Michelangelo
Torres: Disputar o futuro
Restam sete
dias para o segundo turno das eleições de 2026. O Brasil está em disputa. O
cenário eleitoral, contudo, está longe de ser uma disputa política ordinária.
Em nível nacional, está em jogo muito mais do que a escolha de quem ocupará o
Palácio do Planalto e comandará o Executivo federal pelos próximos quatro anos.
O que se disputa é a possibilidade de cada projeto político imprimir sua
direção ao país, condicionando os rumos da democracia, dos direitos sociais,
das liberdades políticas e das condições de vida da população nos próximos
anos.
Dada a
abrangência continental destas eleições, o resultado eleitoral de 2026 poderá
alterar significativamente a correlação de forças na América Latina. Afinal, o
imperialismo norte-americano, chefiado pelo governo de governo Donald Trump,
representa uma crescente ofensiva sobre a América Latina, ampliando sua pressão
política, econômica e militar. Nesse contexto, as eleições brasileiras
transcendem as fronteiras nacionais e assumem importância estratégica para o
conjunto da região. Não por acaso, o mundo acompanha atentamente a disputa
eleitoral no Brasil.
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Quem é Flávio Bolsonaro?
Filho
mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses de
prisão pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição
violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e
deterioração de patrimônio tombado, no âmbito da trama golpista investigada
após as eleições de 2022, desde 2003 exerceu quatro mandatos consecutivos como
deputado estadual no Rio de Janeiro (ALERJ) e assumiu uma cadeira no Senado em
2019.
Envolvido
no escândalo das “rachadinhas” de Fabrício Queiroz, ocasião em que foi
denunciado pelo Ministério Público por organização criminosa, peculato, lavagem
de dinheiro e apropriação indébita. Sobre o mesmo tema, houveram suspeitas de
que Flávio Bolsonaro utilizou uma franquia da Kopenhagen, localizada em
um shopping na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, como fachada para lavar
dinheiro do esquema de “rachadinhas” operado em seu antigo gabinete na
Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), uma vez que haveria suspeita
de incompatibilidade de faturamento do negócio – registros de dinheiro vivo,
padrão de depósitos em espécie (com picos em datas de pagamento e no 13º
salário) e contrastante com o fluxo natural do varejo de chocolates.
Há
também o caso de aquisição e quitação de mansão em Brasília, aquisição
milionária e incompatível com o salário formal de parlamentar. Esteve, ainda,
envolvido com relações pessoais e homenagens a milicianos, como no caso de sua
relação direta com o ex-capitão do Bope apontado como chefe do “Escritório do
Crime”, um grupo de matadores de aluguel no Rio de Janeiro, além de ter
condecorado o major Ronald Paulo Alves Pereira (condenado por envolvimento no
caso Marielle Franco) e o coronel Cláudio Luiz de Oliveira (condenado pelo
assassinato da juíza Patrícia Acioli).
Outro
fato embaraçoso em sua trajetória refere-se à compra de imóveis em dinheiro
vivo e questionamentos sobre a origem dos recursos utilizados nas transações.
Investigações jornalísticas e desdobramentos de auditorias apontaram que a
família Bolsonaro realizou a compra de 107 imóveis entre 1990 e 2020, sendo que
51 dessas transações foram feitas, total ou parcialmente, com dinheiro vivo.
O “Zero
Um” dos Bolsonaro esteve diretamente associado a essas negociações. Ele
adquiriu 17 apartamentos e duas kitnets na Zona Sul do Rio de Janeiro pagando
parcelas expressivas em espécie. As suspeitas envolvem lavagem de dinheiro e
subfaturamento de valores venais.
Em
2025, o candidato bolsonarista incitou o desrespeito a decisões judiciais e
atuou de forma incompatível com o decoro exigido pelo cargo público, conforme
notificou o STF em ocasião das ordens de prisão expedidas pelo Supremo Tribunal
Federal contra seu pai, Jair Bolsonaro.
