sábado, 24 de outubro de 2026

Jamil Chade:  ONU julgará vínculos de Flávio Bolsonaro com milícias

Os documentos que a ONU dispõe para julgar o caso da morte da garota Ana Clara Machado sugerem vínculos de Flávio Bolsonaro com a milícia carioca. No final de dezembro, a entidade vai examinar o caso, apresentado pelo advogado Raphael Costa. O acusado, o policial Bruno Dias Delaroli, é réu pelo assassinato da criança. Mas foi a atuação de Flávio Bolsonaro que garantiu que ele pudesse permanecer fora da prisão até agora.

O caso veio à tona em março, em reportagem de Alice Maciel publicada pelo ICL Notícias. Em 2021, com apenas 5 anos de idade, ela foi morta por um tiro de fuzil disparado por um policial militar em Niterói.

A família aguarda até hoje o julgamento do assassino de sua filha. Uma primeira data havia sido estabelecida para o último dia 14 de abril. Mas foi adiado para 21 de outubro. Em agosto, o julgamento foi reagendado para 5 de maio de 2027.

Enquanto isso, Costa fez a denúncia às Nações Unidas. Nela, ele aponta o papel de Flávio Bolsonaro para impedir que o policial fosse mantido preso e sua defesa no processo.

“A alegação central da comunicação de 2022 é que organizações paramilitares criminosas, comumente conhecidas como “milícias”, expandiram seu controle territorial, político e econômico sobre comunidades no Estado do Rio de Janeiro, supostamente com a participação, tolerância, proteção ou anuência de agentes públicos, incluindo membros das forças de segurança e autoridades políticas de alto escalão”, explica a peça entregue às Nações Unidas.

“Jair Bolsonaro, ex-presidente do Brasil, figura entre as autoridades identificadas na comunicação original. O denunciante alega que tal envolvimento ou anuência do Estado permitiu que essas organizações milicianas consolidassem seu controle territorial e influência econômica, enquanto os moradores enfrentavam detenções arbitrárias, execuções extrajudiciais, assassinatos de civis e outras graves violações dos direitos humanos”, apontou.

No documento seguinte, o material documental adicional serve como “prova que corrobora essa alegação central, servindo de base para examinar se a proteção política e institucional facilitou a expansão das milícias”.

A queixa aponta que, no acórdão publicado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), Flávio Nantes Bolsonaro (OAB/DF 67.599) é mencionado entre os advogados de defesa.

“O recurso principal contestava a decisão que submeteu o réu a julgamento pelo tribunal do júri e suscitava, entre outras questões, pontos relativos à cadeia de custódia e à suficiência probatória; o agravo interno visava à admissão e ao julgamento do recurso especial”, disse.

Segundo a queixa, em 9 de abril de 2024, a Quinta Turma negou provimento ao agravo interno, por maioria, com base em fundamentos processuais, mantendo a decisão de pronúncia e sem emitir qualquer juízo sobre a culpa.

O autor da denúncia sustenta que o registro, no STJ, da atuação do senador como advogado de defesa constitui ”prova relevante para examinar se figuras políticas de alto escalão têm intervindo em processos que envolvem integrantes das forças de segurança, e se tais intervenções contribuem para o cenário mais amplo de proteção institucional e impunidade alegado na denúncia”.

No informe entregue para a ONU, outros elementos incluem homenagens públicas e relações institucionais associadas a Flávio Bolsonaro durante seu mandato na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), bem como constatações judiciais e investigativas posteriores envolvendo policiais.

O texto cita o fato de que, em 2014, um júri condenou o tenente-coronel Cláudio Luiz Silva de Oliveira por seu papel no assassinato da juíza Patrícia Acioli, ocorrido em 2011. Relatos da imprensa da época indicam que Bolsonaro questionou a conduta da magistrada após o seu homicídio; a publicação original em rede social não foi localizada para esta atualização.

Registros da ALERJ apontam Bolsonaro como autor do Projeto de Resolução nº 1.067/2005 — aprovado como Resolução nº 931/2005 —, que concedeu a Medalha Tiradentes ao então primeiro-tenente Adriano Magalhães da Nóbrega.

