Departamento
de Estado dos EUA financia ONG que questiona liberdade de expressão no Brasil
Um dia
antes do primeiro turno das eleições, o engenheiro civil brasileiro Jamil Assis
estava em Nashville, nos Estados Unidos, para participar de uma conferência, a
Global Free Speech Summit, ou Cúpula Global de Liberdade de Expressão, em
português. Assis estava ali para falar sobre como a liberdade de expressão
estaria em declínio no Brasil, sua especialidade. Ele é diretor de relações
institucionais do Instituto Sivis, um think tank sediado em Curitiba, no
Paraná, que se autointitula apartidário e atua com atividades educativas
relacionadas aos valores democráticos.
“Antigamente,
chamar um político de ladrão era quase um esporte nacional. Mas agora custa
mais caro. É realmente perigoso chamar as pessoas de ladrões no Brasil”, disse
Assis, em Nashville. E completou: “A autocensura tornou-se um grande problema
[no Brasil]: a ideia de que você não diz em voz alta o que pensa, ou que
algumas opiniões não são expressas no debate público, em família, no trabalho
ou na escola”.
Quem
também esteve no evento foi Sarah Rogers, subsecretária de Estado para
Diplomacia Pública dos EUA. É ela a responsável pelo departamento que criou o
fundo que destinou US$ 1 milhão a ONGs que se opõem ao que o governo
norte-americano classifica como “excesso” de poder judicial e “censura” por
parte do Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro, de acordo com matéria do
jornal inglês The Guardian.. Para ela, democracias em todo o mundo estariam
passando por uma “recessão na liberdade de expressão”.
Dias
antes, em 23 de setembro, o Departamento de Estado dos EUA havia liberado um
financiamento de quase 30 mil dólares (cerca de R$ 150 mil, no câmbio atual)
para o Instituto Sivis, para um projeto sobre liberdade de expressão com
duração de um ano. O projeto em questão, relacionado aos programas de
diplomacia pública e pago através do Consulado dos EUA em São Paulo, prevê
“desenvolver um currículo comparativo sobre a Primeira Emenda dos EUA e a
liberdade de expressão para instituições de ensino superior do Brasil,
capacitar docentes e realizar um curso-piloto com mais de 150 alunos, a fim de
fortalecer a educação cívica e as relações acadêmicas entre o Brasil e os EUA”.
O grant com o nome do Sivis estava disponível no site USAspending.org, fonte
oficial sobre gastos federais norte-americanos, mas os dados detalhados do
grant e da Sivis foram retirados da página dias depois. A Pública manteve uma
cópia dos dados originais. Não há confirmação de que o dinheiro já foi
repassado.
Não se
sabe se o financiamento ao Sivis faz parte do novo fundo do governo americano
para iniciativas contra as ações do STF entendidas como censura e abuso de
poder – afinal, não há uma lista pública sobre os beneficiários. Ao Guardian, o
Departamento de Estado afirmou que os programas ainda estavam em “análise
ativa”. Segundo publicou o UOL, a identidade dos beneficiários é mantida sob
sigilo até mesmo de membros do Congresso dos EUA e de servidores públicos.
Procurado,
o Sivis afirmou que “todos os seus financiamentos são totalmente transparentes,
e o apoio de organizações nacionais e internacionais não implica qualquer
ingerência sobre suas atividades, posições ou decisões institucionais”. Em
nota, alegou também que “sua atuação é conduzida com plena autonomia em relação
a seus financiadores”. A organização não respondeu, entretanto, se recebeu o
financiamento do Departamento de Estado dos EUA.
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Currículo sobre a Primeira Emenda dos EUA nas universidades brasileiras
O
aporte demonstra que pelo menos uma ONG brasileira tem se beneficiado da
guinada do financiamento do Departamento de Estado para projetos de direita e
conservadores no mundo, uma nova diretiva do governo de Donald Trump.
Na
mesma semana em que recebeu a aprovação do aporte, a diretoria do Sivis se
posicionou publicamente sobre um eventual impeachment do ministro do STF
Alexandre de Moraes. Em texto publicado na revista Oeste, o diretor executivo
do Sivis, Henrique Zétola, defendeu que o impeachment de Moraes seria “um
imperativo republicano”. No evento em Nashville, Assis analisou as recentes
decisões do STF. “Antes de 2023, na opinião da maioria das pessoas, não havia
nenhuma grande ameaça à nossa democracia. Era apenas a Suprema Corte agindo de
forma muito corporativista e se protegendo. Mas eles encontraram uma desculpa
perfeita em 2023 para ‘proteger a democracia’. E a maioria das pessoas agora
está percebendo que não era esse o caso”, disse Assis no evento.
