Os
novos papéis da China na economia global
O
cenário geopolítico e geoeconômico global passa por uma reconfiguração
importante, impulsionada pelo reposicionamento estratégico da República Popular
da China. Se, nas primeiras duas décadas do século 21, a economia chinesa
figurava principalmente como o “centro de montagem do mundo” — exportadora de
bens de consumo acabados e de baixo valor agregado —, o ano de 2026 consolida
uma transição qualitativa sem precedentes. A China transformou-se na “fábrica
das fábricas”, dominando a produção de bens de capital e de insumos
intermediários de alta tecnologia, ao mesmo tempo em que converteu sua escala
de consumo e suas reservas de commodities em um pivô de estabilização
macroeconômica global e de salvaguarda geopolítica.
Durante
quase meio século, as análises de risco geopolítico e de economia internacional
giraram em torno de dois pressupostos dogmáticos. O primeiro era que a
segurança energética das maiores economias ocidentais e asiáticas dependia
fundamentalmente do controle militar dos estreitos marítimos do Oriente Médio e
da capacidade de regulação de preços exercida pelo cartel da Organização dos
Países Exportadores de Petróleo — OPEP. O segundo pressuposto afirmava que a
China continental, apesar de sua formidável capacidade fabril, permaneceria
vulnerável a sanções ocidentais devido à dependência de insumos tecnológicos
críticos do Ocidente, de importações de petróleo e ao foco em produtos finais
facilmente tarifáveis.
Os
acontecimentos de 2026 solaparam, de forma definitiva, ambas as premissas.
Diante da deflagração do conflito militar envolvendo o Irã e da subsequente
ameaça de interrupção do tráfego pelo Estreito de Ormuz — por onde transita um
quinto do petróleo bruto mundial —, a economia global não entrou em uma espiral
hiperinflacionária semelhante à dos anos 1970. A razão central para essa
estabilidade surpreendente não residiu no aumento da produção dos países do
Golfo ou na ação da OPEP, mas sim na gestão intervencionista e calculada da
demanda e dos estoques promovida por Pequim. Ao amortecer os preços do petróleo
bruto por meio do direcionamento de suas maciças reservas estatais, a China
assumiu, de fato, a governança dos mercados globais de energia.
Simultaneamente,
a economia industrial chinesa demonstrou uma metamorfose estrutural. As tarifas
e sanções impostas pelas administrações americanas sucessivas não asfixiaram o
comércio exterior chinês. Pelo contrário, aceleraram a transição da China da condição
de produtora de bens de consumo leves para a de fornecedora dominante de bens
de capital, máquinas de precisão, robótica industrial e insumos eletrônicos que
abastecem as próprias linhas de montagem do restante do planeta.
Essa
duplicidade de poder — a capacidade de absorver e regular choques nos mercados
de commodities e a hegemonia sobre a infraestrutura fabril global — inaugurou
um novo capítulo na competição geopolítica do século 21.
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A Guerra no Irã e a emergência da China como agente regulador do mercado
mundial de energia
A crise
no Estreito de Ormuz colocou à prova a vulnerabilidade energética da Ásia e do
Ocidente. Historicamente, um bloqueio dessa magnitude resultaria em altas
cotações do barril de petróleo, com projeções acima de US$ 150 ou US$ 200, o
que provocaria recessões severas nas economias importadoras. No entanto, cinco
meses após o início do conflito, o barril do tipo Brent permaneceu acomodado na
casa de US$ 40 abaixo de suas máximas históricas (atingidas em abril de 2026),
registrando até mesmo períodos transitórios de superávit de oferta.