Mais
recentemente, Flávio Bolsonaro esteve envolvido em escândalos por seu vínculo
com suspeitos de fraude no INSS e lavagem de dinheiro, bem como pelo
financiamento do Filme Dark Horse e seu esquema com emendas
parlamentares – contexto em que flávio tornou-se alvo de apurações da Polícia
Federal sob as suspeitas de lavagem de dinheiro, organização criminosa, evasão
de divisas e corrupção.
No
mesmo sentido, relatórios da PF em 2026 levantaram questionamentos sobre uma
emenda parlamentar de R$ 199 mil enviada por Flávio Bolsonaro a uma ONG
suspeita de desvios, que possuía ligações com os irmãos Chiquinho e Domingos
Brazão, apontados como mandantes do assassinato de Marielle Franco.
O
escândalo mais recente: Segundo investigações autorizadas pelo STF, Flávio
Bolsonaro atuou como interlocutor direto de Daniel Vorcaro (Banco Master) para
viabilizar aportes milionários (cerca de US$ 14 milhões dos US$ 24 milhões
solicitados) e obter empréstimos do BRB para favorecimentos pessoais. Mensagens
e áudios obtidos pela PF mostram cobranças de parcelas e reuniões entre os dois
em 2025, mesmo o candidato ter alegado desconhecimento do banqueiro até então.
Divulgados recentemente, relatórios da PF apontaram o nome de Flávio Bolsonaro
como “usuário master” em uma conta bancária de uma offshore ligada ao
esquema do Banco Master.
Em oito
anos de mandato como Senador, um único projeto associado ao nome de Flávio
Bolsonaro se tornou Lei, de autoria coletiva e vetos presidenciais. Apesar de
ser presidente do então presidente da República, nenhum de seus projetos
avançou. Trata-se de um fracasso político.
Seu
irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, o “bananinha” fujão,
encontra-se foragido nos EUA é considerado oficialmente procurado pelas
autoridades brasileiras, após o após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo
Tribunal Federal (STF), determinar o início imediato do cumprimento de sua pena
– com ordem de prisão e passaportes cancelados. Seu pai, Jair Bolsonaro, cumpre
pena após condenação por, dentre outros crimes, tentativa de golpe de Estado.
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O perigo de subestimar as forças da extrema direita
Flávio
Bolsonaro representa um projeto de poder miliciano-familiar, autoritário e
antagônico aos princípios e às forças democráticas. Ele encampa um bloco
político cujo núcleo duro constitui uma ameaça às liberdades democráticas, aos
direitos sociais consagrados pela Constituição Federal de 1988 e ao conjunto
das conquistas históricas da sociedade brasileira. Não nos enganemos quanto aos
seus objetivos: está em jogo um projeto de subversão da ordem democrática
construída ao longo da Nova República.
Após a
tentativa fracassada de golpe de Estado, esse campo político busca avançar
também por dentro das próprias instituições democráticas. Sua estratégia passa
pela conquista de maiorias parlamentares, pelo fortalecimento de governos
estaduais aliados e pelo controle de posições estratégicas no Estado, com o
propósito de alterar a composição do Supremo Tribunal Federal e promover
mudanças constitucionais profundas. Não se trata de uma disputa política
ordinária, mas de um projeto que, se levado adiante nesses termos, poderá
corroer os mecanismos de equilíbrio entre os Poderes, restringir direitos e
comprometer as garantias que sustentam o regime democrático.
Estamos
diante de um projeto regressivo, reacionário e autocrático, que pretende
utilizar os instrumentos da democracia para modificar suas próprias regras e
limitar as condições de sua continuidade. É precisamente por isso que a defesa
da democracia exige atenção, mobilização e unidade de todas as forças
comprometidas com as liberdades públicas, os direitos sociais e a Constituição
de 1988.
Há um
real perigo em se subestimar as forças da extrema-direita e o projeto
neofascista de sua ala mais radical. O bolsonarismo representa uma ameaça
profunda à democracia, aos direitos sociais, às liberdades políticas e às
próprias condições de convivência democrática.
