Os
sinais vermelhos da economia em 2027 e o que Flávio e Lula propõem para eles
Seja
Flávio Bolsonaro (PL) ou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o eleito neste domingo
(25/10), a economia deverá ser um "calcanhar de Aquiles" para o novo
governo.
Quem
tomar posse em 5 de janeiro terá que responder à cobrança do mercado financeiro
por um ajuste nas contas públicas e lidar com a insatisfação dos brasileiros
com o custo de vida e o endividamento recorde. Tudo isso, em meio a uma
economia que deverá crescer menos em 2027.
Para
economistas ouvidos pela BBC News Brasil, nenhum dos dois candidatos apresentou
planos claros para responder a esses desafios. E respostas mais concretas são
aguardadas para o pós-eleição, quando a próxima equipe econômica for finalmente
definida.
"Um
governo bem-sucedido não vai ser aquele que vai apresentar os melhores números
nesses quatro anos, mas aquele que vai conseguir deixar uma economia em
condições melhores para crescer nos anos seguintes", acredita Bruno
Imaizumi, economista da consultoria 4intelligence.
Para
Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos e ex-diretor-executivo
da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, o fundamental é que o
eleito não perca o senso de urgência e apresente um plano objetivo para a
economia e as contas públicas "na primeira hora", já que isso ficou
ausente do debate eleitoral.
"O
problema é que o tempo urge, porque, com esse Congresso que ganhou as eleições
— apesar de ser mais à direita, o que, em um cenário de eleição do senador
Flávio, poderia ser mais palatável — há outras agendas fora desse ciclo
econômico, fiscal, orçamentário, e isso também impõe limitações, sobretudo se
não tiver um plano coeso, um plano claro", diz Salto.
Entenda
os três principais desafios do próximo presidente na economia, como os dois
candidatos dizem que responderão a eles e o que de fato precisaria ser feito,
na visão de economistas.
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Desequilíbrio das contas públicas
O novo
presidente vai ter que lidar com uma dívida pública no maior nível desde a
pandemia. A dívida bruta do governo geral — que inclui governo federal,
Previdência, Estados e municípios — chegou a R$ 11,1 trilhões em agosto,
equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB, soma de todos os bens e
serviços produzidos no país), segundo o Banco Central.
A
dívida cresce quando o governo gasta mais do que arrecada com impostos. Sem
dinheiro em caixa, ele é obrigado a pegar mais dinheiro emprestado, a juros
mais altos, numa "bola de neve" fiscal.
A
dívida pública alta — e sem perspectiva de estabilização do seu nível em
relação ao PIB nos próximos anos — gera dúvidas quanto à capacidade do governo
de honrar suas obrigações.
Com
isso, o Banco Central diz ter dificuldade de baixar a taxa de juros. Isso
encarece investimentos e empréstimos e reduz o crescimento da economia,
afetando a vida dos brasileiros em geral.
Flávio
Bolsonaro tem dado sinais ambíguos sobre como pretende lidar com a questão. Por
um lado, ele fala em um "tesouraço" no gasto público e nos impostos,
e seus auxiliares na área econômica têm prometido em entrevistas e nos
bastidores um ajuste fiscal da ordem de 1,5% a 2% do PIB nos primeiros 18 meses
de governo, equivalente a um corte de gastos de R$ 190 bilhões a R$ 250
bilhões.
Por
outro lado, o senador tem prometido aos eleitores que vai manter o reajuste
real do salário mínimo e que não vai desvincular aposentadorias e benefícios
sociais do salário-base. Afirma ainda que não vai reduzir os pisos
constitucionais dos orçamentos da Saúde e da Educação e diz que seu ajuste das
contas públicas deverá ser centrado em cortes de ministérios, cargos
comissionados, despesas administrativas e supersalários do funcionalismo
público e no combate à corrupção.
Já
Lula, com seu pacote eleitoral, criou despesas fiscais com impacto de quase R$
200 bilhões até 2030, segundo cálculo da Warren Investimentos, anterior à
proposta de tarifa zero nos transportes aos fins de semana.
O
presidente também segue dizendo que o crescimento da economia e a ampliação da
arrecadação decorrente disso são o caminho para reduzir a dívida pública, sem
se comprometer com cortes de despesas.
