguai. Sem conseguir emprego no país vizinho
para sobreviver com a família, Yolanda Avena, com quem se casou em 1950, e os
filhos do casal, ele vai para a França, onde dá aulas primeiro na Universidade
de Dijon e depois na Universidade de Paris (Sorbonne). Voltou ao Brasil em
1970, com salvo-conduto do Ministério das Relações Exteriores.
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Atuação nos bastidores
Ao
desembarcar no Rio de Janeiro na volta do exílio no exterior, Waldir prestou um
longo depoimento aos agentes da repressão da ditadura e depois foi levado para
a Polícia Federal, onde foi avisado que estava proibido de sair da cidade sem
autorização. "Ele passa de 1970 até 1978 numa espécie de semiexílio no Rio
de Janeiro, porque não podia exercer nenhuma atividade abertamente política.
Mas ainda assim consegue se envolver politicamente", explica Emiliano
José. Ele ajudou na eleição de Francisco Pinto para deputado federal na Bahia e
outras eleições no Rio de Janeiro, mantendo contato com a esquerda brasileira.
Para se
manter economicamente na nova situação, investiu em uma empresa de extração de
brita e granito. Seu primeiro sócio foi o ex-deputado Rubens Paiva, que
posteriormente foi assassinado pela ditadura. “Em paralelo à atividade
profissional, mantinha contatos políticos com os que resistiram na
clandestinidade, como Marco Antônio Coelho, Giocondo Dias, Luís Maranhão e
Cibilis Viana entre outros", informa o perfil biográfico de Waldir Pires
no Dicionário Biográfico-Histórico da Bahia, da Biblioteca Virtual Consuelo
Pondé.
Emiliano
José conta que Waldir Pires era bem próximo de Rubens e no dia 20 de janeiro de
1971, quando o ex-deputado foi sequestrado, Waldir o havia visitado e quase
ficou para almoçar com a família Paiva. "Era Dia de São Sebastião, feriado
no Rio de Janeiro, e Waldir disse que não podia ficar pois tinha combinado algo
com Yolanda e os filhos. Remarcou o almoço para o sábado seguinte. Se ele
tivesse aceitado, provavelmente também teria desaparecido naquele dia".
De
volta à Bahia em1979, foi recebido como um líder natural da oposição no Estado
e com grande festa, acrescenta Emiliano. “Tinha muita gente no aeroporto, pois
era uma liderança que voltava. Waldir fez isso com muita consciência, porque no
final de 1978, o Ato Institucional nº 5 (AI-5) havia sido extinto, o que lhe
dava liberdade para essa movimentação. Também já estávamos às portas da
anistia, que iria acontecer em agosto. Tudo isso deu a ele, até certo ponto,
tranquilidade para voltar à Bahia e participar da vida política do estado outra
vez".
<><>Nova
candidatura de Waldir Pires
Em
1982, já com eleições diretas para governador, Waldir Pires avaliou que ainda
não era o momento de disputar o cargo e apoiou a candidatura de Roberto Santos,
mas visto como uma figura democrática. Waldir então opta por concorrer ao
Senado e embora não tenha sido eleito, obteve quase um milhão de votos.
Três
anos depois, se tornou ministro da Previdência e Assistência Social, já na fase
de redemocratização. "O ministro Waldir Pires fez um vigoroso discurso
contra a fome e o desemprego: Só haverá democracia na medida em que, ao lado da
liberdade, tenhamos atendidas as necessidades existenciais básicas",
transcreveu A TARDE, em 16 de março de 1985. No mesmo ano, em meio às
discussões sobre quem seu partido escolheria para concorrer à prefeitura de
Salvador, o então ministro visitou a sede do jornal e fez questão de ir ao
parque gráfico cumprimentar os trabalhadores, como diz a edição de 25 de maio
de 1985.
No ano
seguinte, Waldir Pires se lançou candidato ao governo da Bahia. "A
campanha de 1986 mobilizou a alma, o coração, os sentimentos e as melhores
esperanças do povo baiano. Ele venceu a eleição de maneira memorável”, conta
Emiliano José. O governador eleito assumiu o cargo em 1987 e, ainda segundo seu
biógrafo, “tomou posse diante de uma Bahia de terra arrasada".