“Documentos investigativos do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) descreveram, posteriormente, Adriano como um dos líderes da milícia de Rio das Pedras e como figura influente no grupo conhecido como “Escritório do Crime”. Trata-se de caracterizações de natureza investigativa, e não de sentenças judiciais de culpa; Adriano faleceu antes que as acusações fossem julgadas”, disse.

O documento aponta como sua mãe, Raimunda Veras Magalhães, e sua então esposa, Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, ocuparam cargos no gabinete de Bolsonaro na ALERJ. “O autor da denúncia aponta a concessão da honraria legislativa e os vínculos empregatícios mencionados como indícios de proximidade política, justificando uma investigação sobre um possível reconhecimento ou proteção institucional a indivíduos que, posteriormente, foram associados a crimes graves ou a investigações sobre milícias”, afirma.

A queixa apresenta, ainda, a transcrição de sessão da ALERJ na qual, em 7 de fevereiro de 2007, Flávio Bolsonaro argumenta “que as milícias não deveriam ser estigmatizadas, descrevendo suas atividades como uma forma de policiamento e uma fonte de segurança nas comunidades”.

“Em outubro de 2015, a juíza Daniela Barbosa Assumpção de Souza foi agredida durante uma inspeção no antigo Batalhão Especial Prisional (BEP), onde estavam detidos policiais militares — incluindo indivíduos que, à época, eram apontados como suspeitos de ligação com milícias”, disse. “Relatos daquele período indicam que Bolsonaro esteve no local e questionou publicamente o relato e a conduta da magistrada. Esses mesmos relatos atribuem à juíza a afirmação de que Bolsonaro não teria entrado na unidade, mas sim conversado com os detentos por telefone”, alertou.

Na avaliação de Costa, as declarações e presenças são “relevantes para analisar se o apoio político contribuiu para legitimar a atividade de milícias ou para proteger agentes de segurança da responsabilização”.

O documento submetido às Nações Unidas ainda concluiu que “esses episódios constituem um conjunto de indícios que reforçam a tese central: a de que a expansão territorial, política e econômica das milícias no Rio de Janeiro foi facilitada pela participação, proteção, tolerância ou anuência do Estado”.

O denunciante fundamenta-se em quatro categorias de elementos que, à primeira vista, justificam um exame minucioso:

•        A identificação, em decisão do STJ, do senador como advogado de defesa de um policial acusado do homicídio de uma criança;

•        As declarações públicas do senador favoráveis à atividade de milícias;

•        A concessão de honraria legislativa a Adriano da Nóbrega;

•        Relatos de que familiares de Adriano ocuparam cargos no gabinete do senador.

“Considerados cumulativamente, esses elementos justificam uma investigação sobre a possível proteção política e institucional a organizações milicianas”, disse. “O denunciante solicita que o Conselho avalie as alegações à luz das obrigações do Brasil de prevenir graves violações de direitos humanos, investigá-las de forma eficaz, garantir a responsabilização e assegurar a reparação — inclusive em casos em que grupos privados atuam com a participação, anuência ou tolerância do Estado”, completa.

<><> O caso

Nesta quinta-feira, nas redes sociais, Costa explicou que era o secretário de Direitos Humanos de Niterói, em 2021. “Na mesma hora, ouvimos testemunhas e conseguimos evitar que o criminoso fosse liberado”, disse. Ele foi preso em flagrante. Mas, no final de 2021, Costa recebeu a notícia que o policial havia sido solto.

“Fui informado em off que um senador da República estaria atuando nos bastidores para proteger o assassino. O nome do senador é Flávio Bolsonaro”, disse.

No mês seguinte, Costa levou o caso às autoridades federais e apontou para o avanço das milícias, protegidos pelos agentes do próprio estado. Em 2022, protocolou a denúncia no Alto Comissariado de Direitos Humanos.

Em 2024, ele enviou um relatório atualizado, apontando até mesmo para o envolvimento de Flávio Bolsonaro, que oficialmente havia também assumido o caso. “Isso indicava o envolvimento da alta cúpula da política nacional com milicianos”, denunciou.

O senador que está sendo apurado pela ONU é, agora, candidato à presidência.