"Não
temos, de nenhum dos dois candidatos, propostas ainda bem definidas [de ajuste
fiscal], esse é um debate que ficou para depois da eleição, porque todas as
propostas passam por redução de despesa, algo que é obviamente impopular",
avalia Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter.
A
diferença, na visão da economista, é que Flávio contará com maior
condescendência do mercado no início de seu governo, por conta da experiência
do governo de Jair Bolsonaro (PL), em que o salário mínimo foi ajustado apenas
pela inflação (sem ganho real), e o teto de gastos do governo Michel Temer
(MDB) foi mantido, com a desvinculação dos pisos de gastos com saúde e educação
a percentuais fixos da receita do governo.
Já Lula
tem um desgaste de credibilidade, após quatro anos de governo sem controlar o
gasto, o que foi agravado pelas diversas promessas eleitorais que ampliam a
despesa e reduziram arrecadação, como o Desenrola 3.0; o perdão de dívidas, o
Pix de R$ 5 mil e o aumento do teto do MEI; a proibição das bets; o aumento do
Bolsa Família; e a manutenção da desoneração sobre combustíveis.
Nesse
cenário, tanto a economista do Inter, quanto Felipe Salto, da Warren, acreditam
que, passada a eleição, "a realidade vai se impor", e algum ajuste
terá de ser feito, por qualquer um dos dois presidenciáveis.
No caso
das promessas de Flávio, Salto observa que "a conta não fecha",
porque não é possível reduzir a carga tributária como tem prometido o candidato
mantendo o Estado de bem-estar social previsto na Constituição de 1988.
Ao
mesmo tempo, promessas de fazer a economia apenas cortando ministérios e
vendendo ativos "não colam", diz ele, porque não geram uma economia
suficiente para o país passar do déficit primário ao superávit — o que só
aconteceria mexendo nos gastos obrigatórios e nas isenções fiscais.
"Se
o Flávio ganhar, acontecerá uma frustração para aqueles que acreditaram nesse
Flávio novo do segundo turno, que é o Flávio que diz que vai aumentar gastos,
que o ajuste dele vai ser de corte de desperdícios, de redução de ministérios,
porque a gente sabe que por aí não tem como fazer economia relevante",
acredita Salto.
Um
indício de que Flávio deverá frustrar eleitores e agradar o mercado, diz o
economista, é sua postura com relação à escala 6x1. O senador votou a favor da
proposta na última hora e sem comparecer presencialmente à votação, enquanto
sinalizava a empresários nos bastidores que, se eleito, deve rever a medida.
No caso
de Lula, Rafaela Vitória observa que, se reeleito, ele deverá enfrentar uma
deterioração das chamadas condições financeiras, com juros futuros e dólar em
alta, por conta da descrença do mercado em sua capacidade de fazer um ajuste
fiscal. Isso pressionaria a inflação.
"O
governo seria forçado a tomar algumas medidas, ainda que impopulares e contra o
que foi anunciado na campanha, por conta da volatilidade mais negativa no
mercado", diz a economista.
Rafaela
Vitória e Salto, no entanto, avaliam que, mesmo que isso aconteça, não seria
comparável ao "cavalo de pau" dado por Dilma Rousseff (PT) em 2015,
com a adoção de um ajuste fiscal duro, contrário às promessas de campanha à
reeleição da ex-presidente.
"Acredito
que existe uma diferença do atual governo em relação à Dilma", diz a
economista-chefe do Inter.
"O
diagnóstico de que é preciso controlar o crescimento de gasto existe. Naquela
época, o diagnóstico era de que gastar mais era bom, você tinha o 'gasto é
vida'", observa.
"Hoje,
desde o [ex-ministro da Fazenda, Fernando] Haddad, mas também sob [o atual
ministro, Dario] Durigan, existe um diagnóstico de que ter responsabilidade
fiscal é importante para estabilizar preços."
Salto
defende que, qualquer que seja o eleito, o ajuste deve ser feito de forma
gradual, sob o risco de o país entrar em recessão — ou seja, haver uma queda
prolongada da atividade econômica — com um corte muito agudo.
"A
economia já está em desaceleração desde meados de 2025, as projeções já indicam
um crescimento próximo de 1% para o ano que vem", observa.
"Se
você fizer um ajuste abrupto no primeiro ano, assumindo que ele fosse possível
politicamente, colocaria a economia em recessão."