O
financiamento liberado pelo Departamento de Estado vai apoiar o Sivis a
desenvolver um currículo sobre a Primeira Emenda dos EUA e a liberdade de
expressão. O público-alvo desse currículo são instituições de ensino superior
brasileiras. O instituto se comprometeu a capacitar docentes e realizar um
curso-piloto para mais de 150 alunos.
Porém,
o professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo
(USP) Ivan Paganotti explica que há diferenças entre o entendimento do que é
liberdade de expressão nos EUA e no Brasil. “A Primeira Emenda determina que o
Estado não só não pode limitar a liberdade de expressão, como não pode fazer
normas que regulem essa liberdade de expressão”, discorre. Já no Brasil e em
alguns países europeus, há regras colocadas pelo Estado limitando esse direito.
“A própria Constituição, quase todo o inciso em que ela fala sobre liberdade de
expressão vem com uma adversativa, um ‘mas’ ou ‘entretanto’ sobre outros
direitos que podem colidir, como a privacidade, o direito à honra e à imagem”,
complementa Paganotti.
O
governo norte-americano vem numa cruzada para impor a sua visão sobre o que é a
liberdade de expressão a outros países, o que resvala especialmente nas
tentativas de regulação do ambiente digital e nas decisões dos Judiciários. Em
agosto do ano passado, o presidente da Comissão Federal de Comércio dos EUA
apontado por Trump afirmou em uma carta a empresas de tecnologia que governos
estrangeiros estariam agindo para censurar os norte-americanos. Já o
vice-presidente norte-americano, JD Vance, chegou a sugerir que os EUA se
retirassem da OTAN caso a União Europeia tentasse regular o X, ex-Twitter. “O
poder americano vem com certas condições. Uma delas é o respeito à liberdade de
expressão”, afirmou ele em uma entrevista com o youtuber Shawn Ryan.
A
Comissão de Assuntos Judiciais da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos,
controlada pelos republicanos, também passou a produzir relatórios que acusam
governos estrangeiros de censurar conteúdos nas redes sociais.
O
governo Trump tem usado acusações de censura e perseguição política para
pressionar o STF brasileiro. Em abril deste ano, em uma publicação sobre o
Brasil, a comissão chegou a alegar que o país representa “uma ameaça
significativa aos direitos de liberdade de expressão dos americanos” e que
estaria atuando em parceria com censores em todo o mundo no que chama de
“complexo industrial da censura”.
Sob o
argumento de proteger a liberdade de expressão, impôs sanções ao ministro
Alexandre de Moraes e chegou a justificar o tarifaço contra o Brasil com
acusações de censura a cidadãos e empresas americanas. No Brasil, o consulado
dos EUA em São Paulo chegou a fazer reuniões com influenciadores bolsonaristas
e ligados à extrema direita neste ano sobre os rumos da liberdade de expressão
no país.
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1,1 mi do Google e conexão com Gazeta do Povo
O
Instituto Sivis se define como “um think tank apartidário que trabalha para
fortalecer os verdadeiros valores democráticos através da educação para a
democracia e da liberdade de expressão”. Sediado em Curitiba, no Paraná, está
localizado no mesmo endereço da Acta, o family office da família Cunha Pereira,
acionista do Grupo GRPCOM — dono do jornal de direita Gazeta do Povo, entre
outros veículos de comunicação. Foi esse o mesmo endereço usado no projeto
submetido ao Departamento de Estado dos EUA.
Em
2024, o Sivis criou o Centro Voxius de Liberdade de Expressão e, por meio dele,
vem acumulando financiamentos internacionais de entidades interessadas em
patrocinar projetos destinados a combater um suposto aumento da censura no
Brasil. O Voxius “busca construir fundamentos para a liberdade de expressão no
Brasil, com base em um diagnóstico profundo do contexto político-social” e tem
como um dos eixos de atuação o combate à regulação e o controle de conteúdo,
incluindo monitoramento governamental, como o das decisões do TSE e dos TREs
nas eleições, e casos de “censura pelo governo e remoção de conteúdo pelas
plataformas”.
O
Instituto Sivis tem apoio institucional das Big Techs e atua como voz alinhada
ao lobby anti-regulação em Brasília.
