Quando
o patrão pede voto
Vigilantes
terceirizados em um hospital no Acre são convocados a participar de um ato
eleitoral – e quem não for, pode perder o emprego. Em Caldas Novas, Goiás, a
inauguração de uma loja da Havan converte-se em um encontro político, com
direito a discurso inflamado do empresário Luciano Hang contra o fim da
escala 6×1 e em defesa do bolsonarismo. Em Maceió, o influenciador digital Rico
Melquíades diverte-se gravando vídeos em que ameaça demitir suas empregadas
domésticas que votarem no PT.
Esses
são alguns exemplos de denúncias de assédio eleitoral no ambiente laboral
recebidas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) em 2026. Entre 1º de
janeiro e 15 de outubro deste ano, o MPT contabilizou 1.341 comunicações do
gênero – sendo a maior parte delas, 553, registradas em setembro e outras
522 em outubro, até o dia 15. Considerando os dados desde setembro, foram quase
24 denúncias recebidas por dia.
As
eleições deste ano já bateram um recorde quando se leva em conta as denúncias
recebidas entre 1º de janeiro e 30 de setembro: foram 819 indícios de assédio
eleitoral, segundo o MPT. O número supera em quase dez vezes as 85 queixas
recebidas em 2022 no mesmo período. Para se ter uma ideia do aumento dos casos,
só em setembro deste ano foram 553 denúncias de assédio eleitoral no trabalho,
ante 68 em 2022.
Para o
procurador-geral do Trabalho, Gláucio Araújo de Oliveira, a explosão de
denúncias explica-se por diversos fatores. “De um lado, revela a persistência
de práticas de pressão e constrangimento político nas relações de trabalho”,
disse Oliveira em entrevista à Agência Pública. “De outro, reflete uma
maior conscientização dos trabalhadores sobre seus direitos e a ampliação dos
canais de denúncia. As campanhas de esclarecimento, a atuação articulada do MPT
com a Justiça Eleitoral e a Justiça do Trabalho e a maior visibilidade do tema
também contribuem para reduzir a subnotificação”, completa.
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Processos, multas e indenizações para empregadores
E a
tendência é de escalonamento em outubro ao se aproximar do segundo turno, que
acontecerá no dia 25. Isso porque, nas últimas eleições gerais, os assédios
explodiram no mês em que aconteceram as votações, com 2.641 casos. O MPT, neste
ano, tem os dados processados até o dia 15.
O
estado que lidera as denúncias é São Paulo, com 224 casos, seguido de Minas
Gerais, com 150, e o Rio de Janeiro, com 117. Fora do sudeste, quem mais somou
denúncias de assédio eleitoral foram o Paraná, com 106 ocorrências, Goiás, com
59, Bahia, com 53, e o Mato Grosso, com 51.
Pelo
menos nos três casos que abrem esta reportagem, o desfecho foi negativo para os
empregadores. A empresa de vigilância que presta serviços ao hospital no Acre
foi proibida de coagir seus funcionários, sob o risco de ser multada em R$ 1
milhão caso descumpra a determinação. Hang, pelo comício que realizou em sua
loja, passou a responder a uma ação civil pública e, caso seja condenado, será
multado em até R$ 30 milhões. Já Melquíades, se reincidir no crime eleitoral,
terá de pagar R$ 300 mil em indenizações.
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Como se dá o assédio eleitoral
O crime
de assédio eleitoral no trabalho costuma seguir certos padrões, embora as
denúncias contemplem variadas formas de abordagem – desde uma retífica
automotiva em Dois Vizinhos, no Paraná, que passou a transportar seus
funcionários numa vã coberta de propagandas políticas, até uma indústria de
calçados em Bom Despacho, Minas Gerais, que abriu suas portas para o comício de
candidatos, obrigando os funcionários a comparecerem.
É o que
aponta a pesquisa “Assédio eleitoral nas relações de trabalho”, produzida pela
Justiça do Trabalho, que analisou 662 processos de assédio eleitoral entre 2023
e 2025. Ainda que anterior ao primeiro turno (ela foi publicada em agosto deste
ano), a pesquisa traça o panorama de como, nas fábricas, escritórios e em
outros ambientes laborais, dá-se o assédio aos trabalhadores.
Em 9 a
cada 10 das ações trabalhistas avaliadas, o relatório identificou provas de
assédio institucionalizado. Ou seja, o assédio eleitoral, nesses casos, foi
respaldado pela “alta cúpula” das empresas, a partir “do uso de ferramentas de
comunicação interna para fins político-partidários e da instrumentalização da
jornada de trabalho para atividades eleitorais (como convocação para reuniões
partidárias, carreatas e panfletagem)”.
Via de
regra, esses assédios têm como pano de fundo o terror psicológico. Em 81,9% dos
casos avaliados, os patrões buscaram impor suas visões políticas aos empregados
por intermédio da “criação de narrativas catastróficas a partir dos resultados
das eleições, como a perspectiva de caos econômico e social decorrente da
vitória de um candidato”.
Se o
assédio eleitoral baseia-se no terror, o meio em que circulam suas mensagens é
quase sempre o virtual. “As redes sociais se transformaram em um importante
instrumento de coação e de monitoramento contra os trabalhadores”, afirma o
relatório da Justiça do Trabalho. Em 67% dos casos estudados, o assédio se
deu-se via WhatsApp.
Outra
forma de intimidação utilizada é a econômica. Em 61% das ações, a Justiça
identificou “ameaças ligadas a salário, perda de função e oferecimentos de
prêmios e vantagens [em troca do apoio a determinado candidato]”.
Um caso
ocorrido em Santarém, duas semanas antes do 1o turno, ilustra esse
modo de operação. A chefe de uma empresa de trabalhadores terceirizados que
presta serviços à secretaria de estado de Turismo criou um grupo de Whatsapp
para distribuir mensagens de apoio a um candidato a deputado estadual. Em
seguida, adicionou os funcionários ao grupo e passou a pressioná-los a divulgar
os materiais de campanha, ameaçando aqueles que não aderissem com a
possibilidade de demissão. No dia 22 de setembro, depois de apurar as denúncias
anônimas que recebeu, a Justiça do Trabalho interveio. O grupo foi dissolvido e
a servidora, afastada de suas funções.
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99% dos casos chegam a um desfecho, diz MPT
Quase
sempre, contou à Pública o procurador-geral do Trabalho, as denúncias de
assédio eleitoral são apuradas e chegam a um desfecho. Foi assim em 2022,
quando mais de 99% dos casos foram encerrados ou por ações judiciais, por
termos de ajustamento de conduta ou por soluções extrajudiciais.
Dentre
as medidas do MPT para coibir o assédio eleitoral e garantir a liberdade
política dos trabalhadores nas eleições deste ano, está a criação de um canal virtual para o envio de
denúncias.
Para
registrar uma queixa, basta informar o estado e o município em que se deram os
fatos e relatar as irregularidades percebidas, bem como os dados do denunciado.
Caso o denunciante tenha provas do assédio eleitoral, ele poderá anexá-las à
denúncia. As queixas podem ser feitas de forma anônima e os dados dos
denunciantes serão mantidos sob sigilo sempre que assim solicitarem.
Fonte:
Por Leandro Aguiar, da Agência Pública

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