sábado, 17 de outubro de 2026

Flávio Bolsonaro pagou R$ 600 mil a empresa que ofereceu IA para manipular eleições, diz Intercept

A campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL) pagou R$ 600 mil à Elytron, empresa de cibersegurança que tentou comercializar nos Estados Unidos um sistema de inteligência artificial desenvolvido para operações clandestinas de influência política. A ferramenta permitiria identificar grupos de eleitores, disseminar informações falsas, criar perfis fictícios nas redes sociais e executar estratégias para atingir adversários.

As informações foram reveladas nesta sexta-feira (16) pelo site The Intercept Brasil, que obteve documentos sobre a tecnologia e ouviu Vincent Edward Reed, empresário estadunidense que atuou como consultor da companhia entre 2024 e 2025. Segundo a investigação, o sistema foi apresentado a pessoas ligadas à campanha de Donald Trump à Presidência dos Estados Unido em 2024, mas não há confirmação de contratação. A reportagem também observa que não existem evidências de que Flávio Bolsonaro ou o PL tenham utilizado a ferramenta nas eleições brasileiras de 2026.

<><> Pagamentos à Elytron constam da Justiça Eleitoral

Os registros disponíveis no DivulgaCand, sistema de prestação de contas da Justiça Eleitoral, mostram três notas fiscais emitidas pela Elytron para a campanha de Flávio Bolsonaro. Duas delas, datadas de 16 de setembro, apresentam valores de R$ 500 mil cada, mas uma foi cancelada. A terceira, de 2 de outubro, corresponde a R$ 100 mil.

Os documentos descrevem os serviços como “consultoria em tecnologia da informação”, incluindo apoio forense, investigação de phishing, testes de segurança e monitoramento de infraestrutura.

Embora os pagamentos identificados totalizem R$ 600 mil, a prestação de contas parcial apresentada pela campanha no fim de setembro registrou uma despesa de R$ 1 milhão com a companhia.

O PL também declarou ter desembolsado R$ 131,9 mil para a Elytron em 20 de julho, sob a descrição de “serviços técnico-profissionais”. Considerando os pagamentos informados no DivulgaCand, a campanha e o partido registraram, juntos, R$ 731,9 mil destinados à empresa.

<><> Tecnologia previa operações psicológicas e desinformação

A documentação obtida pelo Intercept descreve um sistema capaz de cruzar grandes volumes de informações sociais, políticas e econômicas para identificar públicos específicos e direcionar campanhas digitais.

A apresentação comercial menciona a criação de contas falsas, a produção de conteúdos com inteligência artificial, a disseminação coordenada de rumores e a infiltração em comunidades virtuais. Entre as estratégias oferecidas estão “técnicas de guerra psicológica e métodos de infiltração”, destinadas a influenciar percepções e desacreditar oponentes.

O material também apresenta um modelo operacional que parte da definição de objetivos políticos, identifica os grupos que serão atingidos e estabelece mecanismos de distribuição de mensagens em redes sociais, blogs e veículos de comunicação.

Uma das possibilidades descritas envolve a utilização de informações demográficas e comportamentais para introduzir determinadas opiniões em grupos segmentados e ampliar sua circulação.

Segundo Reed, a ferramenta foi inicialmente apresentada como um sistema convencional de análise de dados. Sua avaliação mudou quando conheceu as funcionalidades disponíveis.

“Quando vi a demonstração [do sistema] e o dashboard, pude entender do que era capaz. E isso foi preocupante para mim porque vi que estava mirando eleitores e poderia atingi-los com deepfakes de IA”, afirmou ao Intercept.

O ex-consultor também relatou que a expressão manipulação foi utilizada durante a apresentação.

“O termo manipulação foi de fato usado. E qualquer vez que eu ouço a palavra manipulação humana, especialmente quando envolve IA, me preocupa”, declarou.

Reed afirmou ter rompido sua relação profissional com o grupo por considerar que o sistema apresentava riscos éticos e legais. Posteriormente, levou suas preocupações ao FBI e ao Comitê de Supervisão da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, mas as apurações não avançaram.

<><> Especialista aponta características de operação de influência

O Intercept submeteu a documentação à análise de Beatriz Farrugia, pesquisadora da agência Lupa e especialista em desinformação e interferência estrangeira da organização Debunk, sediada na Lituânia.