Em
abril do ano passado, Jamil Assis esteve no escritório do Google para debater
justamente liberdade de expressão e regulação digital. “O evento contou com
organizações da sociedade civil e o especialista em liberdade de expressão Joan
Barata, da The Future of Free Speech, e ilustrou os debates com a discussão
sobre o caso europeu. Agradecemos ao Google e ao Joan pelo excelente evento!”,
escreveu o Instituto no seu LinkedIn. Na mesma época, o Sivis esteve na sede da
Meta para discutir a decisão do STF que impôs responsabilização às plataformas
por conteúdo ilegal.
O
instituto captou R$ 1,5 milhão em doações com um projeto submetido à Lei
Rouanet em 2024 para desenvolver seu plano anual e um livro “que vai apresentar
as complexidades da cultura democrática brasileira”. Desse valor, 74% foram
repassados pelo Google – 1,1 milhão de reais.
O
instituto também é apoiado pela Meta e pelo TikTok, segundo seu site. O TikTok
afirmou, por nota, que “Nos últimos anos, trabalhamos com 27 organizações da
sociedade civil dedicadas à pesquisa e ao impacto social no ambiente digital.
Valorizamos o diálogo com uma variedade de entidades como parte essencial para
seguirmos construindo uma plataforma responsável e transparente”. As demais Big
Techs não responderam à reportagem.
O Sivis
já chegou a defender, em audiência do Conselho de Comunicação Social do Senado,
que a regulação das redes sociais não seja feita por meio de uma lei em
específico e a dizer que a regulação digital pode afetar a liberdade de
expressão.
Em
fevereiro deste ano, Assis abriu uma apresentação durante o Fórum da Liberdade
América Latina, realizado entre os dias 26 e 27 daquele mês no Peru, afirmando
que o Brasil vive uma “recessão da liberdade de expressão”. Ele concorria ao
prêmio Smart Bets e conseguiu captar para o Sivis 65 mil dólares, o equivalente
a cerca de R$ 335 mil no câmbio atual, dado pela rede global de think tanks de
direita Atlas Network. No texto em que anuncia a vitória, a Atlas menciona o
STF como uma instituição que tem gerado “uma cultura de autocensura no Brasil”.
“Os
tribunais eleitorais e a Suprema Corte recorrem cada vez mais a noções vagas de
‘desinformação’ e ‘discurso de ódio’ para remover conteúdos, restringir
críticos e ameaçar plataformas, muitas vezes sem critérios jurídicos claros ou
o devido processo legal, o que tem levado a uma cultura de autocensura”, diz a
organização.
A Atlas
Network é uma rede de organizações liberais ligada à expansão do pensamento
ultraliberal no mundo e à ascensão da extrema direita na América Latina na
última década. “Na América Latina, a ascensão de [Javier] Milei, de [José
Antonio] Kast, de Bolsonaro, da extrema direita, de forma geral, está
totalmente conectada à Atlas Network”, explica o professor do curso de Relações
Internacionais da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Luan Brum.
Em
entrevista ao podcast da Atlas em março deste ano, Jamil Assis chegou a dizer
que as autoridades públicas e o Estado brasileiro estariam “concentrando
múltiplos esforços em várias frentes para restringir o espaço para a
discordância e opiniões diferentes ou minoritárias” e mencionou especificamente
o STF.
Com o
prêmio da Atlas, o Sivis criou o Boletim Liberdade de Expressão e Monitoramento
das Eleições (Leme), um monitoramento das decisões da Justiça Eleitoral
brasileira nas eleições de 2026 envolvendo plataformas digitais, inteligência
artificial e liberdade de expressão. A iniciativa pretende municiar jornalistas
durante as eleições e promover ideias de reformas para os legisladores e
integrantes do executivo eleitos durante o próximo mandato. O levantamento já
foi repercutido em meios como a Gazeta do Povo, no Brasil247, no Estadão e na
CNN.
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“Cultura de Censura Estatal”
Outro
repasse feito ao Sivis neste ano vem de uma instituição que não divulga
publicamente os valores transferidos, a Rising Tide. A fundação tem um
financiamento ativo para o Centro Voxius, do Sivis. No texto que descreve a
iniciativa, a fundação afirma que “no Brasil, as regulamentações digitais e
eleitorais estão se tornando mais rígidas sob o pretexto de combater a
desinformação, criando uma cultura de autocensura e censura estatal”.