Segundo Costa, a carta diz que reunião está marcada para ocorrer entre os dias 18 e 24 de dezembro, em Genebra. “Resta saber se o Brasil vai receber decisão com o Flávio como investigado ou presidente”, completou.

O ICL Notícias apurou que, de fato, reuniões estão agendadas para ocorrer sobre as comunicações recebidas pela ONU, no final de dezembro, em Genebra.

•        Advogado do caso Ana Clara diz temer pela vida e relata ação de Flávio Bolsonaro para proteger assassino

Oadvogado Raphael Costa, ex-secretário de Direitos Humanos de Niterói, veio a público nesta quinta-feira (22) denunciar manobras políticas e jurídicas destinadas a garantir a impunidade do policial militar acusado de tirar a vida da pequena Ana Clara, de apenas cinco anos. No relato, Costa faz revelações graves: aponta a interferência direta do senador e candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), e afirma temer pela própria integridade física devido à dimensão dos interesses envolvidos.

O episódio remonta ao ano de 2021, quando Ana Clara foi fatalmente atingida por um disparo de fuzil na porta da residência de sua família, na comunidade do Monan Pequeno, em Pendotiba, Niterói. O tiro partiu da arma de um agente da Polícia Militar apontado por ligações com grupos milicianos. À época no comando da pasta de Direitos Humanos do município, Raphael acompanhou o caso desde as primeiras horas. Ele recorda o choque ao receber a notícia, o deslocamento imediato até a cena do crime e a mobilização das autoridades locais para assegurar que o agente permanecesse detido preventivamente diante da gravidade dos fatos.

<><> Bastidores de pressão e mudança na defesa

A indignação da família e das entidades de direitos humanos deu lugar à perplexidade poucos meses após o crime. A despeito da comoção e dos indícios apurados, o acusado obteve a liberdade provisória. Foi nesse momento que interlocutores influentes do meio político e jurídico revelaram a Raphael a existência de bastidores até então ocultos: um influente parlamentar federal estaria atuando fortemente nos bastidores para constranger instâncias da Polícia Civil e do Judiciário fluminense. O objetivo da articulação era evitar a responsabilização penal do agente e assegurar sua soltura. Esse parlamentar era o senador Flávio Bolsonaro.

Com o passar dos anos, o enredo institucional ganhou contornos ainda mais diretos. Em 2024, o que antes ocorria por meio de influência política informal tornou-se um ato explícito nos autos do processo. Flávio Bolsonaro passou a integrar formalmente a equipe de advogados de defesa do policial militar. A conduta visava impedir que o réu fosse levado a julgamento popular perante o Tribunal do Júri. Enquanto isso, mais de cinco anos após o assassinato da criança, o agente segue sem condenação definitiva.

<><> Denúncia internacional e tensão eleitoral

Diante da paralisia do sistema de justiça local e do peso político exercido na defesa do acusado, Raphael Costa buscou instâncias internacionais. O advogado protocolou uma denúncia formal junto à Organização das Nações Unidas (ONU), detalhando as violações de direitos humanos e o uso de capital político para blindar agentes envolvidos em mortes violentas.

No depoimento recente, o advogado trouxe a público o desdobramento mais relevante dessa iniciativa. Ele revelou ter recebido uma comunicação oficial do organismo internacional confirmando que o caso será formalmente julgado na sede das Nações Unidas, em Genebra, na Suíça, até o dia 24 de dezembro. O julgamento avaliará a responsabilidade e as omissões do Estado brasileiro, bem como a conduta de autoridades envolvidas na proteção do réu.

O advogado encerra seu pronunciamento com uma reflexão sobre a gravidade do momento e a incerteza política que paira sobre o país, ressaltando que resta aguardar se, quando a decisão internacional for proferida na Europa, Flávio Bolsonaro responderá aos fatos na condição de investigado ou de Presidente da República eleito. A denúncia traz um forte elemento de comoção ao cenário eleitoral, recolocando no centro do debate público os limites da atuação de agentes políticos na tutela do sistema policial e a eterna busca de famílias periféricas por justiça.

 

Fonte: ICL Notícias/Fórum

 

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