Ao examinar o fluxograma que detalha as atividades previstas, Farrugia afirmou que o material correspondia a uma estrutura organizada de influência política.

“Essa tela [do plano, foto acima] é exatamente a definição de A a Z de operação de influência”, declarou.

A diferença em relação às ferramentas convencionais de marketing digital está na utilização de métodos enganosos, como identidades fictícias, distribuição artificial de conteúdos e campanhas coordenadas de desinformação.

Embora o monitoramento de redes sociais e a análise de tendências sejam práticas comuns, operações destinadas a manipular clandestinamente o comportamento dos eleitores podem violar a legislação eleitoral e as regras das plataformas digitais.

<><> Campanha de Flávio Bolsonaro e empresa negam irregularidades

Procurada pelo Intercept, a campanha de Flávio Bolsonaro afirmou que “não contrata nenhum serviço que viole a legislação eleitoral”.

A assessoria classificou como grave e com “claro viés político eleitoreiro” a tentativa de associar a contratação de serviços de proteção cibernética às práticas descritas na investigação. Segundo a campanha, os contratos seguiram procedimentos regulares e tiveram como finalidade proteger os sistemas de comunicação contra ataques digitais.

A Elytron também rejeitou as acusações. Em resposta enviada após a publicação inicial da reportagem, declarou que “repudia veementemente qualquer tentativa de associar seu nome à disseminação de informações falsas, ao uso de deepfakes ou à realização de operações clandestinas de manipulação da opinião pública”.

A companhia sustentou que atua exclusivamente com serviços defensivos de segurança da informação e negou oferecer ou executar atividades de manipulação política para qualquer cliente.

Também afirmou não ter prestado serviços à campanha de Trump nem autorizado apresentações comerciais destinadas à oferta de operações de influência eleitoral. A empresa informou que apurará eventuais responsabilidades pelo uso indevido de seu nome.

<><> Investigação identifica conexões internacionais

Fundada em 2018 por João Lucas Melo Brasio e Felipe Garofalo, a Elytron mantém atividades no setor de segurança da informação e possui relações comerciais no Brasil e no exterior.

A investigação identificou conexões entre executivos e parceiros comerciais da companhia e pessoas próximas ao empresário e influenciador Pablo Marçal, que passou a integrar a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro no fim de setembro.

Entre os nomes citados estão Jorge Remígio, Ludgero de Sousa e Eric Leandri, ligados a negócios de tecnologia e inteligência artificial em Portugal e nos Emirados Árabes Unidos.

Reed relatou que manteve contato com esses executivos durante sua atuação como consultor de empresas associadas à Elytron e à Aleria, companhia de tecnologia dos Emirados Árabes Unidos.

Segundo ele, integrantes do grupo se apresentavam como parceiros ou associados a estruturas empresariais relacionadas ao xeque Tahnoon bin Zayed al-Nahyan, conselheiro de segurança nacional dos Emirados Árabes Unidos e figura influente no mercado internacional de inteligência artificial.

A reportagem também menciona o lutador de jiu-jitsu Renzo Gracie, aliado da família Bolsonaro e sócio de Ludgero de Sousa e Eric Leandri na Lerco Consulting. Gracie confirmou a sociedade, mas negou qualquer vínculo com a Elytron ou a Aleria.

Remígio e Sousa reconheceram os contatos com Reed, mas negaram a realização de reuniões com representantes da campanha de Trump e contestaram a existência de serviços de manipulação política.

Em manifestação posterior, a Elytron brasileira informou que ambos atuam como parceiros comerciais independentes, responsáveis pela prospecção de negócios mediante comissões.

A companhia também confirmou possuir uma pessoa jurídica em Portugal, destinada à organização societária e tributária de possíveis operações no mercado europeu, mas ressaltou que ela não constitui uma filial da empresa brasileira.

•        Mais de 100 entidades denunciam interferência das big techs nas eleições

Mais de 100 organizações e especialistas de 25 países acusam grandes empresas de tecnologia de descumprir normas eleitorais brasileiras e cobram medidas urgentes de fiscalização antes do segundo turno da eleição presidencial, marcado para 25 de outubro. O documento aponta irregularidades envolvendo propaganda política, inteligência artificial e moderação de conteúdos nas plataformas digitais.