A TARDE
registrou o cenário e o ânimo do novo chefe do executivo baiano: "O
governador eleito da Bahia, Waldir Pires, afirmou, ontem, que não vai assumir o
governo pessimista porque considera que o pessimismo não se ajusta com o
desafio que está posto à sua frente", diz a edição de 12 de março de 1987.
Um dos
seus principais focos estava na saúde e foi durante sua gestão que o Hospital
Geral do Estado (HGE) e outras unidades de saúde no interior, como o Hospital
Geral de Camaçari (HGC), foram inaugurados. A gestão foi marcada por
iniciativas inéditas que enfrentaram, inclusive, resistência entre alianças
políticas. "Foi um governo em que ele se permitiu governar e que foi de
grande qualidade. Ele trouxe um novo parâmetro ético, onde ele não admitia
nenhum tipo de corrupção e não houve uma única acusação de desvio de dinheiro
público, por exemplo. Foi um governo absolutamente inovador", afirma
Emiliano José.
Mas, em
14 de maio de 1989, o então governador tomou a decisão mais polêmica da
carreira pública. Com pouco menos de dois anos e meio gerindo o estado, Waldir
Pires renunciou ao cargo para se candidatar à vice-presidência, na chapa com
Ulisses Guimarães, que havia presidido a Assembleia que redigiu e aprovou a
Constituição de 1988, a chamada Constituição Cidadã.
"Foi
uma decisão que, até hoje, é muito discutida. Ele dizia ter sido a decisão mais
difícil da vida dele. E hoje, olhando a História, evidentemente foi um
equívoco, mas isso é parte da vida política: só não comete equívoco quem não
está mergulhado na vida política. Ele renuncia, se torna vice de Ulisses, e
Ulisses perde. Foi um desastre político muito grande", diz Emiliano.
Desastre
pelo pleito perdido e, principalmente, pelo mandato interrompido. "Com o
corte da renúncia, aquilo que ainda poderia ser feito, e muita coisa poderia
ser feita, não foi feito. Ele poderia, inegavelmente, fazer um sucessor. [...]
A verdade é que o governo de Waldir Pires deixou marcas de grande qualidade,
mas que nunca foi concluído", reflete Emiliano José.
Em
1991, Waldir foi eleito deputado federal, cargo que ocupou até 1995, pelo PDT,
e que voltou a ocupar em 1999, pelo PT. Esse último mandato foi finalizado em
2003, quando foi chamado para ser o Ministro-Chefe da Controladoria Geral da
União (CGU) no primeiro mandato de Luís Inácio Lula da Silva como
presidente. "Nessa função que tinha o status de ministro, ele foi
responsável por diversas denúncias contra prefeituras, secretarias e governos
que recebiam recursos do governo federal e desviavam para fins aos quais não
eram direcionadas", diz a biografia dele na Biblioteca Virtual Consuelo
Pondé.
Após
dois anos e meio à frente da CGU, foi convidado pelo presidente Lula para
assumir o Ministério da Defesa, cargo que aceitou e desempenhou durante a crise
no setor aéreo brasileiro e um momento delicado da política nacional. Sua
última função pública, porém, seria mais próxima do início: em outubro de 2012,
foi eleito vereador de Salvador pelo PT. Cumpriu integralmente o mandato até 31
de dezembro de 2016, encerrando sua longa trajetória política aos 90 anos.
Cerca
de um ano e meio depois, aos 91, Waldir Pires morreu após parada
cardiorrespiratória. "Waldir Pires foi uma pessoa que expressou bem aquilo
que Hannah Arendt diz sobre a principal virtude do político ser a coragem. Pode
parecer uma coisa muito simples, mas não é. A política exige coragem e tomada
de posição. Waldir era um sujeito sereno, terno, educado e civilizado, como
cabe ao bom político, segundo o que ele próprio dizia. Mas também era um homem
de posições rigorosas, firmes e disposto a ousar. Quando ele decidia, estava
decidido e seguia adiante. A utopia da democracia era a grande meta do Waldir
Pires e para ele não importava que não conseguisse realizá-la inteiramente, mas
sim se aproximar um pouco mais de concretizá-la a cada dia de luta",
afirma Emiliano.
Fonte: Por
Priscila Dórea, em A Tarde

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