A
explicação para este fenômeno econômico atípico reside na transição da
liderança do mercado petrolífero: a China assumiu o papel de agente regulador (swing
buyer) do mercado global diante do enfraquecimento da OPEP. Antecipando a
instabilidade geopolítica e buscando blindar-se contra potenciais cercos navais
ocidentais — particularmente em pontos de estrangulamento como o Estreito de
Malaca —, o governo de Xi Jinping investiu, ao longo da última década, dezenas
de bilhões de dólares na criação da maior reserva estratégica de petróleo bruto
do planeta. Estimativas internacionais indicam que o estoque chinês atingiu
entre 1,0 e 1,4 bilhão de barris, superando a Reserva Estratégica de Petróleo
dos EUA em cerca de 600 milhões de barris.
Quando
o fluxo no Golfo Pérsico foi comprometido, reduzindo a oferta realizável para
cerca de 14 milhões de barris por dia (b/d), a China ativou um rigoroso plano
de contingência estatal. O país cortou drasticamente suas importações de
petróleo bruto — uma queda de 23% a 25% entre março e julho em relação ao ano
anterior —, reduzindo suas compras externas para aproximadamente 5,5 milhões de
b/d. Para abastecer suas refinarias domésticas e suprir o consumo interno sem
pressionar os preços internacionais, Pequim liberou gradualmente seus estoques
estatais, restringiu severamente as exportações de derivados de petróleo (como
diesel, gasolina e querosene de aviação) e adotou um gerenciamento cirúrgico da
demanda industrial.
A
capacidade da China de reduzir suas importações de petróleo bruto sem paralisar
sua atividade econômica interna não se deve apenas a estoques físicos, mas
também ao sucesso de sua política de transição energética. A diretriz de
segurança nacional, estabelecida em 2014, desencadeou investimentos massivos em
energia renovável, na rede ferroviária de alta velocidade e em veículos
elétricos.
No
primeiro semestre de 2026, cerca de 40% da geração elétrica total da China
provinha de fontes renováveis (solar, eólica e hídrica). Além disso, os
veículos de nova energia (NEVs) passaram a representar metade de todos os
carros novos vendidos no país. Com uma infraestrutura de carregamento
abrangente e transporte público eletrificado, a sociedade chinesa demonstrou
alta flexibilidade para substituir o consumo de combustíveis fósseis diante de
altas de preços. Em setores pesados e químicos, a China recorreu à sua vasta
reserva doméstica de carvão, utilizando processos avançados de conversão de
carvão em produtos químicos para suprir insumos antes dependentes de petróleo
ou gás natural.
Como
resultado, o petróleo deixou de ser o ponto fraco, o “Calcanhar de Aquiles”, da
segurança chinesa. Em um eventual cenário de escalada militar no Leste Asiático
— como um conflito no Estreito de Taiwan —, a China demonstrou ter a capacidade
de resistir a embargos navais ocidentais por muitos meses sem entrar em colapso
energético, alterando os cálculos de dissuasão do Pentágono e da OTAN.
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O Choque Chinês 2.0
Paralelamente
à dominância nos mercados de commodities, o modelo industrial da China passou
por uma alteração estrutural. Na virada do milênio, a participação chinesa nas
cadeias globais de valor baseava-se em custos trabalhistas extremamente baixos
e na montagem final de produtos de consumo para marcas estrangeiras. Cidades
como Dongguan, no delta do Rio das Pérolas, celebrizaram-se pela produção em
massa de calçados, brinquedos e vestuário, e pela montagem primária de
eletrônicos.
Nos
anos mais recentes, o ecossistema fabril de Dongguan e de outros centros
industriais transmutou-se. A China tornou-se a “fábrica das fábricas” global. O
motor do boom exportador chinês deixou de ser o envio de roupas ou smartphones
acabados para os consumidores ocidentais, passando a focar no fornecimento de
bens de capital avançados e insumos intermediários — como robôs industriais,
robótica de montagem de circuitos integrados, máquinas-ferramenta operadas por
computador (CNC), turbinas e componentes eletrônicos complexos — que sustentam
o funcionamento das indústrias em outros países.