A mobilização ocorre a nove dias da disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Segundo a coluna de Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo, Os signatários pedem providências tanto às autoridades brasileiras quanto a organismos internacionais responsáveis pela proteção dos direitos humanos e da liberdade de expressão.

A carta foi organizada pela CTRL+Z, entidade que já denunciou a Meta ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por bloquear Lula no Meta AI. Entre os participantes estão ARTICLE 19, Greenpeace, Oxfam Brasil e Global Witness, além de pesquisadores de instituições como Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Universidade de Brasília (UnB).

<><> Levantamento identifica ataques às instituições em anúncios políticos

Um dos principais dados apresentados no documento é resultado de uma investigação do NetLab, laboratório de pesquisa da UFRJ. O estudo examinou 2.326 anúncios publicados nas plataformas da Meta e constatou que 68,1% continham ataques a instituições ou questionamentos sobre a condução do processo eleitoral.

A carta também denuncia a existência de publicidade política financiada por contas estrangeiras, prática apontada pelos signatários como uma das irregularidades que exigem maior controle das autoridades.

Outro problema identificado envolve ferramentas de inteligência artificial utilizadas para recomendar candidatos, além da circulação de imagens falsas sem identificação de que foram produzidas ou manipuladas por sistemas automatizados.

<><> Inteligência artificial aparece em imagens ofensivas contra candidatas

O documento destaca ainda os resultados de uma pesquisa do MonitorA sobre conteúdos direcionados a mulheres que disputam cargos eletivos.

O levantamento examinou 9.888 imagens ofensivas contra candidatas e identificou indícios de utilização de inteligência artificial em aproximadamente uma de cada quatro publicações analisadas.

Os resultados são apresentados pelos signatários como parte das preocupações relacionadas ao emprego dessas tecnologias durante a campanha eleitoral, especialmente na produção e distribuição de materiais ofensivos.

<><> Google, Meta, TikTok, OpenAI, Kwai e X são citadas

As críticas da carta também atingem diretamente Google, Meta, TikTok, OpenAI, Kwai e X. Segundo as organizações, essas empresas não cumpriram compromissos assumidos com as autoridades eleitorais brasileiras para enfrentar irregularidades nas plataformas.

Os signatários relatam problemas nos procedimentos de moderação, incluindo remoções de publicações e suspensões de perfis de usuários que compartilharam conteúdos eleitorais.

De acordo com o documento, parte dessas medidas foi adotada sem explicações suficientes aos usuários afetados e sem disponibilização de mecanismos adequados para contestar as decisões.

Diante dessas situações, as entidades defendem que as plataformas sejam obrigadas a apresentar justificativas para a retirada de conteúdos e o bloqueio de contas, assegurando aos usuários o direito de recorrer.

<><> Entidades cobram fiscalização mais rigorosa do TSE

Além de responsabilizar as empresas de tecnologia, os autores da carta criticam a atuação do Tribunal Superior Eleitoral.

Na avaliação dos signatários, a Justiça Eleitoral não tem utilizado suficientemente os instrumentos legais disponíveis para fiscalizar o funcionamento das plataformas durante a campanha.

Entre as providências solicitadas está o reforço do controle sobre anúncios políticos pagos, com exigências de identificação dos responsáveis pela publicidade e transparência sobre a origem dos recursos empregados no financiamento das campanhas.

As organizações também reivindicam mecanismos mais eficazes de acompanhamento das decisões de moderação, especialmente quando envolvem conteúdos relacionados ao processo eleitoral.

<><> Carta pede acompanhamento de organismos internacionais

A mobilização ultrapassa as fronteiras brasileiras. Os signatários solicitam que instâncias da Organização das Nações Unidas (ONU) e a Relatoria Especial para a Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos acompanhem a atuação das plataformas no segundo turno.

O pedido inclui atenção às denúncias de propaganda irregular, uso de inteligência artificial e restrições à publicação de conteúdos eleitorais.

Para os autores do documento, os problemas identificados no Brasil também são relevantes para o debate internacional sobre a atuação das grandes empresas de tecnologia em processos democráticos.

A carta defende que as irregularidades relatadas sejam examinadas pelas autoridades competentes e consideradas nas discussões sobre mecanismos de fiscalização das plataformas digitais em outros países.

 

Fonte: Brasil 247

 

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