Como
parte de um pacote gradual, Salto defende um corte de 50% nas emendas
parlamentares; a desindexação da Previdência e benefícios ao salário mínimo,
com reajuste passando a ser definido pelo Executivo; a submissão da correção
dos pisos de Saúde e Educação ao arcabouço fiscal, limitando o crescimento a
2,5% ao ano — o que já foi feito no governo Lula 3 para o reajuste do mínimo;
uma revisão ampla do gasto tributário, incluindo entidades filantrópicas,
regimes especiais como o Simples, a Zona Franca de Manaus, e abatimentos para
pessoas físicas no Imposto de Renda; o fim dos supersalários, entre outras
medidas.
Já
Rafaela Vitória avalia que as principais medidas que teriam credibilidade
seriam a desvinculação de gastos obrigatórios, incluindo o atrelamento dos
benefícios sociais e aposentadorias ao salário mínimo; e a desvinculação dos
pisos de Saúde e Educação da receita.
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Economia em desaceleração em 2027
Um
segundo desafio para o próximo presidente será um crescimento menor da
economia, que, na visão dos analistas, "já está contratado" para
2027.
No
boletim Focus do Banco Central mais recente, a mediana das expectativas dos
analistas é de uma alta de 1,83% do PIB neste ano e de apenas 1,32% no próximo.
Mas economistas avaliam que o resultado pode ser ainda mais fraco em 2027,
próximo de 1%.
A perda
de ritmo deverá ser influenciada por uma redução dos estímulos fiscais pelo
governo federal e governos estaduais em 2026, em meio à corrida eleitoral. Ao
mesmo tempo, os investimentos devem seguir pressionados no começo do ano pelos
juros ainda elevados.
A esse
cenário deve se somar uma retração da agropecuária, setor que tem puxado o
desempenho do PIB nos últimos anos, por conta das quebras de safra esperadas
com o El Niño forte — o que também deve pressionar o preço dos alimentos.
"Estamos
projetando uma queda de 0,7% do agro no ano que vem, devido à questão do El
Niño", diz Imaizumi, da 4intelligence. "Está vindo um monstro
climático, que está sendo subestimado."
O
eleitor costuma avaliar o governo pelo que sente no bolso. Se o início do
mandato for de economia fraca, uma percepção negativa pode se consolidar cedo e
pesar na popularidade do presidente, na relação com o Congresso e nas
perspectivas de reeleição ou sucessão.
Em seus
programas, os candidatos não focam especificamente em 2027, mas ambos trazem
propostas para estimular o crescimento econômico nos próximos quatro anos.
O
candidato do PL promete dobrar o ritmo de crescimento médio do país, de 2% para
4% ao ano, incluindo medidas como a facilitação do licenciamento ambiental, um
"revogaço" regulatório, desestatizações e atração de investimento
privado em concessões, redução da carga de impostos e da burocracia,
flexibilização trabalhista e redução do custo do trabalho.
Promete
ainda adicionar valor aos minerais críticos (lítio, nióbio e terras raras) para
atrair indústrias de ponta e data centers; racionalizar encargos da conta de
luz e incentivar a exploração de gás não convencional (fracking) e o
agronegócio.
Já o
petista aposta na indução estatal ao investimento privado, com a continuidade
de programas como o Nova Indústria Brasil (NIB), de reindustrialização; uma
segunda edição do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), de
investimentos em infraestrutura e na área social; e o Plano de Transformação
Ecológica (PTE), de crescimento sustentável.
O plano
de Lula combina isso com propostas de fortalecimento da demanda interna, por
meio do crescimento da massa salarial, e apoio a micro, pequenas e médias
empresas por meio do alargamento de linhas de crédito produtivo (como Pronampe,
Procred 360 e Acredita).
"Um
governo regular [na economia] conseguiria evitar uma deterioração significativa
das questões fiscais e, ao mesmo tempo, manter a economia crescendo de maneira
moderada, sem ser de forma artificial, colocando mais despesas públicas",
opina Imaizumi.
"Um
bom ou ótimo governo seria aquele que, além de estabilizar a questão das contas
públicas, conseguisse implementar reformas que realmente aumentassem o
potencial de crescimento do país", afirma, acrescentando ser cético quanto
a isso, qualquer que seja o eleito.
