Nobel
de Economia prova que Keynes está mais vivo do que nunca, e que os neoliberais
já eram
Poucas
rivalidades moldaram tanto a sociedade moderna quanto a guerra intelectual
entre o britânico John Maynard Keynes e o austríaco Friedrich Hayek na primeira
metade do Século XX. Durante a década de 1980, com a ascensão de Margaret
Thatcher, no Reino Unido, e Ronald Reagan, nos Estados Unidos, e a louvação à
Escola de Chicago de Milton Friedman, pareceu que a cartilha do Estado Mínimo
dominara as mentes em definitivo. O mercado sem freios seria o regulador
absoluto da vida humana.
O
Século XXI implodiu esse dogma.
A
concessão do Prêmio Nobel de Economia de 2026 aos americanos Robert E. Hall e
Michael Woodford não é apenas uma honraria acadêmica. É o atestado de óbito do
laissez-faire puro e a coroação definitiva de Keynes. O britânico não apenas
sobreviveu ao teste do tempo – tornou-se o maestro indispensável das economias
globais. A premiação de Hall e Woodford em Estocolmo joga luz sobre uma
realidade que os defensores do livre mercado tentaram ignorar por décadas: o
capitalismo, sem a mão visível do Estado, é cronicamente instável.
Importante
destacar: os autores não pregam um keynesianismo puro, mas o desenvolvimento
argumentativo da obra deles não existiria sem as premissas keynesianas.
Os
trabalhos de Hall e Woodford foram estruturados há mais de 20 anos, mas ainda
hoje confirmam o que os neoliberais nunca aprenderam: o livre mercado puro gera
recessões involuntárias e desemprego em massa. Os laureados com o Nobel deram
fundamentos microeconômicos rigorosos ao velho coração do pensamento
keynesiano: a necessidade de um Banco Central ativo, que utilize a taxa de
juros e a manipulação das expectativas do público (forward guidance) para
estabilizar os ciclos econômicos antes que o pior aconteça.
O Nobel
de 2026 chancela que os governos abandonaram a fantasia da autorregulação.
Diante de pandemias, guerras, quebras de cadeias globais de suprimentos ou
crises energéticas, a primeira atitude de qualquer nação desenvolvida é abrir o
manual keynesiano: injetar liquidez, socorrer setores estratégicos e expandir o
gasto público para garantir a paz social.
O
contraste entre a eficácia dessa intervenção e a aplicação prática do
neoliberalismo de Chicago revela por que o pensamento de Keynes recuperou sua
predominância ética e técnica. Quando a teoria de Hayek e Friedman foi levada
às suas últimas consequências, o resultado foi a eclosão de profundas tragédias
sociais. O caso histórico do Chile é emblemático.
Sob a
ditadura de Augusto Pinochet, os Chicago Boys implementaram o laboratório
perfeito do livre mercado, privatizando totalmente a previdência sob o sistema
de capitalização individual. Embora tenha gerado sucesso contábil inicial e
inflado o mercado de capitais, a ausência do Estado jogou milhões de idosos na
miséria absoluta, recebendo menos de um terço do salário mínimo. O esgarçamento
do tecido social foi o combustível para as revoltas populares que paralisaram o
Chile a partir de 2019, obrigando o Estado a intervir para reconstruir uma rede
de proteção pública.
O
cenário de tragédia repete-se na Argentina de Javier Milei. Sob o dogma do
déficit zero e da desregulamentação total, o governo obteve superávits fiscais
e reduziu a inflação no papel, mas ao custo de uma recessão brutal na economia
real. A taxa de pobreza urbana saltou para impressionantes 32,3% e a indigência
atingiu 7,5%. O fechamento de mais de 32 mil empresas e o colapso do consumo
mostram o perigo de tratar a economia como uma ciência puramente matemática,
ignorando-se o fator humano.
É disso
que Keynes falava na década de 1930 ao cunhar sua frase mais famosa: “No longo
prazo, estaremos todos mortos”. Para os neoliberais, a miséria e o desemprego
são meros remédios amargos necessários para limpar o mercado. Para o
keynesianismo, se a sociedade for destruída no processo de ajuste, não restará
país para desfrutar da estabilidade futura.
A
obsessão pelo controle da inflação e o uso da matemática rigorosa na economia
são heranças diretas de Milton Friedman e dos críticos de Keynes dos anos 1970,
alguns dos quais sobrevivem no Brasil e redigem editoriais para jornalões
ultrapassados. No entanto, nessa teimosia teórica, houve uma capitulação
forçada. O mundo atual pode até ser considerado hayekiano em sua base
microeconômica — em que indivíduos consomem livremente e empresas competem —,
mas é estritamente keynesiano no topo de sua governança.
O livre
mercado provou ser um excelente motor para gerar riqueza para alguns, mas um
péssimo piloto para guiar a sociedade em momentos de tempestade e promover
justiça social. Ao consagrar a modelagem neokeynesiana de Woodford e Hall, a
Real Academia Sueca de Ciências não premiou apenas o passado, mas reconheceu a
única ferramenta capaz de sustentar o capitalismo no futuro.
O
veredito do Século XXI é incontestável: os mercados precisam da alguma dose de
liberdade para funcionar, mas os cidadãos precisam de Keynes para sobreviverem
à cegueira social dos mercados. O pensamento do dândi britânico, se não reina
intacto e absoluto, ainda serve de norte para quem enxerga a economia como uma
ciência humana, não exata.
Fonte:
Por Paulo Henrique Arantes, em Brasil 247

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