É um
projeto de poder autoritário, personalista e avesso ao pluralismo, que busca
subordinar as instituições e a vida pública a uma lógica de confronto
permanente, intolerância e concentração de poder. Seu caráter regressivo não se
limita à esquerda ou aos movimentos populares: ameaça conquistas democráticas
que deveriam ser inegociáveis para qualquer sociedade que se pretenda
civilizada.
As
forças de direita moderada e tradicional, assim como os setores que se abrigam
sob a denominação de Centrão, também precisam compreender os riscos dessa
dinâmica. O bolsonarismo não é um aliado confiável da direita liberal ou
conservadora tradicional: sua lógica de poder tende a subordinar adversários,
reduzir o pluralismo e tratar as instituições como instrumentos de um projeto
particularista.
Uma
direita comprometida com o Estado de Direito, as liberdades individuais e a
alternância de poder têm razões consistentes para se opor a essa perspectiva.
Justifica-se o chamado de convergência à campanha de segundo turno: “Esquerda e
direita contra Flávio Bolsonaro”.
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Disputar o futuro
O
primeiro turno já evidenciou o avanço das forças de direita e extrema direita e
a configuração de um Parlamento ainda mais conservador e reacionário. Esse
cenário se insere em uma conjuntura latino-americana marcada pelo
fortalecimento de forças políticas de direita nos últimos anos (a esquerda não
venceu em nenhuma eleição regional em 2025 e 2026.
No
Brasil, o desempenho eleitoral do PL e de seus aliados aponta para um cenário
particularmente adverso a partir de 2027: a esquerda acumula derrotas políticas
importantes, terá sua capacidade de atuação institucional ainda mais limitada e
enfrentará uma correlação de forças desfavorável.
Estamos,
portanto, diante de uma situação defensiva, que exige reconhecer a dimensão das
derrotas, compreender suas determinações e repensar as estratégias de
organização, mobilização e disputa política. Mas não há tempo para críticas ao
legado lulista ou balanço dos equívocos de campanha no primeiro turno. Isso
deverá ser feito, mas não é agora. E como diz a canção, “quem sabe faz a hora e
não espera acontecer”. É preciso nos engajarmos ativamente na campanha para
elegermos Lula em segundo turno.
É
verdade que a conjuntura é marcada pela ausência de uma alternativa política
concreta, enraizada socialmente e capaz de responder aos problemas imediatos e
às necessidades históricas da classe trabalhadora. Diante desse cenário, todos
os setores democráticos e da esquerda — da esquerda institucionalizada às
correntes mais radicais — precisam reconhecer a gravidade do momento e unir
esforços na campanha pela eleição de Lula-Alckmin no segundo turno.
Uma
vitória eleitoral poderá representar uma conquista política de grande
importância em meio a uma conjuntura profundamente adversa, contendo, ao menos
temporariamente, o avanço das forças reacionárias. Será uma vitória
significativa em um cenário de derrotas, um suspiro necessário em meio a um
ambiente político sufocante.
Mas é
preciso ter clareza: por mais importante que seja, essa vitória não resolverá
os impasses estratégicos da esquerda, tampouco reconstruirá, por si só, a
capacidade de organização e mobilização da classe trabalhadora. Será um ponto
de apoio para resistir, reorganizar forças e reconstruir alternativas políticas
capazes de enfrentar os problemas concretos dos trabalhadores e recolocar no
horizonte a possibilidade de transformações sociais profundas.
Conforme
expusemos, o bolsonarismo é uma das expressões mais regressivas já produzidas
pela política brasileira, pelo menos a mais poderosa. Trata-se de uma força
política de caráter anticivilizatório, que ameaça as liberdades democráticas,
ataca direitos sociais, dissemina a intolerância e procura corroer os próprios
fundamentos da convivência democrática.
São
inimigos das mulheres, dos negros e das negras, das pessoas LGBTQUIA+, dos
povos originários, de todos aqueles que lutam contra as opressões e as
desigualdades. Sua agenda também ameaça a proteção ambiental, a liberdade
artística, a autonomia sindical, o movimento estudantil, a liberdade de
cátedra, a produção científica e o conjunto dos direitos sociais e
trabalhistas. É um projeto autoritário que ataca não apenas direitos
específicos, mas as condições de uma sociedade plural, democrática e socialmente
justa.