Já
Rafaela Vitória, do Banco Inter, acredita que, se o cenário de desaceleração da
economia for acompanhado de uma mudança no rumo fiscal, uma queda de juros pelo
Banco Central se torna mais factível, o que pode limitar a perda de ritmo da
atividade.
"Mesmo
que a gente tenha um semestre de atividade mais parada [no início de 2027], o
fato de termos o Banco Central com mais espaço para cortar juros traz uma
expectativa de retomada desse crescimento já no final de 2027 para 2028",
acredita.
"Agora,
se o governo demorar muito para atuar nas medidas e o Banco Central não puder
cortar juros com mais celeridade, a desaceleração pode se prolongar ou até
mesmo termos uma recessão."
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Custo de vida e endividamento
Por
fim, o terceiro grande desafio do próximo presidente na economia será reverter
o mau humor dos brasileiros, provocado pelo custo de vida elevado e
endividamento recorde nos últimos anos.
Levantamento
feito por Bruno Imaizumi, da 4intelligence, mostra que o eleitor chegou às
urnas em 2026 com poder de compra acima das eleições de 2022, mas ainda abaixo
do pré-pandemia.
O
salário mínimo em setembro deste ano (R$ 1.621) comprava 1,76 cesta básica,
ante 1,61 em igual mês de 2022, e mais 2 ao longo de 2019, último ano antes da
emergência da covid-19. O maior valor da série foram 2,28 cestas básicas em
março de 2012, considerando o valor da cesta de São Paulo, em série do
Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
Já o
percentual de famílias endividadas recuou para 81,7% em setembro, na primeira
queda do indicador no ano, após sucessivos recordes, segundo dados da
Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
As
empresas também enfrentam situação complicada, com diversos pedidos de
recuperação judicial no setor de varejo e no agronegócio.
Para
lidar com a questão do custo de vida, Lula propõe manter a política de
valorização real do salário mínimo e a inflação sob controle. Para baratear
alimentos, o petista acena à agricultura familiar, propondo ampliar o Plano
Safra da Agricultura Familiar, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e a
oferta de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER). Também promete baratear
a energia elétrica e que a Petrobras retome o segmento de distribuição de
combustíveis.
Para
endereçar o problema do endividamento, o presidente lançou medidas diversas ao
longo da campanha eleitoral, como o Desenrola 3.0, o perdão da dívida de MEIs e
a proibição das bets.
A nova
versão do Desenrola, diferentemente das anteriores, propõe comprar carteiras de
dívidas com desconto de até 90%, repassando a dedução ao devedor, com o
objetivo de limpar até R$ 150 bilhões em dívidas dos brasileiros até meados de
2028.
Flávio
Bolsonaro, por sua vez, propõe responder à questão do custo de vida reduzindo
imposto sobre o consumo. Em seu programa de governo, ele sugere ainda
simplificar a conta de luz, racionalizando encargos e subsídios cruzados; e
reduzir o preço dos alimentos por meio da criação de "corredores
logísticos inteligentes" para diminuir o custo do transporte, a ampliação
da capacidade de armazenamento de safras e o estímulo à produção nacional de
fertilizantes.
Com
relação ao endividamento, o candidato do PL tem indicado usar a Caixa Econômica
Federal para recomprar dívidas — proposta semelhante ao Desenrola 3.0 de Lula
–, mas o senador foi além e se comprometeu, no debate da Band, a dar carência
de seis meses para as famílias e de um ano para as empresas iniciarem o
pagamento. A proposta repercutiu mal entre agentes do mercado financeiro, que,
nas redes sociais, disseram considerar a medida um "calote bancário".
Para
Bruno Imaizumi, as propostas dos candidatos não tocam em agendas de longo
prazo. Ele avalia que reduzir o custo de vida, em uma economia ainda muito
dolarizada como a brasileira, exigiria valorizar a moeda nacional, o que, na
sua visão, só seria possível com reformas estruturantes.
"Ficamos
muito mal acostumados a discutir uma única grande reforma por mandato. E essa
reforma, geralmente, vem muito desidratada", afirma. "Por isso a
relação entre os Três Poderes é tão importante, porque nos falta discutir os
problemas estruturais."
Com
relação ao endividamento, Imaizumi também avalia que as propostas dos dois
lados são paliativas, e que uma solução de longo prazo exige reduzir os juros
no país, o que só será possível com o reequilíbrio das contas públicas.
Fonte:
BBC News Brasil

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