Dados
aduaneiros de 2026 confirmam a magnitude dessa reviravolta. Enquanto as
exportações chinesas de produtos de consumo apresentaram um crescimento modesto
de 4% nos primeiros meses do ano, os embarques ao exterior de bens
intermediários e de capital saltaram 25% e 12%, respectivamente, no mesmo
período. Esse reposicionamento elevou o superávit comercial da China ao patamar
recorde de US$ 1,2 trilhão, demonstrando que o ecossistema produtivo do país se
tornou imune às tarifas alfandegárias tradicionais impostas pelos EUA e pela
União Europeia. Como as tarifas ocidentais incidem quase exclusivamente sobre
bens de consumo acabados, a China contornou as barreiras ao comercializar
máquinas e componentes necessários para que países terceiros — como México, Vietnã,
Brasil e Índia — montem seus próprios produtos.
Essa
ascensão fabril não ocorreu por acaso. Ela é resultado direto de uma política
industrial de longo prazo, conduzida pelo Estado chinês e consubstanciada em
programas de incentivo, como a iniciativa “Pequenos Gigantes”. Por meio dessa
estratégia, Pequim canalizou subsídios direcionados, isenções fiscais, crédito
subsidiado e acesso prioritário à infraestrutura para milhares de pequenas e
médias empresas especializadas em nichos críticos de manufatura avançada.
O
resultado prático foi a substituição acelerada de fornecedores estrangeiros por
empresas locais e a posterior expansão dessas empresas chinesas nos mercados
internacionais. Um exemplo emblemático dessa dinâmica é a comparação comercial
com a Alemanha. Historicamente, a Alemanha manteve um superávit comercial
estrutural com a China, sustentado pelas exportações de máquinas industriais,
automóveis e equipamentos de alta precisão de marcas consolidadas. Em 2026,
pela primeira vez na história moderna, a Alemanha passou a importar mais bens
de capital avançados da China do que a exportar para o mercado chinês.
Empresas
chinesas dos setores de robótica industrial e automação, como a Topstar e a
Dongguan ICT Technology, reportaram crescimentos operacionais expressivos, com
expansões de receita superiores a 50% ou 80% ao ano. Seus clientes deixaram de
ser apenas empresas locais e passaram a incluir gigantes multinacionais
ocidentais e asiáticas, como Samsung, Foxconn, IBM, Honeywell e L3Harris. De
forma análoga, no setor de logística pesada, fabricantes chineses de
empilhadeiras e veículos industriais capturaram 30% do mercado europeu —
triplicando sua participação em relação a 2019 e forçando líderes europeus a
fechar parcerias estratégicas defensivas para evitar a perda total de mercado.
Este
fenômeno, classificado por economistas europeus e americanos como o “Choque
Chinês 2.0”, difere do primeiro choque industrial dos anos 2000. Se a primeira
onda afetou principalmente empregos não qualificados na indústria têxtil e de
calçados do Ocidente, a segunda onda atinge o coração tecnológico da Europa, da
Coreia do Sul e do Japão, ameaçando os setores de maquinário avançado, de
química fina, de baterias e de equipamentos elétricos.
Apesar
das retóricas de desacoplamento (decoupling) ou de mitigação de riscos
(de-risking), o volume de comércio global da China atingiu níveis recordes na
metade de 2026. Em julho de 2026, as exportações chinesas surpreenderam
analistas ao registrarem alta anual de 24%. O principal catalisador desse surto
exportador foi a demanda global desenfreada por infraestrutura e hardware
voltados à Inteligência Artificial.
Os
embarques chineses de semicondutores, equipamentos de computação e componentes
eletrônicos avançados responderam por mais de 10 pontos percentuais do
crescimento total das exportações da China. Mesmo no comércio bilateral com os
Estados Unidos, registrou-se uma alta contraintuitiva: as exportações chinesas
para o mercado americano subiram 17% em julho de 2026, enquanto as importações
chinesas de produtos americanos cresceram 15%. A despeito da guerra tarifária,
as cadeias de suprimento de tecnologia do ecossistema de IA mantiveram os dois
países umbilicalmente interligados.