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Civilização ou barbárie
Neste
mês de outubro, as ruas têm apontado um caminho! A vitalidade da juventude e do
movimento estudantil tem se manifestado em assembleias cheias e grandes atos de
massa em diversas cidades e estados brasileiros. Atos pela virada de Lula tem
enchido as ruas do país. Há o registro de cerca de quatro dezenas de cidades
(24 capitais) com atos massivos em favor da reeleição de Lula e contra Flávio
Bolsonaro apenas nesta última semana.
Somados
aos atos de massa, o ativismo digital e a intensa disputa nas redes sociais
também assumiram papel central na campanha. Tem sido travada uma batalha
permanente contra a desinformação e as fake news bolsonaristas, em meio
a denúncias de assimetrias no alcance dos conteúdos, restrições à circulação de
publicações favoráveis à candidatura de Lula e interferências judiciais que
afetaram a dinâmica da disputa eleitoral.
Nesse
cenário, ganhou projeção o chamado “exército do Lula”, impulsionado, entre
outros, pela atuação do deputado federal André Janones, que convocou militantes
e apoiadores a romper a bolha da esquerda e disputar diretamente a opinião
pública nas plataformas digitais. A dimensão alcançada por essa mobilização,
com milhões de seguidores em seus canais, evidenciou a importância estratégica
da comunicação digital na disputa política brasileira.
O canal
já ultrapassou a marca de quatro milhões de seguidores, apesar das intervenções
da Justiça Eleitoral que atingiram a mobilização digital pró-Lula. Entre elas,
decisões do ministro Kassio Nunes Marques (ministro do STF e atualmente
presidente do TSE), acusado recentemente de envolvimento em escândalos de
corrupção e suspeitas de relação com o Banco Master.
Outra
modalidade de militância, em parte relegada a segundo plano por setores da
esquerda brasileira nos últimos anos, voltou a ganhar força: o trabalho de
base. O contato olho no olho, o diálogo direto com a população, a escuta atenta
e a conversa franca com trabalhadores nas ruas, nas panfletagens e nas
atividades de mobilização imprimiram um novo tom militante à campanha de Lula.
Mais do
que a disputa nas redes sociais e nos espaços institucionais, trata-se de
recuperar a presença cotidiana junto à classe trabalhadora, compreender suas
inquietações, dialogar com suas experiências concretas e reconstruir laços de
confiança e solidariedade. Essa disposição de mobilização demonstra que há
energia social para enfrentar a conjuntura adversa e disputar os rumos
políticos do país.
Precisamos
transformar essa energia em força política e eleitoral. Isso significa dialogar
com quem não compareceu às urnas no primeiro turno – 21,08% do eleitorado,
cerca de 33 milhões de pessoas, segundo os números mencionados – e com quem
votou em branco ou nulo, aproximadamente 5% do eleitorado. Mais do que somar
votos, trata-se de construir uma maioria político-social capaz de compreender a
gravidade do que está em jogo e de barrar o avanço do projeto bolsonarista
encarnado por Flávio Bolsonaro e seus aliados.
É por
isso que a defesa da democracia não pode ser reduzida a uma disputa entre
esquerda e direita. Neste segundo turno, é preciso construir uma convergência
ampla, reunindo forças democráticas de diferentes tradições políticas em torno
da candidatura Lula-Alckmin. A tarefa imediata é impedir o avanço de um projeto
autoritário; a tarefa estratégica, que continuará depois das eleições, é
reconstruir a organização popular, fortalecer a participação política e criar
alternativas capazes de responder às necessidades concretas da classe
trabalhadora.
É
preciso virar, é possível vencer! Vamos frear o bolsonarismo nas ruas, nas
redes e nas urnas!
Será
difícil. Ninguém disse que seria fácil. Mas deverá haver flores no caminho da
luta. Caminhando e cantando, nas ruas, nas redes e nas urnas: vamos virar e
vencer!
Fonte:
A Terra é Redonda

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