Ativo
por dois anos, a começar de 2026, o projeto “traduzirá evidências globais sobre
os benefícios e a necessidade da liberdade de expressão para o contexto
brasileiro”. Será publicado um livro e realizadas “oficinas de
contra-argumentação para líderes da sociedade civil, ativistas e jornalistas
com alternativas à censura estatal que respeitem os direitos humanos”. Ele
inclui também mesas-redondas intersetoriais fechadas, seguindo as regras da
Chatham House, ou seja, nas quais informações debatidas nos encontros podem ser
divulgadas, mas não a identidade e a afiliação de quem fez as declarações.
O livro
que o Sivis pretende publicar com esse financiamento chama-se O Futuro da
Liberdade de Expressão, de autoria de Jacob Mchangama e Jeff Kosseff, lançado
em inglês neste ano. Mchangama é um advogado dinamarquês responsável por
popularizar o termo “recessão da liberdade de expressão”. Mchangama é também o
fundador da The Future of Free Speech, organização que consta na lista de
parceiros do Sivis e foi a responsável pelo evento de Nashville onde estavam
Assis e Rogers.
Ele
também foi convidado de honra da Meta no encontro realizado em julho do ano
passado na sua sede, onde o Sivis esteve presente. O encontro foi liderado por
Margareth Kang, gerente de políticas públicas da Meta, área que trata de lobby
dentro da empresa.
“Nesta
terça-feira, o Sivis esteve na sede da Meta, em São Paulo, para um diálogo
enriquecedor com o professor Jacob Mchangama sobre um tema crucial: liberdade
de expressão na era digital. A conversa abordou questões centrais no cenário
brasileiro, como a responsabilização de plataformas por conteúdos de terceiros,
especialmente após a recente decisão do STF sobre a inconstitucionalidade
parcial do Art. 19 do Marco Civil da Internet, além das iniciativas de
regulação da inteligência artificial”, escreveu a organização.
Mchangama
também é diretor do think tank dinamarquês Justitia, financiado pela Associação
da Indústria de Computadores e Comunicações (Computer & Communications
Industry Association, CCIA, na sigla em inglês). Como a Pública mostrou, a CCIA
é um grupo de lobby que tem como membros Google, Meta, Microsoft, Amazon, Uber,
Apple, Pinterest e E-Bay, e está ligado à ameaça de Donald Trump de investigar
práticas comerciais do Brasil. O grupo já chegou a divulgar uma nota aplaudindo
o tarifaço contra o Brasil imposto por Trump.
Há
ainda outra organização que tem apoiado o Sivis. Entre 2024 e 2025, a FIRE
financiou o Sivis para produzir uma pesquisa sobre autocensura e liberdade de
expressão nas universidades brasileiras. Com o resultado da pesquisa, o Sivis
passou a publicar artigos alegando que as universidades estão se afastando da
pluralidade intelectual e que a liberdade acadêmica estaria se deteriorando no
país.
A FIRE
se dedica à defesa da liberdade de expressão, especialmente no ambiente
universitário. Ela já foi criticada por tentar criar a impressão de que a
liberdade de expressão está permanentemente ameaçada nas universidades
americanas. Suas principais doações vêm das fundações ultraconservadoras dos
EUA, como Earhart, John Templeton e Lynde e Harry Bradley.
Procurada
pela Pública, a FIRE afirmou que repassou em 2024 o valor de 35,144 dólares,
cerca de R$ 177 mil, para a Future of Free Speech. O financiamento era para o
estudo sobre liberdade de expressão nas universidades feito em parceria com o
Sivis. A FIRE afirmou que disponibilizou informações sobre sua metodologia e os
questionários usados nos EUA para o Sivis, mas não se envolveu na adaptação
deles para a pesquisa feita no Brasil tampouco na implementação.
Já a
The Future of Free Speech alegou que nunca forneceu qualquer financiamento ao
Sivis. “Cuidamos da logística administrativa e de pagamentos de um
financiamento da FIRE destinada ao Sivis porque temos experiência na
administração de subvenções internacionais”, explicou a entidade. Segundo a
organização, o Sivis conduziu a pesquisa de forma independente, sem orientação
ou supervisão deles.
A
Future of Free Speech afirmou ainda que não faz parte da Justitia e nunca
recebeu financiamento da CCIA. A Rising Tide não respondeu até a publicação da
reportagem.
Fonte:
Por Alice de Souza, da Agência Pública

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