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Mudança no palco de conflito EUA x China
Paralelamente
à expansão comercial, o conflito regulatório e de segurança entre Washington e
Pequim atingiu novos patamares de sofisticação. A disputa deixou de focar em
tarifas punitivas gerais para se concentrar no controle rigoroso de tecnologias
de uso duplo (dual-use) e de elos insubstituíveis das cadeias globais de
suprimento.
Em
resposta à inclusão de 43 empresas chinesas na lista de sanções americanas, sob
alegações de uso de trabalho forçado em Xinjiang, e ao banimento imposto pelo Federal
Communications Commission (FCC) à importação de robôs e inversores de
frequência chineses, o Ministério do Comércio da China decretou uma retaliação
cirúrgica. Pequim estabeleceu controles severos de exportação sobre toda a
cadeia de suprimentos da indústria de drones — setor no qual empresas chinesas
detêm uma dominância quase monopolística global. Pelas novas regras, qualquer
envio de drones comerciais ou militares, bem como de seus componentes críticos,
motores, sensores e softwares para os EUA passou a ser submetido a uma análise
discricionária de segurança nacional, caso a caso.
A
manobra demonstrou que a China passou a aplicar aos bens manufaturados de alto
valor o mesmo roteiro estratégico já adotado para as terras raras, o gálio e o
germânio. Ao restringir o acesso ocidental a insumos e componentes acabados dos
quais as indústrias americanas e europeias se tornaram dependentes, Pequim
sinalizou sua capacidade de criar gargalos de produção nos setores de defesa e
de tecnologia do Ocidente.
Além do
controle sobre drones, Pequim sancionou entidades americanas por colaborarem
com o FCC e abriu uma investigação de segurança nacional inédita sobre
equipamentos de impressão e cópia que utilizam softwares e sistemas
operacionais fabricados nos EUA (visando diretamente gigantes como Microsoft e
HP). Como observado por analistas financeiros internacionais, o controle de
exportações deixou de ser uma medida emergencial e tornou-se a ferramenta
padrão da competição entre grandes potências no século 21.
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Conclusão
O
panorama global de 2026 demonstra que a República Popular da China concluiu com
sucesso a primeira fase de sua transição para uma superpotência geoeconômica
autônoma. Por meio do acúmulo planejado de estoques de petróleo e da aceleração
de sua transição energética interna, Pequim neutralizou sua vulnerabilidade
histórica em relação a embargos a commodities e ao poder de barganha da OPEP.
Simultaneamente, ao avançar para o topo da cadeia de valor da manufatura
global, o país transformou-se no nó central indispensável não apenas para quem
consome, mas também para qualquer nação que pretenda produzir bens industriais
no século 21.
Contudo,
este novo modelo de supremacia traz consigo vulnerabilidades sistêmicas. A
dependência chinesa do mercado externo para absorver seu excesso de produção
industrial é uma fragilidade estrutural que gera crescentes contestações
multilaterais, como evidenciado pelo posicionamento do G-20 em relação aos
desequilíbrios e distorções de mercado gerados por Pequim. Nas próximas etapas
da disputa geopolítica do século 21, a vantagem estratégica pertencerá aos
atores capazes de equilibrar a resiliência tecnológica, a segurança energética
e a integração comercial. Para os Estados Unidos e seus aliados, conter a
expansão chinesa exigirá mais do que a imposição de tarifas pontuais sobre
produtos acabados; exigirá a reconstrução de suas próprias bases fabris de bens
de capital e a criação de cadeias de suprimento verdadeiramente redundantes, o
que, desde a eclosão da crise provocada pela pandemia da Covid-19, não foram
capazes de fazer. Para a China, o desafio consistirá em sustentar sua economia,
aumentando o consumo interno, sem desencadear uma reação protecionista
coordenada em escala planetária.
Fonte: Por
Luís Antonio Paulino, em Jornal da Unesp

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